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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Desolação


Quando no Verão estamos no Nordeste, é inevitável uma ida ao Rio Sabor, nomeadamente à zona onde fica o Santuário de Santo Antão da Barca.

Este ano fomos despedir-nos. Em breve o Santuário irá ser transladado e a albufeira começará a encher. Aquelas paisagens agrestes que tanto me fascinam, deixarão de existir para sempre. É certo que outras surgirão, porventura igualmente belas, mas necessariamente diferentes daquelas com que cresci. Daí que a construção da barragem me cause alguma tristeza, que acaba por emergir em alguns dos meus poemas

(…)Ó banzas dos rios , gemendo descantes(…) António Nobre

Jovial, fagueiro, por vezes arrebatado, violento,

Assim corria o rio, outrora, em sobressalto ou lento.

Barítono, tenor, baixo, soprano, contralto,

cantava árias de amor e de paixão

Aprisionaram-no. Tentou lutar.

Foi impotente perante a muralha de betão

Parado, triste, agora já não canta.

Tem um nó na garganta.


(…)Falo de ti… ao rio, que desdobra a faiscar vestidos de princesas e de fadas(…) Florbela Espanca

Na margem, à sombra do velho salgueiro,

em criança passeava o olhar pelo meu rio.

As ninfas que ali se banhavam

dançavam, dançavam, dançavam…

Entretanto eu crescia e em ninfas não cria.

Na margem, à sombra do velho salgueiro,

adolescente, passeava o olhar pelo meu rio.

Por confidente o tomava dos sonhos

que então sonhava.

Foram-se as ninfas que eu supunha imortais,

foram-se os sonhos que eu supunha reais,

foi-se o salgueiro, a sombra, a margem.

Tudo foi, nada mais resta

senão água triste, aprisionada na barragem

In Gouveia, R. (2013) Entre margens

Mas voltemos ao percurso. O caminho é de terra batida pelo que nem todos arriscam a ali aceder de carro. O meu marido com o jipe e o meu filho mais velho que ousou levar o carro, transportaram as minhas noras e as cinco crianças . Eu e o meu filho mais novo fomos a pé, usando o“trilho do Sabor"
À medida que íamos caminhando o meu filho repetia. O teu pai tinha razão para associar estas paragens ao paraíso…

Em Estórias com sabor a Nordeste, livro que está on-line, dou conta, de forma ficcionada, desta paixão do meu pai, pela “sua terra”

Até essa altura o meu pai praticamente nunca falara da Terranem da Casa com a minha mãe. Será a partir daqui que ele começará a fazê-lo criando na minha mãe uma imagem que só para ele era real. A Casa era o lugar mais acolhedor que alguma vez tivera conhecido. A Terraera um lugar paradisíaco, com cheiros, cores, sons e sabores como não existiam em qualquer outra parte do mundo. Falava-lhe de estevas, urzes, arçãs, papoilas, alecrim; de andorinhas, melros, calhandras, cotovias, poupas, cucos, gaios. Descrevia as encostas do Rio, no fim do Inverno, com as amendoeiras em flor, como parecendo véus de noiva, em Junho com os seus tons de castanho, amarelo, verde e roxo, e em Outubro com os tons dados pelas folhas secas das árvores e das vinhas, lembrando telas dos melhores pintores. Falava-lhe das oliveiras no inverno, geladas, como lembrando árvores de prata, dos pingarelhos de gelo caindo dos beirais como lembrando peças de cristal. Falava-lhe também da capelinha de Sto Estevão, lá junto ao Rio, que corria preguiçoso nos dias cálidos de Verão e tumultuoso nos dias de invernia, como que ciumento da beleza das encostas que o ladeavam. Descrevia os vários tons do céu, cinza quase branco anunciando neve, cinza quase negro anunciando trovoada, azul sem igual, nos dias límpidos ou, em outros dias, azul manchado de branco pelos castelos de nuvens cuja sombra, nas encostas, se misturava com todos os seus tons tornando a paisagem ainda mais deslumbrante. O meu pai falava de tudo isto, mas omitia quão duras são a apanha da amêndoa sob um sol abrasador e a da azeitona, sob um frio de rachar, tal como omitia a inexistência de estrada entre a vila e a TERRA, a falta de luz eléctrica, de água canalizada, o pouco conforto da CASA. Creio que nestas omissões não havia intenção deliberada de enganar a minha mãe. Não, o meu pai via de facto a TERRA como o paraíso e a CASA como um palácio.

Regressemos ao trilho do Sabor. A dada altura toda a paisagem se alterou e fomos confrontados com uma extensão a perder de vista, de encostas calcinadas pelo terrível incêndio que assolou a zona no mês de Julho.

Que desolação…

Quando chegámos já os demais estavam no rio. O Tomás, uma miguinho do meu neto Ju,  estava fascinado pois tinha conseguido apanhar uma râzinha que colocara num baldinho com água. A Rita tinha colocado vários peixinhos num outro recipiente.
Posteriormente regressariam ao seu habitat...

Ao cair da noite tivemos que regressar perante a relutância de todos, em especial dos mais pequenos




E a propósito dos incêndios e dos incendiários, no passado dia  11 assisti  a um programa na televisão que me incomodou imenso-entrevistas a incendiários. As televisões, a meu ver sem quaisquer escrúpulos, preocupam-se apenas em obter audiências.  Sabendo que muitos dos incendiários são psicopatas que dão tudo por uns momentos de protagonismo, que melhor lhes poderia suceder do que estarem vários minutos no expostos num écran de televisão... Será que tais programas não aliciam outras mentes perturbadas?

 

 

2 comentários:

  1. Querida amiga Regina
    Quanta poesia e quanta verdade em tudo que escreve!!!Como eu a admiro!!!
    E a propósito de incêndios, muito haveria a dizer. Mas isso não é coisa para a TV.

    Um grande abraço.

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    1. Obrigada Graciete
      Já tentei comentar as duas últimas mensagens do seu blogue para lhe agradecer a evocação de Allende e Urbano Tavares Rodrigues, mas quando estou a escrever o texto é eliminado não sei por que artes.
      Um grande beijinho
      Regina

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