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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 20 de outubro de 2013

Fado....

Creio que já aqui referi que não sou muito eclética relativamente à música. Gosto genericamente de quase toda a  música  geralmente referida como clássica, por vezes impropriamente, de música brasileira, essencialmente na área da bossa nova, de muita da  música dos anos 60,  de  bandas filarmónicas, de fado,  muito em particular o de Coimbra  ...

Hoje as minhas escolhas  foram precisamente para este género musical. Comecei por tocar alguns no meu cavaquinho (que toco muito  mal) e em seguida, ouvi alguns CD que possuo.

Decidi pesquisar na NET as origens deste fado e deparei com uma tese de dissertação muito interessante
 
A Guitarra Portuguesa e a Canção de Coimbra
Subsídios para o seu estudo e contextualização
LUIS PEDRO RIBEIRO CASTELA
UNIVERSIDADE DE COIMBRAFACULDADE DE LETRAS 2011

 Deixo um breve excerto, até porque o texto é longo e requer uma análise cuidada

 (...)A origem do Fado, enquanto género musical português, é de difícil localização temporal e geográfica. Muitas são as teorias, algumas baseadas em provas factuais e consequentes ilações, outras apenas da intuição desenvolvida por alguns testemunhos vivos da época que remontam ao seu aparecimento. Assim, vários nomes ligados à musicologia foram desenvolvendo várias hipóteses para o seu eventual surgimento. Alguns autores, como o caso de Teófilo Braga, referem que terá nascido a partir dos cânticos do povo muçulmano, marcadamente dolentes e melancólicos. Outras teorias, como as de Pinto de Carvalho, apontam para a origem do fado no Lundum, música dos escravos brasileiros que teria chegado até nós através dos marinheiros, por volta de 1820. Outra hipótese, defendida por autores como Barreto Mascarenhas, remonta aos tempos dos trovadores medievais, cujas canções contêm características que o Fado conserva, defendendo que as cantigas de amigo revelam semelhanças com alguns temas recorrentes do Fado de Lisboa, assim como as cantigas de amor possuem a áurea romântica do apelidado “Fado de Coimbra”,  ou ainda a crítica política e social tão típica do Fado que remonta às cantigas de escárnio e maldizer. Porém, no meu entender, todas estas hipóteses são frágeis não tendo sido apresentada uma fundamentação científica relevante para qualquer uma delas. Penso que os mitos da origem do Fado aparecem sobretudo por este ser um canto popular de carácter poético/musical, enraizado numa cultura repleta de saudosismos históricos, onde a própria origem do género é tema de alguns dos textos cantados(...).

Neste contexto o autor apresenta uma estrofe do “Fado Português” de José Régio, poema musicado por Alain Oulman e cantado por Amália


O Fado nasceu um dia,

quando o vento mal bulia

e o céu o mar prolongava,

na amurada dum veleiro,

no peito dum marinheiro

que, estando triste, cantava,

que, estando triste, cantava.

 Ai, que lindeza tamanha,

meu chão , meu monte, meu vale,

de folhas, flores, frutas de oiro,

vê se vês terras de Espanha,

areias de Portugal,

olhar ceguinho de choro.

 Na boca dum marinheiro

do frágil barco veleiro,

morrendo a canção magoada,

diz o pungir dos desejos

do lábio a queimar de beijos

que beija o ar, e mais nada,

que beija o ar, e mais nada.

 Mãe, adeus. Adeus, Maria.

Guarda bem no teu sentido

que aqui te faço uma jura:

que ou te levo à sacristia,

ou foi Deus que foi servido

dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,

quando o vento nem bulia

e o céu o mar prolongava,

à proa de outro veleiro

velava outro marinheiro

que, estando triste, cantava,

que, estando triste, cantava.

 
Regresso ao fado de Coimbra e deixo-vos com alguns fados e baladas. Tive muitas dificuldades na escolha  mas acabei por optar por Fado do Alentejo, na voz de Menano, Samaritana na voz de Luis Marinho,Trova do vento que passa , na voz de Adriano, Menina dos olhos tristes na voz de Zé Afonso e Variações em Ré menor de Artur Paredes com Carlos Paredes na guitarra.

 

Termino com o O Fado de José Malhoa  Óleo s/ tela 1910




2 comentários:

  1. Não sou especial amante do fado,embora seja de Lisboa e nunca fui a uma casa de fados. Quando namorava, enamorei-me do fado de Coimbra onde o meu ex- estudava e ouvia aquele programa Do Choupal até à Lapa com lágrimas nos olhos ( sempre fui chorona). Ultimamente há cantores de fado de que gosto muito, sobretduo quando não imitam a Amália. Gosto do João Braga, da Carminho, Mafalda Arnauth, etc. O fado tem de ser ouvido com ambiente, não é para se ouvir casualmente. Adoro o Carlos Paredes. E esta canção do Zeca faz-me arrepios, pois lembro-me do meu cunhado ( marido da minha irmã e nosso amigo de adolescente, que morreu em Angola e veio no seu caixão trazido pela força aérea, foi um dos momentos mais tristes da minha vida.
    Também adoro o Adriano e ouvi-o ao vivo na Póvoa de Varzim...
    Bjo

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  2. Mas eu gosto de fado!!! Não o da coitadinha/o abandonada/o pelo amante, mas o fado daqueles que sofrem realmente, que lutam, que cantam, chorando como nos diz José Régio no fado da Amália que a Regina apresenta.. Gosto dos nossos poetas cantados em fados maravilhosos, gosto dos que nos nos dizem coisas como ,por exemplo, o fado canção da Amália, "A casa da Mariquinhas", gosto de todos os fados e canções que a regina cita no seu post... mas "A menina dos olhos tristes" ninguém a canta como o Adriano.
    Também gosto da tela do José Malhoa.

    Um beijo, Regina e até sábado.

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