Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

NOVO BLOGUE

Retomei o blogue que já não usava há anos.

https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/

Dedico-o essencialmente aos mais novos mas todos serão bem vindos, muito em particular pais, avós, encarregados de educação, educadores ...


sábado, 27 de julho de 2019

O drama do povo saharaui


Terminei a última mensagem com a promessa de abordar, nesta, o drama do povo saharaui

Chamado de “última colónia da África”, o Sahara Ocidental é cenário de um dos mais antigos – e menos conhecidos – conflitos do mundo. Após a saída dos colonizadores espanhóis, em 1974, o território foi ocupado porMarrocos, provocando uma guerra intermitente e a dispersão da população nómada nativa, os saharauis – que vivem há mais de 40 anos na condição de refugiados e apátridas em sua própria terra. O prometido referendo sobre a autodeterminação desse povo jamais aconteceu. ..

O mapa ajuda a esclarecer



O drama dos saharauis é também tema do documentário de longa-metragem “O deserto do deserto”, de Samir Abujamra e Tito González Garcia. De seguida  podem ver um pequeno trailer do filme (https://www.cineodeon.com.br/movie/o-deserto-do-deserto/) bem como ouvir uma entrevista com o realizador Samir Abujamra

  “Fui “apresentado” ao Saara Ocidental no apartamento de Tito Gonzalez Garcia, em Paris. Lá ele me mostrou imagens impactantes que havia feito numa rápida visita aos campos de refugiados Saharauis, na Argélia. Tive três reações quase imediatas – a primeira foi de curiosidade e espanto sobre aquele conflito tão duradouro do qual nunca havia ouvido falar. Em seguida fiquei arrepiado ao ver aqueles sofridos beduínos falando Espanhol. Por fim fui invadido pela certeza de que tinha de ir ao encontro do Deserto”, conta Samir.
 Confinados na parte mais inóspita do Deserto do Saara, o povo Saharaui resiste há mais de 40 anos de guerra e exílio. As tentativas de recuperação do território foram bloqueadas pela construção pelo Exército Marroquino de um muro com 2.700 km de extensão guarnecido por 140 mil soldados e sete milhões de minas, isolando os Saharauis das enormes riquezas minerais e pesqueiras do território ocupado. O muro marroquino, conhecido como “Muro de la Vergüenza”, é a maior barreira militar defensiva do mundo.
Os cineastas acabaram fazendo parte do conflito quando o jipe em que estavam explodiu ao passar por sobre uma mina antitanque, a apenas 800 metros do destino final – o Oceano Atlântico.
Em Espanha há várias organizações de solidariedade com o povo saharaui e um dos programas que levam a cabo é “Férias em paz”

https://www.youtube.com/watch?v=kzRva9wE-YE 

É esse o caso do jovem Emhamed que está a passar férias em casa do alcalde de Morille e  na foto está ao lado de Salek, de quem falarei um pouco mais abaixo. 




Mas há também jovens que vivem e estudam em Espanha, com famílias de acolhimento e vão passar as férias coma a família, nos acampamentos. No vídeo podemos ver o testemunho duma jovem saharaui, acolhida em Espanha

Mais um  pormenor da exposição com  que o saharaui, Salek  participou no PAN com uma exposição sobre o deserto, exposição já referida na mensagem anterior .  

Muito gentil, Salek brindou os participantes servindo um chá.
Conhecida pelo aroma especial e temperos característicos, a tradicional cultura marroquina foi uma das principais responsáveis pela disseminação do ritual do chá entre os países árabes.
Tudo começou quando os ingleses surgiram com a ideia de misturar o chá às ervas que os marroquinos estavam acostumados a ingerir. Essa mistura fez com que o sabor das ervas fosse suavizado. O grande destaque foi o chá de hortelã, que, por ser mais consumida pelos nômades, rapidamente se espalhou por todo o Oriente Médio. Desde então, o chá de menta é uma das tradições mais conhecidas no Marrocos.
qualquer hora são bons para se beber chá. O hábito de beber chá está enraizado na cultura marroquina e é muito mais do que uma bebida. O chá é todo um significado e ritual ao qual os visitantes não podem ficar indiferentes. Oferecer um chá faz parte do saber receber do povo marroquino, conhecido pela sua hospitalidade. Quando se visita alguém, numa loja ou mesmo na rua, se lhe oferecerem um chá, manda a etiqueta que não recuse. Há toda uma técnica em torno do chá desde a preparação das folhas, a preparação da infusão em si até à forma como é serviço, despejado do bule bastante distanciado do copo para favorecer a mistura com o ar e criar  uma fina coroa de espuma.
Os chás são servidos em copos pequenos dispostos em bandejas de metal. Porém, quando a preparação é feita no deserto, ela acontece de modo mais simples, em pequenos bules de metal esmaltado.https://thegourmettea.wordpress.com/2011/08/02/o-cha-pelo-mundo-marrocos/

Também, gentilmente, propôs oferecer a cada um dos participantes, a escrita do respectivo nome em árabe.
Pedi-lhe então para escrever sete nomes entre eles os dos meus netos, e ofereci “em troca”, um donativo para a causa do seu povo.
Esta lembrança para os meus netos teve ainda uma outra intenção – mantê-los entretidos a pintar o desenho que emoldura cada nome (qualquer actividade que possa tirar os netos do tablet é sempre providencial…) 
Aqui está o trabalho já iniciado pelo meu neto Bernardo
  


PS (Postsriptum)- Na mensagem anterior esqueci-me de contar que, durante a apresentação de um livro, a dada altura, vi na assistência uma pessoa que me parecia ser Mário Tomé, figura emblemática do 25 de Abril.
Comentei com o meu marido e com um amigo e  a reação foi idêntica; Não pode ser. No entanto é muito parecido com a figura que recordamos de há mais de quarenta anos. 
Na apresentação seguinte um elemento da mesa anunciou o livro "Milando" de Paulo Salgado, apresentado por Mário Tomé, "figura emblemática do 25 de Abril".
Curiosamente esteve na Guiné em locais onde o meu marido também esteve, pelo que ainda conversaram um pouco sobre o assunto. 


quinta-feira, 25 de julho de 2019

Festival PAN em Vilarelhos


Passaram já mais de 15 dias sobre o festival PAN em Vilarelhos, Alfândega da Fé e só hoje tive disponibilidade  para  o referir no blog.
O  PAN é um  Encontro e Festival Transfronteiriço de Poesia, Património e Arte de Vanguarda em Meio Rural. Este festival transfronteiriço de poesia e arte acontece há 17 anos na aldeia de Morille, em Salamanca, tendo chegado a Portugal pela primeira vez em 2015. Começou por se realizar em Carviçais (concelho de Moncorvo) e realiza-se em Vilarelhos desde 2018  


A iniciativa leva arte de vanguarda, poesia, música e cultura aos meios rurais, reunindo diversos artistas de Portugal e Espanha em experiências artísticas e culturais.
Trata-se de uma iniciativa singular, que pretende levar arte a territórios rurais de Portugal e Espanha, promovendo o envolvimento da comunidade e a mostra de artistas de diversas áreas, como a escrita, a pintura, a escultura e as artes performativas e audiovisuais.

Este ano teve lugar nos dias 5, 6 e 7 e Julho de julho em Vilarelhos,  e nos dias 19, 20 e 21 de julho em Morille, Salamanca. 
O programa de 3 dias teve como tema “ECOARTE” e incluiu oficinas de arte, apresentação de livros e projetos culturais, visitas guiadas pelos artistas às exposições, concertos e recitais de poesia.



https://www.youtube.com/watch?v=VvozWPL3unQ


Na primeira  foto estão a Presidente da Câmara de Alfândega da Fé, Dra Berta Nunes, que desde oprimeiro momento apoiou a iniciativa, o alcalde de Morille, Manuel Ambrósio Sánchez Sanchez,diretor do PAN e Francisco José Lopes, um dos subdiretores) O outro era António Sá que está na 2ª foto com  a Presidente da Câmara de Alfândega da Fé e a Presidente da Junta de Vilarelhos.


Eis o programa:






Em 2018, embora o meu nome constasse  no programa, não pude estar presente pois a 2 de julho fui operada à coluna e o Festival teve lugar a 6,7 e 8.
Este ano participei com livros de poesia e alguns trabalhos no âmbito da pintura e o meu marido participou também com o seu último livro. A par das várias exposições e das apresentações de livros houve  sessões de poesia  e de música.
A população cedeu instalações pelo que quem quisesse podia dormir na aldeia a preços módicos (não foi o nosso caso pois quer a minha aldeia, quer a do meu marido, ficam muito perto). As refeições,que incluíam comida transmontana,  feitas no local e servidas na Central Melífera (à exceção do jantar do dia 6), eram gratuitas 



Vilarelhos  é uma aldeia como muitas outras do Nordeste mas onde merecem especial referência o solar dos Morgados de Vilarelhos (pertencente à família de Camilo de Mendonça)
https://www.flickr.com/photos/vitor107/32638782684

Na foto podemos ver o grupo de cantares de Alfândega da Fé a atuar em frente ao referido solar. onde também teve lugar uma sessão de poesia e música

                    https://www.flickr.com/photos/vitor107/32638782684





Outra das sessões de poesia e música teve lugar no dia 6,ao fim da tarde  junto à Capela da Senhora dos Anúncios, um lugar emblemático  perto da aldeia, onde foi servido o jantar.



No que respeita às sessões musicais, há que destacar a atuação de um duo de catalães, Antoni Rossell e Susanna Rafart ,ele músico e ela poeta.




Pesquisando na NET, encontrei várias atuações de ambos ou apenas de Antoni Rossell. Deixo algumas.









Regressando ao programa, e no que respeita às exposições, estavam patentes em vários locais como consta no programa, nomeadamente na Casa do Alpendre onde funciona a Junta de Freguesia e uma escola pré-primária. Foi também aí que decorreram as apresentações de livros. 
Deixo alguma imagens dos vários eventos

Na antiga escola primária:



Exposição de máscaras (feitas a partir de utensílios agrícolas)  da autoria de Vitor Sá 
Machado 



 Representante de Associação Lagarto, que fez uma apresentação sobre um evento muito interessante, o Entrudo em Vilar de Amargo (https://www.mundoportugues.pt/entrudo-lagarteiro-em-vilar-de-amargo-e-uma-festa-da-comunidade/,) e fotos de Renato Roque
Exposição de Helder Carvalho
 
 Na foto, Vitor Sá Machado, a representante da Associação Lagarto,  o fotógrafo Renato Roque autor da maior parte das fotos que aqui apresento e Helder Carvalho.
Um pormenor da escada que conduz ao 1º andar da antiga escola primária

Na Casa do Alpendre:


Nesta primeira sala estava uma exposição de homenagem a Aníbal Nuñez 
(https://es.wikipedia.org/wiki/An%C3%ADbal_N%C3%BA%C3%B1ez)



 Nesta segunda sala estava uma exposição com trabalhos meus


Nesta terceira sala estava uma exposição do saharaui Salek, a quem me referirei na próxima postagem

Havia mais duas exposições na Central Melífera que me esqueci de fotografar mas que aparecem, pouco visíveis mais acima, nas fotos  referentes às refeições.

Finalmente e num espaço próximo da Central Melífera estava uma exposição de escultura de Maria Lino 




No que se refere às apresentações tenho apenas imagens da minha apresentação pois o meu marido não fotografou mais nenhuma em particular e o meu telemóvel estava sem bateria quando foi a sua apresentação.



 
Nesta ultima foto estou na assistência durante a apresentação do meu marido



A finalizar não posso deixar de referir a presença de  dois refugiados saharauis, um  adulto a quem acima me referi e um jovem. O drama destes refugiados, drama que para mim era quase desconhecido, impressionou-me imenso  mas esse será o tema da  próxima  postagem

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Correio do Porto


Correio do Porto. O que é ?

É uma revista digital independente do Porto (PT) e sobre o Porto (distrito). Conta histórias de vida (pessoas e coisas) de um mundo à parte (físico e noticioso). Divulga notícias do outro mundo quando falarem do Porto. O Correio do Porto foi concebido para utilizadores com muitas horas de leitura (livros, revistas, jornais, banda desenhada, cartoons, postais, selos, cartazes, folhetos, catálogos, etc). É a geração do papel a navegar no mar digital.

Foi por mero acaso que, em Outubro de 2016,  tomei conhecimento desta revista digital, quando recebi um mail com o seguinte teor:
CONVOCAM-SE todos os interessados a participar na I edição de HISTÓRIAS EM POSTAIS do Correio do Porto, que consiste em escrever uma história (microconto/poema/aforismo/legenda) no verso de um postal. O postal pode ser enviado em branco. O mais importante é a história.
Dimensão do postal: 10 x 15 cm      Tema da história: livre
Sem júri, sem custos, sem devolução    Língua: nativa
 Data limite de envio: 31 de dezembro de 2016
As obras serão alojadas e exibidas no Correio do Porto e divulgadas na página do Facebook. Será realizada uma exposição em espaço público em data e local a anunciar.O Correio do Porto reserva-se no direito de não exibir as obras com caráter ofensivo. As obras farão parte do acervo do Correio do Porto.
Esta iniciativa nasceu da resposta dada pela escritora portuguesa, Alice Vieira, sobre a possibilidade de existir uma literatura postal: Nunca tinha pensado nisso, mas talvez não fosse má ideia… O Gianni Rodari tem um livro com uma série de histórias muito pequenas chamado “Histórias ao Telefone”— por que não “histórias em postais”? A presente convocatória é a concretização daquela possibilidade.

Logo que tomei conhecimento da iniciativa falei nela aos meus netos e o resultado foi referido aqui https://docaosaocosmos.blogspot.com/2016/12/

Em 2017, a convite de Paulo Moreira Lopes, participei em 7  perguntas a…. https://www.correiodoporto.pt/7-perguntas/sete-perguntas-a-regina-gouveia

Também em 2017, eu e dois dos meus netos  participámos em mais uma iniciativa
Em 2018 houve uma nova edição de arte postal mas na altura estava com o meu problema de coluna, que iria prolongar-se por vários meses, pelo que não participámos..

Com curiosidade em saber quem era Paulo Moreira Lopes, pesquisei na NET e fui ter a https://umreinomaravilhoso.blogs.sapo.pt/8975.html . Daí retirei este pequeno excerto postado em 30 de outubro de 2013.

Teve, contudo, desde pequeno uma imaginação muito fértil que gatafunhava em redacções e composições para admiração das preceptoras. No sétimo ano compôs o seu primeiro jornal em stencil (Sentinela). Um sucesso junto dos colegas e uma enorme satisfação pessoal até então desconhecida. Viciou-se em jornais, ou melhor, no “Expresso” e depois no “Público”. Já licenciado em Direito, foi colaborador do jornal “Notícias de Valongo” e do “ Correio do Douro” e director de “O Valongo” e de “O Campo”. Como todo o distinto escritor também teve direito a criar a sua própria revista. A “Factor Local” teve dois números, chegou a esgotar em alguns quiosques e não ficou a dever nada a ninguém. Um prejuízo para o bom jornalismo. Com o advento da internet vem matando o vício no site www.correiodoporto.pt  ……

Este site  passou a figurar entre os meus  favoritos, pelo que ali “vou” com alguma regularidade.

Em 12 de Janeiro último  em À conversa sobre livros evento que referi em https://docaosaocosmos.blogspot.com/2019/01/a-conversa-sobre-livros.html,  entre os presentes estava  Paulo Moreira Lopes, que eu não conhecia pessoalmente, mas que se dirigiu  a mim no fim da sessão. Estava também presente o meu ex- aluno  Luís Filipe Cunha, com quem mantenho um contacto regular, um dos alunos que mais me marcou em todo o meu percurso .
Paulo Moreira Lopes convidou-o para participar num dos seus DESAFIOS… e o resultado pode ser lido aqui https://www.correiodoporto.pt/desafios/ao-desafio-com-luis-filipe-cunha

A BULA é outra “faceta” do Correio do Porto, um” fanzine  de poesia”,  um conjunto de “comprimidos literários”.  
A BULA é mensal e existe já há vários anos. Acaba de sair o nº de Julho. https://www.correiodoporto.pt/prioritario/fanzine-a-bula-de-julho-2019
NESTE sétimo de 2019, a autoria dos comprimidos literários ficou a cargo de Regina Gouveia e a ilustração ao seu filho, Nuno Gouveia.


Para mim é uma distinção, que porventura não mereço.
Obrigada Paulo Moreira Lopes






sábado, 25 de maio de 2019

Redes sociais

As redes sociais nunca me seduziram. Raramente ali “vou”.
A propósito do tema, partilho convosco um texto de Magda Gomes Dias


Bom dia, bom dia,

Hoje recebi um email que ainda não abri mas cujo título era " Facebook já era?" e fiquei a pensar naquilo que já há muito tenho vontade de partilhar contigo.

Há demasiado barulho e ruído. Vejo contas (de instagram, sobretudo) onde se publica todos os dias, até duas vezes por dia. Como se o silêncio não fosse de ouro e como se a paragem momentânea dos likes, dos shares significasse o nosso valor ou a falta dele. Perco a vontade de estar na presença dessas contas e dessas pessoas porque, apesar dos textos longos e profundos, o que "vendem" não bate certo com o que fazem. Oversharing, overtalking e overlikes e, portanto, ausência de silêncio, de tempo, de pausa e lentidão que impedem o mergulho verdadeiro nas nossas vidas reais, com gente de carne e osso. Não bate certo.

Vejo muita gente a apregoar um estilo de vida sensato, equilibrado, com base em valores humanistas até, com uma retórica quase que imaculada mas a forma como o comunica é totalmente o inverso: ansiedade, consumismo, exposição contínua. Como dizia uma amiga minha há uns dias, parece que algumas acordam de manhã a pensar: como é que as pessoas hoje vão gostar ainda mais de mim? O que é que eu preciso de lhes dar para isso acontecer?
E o jogo é dos dois lados. Ora dou às pessoas aquilo que elas precisam para gostarem de mim, ora eu aplaudo, sem pensamento crítico, aquilo que as pessoas de quem eu gosto, acabaram de postar. Só porque sim. E a vida segue...

Tudo serve para filmar e tudo parece ter de ser registado. E por isso mesmo, muito pouco é autêntico. O dedo bate duas vezes na imagem e o coração surge. E com isto surge culpa de não ser tão fantástica, e com isto há cópia para ser igual.

Quando reparas, sabes que a filha mais velha daquela bloguer tem um feitio difícil, que aquela tem um discurso de encorajamento e que a outra tem dois filhos que são top of the top. No meio deste cocktail, desejas ter a casa da primeira, o feed lindo da segunda e dois filhos como os da terceira. Acabas por conhecê-las e perceber que não é nada disso. Como disse uma amiga minha ontem, bluff! A primeira não sabe lidar com a filha porque ela própria é autoritária e o que importa é o "eu, eu, eu!" , a segunda é, na verdade, uma mulher com uma auto-estima baixa, perceptível pelo oversharing e pela construção de uma persona, e a terceira não suporta as falhas dos filhos porque acredita serem as suas. Vidas e pessoas comuns, portanto. Com isto tudo, a coerência é uma palavra que cai em desuso e praticamente desaparece dos dicionários da vida de todos os dias. Acabou-se a intimidade, acabou-se o debate, acabou-se o que é razoável. Tudo são montras, tudo é descartável e o que é hoje já não é daqui a pouco. Só que nos esquecemos que uma vez na rede, para sempre na rede. E é angustiante o caminho que se está a traçar. Aprender a colocar em questão não só o que lemos e o que vemos, como também os sentimentos que tudo aquilo nos provoca torna-se necessário, diria até obrigatório. Para que o debate possa ressurgir, para que a reflexão renasça e até para que o sentido do rídiculo e do questionamento possam voltar à ordem do dia.

Se as empresas têm responsabilidades sociais, contas com muitos seguidores (eu diria todas as contas, até!) deveriam saber que também a têm. Enquanto profissional que trabalha com o digital (e pessoa!) é minha responsabilidade aquilo que comunico e a forma como o faço. O impacto que tenho nos outros aumenta-me a responsabilidade. E eu creio que está na hora de começarmos a pensar na forma como o fazemos e naquilo que podemos estar (todos) a criar.

As minhas inseguranças, os meus medos, a história dos meus apenas a mim diz respeito. Se preciso da validação dos outros, a resposta não está no oversharing, no overlikings...

Fica o convite à reflexão. Para que, no final, não sejamos todos uma grande fraude!

Bom fim-de-semana, gente boa!

Magda

Magda Gomes Dias é formadora nas áreas comportamentais e comunicacionais há mais de 12 anos. Porque sabe que os comportamentos se escolhem e que «comportamento gera comportamento», aborda as questões parentais e da educação positiva através dessa lente. Com certificação internacional em Inteligência Emocional, em Educação Positiva e em Coaching, esta mãe de duas crianças é também a autora do blogue Mum’s the boss e do site ParentalidadePositiva.com Seja nos workshops, nas conferências, nas empresas, no blogue ou até nas suas sessões de Coaching e Aconselhamento Parental, a missão da Magda é entusiasmar os pais para estas temáticas, provando que é possível educar com base no respeito mútuo, desenvolvendo relações felizes e com profundo significado. Educar da cabeça para o coração, e portanto para a felicidade, é o que a move.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

Chico Buarque e o prémio Camões.


O prémio literário mais importante do universo da língua portuguesa distinguiu nesta terça-feira, na sua 31.ª edição, um ícone da música popular brasileira a que faltava a definitiva consagração como escritor. in https://www.publico.pt/2019/05/21/culturaipsilon/noticia/chico-buarque-premio-camoes-2019-1873609
Já varias vezes me referi,  neste blogue, a Chico Buarque de Holanda , nomeadamente
em 2014, com um “post” a ele dedicado https://docaosaocosmos.blogspot.com/2014/06/chico-buarque.html

Prestando uma modestíssima homenagem ao “cantautor” que mais admiro, deixo um  texto publicado em https://www.unicepe.pt/associados/texto_46.html

De Chico Buarque a Julinho da Adelaide...      por Regina Gouveia 

Chico Buarque de Holanda que, segundo consta, aos 20 anos sonhava cantar como João Gilberto, compor como Tom Jobim e fazer versos como Vinícius de Moraes. é, incontestavelmente, um dos maiores nomes da música popular brasileira.
Filho de Sérgio Buarque de Holanda, historiador e jornalista e de Maria Amélia Cesário Alvim, pintora e pianista, viveu sempre num ambiente extremamente rico do ponto de vista cultural. Niemeyer era amigo de seu pai e de certo modo influenciou o seu ingresso no curso de Arquitetura, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Desistiu do curso em 1965 e começou a dedicar-se por inteiro à carreira artística. Em 1966 ganhou o Festival de Música Popular Brasileira com a canção "A Banda".

Além de compositor e cantor Chico é poeta (para além das letras de inúmeras músicas escreveu, por exemplo, Chapeuzinho Amarelo, um livro-poema para crianças), autor de peças para teatro e de livros de ficção como Estorvo, Benjamim, Budapeste, Leite Derramado e O irmão alemão. Prefiro o cantor /letrista/ compositor ao escritor. No entanto, há textos de Chico que considero verdadeiras obras-primas. Um deles, A casa de Oscar, uma homenagem a Niemeyer, pode ser lido aqui. 
http://blogs.odiario.com/wilameprado/2012/12/06/com-belo-texto-chico-buarque-faz-homenagem-a-oscar-niemeyer/. O outro é Leite derramado , um livro que já li e reli...

Mas centremo-nos no cantor /letrista/ compositor. O primeiro disco que eu comprei, sem ainda ter -gira discos, foi um single que incluía Pedro Pedreiro- 
ver imagem no fim-(o segundo foi o Concerto para Cravo n° 1 in Ré Menor de Bach ...) Já possuidora de um gira discos, fui adquirindo vários LP e singles, até o vinil ser destronado pelo CD.
Quer em vinil, quer em CD, a obra de Chico ocupa um lugar de destaque na minha modesta fonoteca.

Embora grande admiradora de Chico Buarque, só há cerca de 3 ou 4 anos ouvi falar de Julinho da Adelaide, um "heterónimo" de Chico que muitas pessoas desconhecem e que foi usado, durante algum tempo, para driblar a censura.

Lançada em 1970, a canção Apesar de você, supostamente um ataque ao Presidente Médici, conseguiu passar a censura prévia. Posteriormente o Governo Militar proibiu a sua passagem nas rádios. Chico passou então a assinar algumas músicas como Julinho da Adelaide. Entre essas músicas contam-se Jorge Maravilha, Milagre Brasileiro e Acorda Amor, aprovadas pela censura sem nenhum impedimento. Em Jorge Maravilha, Chico canta: "você não gosta de mim, mas sua filha gosta", o que gerou a especulação de que a filha referida na canção seria uma sua fã, Amália Lucy, filha de outro presidente militar, o general Geisel. Chico nunca confirmou essa suspeita

Julinho da Adelaide concedeu uma entrevista ao jornalista
 e escritor Mário Prata que pode ser lida em  http://www.chicobuarque.com.br/texto/artigos/opartigo_09_74.htm e da qual retiro um excerto:

(...) Julinho, ao contrário do Chico, não era tímido. Mas, como o criador, a criatura também bebia e fumava. Falava pelos cotovelos (...) 

Tal como em Portugal, a arte em geral e a música muito em particular, foram, no Brasil, uma grande arma no combate à ditadura. A música de Chico Buarque desempenhou aí um papel preponderante. Várias das suas músicas são verdadeiros hinos de resistência à ditadura militar. Para além de Apesar de você, podemos citar Mulheres de Atenas, composta por Chico Buarque e Augusto Boal em 1976 para a peça Mulheres de Atenas de Boal, Cálice (cuja sonoridade cale-se seria uma clara referência à censura e repressão vivida no país) composta em parceria com Gilberto Gil em 1973, Vai Passar, composta por Chico Buarque e Francis Hime em 1979 que foi o hino da Campanha das Diretas, em 1984, Meu Caro Amigo, também em parceria com Francis Hime, composta para o amigo de Chico, o dramaturgo Augusto Boal, exilado em Lisboa. Em dezembro de 1968, Chico Buarque muda-se para Itália onde chegou a realizar espetáculos com Toquinho. Em 1970 regressa ao Brasil

Tenho muita dificuldade em escolher a canção de Chico de que mais gosto. Refiro algumas das preferidas, que são dezenas: Bem-querer, Quem te viu, quem te vê, Notícia de jornal, Permuta dos santos, Amanhã vai ser outro dia, Fado tropical, Construção....

Termino com a letra de Notícia de jornal.
Atentou contra a existência
Num humilde barracão.
Joana de tal, por causa de um tal João.
Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão,
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou.
Errou na dose  Errou no amor Joana errou de João
Ninguém notou  Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal. 


Eis a capa do disco que comprei em 1967, quando ainda não tinha gira-discos.

A este texto acrescento agora alguns vídeos