Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

NOVO BLOGUE

Retomei o blogue que já não usava há anos.

https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/

Dedico-o essencialmente aos mais novos mas todos serão bem vindos, muito em particular pais, avós, encarregados de educação, educadores ...


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Excelíocres e Mediocrelentes- Parte II

Em mensagem  anterior  atribuí alguma da responsabilidade da situação a que se chegou, a numa nova classe de funcionários, sejam eles de que departamento forem. Designei-os por  Excelíocres ou Mediocrelentes.

Esta espécie, protegida por uma avaliação secreta, muito transparente, nasceu do cruzamento da mediocridade real com a excelência virtual.


Como é espécie protegida, há lobbies que defendem "com unhas e dentes" a sua protecção, lutando por um, cada vez maior, secretismo na avaliação.

Na educação e provavelmente em outras situações, há casos de tal modo caricatos que tentei descrevê-los em versos satíricos.

Aqui deixo o que consegui escrever, na esperança de que, por mera casualidade, o Sr. Ministro Nuno Crato os leia

A estória que aqui se narra tem “muita uva e pouca parra”.


Eventuais semelhanças com qualquer realidade,


não passam de coincidências, na verdade.


Trata-se de um diálogo sobre avaliação


numa suposta escola de qualquer região.

P1-


Nesta escola não vai haver qualquer excelente.
Assim decidimos democraticamente.


P2-


Quem decidiu?


P1-


Eu, (o) a presidente mais a equipa por mim escolhida, obviamente,


equipa muito subserviente (perdão, queria dizer competente).


P2-


Mas não há cotas?


P1-


Há cotas obviamente mas decidi, quero dizer decidimos


(eu e a equipa subserviente, enganei-me novamente,


a equipa competente) que não vai haver nenhum excelente.


P2-


E pode ?


P1-


Claro que posso, basta um critério definido de forma inteligente.


Quem teve aula assistida( quem não teve é diferente)


não poderá ultrapassar os oito ponto nove.


P2-


Mas se por acaso um relator, ao avaliar um professor


atribuir em cada domínio uma pontuação


que leve no final a uma classificação, no mínimo igual a nove?


P1-


Obviamente não pode. Baixa aqui, reduz além,
não importa porquê nem se convém
Muito bom chega-lhe bem


“Isto é de mais” Pensou um relator degenerado,


Lembrou-se de Vinicius de Moraes
e tal como o operário em construção,
o relator degenerado disse não.


Gerou-se uma tremenda discussão.


Disse o relator degenerado, de cabeça erguida e em voz bem alta.


R-


Eu não altero um só ponto da minha proposta.


Alterem o que quiserem, com responsabilidade vossa


e com a devida justificação em acta.


P1-


Que justificação? Não temos uma razoável para dar.






Então o (a) presidente e a equipa competente ( leia-se subserviente)


tiveram que aceitar o excelente.


Saíram comentando entre dentes.


P1,E-
Ora esta…


Para que queremos nós os excelentes?


Com eles quando há sucesso é bem real.


O que importa é o sucesso virtual


que a parafernália de papéis  atesta.


Parece surrealista mas não é tanto como parece. Fazendo uma inspecção minuciosa e séria  pelas escolas, encontrar-se-iam algumas (eventualmente muitas) situações em que as coisas se passam de forma muito semelhante à relatada.

Se têm que existir cotas, não seria muito mais honesto que os professores tivessem a classificação adequada, independentemente ou não de haver cota? Eram excelentes mas não podiam constar do respectivo quadro  por estar preenchido Falsear resultados, colocando no mesmo saco o trigo e o joio, em nada dignifica qualquer classe profissional.

Uma das razões que pretensamente justificaria estes modelos de avaliação aberrantes era evitar as subidas automáticas na carreira com as injustiças daí decorrentes. O sistema vigente permite injustiças muito mais flagrentes.
Numa outra mensagem anterior referi:

Sempre fui defensora da avaliação dos professores; sempre dei o meu melhor, muitas vezes sacrificando a família, e custava-me ver que outros, para quem a escola era apenas um meio de ganhar um dinheirito, a acumular por vezes com o que auferiam em profissões liberais, em explicações, etc, ascendiam na carreira tal como eu. Não se interprete das minhas palavras que tenho algo a ver contra as acumulações, que em alguns casos, em nada interferem com a qualidade do serviço prestado nas escolas. Eu própria, de 1999 a 2006, acumulei o ensino Secundário com umas aulas no Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Porto


Mas dizia eu que me custava ver aquela forma injusta de se ascender na carreira.


Só que, o que se tem passado ultimamente em muitas escolas, é muito mais injusto.


Já tive oportunidade de referir aqui que há escolas onde excelentes muitas vezes não ultrapassam o Bom e medíocres e maus são classificados com Excelente (os tais excelíocres ou mediocrecelentes).

É tudo uma questão de subserviência…

Só há uma forma de evitar estas aberrações: a transparência. Porque não são tornados públicos os resultados? (aliás a pergunta poderá ser feita para todas as avaliações e não só para a dos professores).


Experimentem tornar secreta a avaliação dos alunos. O sistema educativo cairia, por certo…


Ainda na mesma mensagem refiro um documento (que provavelmente o Sr. Ministro Nuno Crato conhece bem),  produzido pela Associação de Professores de Matemática e que se debruça sobre avaliação onde pode  ler-se :
A avaliação deve ser transparente.
(…)Tanto quanto possível as escolas e os professores envolvidos no processo de avaliação deverão intervir activamente no sentido de garantir a sua transparência.

Claro que não basta a transparência na avaliação, para a tornar credível.
É preciso que o que se avalia tenha realmente a ver com a qualidade de ensino e aprendizagem, não virtuais como as que nos tentam impingir, mas reais.
E a real qualidade de ensino- aprendizagem será tanto melhor quanto menor o tempo que os professores tiverem que dedicar a preencher papéis e a assistir a reuniões, ambos obsoletos na maior parte dos casos.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Postal de Natal


Há uns anos, num concurso de poesia organizado pela Câmara Municipal de Mogadouro, fiquei em 1º lugar com o poema “Era poesia”

Era poesia


Em agosto, o sol rubro ao poente


antecipando um dia muito quente


e o alegre canto da cigarra


que a morna brisa acalentava,


faziam o poema.


Em novembro, as cores outonais


das folhas, bailarinas surreais


que caídas no fim do seu tempo


bailavam ao sabor do vento,


faziam o poema.


Em dezembro, o crepitar da lareira


e o manto branco na ladeira,


emprestando um ar de fantasia


a um natal pleno de magia,


faziam o poema.


Em maio, o campo com seu ar de festa


exalando um subtil odor a giesta


e o rubro das papoilas nas searas,


contrastando com tímidas flores claras,


faziam o poema.


O poema estava ali,


não precisava de palavras.

Decidi usar um excerto desse poema para, juntamente com um dos meus últimos trabalhos a pastel de óleo,  formular a todos os meus votos de Boas Festas

Feliz Natal 2011

(…) Em dezembro,


o crepitar da lareira


e o manto branco na ladeira,


emprestando um ar de fantasia


a um natal pleno de magia,


faziam o poema(...)


O poema estava ali,


não precisava de palavras.
Regina Gouveia In Era poesia


Acompanho o cartão com dois trechos de Handel e com dois trabalhos sobre a Natividade da autoria de duas portuguesas: Josefa de Óbidos e Paula Rego

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Excelíocres e mediocrelentes- Parte I


Ontem recebi uma carta muito estranha da qual insiro um excerto.


Ao lê-lo fiquei sem saber se me havia de rir ou de chorar (de raiva...).

Estou aposentada, descontei toda a vida para tudo o que me foi pedido e, tendo em conta as minhas actividades de escrita, estou como trabalhadora independente (autora).

Acontece que da Campo das Letras foram-me pagos os direitos só até a empresa começar a ficar com dificuldades que culminaram na insolvência, pelo que só me pagaram direitos pela terça parte da 1ª edição(nenhuns pela segunda). Passei a trabalhar com a Gatafunho da qual até à dita ainda nada recebi (duas edições de um livro e uma edição de outro), alegadamente por atravessar um momento difícil. Acontece que, relativamente ao primeiro livro, havia um compromisso meu de doar à ONG, Ajuda Amiga, parte  dos direitos a fim de serem canalizados para as crianças da Guiné-Bissau. Como fui educada no respeito pelos compromissos, já adiantei, do meu bolso, quinhentos euros, esperando vir a receber os direitos. Estou há meses com nova editora, pelo que ainda não decorreu o prazo para prestação de contas, fixado no contrato .
Se relato isto aqui é para verem o absurdo de me virem pedir, por causa da minha actividade independente, uma contribuição mensal de 124, 09 euros…

Dirigi-me logo de manhã à Rua António Patrício, endereço indicado na carta. Na fila encontravam-se já várias pessoas que tinham recebido uma carta idêntica. Não era ali. Teríamos que nos deslocar a várias repartições possíveis, uma delas em Miguel Bombarda. Quando tirei a senha de atendimento saiu o nº 63. O último nº a ser chamado tinha sido o 4…. Mesmo assim fui aguardando e era meio dia quando saí sem ser atendida (o atendimento ia no nº 26).

À tarde, em regime de voluntariado, fui estar com crianças de escolas de Gaia, do 1º e 3º ano. A sessão, que correu bem, foi na casa Barbot (una casa lindíssima Arte Nova, cujo exterior conheço há mais de quarenta anos, mas onde nunca tinha entrado).

Há muitos anos a casa veio referida numa revista de arquitectura ou decoração, não sei bem. Os interiores eram fabulosos. Lembro-me de uma casa de banho belíssima. Agora há várias divisões, as casas de banho são fracções das que existiam, etc. Mas mesmo assim vale a pena a visita.
Casa Barbot
Mas voltando ao episódio da carta. Acabada a sessão na casa Barbot, meti-me no Metro e fui à Loja do Cidadão. Da estação do Metro à Loja é um estirão mesmo para quem gosta de andar a pé (interrogo-me sempre que faço este percurso: Por que razão a estação de Metro, onde foi gasto muito dinheiro dos contribuintes, foi pensada  tendo em conta exclusivamente o estádio do Dragão?).

Cheguei ao balcão de atendimento, passavam 10 min das 16 h. Havia uma fila formada com pessoas sem senha pois a máquina não “dava” senhas. Várias pessoas com senha anteriormente tirada, aguardavam atendimento. A fila foi crescendo sem qualquer explicação por parte dos funcionários. Na fila, ou à espera, vi muitas pessoas com uma carta idêntica à minha. Eram já 18 h, a máquina começou a funcionar.

Eram quase 19 h quando fui atendida; o atendimento, por uma funcionária muito simpática, diga-se de passagem, foi muito breve. Se estou aposentada estou isenta. Pasme-se…Na era da tecnologia, essa informação não existia nos dados de que aquele serviço dispõe.

Eu creio que tenho uma resposta para grande parte dos problemas que assolam o pais (para além da corrupção branqueada, dos compadrios, etc, etc).

A resposta está numa nova classe de funcionários, sejam eles de que departamento forem. São os Excelíocres também chamados mediocrelentes.

Esta espécie, protegida por uma avaliação secreta, muito transparente, nasceu do cruzamento da mediocridade real com a excelência virtual.

Como é espécie protegida, há lobbies que defendem "com unhas e dentes" a  sua protecção, lutando por um cada vez maior secretismo na avaliação.

Na educação, e provavelmente em outras situações, há casos de tal modo caricatos que estou a tentar descrevê-los em versos satíricos. Entretanto vou pedindo ajuda a António Aleixo…

Julgando um dever cumprir,


sem descer no meu critério,


- digo verdades a rir


aos que me mentem a sério!


Inteligências há poucas.


Quase sempre as violências


nascem das cabeças ocas,


por medo às inteligências


Co'o mundo pouco te importas


porque julgas ver direito.


Como há-de ver coisas tortas


quem só vê em seu proveito?



E a terminar um cartoon retirado daqui



quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Por escolas de Coimbra, Oliveira do Hospital e Montemor- o Velho



No passado dia 5 passei a manhã na Escola Secundária c/ 3º Ciclo da Quinta das Flores e Conservatório de Música de Coimbra  onde estive com alunos de 7º e 10ºano a propósito do meu último livro "Breve história da Química", escrito no âmbito do Ano Internacional da Química, que este ano se comemora.

Alunos do 7º ano dramatizaram, de uma forma muito interessante, o primeiro ato da peça. A minha apresentação foi também feita por alunos. Durante a sessão fiz algumas experiências muito simples. Embora tivessem estado presentes alguns alunos menos interessados, a maior parte dos alunos participou ativamente

No que respeita ao 10ºano, genericamente os alunos mostraram-se muito interessados. Também aqui a minha apresentação esteve a cargo dos alunos e, dada a época natalícia, surpreenderam-me com a leitura de alguns poemas de Natal de minha autoria.

À tarde estive com vários alunos do Agrupamento de escolas do Vale do Alva, Oliveira do Hospital.

Contrariamente às expectativas dos professores, os alunos considerados como genericamente muito desmotivados, portaram-se impecavelmente.

Cheguei a casa cansada mas estes “regressos à escola” genericamente fazem-me sentir muito bem.

No dia 6 passei a manhã em Pereira, Montemor o Velho em duas sessões

com alunos dos 2.º e 3.º ciclos. Tive a companhia do grupo de teatro 3 Pancadas que, com a graça que lhes é habitual, ajudou a cativar os alunos. Ali conheci a escritora Vanda Marques de quem a minha neta já me tinha falado, por ter estado na sua escola. A pedido da minha neta "entreguei-lhe" um beijinho e trouxe outro de volta. Cheguei a casa por volta das 16 h e quando ela chegou às 16,30, ficou toda satisfeita com a “notícia”.Como tinha uns trabalhos de inglês para fazer, pediu uma pequena ajuda. Felizmente o meu inglês lido e escrito não é tão mau como o falado ou “ouvido”.

Agradeço a professores e alunos das várias escolas por onde passei, a forma carinhosa como fui recebida

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ainda a propósito da "Breve história da Química..."


Tomei há dias conhecimento de dois vídeos que gostaria de partilhar convosco. Um  tem a ver com o 3º aniversário do Centro Ciência Viva - Rómulo de Carvalho, instalado no Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (na Rua Larga, em Coimbra), e que teve lugar no passado dia 24 de Novembro. Recorde-se que o dia 24 de Novembro,  aniversário de Rómulo de Carvalho, é o Dia Nacional da Cultura Científica.


O Centro Ciência Viva – Rómulo de Carvalho é um Centro Ciência Viva a funcionar com característica de centro de recursos para o ensino e aprendizagem das ciências e a difusão da cultura científica. Os objectivos serão contribuir para a cultura científica e tecnológica nacional, atraindo e mantendo mais jovens para a ciência. (O nome Rómulo de Carvalho, para o Centro Ciência Viva, justifica-se plenamente: Rómulo de Carvalho (1906-1997) foi professor de Ciências Físico-Químicas (para muita gente mais conhecido por António Gedeão, o poeta de “Pedra Filosofal” e de outros poemas de inspiração científica) e é um símbolo da cultura científica em Portugal. Além de professor de ciências e de poeta, juntando na mesma pessoa de forma única duas sensibilidades distintas, foi um notável divulgador científico e um historiador da ciência, da pedagogia e, em geral, da cultura portuguesa. A sua ligação a Coimbra é conhecida pois foi nessa cidade que ensinou durante alguns anos, que iniciou a sua carreira literária nos anos 50 e que estudou colecções de instrumentos históricos da Universidade.


O outro vídeo tem a ver com a rubrica Escolhas de Livros de Carlos Fiolhais. No dia 15 de Novembro a escolha recaiu sobre o meu último livro “Breve História da Química”


Agradeço mais uma vez ao Professor Carlos Fiolhais, as palavras generosas que tem proferido a propósito de quase todos os meus livros

 

sábado, 3 de dezembro de 2011

Por terras de Torga...

No passado dia 28, a convite das professoras Márcia Cabanelas, Fátima e Bruna, do Centro Escolar da Araucária, Vila Real, fui ao referido centro a propósito do livro “Pelo sistema solar vamos todos viajar”.


Fui de camioneta ( a viagem hoje já se faz muito bem) e cheguei por volta das 10h e30 min. Aguardava-me a professora Márcia, orientadora de estágio das outras duas professoras, duas jovens de grande maturidade que, para poderem custear os seus estudos, serviram no exército durante alguns anos. O grupo (orientadora e estagiárias) é extremamente dinâmico o que se reflecte, obviamente, nos alunos. Antes da minha intervenção, numa encenação simples mas muito sugestiva, um grupo de alunos apresentou o texto. Posteriormente, os restantes alunos envolveram-se na leitura de um acróstico que tinham construído e que fizeram questão de me oferecer.


Para além destes alunos estiveram alunos de outras turmas, pelo que deveriam estará presentes cerca de  70 alunos. À medida que ia falando sobre o livro e realizando algumas experiências ia “dando” algumas dicas. A propósito dos versos

(…)Vou usar todas as ondas


que eu mesmo emito para o espaço


e assim vou poder contar


muita história de encantar(...)

projectei no tecto um arco-íris, usando um copo com água e um retroprojector. E assim falámos das ondas visíveis e invisíveis, da velocidade da luz, do tempo que a luz demora a chegar do Sol e da Lua até à terra (8 minutos e pouco mais de 1 segundo, respetivamente).

Perguntei então se tinham alguma ideia da distância entre a lua e a terra. De imediato uma menina respondeu (vim depois a saber que uma outra respondeu simultaneamente mas o som não foi suficientemente forte para eu ouvir) que tendo em conta a velocidade da luz e o tempo que a mesma demorava a chegar da lua à terra, a Lua estaria a mais de 300.000km. Claro que a par destas respostas houve outras de um grande ingenuidade como 100 km, 1000km, etc. Também quando perguntei se tinham alguma ideia sobre a idade do Sol a maior parte tinha a ideia de que era muito, muito grande mas também houve quem admitisse que podia ter 1000 anos e até houve quem sugerisse 40…. As crianças foram genericamente muito participativas mas a preocupação de responderem depressa não permitia, por vezes, que reflectissem sobre o absurdo de alguma respostas.

Já passava do meio dia mas as crianças queriam fazer muitas perguntas e também queriam autógrafos em livros, folhas de papel, etc.

Chegada a hora do almoço, e por causa dos horários da cantina tiveram, que ir almoçar. Prometi-lhes que estaria de novo depois de almoço para os autógrafos. E lá estavam todos, com a sua espontaneidade, meninos e meninas que pretendem ser cientistas, veterinário(a)s, futebolistas, escritore(a)s, professore(a)s.

Às 17 h e 35 min , em direção ao Porto, deixei Vila Real onde fui sempre “mimada” pela gentileza de professores e alunos. Obrigada a todos.
Deixo-vos com algumas imagens que me foram gentilmente enviadas pelo grupo de estágio.

 








sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

E se as histórias para crianças fossem de leitura obrigatória para os adultos ?


Genericamente, quando falamos em Mia Couto associamo-lo a inúmeras obras entre elas Terra Sonâmbula, O último voo do flamingo, Estórias Abensonhadas, Venenos de Deus, Remédio do Diabo, Mar me quer, A chuva pasmada....

Não é tão frequente associarmos o autor a literatura para o público mais jovem. Mas Mia Couto e o exemplo de literatura universalizada para todas as idades

O seu livro O gato e o Escuro faz-nos de imediato pensar no texto de Saramago:
“E se as histórias para crianças fossem de leitura obrigatória para os adultos? Nós, os adultos, seríamos capazes de aprender o que há tanto tempo ensinamos?
A leitura dos contos para crianças teria de ser obrigatória para os adultos. Estes textos são fábulas morais, nas quais são ensinados valores que consideramos indispensáveis, como a solidariedade, o respeito ao próximo e a bondade. Mas depois, nós, os adultos, somos os primeiros a esquecer disso na vida real”.


O gato e o escuro, a reinvenção do escuro, lugar propício à ambientação do medo. A necessária mudança de perspectiva mediante um conflito. A inversão do olhar da temática do medo, tão recorrente e opressora no universo literário infantil.


Vejam, meus filhos, o gatinho preto, sentado no cimo desta história. Pois ele nem sempre foi dessa cor.
Conta a mãe dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas. Todos lhe chamavam o Pintalgato.
Diz-se que ficou desta aparência, em totalidade negra, por motivo de um susto. Vou aqui contar como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro. O caso, vos digo, não é nada claro.
Aconteceu assim:
o gatinho gostava de passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite. Faz de conta o pôr do Sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente. A mãe se afligia e pedia:
- Nunca atravesse a luz para o lado de lá.
Essa era a aflição dela, que o seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo.
Mas fingia obediência.
Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá. Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.
Certa vez, inspirou coragem e passou uma perna para o lado de lá, onde a noite se enrosca a dormir.
Foi ganhando mais confiança e, de cada vez, se adentrou um bocadinho.
Até que a metade completa dele já passara a fronteira, para além do limite.
Quando regressava de sua desobediência, olhou as patas dianteiras e se assustou.
Estavam pretas, mais que breu.
Escondeu-se num canto, mais enrolado que o pangolim. Não queria ser visto em flagrante escuridão.
Mesmo assim, no dia seguinte, ele insistiu na brincadeira. E passou mesmo todo inteiro para o lado de além da claridade. À medida que avançava seu coração tiquetaqueava. Temia o castigo. Fechou os olhos e andou assim, sobrancelhado, noite adentro. Andou, andou, atravessando a imensa noitidão.
Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos. Olhou o corpo e viu que já nem a si se via. Que aconteceu? Virara cego? Por que razão o mundo se embrulhava num pano preto?
Chorou. Chorou. E chorou.
Pensava que nunca mais regressaria ao seu original formato. Foi então que ouviu uma voz dizendo:
- Não chore, gatinho.
- Quem é?
- Sou eu, o escuro. Eu é que devia chorar porque olho tudo e não vejo nada.
Sim, o escuro, coitado. Que vida a dele, sempre afastado da luz!
Não era de sentir pena? Por exemplo, ele se entristecia de não enxergar os lindos olhos do bichano. Nem os seus mesmo ele distinguia, olhos pretos em corpo negro. Nada, nem a cauda nem o arco tenso das costas. Nada sobrava de sua anterior gateza.
E o escuro, triste, desabou em lágrimas.
Estava-se naquele desfile de queixas quando se aproximou uma grande gata. Era mãe do gato desobediente. O gatinho Pintalgato se arredou, receoso que a mãe lhe trouxesse um castigo. Mas a mãe estava ocupada em consolar o escuro. E lhe disse:
- Pois eu dou licença a teus olhos: fiquem verdes, tão verdes que amarelos.
E os olhos do escuro de amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto. O escuro ainda chorava:
- Sou feio. Não há quem goste de mim.
- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
- Então porque não figuro nem no arco-íris?
- Você figura no meu arco-íris.
- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
- Os meninos não sabem que o escuro só existe é dentro de nós.
- Não entendo, Dona Gata.
- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?
- Não estou claro, Dona Gata.
- Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nosso medos.
A mãe gata sorriu bondades, ronronou ternuras, esfregou carinho no corpo do escuro. E foram carícias que ela lhe dedicou, muitas e tantas que o escuro adormeceu. Quando despertou viu que as suas costas estavam das cores todas da luz. Metade do seu corpo brilhava, arco-iriscando. Afinal? O espanto ainda o abraçava quando escutou a voz da gata grande:
- Você quer ser meu filho?
O escuro se encolheu, ataratonto. Filho? Mas ele nem chegava a ser coisa alguma, nem sequer antecoisa.
- Como posso ser seu filho se eu nem sou gato?
- E quem lhe disse que não é?
E o escuro sacudiu o corpo e sentiu a cauda, serpenteando o espaço. Esticou a perna e viu brilhar as unhas, disparadas como repentinas lâminas. O Pintalgato até se arrepiou, vendo um irmão tão recente.
- Mas, mãe: sou irmão disso aí?
- Duvida, Pintalgatito? Pois vou-lhe provar que sou mãe dos dois. Olhe bem para os meus olhos e verá.
Pintalgato fitou o fundo dos olhos da sua mãe, como se se debruçasse num poço escuro. De rompante, quase se derrubou, lhe surgiu como que um relâmpago atravessando a noite.
Pintalgato acordou, todo estremolhado, e viu que, afinal, tudo tinha sido um sonho. Chamou pela mãe. Ela se aproximou e ele notou seus olhos, viu uma estranheza nunca antes reparada. Quando olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam encheram de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.
Ante a luz, porém, seus olhos todos se amarelavam, claros e luminosos, salvo uma estreitinha fenda preta.
Então, o gatinho Pintalgato espreitou nessa fenda escura como se vislumbrasse o abismo. Por detrás dessa fenda o que é que ele viu? Adivinham? Pois ele viu um gato preto, enroscado do outro lado do mundo.

O autor de o Gato e o Escuro é também o autor deste outro texto sobre o medo


(…)Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:


“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.


A terminar, o poema "Mortos justificados"

Demoliram o país de Ahmed.



Erro de construção, justificaram.


Os pilares acentavam numa fé errada.


Debaixo do tecto se abrigavam famílias,


velhos, meninas, mulheres.


Todos tinham o mesmo nome,


o nome daqueles que não têm nome.


O país ruiu, ante bombas e tanques,


prova de que não estava bem dimensionado.

Os pombos escaparam, os pobres não.


Que culpa têm os demolidores


de haver tanta gente viva?


Dos que sobraram não se escutam lamentos.


Os moradores choram numa língua errada.


Entre os escombros, um braço de menina


ousa a culpa: de que valia ser criança


se não dava uso à infância?


Erro de cálculo na engenharia,


falta de sustentabilidade ambiental,


inviabilidade financeira:


o auditor da comunidade internacional,


encerrou o file no laptop,


e suspirou, aliviado: felizmente,


a maior parte dos países

nunca chegou a existir

Mia Couto in idades cidades divindades