Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

NOVO BLOGUE

Retomei o blogue que já não usava há anos.

https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/

Dedico-o essencialmente aos mais novos mas todos serão bem vindos, muito em particular pais, avós, encarregados de educação, educadores ...


domingo, 1 de julho de 2012

Vida...


Na mensagem anterior, a que dei o título Miscelânea, o tema transversal a todos os textos incluídos foi a vida. Continuemos então a falar de vida.
Comecemos com a questão Existirá vida fora da Terra colocada em 10 de Junho, em De Rerum Natura 

A Terra é habitada por  milhões de milhões de seres, alguns considerados  vivos, outros não. Todos eles são formados por elementos químicos. Onde reside então a diferença ? Essencialmente na forma de organização desses elementos. A vida é uma manifestação fantástica da organização de elementos químicos.

 Vida

O mundo com todas as suas fragrâncias
é feito de elementos, misturas, substâncias.
Elementos  mais ou menos cem.
Como pode acreditar alguém, com senso,
que a diversidade de um  universo tão imenso
a partir de tão pouco seja conseguida?
Mas o mais estranho é o que agora vem.
Muito menos elementos tem
aquilo a que resolvemos chamar  vida.

Gouveia R. in Reflexões e Interferências

Possuindo não apenas unidade de composição mas também unidade funcional, a célula é a unidade básica da vida de todos os seres vivos, de cujo trabalho depende a própria vida.
Todo ser vivo é formado por células, alguns por uma única célula, seres unicelulares, outros por várias,  pluricelulares.

O ser humano é pluricelular. O corpo humano adulto é formado por cerca de 10 triliões de células. As maiores células do corpo humano têm aproximadamente o mesmo diâmetro de um fio de cabelo, mas a maioria são menores do que isso têm cerca de um décimo do diâmetro de um fio de cabelo humano, ou seja, um fio de cabelo tem cerca de 100 mícrons de diâmetro (um mícron é um milionésimo de um metro assim 100 mícrons correspondem a um décimo de um milímetro), deste modo uma célula humana comum pode ter cerca de um décimo do diâmetro de um fio de cabelo (10 mícrons). O dedo mínimo do pé representa 2 a 3 bilhões de células, dependendo do seu tamanho, em analogia considerando uma casa grande cheia de ervilhas, a casa corresponderia ao dedo mínimo do pé e as ervilhas às células.

Entre as várias células que compõem o corpo humano, as que mais me fascinam são os neurónios, responsáveis por quase tudo que ocorre no nosso corpo.


O neurónio é  uma célula nervosa, estrutura básica do sistema nervoso, comum à maioria dos vertebrados. Os neurónios são células altamente estimuláveis, que processam e transmitem informação através de sinais eletroquímicos. Uma das suas características é a capacidade das suas membranas plasmáticas gerarem impulsos nervosos.

E a propósito de neurónios não posso deixar de referir o texto Caminhos neuronais, da autoria do bioquímico António Piedade, incluído no livro “Caminhos de Ciência” 


 O referido texto pode ser  ser lido na íntegra aqui

Caminhos neuronais
Caminho adentro um trilho florestal debruado por pinheiros e eucaliptos. As folhas acompanham-me com os versos do poeta andaluz, Manuel Machado: “…caminante no hay camino, se hace el camino al andar”. De facto, só ao caminhar desvendo o fluir do caminho, os seus trilhos efluentes, as suas sendas que ficam inexoráveis para trás.

Caminho à beira-mar com a água salina a ondular a areia em vagas pulsantes. A cada onda, desaparecem os rastos dos meus passos. É como se a água levasse o caminho feito. A cada onda, renova-se o areal horizonte de meus passos futuros, como se uma nova folha se esbranquiçasse para receber, novamente virgem, o traço seguinte.

Caminho ao longo de um axónio imaginário, prolongamento celular nervoso que nasce do corpo neuronal e se espraia até à enseada da sua ligação, ou sinapse, com o neurónio a quem passa o testemunho de uma mensagem que flui. Flui como uma onda salina de potássio e sódio, propulsionada por uma acção potencial de natureza electroquímica. A passagem de testemunho tem cambiantes químicos que modelam a mensagem com neurotransmissores específicos: serotonina e noradrenalina associadas ao “humor”; dopamina ao controlo motor; acetilcolina à aprendizagem e memória; ácido gama-aminobutírico à inibição; glutamato e aspartato à estimulação; et cetera.

A vaga neurotransmissora banha o neurónio pós-sináptico, passo seguinte, e uma nova onda se espoleta e conflui com milhares de outras vindas de tantos outros neurónios, numa raiz dendrítica que encorpa no integrante corpo celular.

E assim, de sinapse em sinapse, passo a passo, a mensagem faz o seu caminho e a via neuronal se estabelece, consequente, numa acção causal de efeitos complexos ainda pouco estabelecidos, porque muitos são os caminhos e muitas as suas intercomunicações em rede(…).

(…)Um dia, se o sonho tiver natureza neuronal, peço emprestado o verso ao poeta luso António Gedeão e digo que “Eles nem sabem nem sonham, que o sonho comanda à vida” e que é pelo sonho que caminhamos!


Fotografias de neurónios feitas em alguns dos principais laboratórios de neurociências do mundo foram reunidas sob a inédita forma de uma exposição de artes plásticas que já passou por cidades como Barcelona, Chicago e Rio de Janeiro.


O Espaço Ciência Viva, no Rio de Janeiro, realizou uma atividade  com o tema “Cérebro – Viajando na Linguagem”, integrada num  Projeto Ciência e Arte. Os participantes foram envolvidos na criação artística de Redes Neurais. 


Aqui ficam duas imagens de trabalhos realizados



 
Termino com mais um poema...

Viagem
Do quark ao átomo, do átomo à célula, da célula à vida,
quanta energia despendida, quanta energia transformada…
Para quê tanto corrida se afinal é breve a estada ?
Já se aproxima a partida, foi há tão pouco a chegada.

Gouveia R. (in Pro tempore Suo tempore, a aguardar publicação)


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Miscelânea...


Mais um espécie desaparecida

No passado dia 25, o último sobrevivente da espécie de tartaruga 'Chelonoidis Abingdoni' (tartaruga da Ilha Pinta), de seu nome George, foi encontrado morto, na Ilha de Santa Cruz (Estação Darwin, Parque Nacional das Galápagos), onde vivia sob protecção há 40 anos. Apesar de não se saber ao certo a idade do animal, estimava-se que teria mais de um século

Pegada ecológica

Há vários meses que uma família austríaca “expulsou” o plástico de casa, especialmente embalagens, e tenta viver com as alternativas às substâncias sintéticas, em nome de um Ambiente menos tóxico(…). "Precisamos de mudanças a todos os níveis da sociedade. Como produzimos a nossa energia, quantas coisas compramos e como as usamos, no fundo, como vivemos.


Encontros ?

Especialistas norte-americanos admitem que possamos contactar com extraterrestres nas próximas duas décadas.

 E a propósito destes “encontros” deixo um trailer  do filme ET  , o Senhor extraterrestre na voz de Amália  e o texto Era uma vez um planeta (in Era uma vez... Ciência e poesia no reino da fantasia) acompanhado de  algumas das ilustrações da autoria do meu filho Nuno. O livro que é aconselhado no âmbito do PNL foi editado pela campo das letras ( 2 edições, 2006 e 2008) e está prevista para breve a sua  reedição pela editora 7dias6noites 

 
Era uma vez ….um planeta      

Era uma vez  uma nave espacial,  era branca e tinha riscas pretas,
viajava pelo espaço sideral,  entre estrelas, planetas e cometas.
Era uma vez um extraterrestre,  vindo do espaço celeste
e que, há muito, na nave viajava. Tinha um ar estranho, bizarro,
pequeno era o seu tamanho e todo ele gingava.
Tinha umas grossas melenas e usava duas antenas
que ao vento estremeciam. Os olhos mais pareciam os faróis de um autocarro.

 Aterrara  num lugar, junto a um imenso mar. Era uma praia dourada,
banhada por  um mar manso  sempre em  recuo e avanço.
De início não viu mais nada. Foi então  que, de repente,  
surgiu bem à sua frente um menino sorridente  com uns olhos cor do céu
que, segundo a mãe dizia,   constantemente vivia no reino da fantasia.
Ao ver o extraterrestre todo ele estremeceu.
Mas o extraterrestre, que vinha do espaço sideral,
explicou ao menino que não lhe queria fazer mal.
Contou-lhe então o que vira na sua longa viagem.
Já tinha visto cometas  e estrelas aos milhões, bem  cintilantes.
Uma era o Sol à volta do qual giravam,  
alguns perto, outros distantes, nove distintos planetas.
Um deles, azul safira,  era tão lindo de ver que logo o extraterrestre decidiu ali descer.
Fez então  uma aterragem e assim pousou na Terra cujo nome não sabia.
Foi o menino quem o esclareceu, o tal menino de olhos cor do céu
e que,  segundo a mãe dizia,   constantemente vivia no reino da fantasia.
Fizeram boa amizade  e, em pouco mais de  um segundo,
o menino embarcou na sua nave. Lá foram o menino e o extraterrestre
que tinha grossas melenas  e usava duas antenas.
Foram dar a volta ao mundo.
Viram uma montanha coberta de neve e, com cuidado, pousaram ao de leve.
Dos ramos das árvores a neve pendia e a paisagem, tão bela, até entontecia.
Tudo era sereno, tudo era tranquilo, apenas avistaram um gamo e um esquilo
que na neve brincavam. 

Na dita montanha, já quase no cimo,
nascia um fio de água que era muito fino.
Enquanto descia, engrossava o fio até se tornar num imenso rio.
Salgueiros nas margens davam sombra calma
e   peixes de prata  que na água saltavam,  eram, do rio, a alma.
Era um belo rio muito cristalino que corria , corria para o seu destino lá longe no mar.  
E a nave sempre, sempre,  a vaguear
levando o menino e o extraterrestre de aspecto bizarro
cujos olhos lembravam  faróis de autocarro.
Passaram por florestas densas e por planícies extensas, por cidades com largas avenidas
e por aldeias, em montanhas perdidas.  Viram navios no mar e aviões pelo ar.
Viram o deserto, de dunas  coberto, era muito belo mas com pouca vida.
Só viram camelos numa caravana bastante comprida.
Viram na savana tigres, elefantes, pacatas girafas de pescoços gigantes
e também um leão. Aves aos milhares cruzavam os ares,
cobras e lagartos, rastejavam no chão.  Passaram por prados cobertos de flores
e de  borboletas de múltiplas cores. Num imenso charco as rãs coaxavam
e flores de nenúfar, por cima boiavam. O céu era sempre um céu diferente
mas de rara beleza,  ora azul safira, ora azul turquesa,  ora muito escuro,
ora acinzentado,  isento de nuvens ou muito nublado.
Por vezes cortava-o um arco de cor, era o arco - íris com o seu esplendor.
E a nave lá ia, nos céus vagueava levando o menino e o extraterrestre
que ao andar gingava.
Viram o sol nascente, viram o sol poente, uma maravilha sempre diferente.
Viram,  estremunhada,  a lua acordar  e vaidosa a mirar-se  num lago espelhada.
Mas o extraterrestre tinha que voltar, a hora da partida já estava a chegar.
O extraterrestre de tamanho pequeno, num voo sereno rumou ao destino
levando na nave o dito menino. Regressaram à praia de onde haviam partido
e já com saudades do que haviam vivido. Era a despedida.
Dos olhos do menino que eram cor do céu,  uma lágrima tímida pelo rosto escorreu
e no extraterrestre tremiam, tremiam,  as grossas melenas e as duas antenas.
Muito emocionado, pegou numa delas,  deu-a ao menino.
Quando ouvires um  hino que vem das estrelas, sabes que sou eu.
Comunica comigo.
Então o menino foi à beira mar  encontrou uma alga da cor do luar, deu-a ao amigo.

Mesmo à despedida  o extraterrestre  disse para o menino:
Na minha vida  fiz muitas viagens e nunca tinha visto tão belas paisagens.
Este é o planeta mais belo que eu vi e sabes porquê?
Tem água, tem ar, que permitem a vida. Se estragam a água, se estragam o ar
um dia o planeta vai-se transformar  na terra do nada, uma terra perdida  
onde nada se vê. Tu que és um menino e que vais crescer
cuida do planeta, antes que comece a desfalecer.
Deram um abraço, muito apertadinho e o extraterrestre lá partiu sozinho
na nave redonda, branca às riscas pretas, em busca de estrelas e  de outros planetas.  


terça-feira, 26 de junho de 2012

Quando se apagam as cerejeiras

Quando se apagam as cerejeiras é o título de um livro de poemas da autoria de Luís Serrano. O livro , com ilustrações de Carlos dos Reis, foi  apresentado no passado dia 23, na galeria Porto Oriental


“Quando se Apagam as Cerejeiras”, título do mais recente livro de poesia de Luís Serrano – e que com ele se celebram 50 anos de vida literária do autor – é uma belíssima metáfora cuja amplitude reflecte um discurso que, na sua globalidade, aflora sobretudo acentos crepusculares. Não é, pois, por acaso que este corpo textual se constrói a partir de elegias a poetas que marcaram o nosso tempo (Manuel Amaral, Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, com explícitas referências a Rilke, por exemplo) ou da representação de obras artísticas, com predilecção pela pintura ou escultura mas  na maior parte dos casos pela música, de que o requiem constitui composição privilegiada pelas emoções que alguns exemplos ilustres não podem deixar de transmitir, tornando-se assim matéria de poesia. 

Para além do anteriormente referido, também o cinema emerge em alguns poemas, como por exemplo em  em "O vale Abraão, de Manoel de Oliveira"   ou  "O sabor da cereja, de Abbas Kiarostami" que "inspirou" o título do livro.


Após a apresentação, a que se seguiu um Porto de honra, aproveitei para ver a exposição "A preto e branco " de Carlos Reis (ilustrador do livro)  que pode ser vista até 30 de Junho.

Conheci Carlos Reis em 1969 (eu  leccionava  então no Sá de Miranda em Braga); não tornara a falar com ele nem mesmo quando foi professor de Desenho do meu filho Nuno (no seu 12º ano)  que no 10º e 11º ano teve como professora Luísa Gonçalves, mulher de Carlos Reis e com quem nunca tinha falado embora tenha visto já algumas  exposições quer de um quer de outro.

E já que falo de exposições, aproveito para referir que na minha visita à Fábrica Social , Fundação José Rodrigues, para além das cascatas, pude ver a "Exposição de Gravura - A Oficina, a Técnica e o Impressor" de Tomás Dias . A exposição que consta de  gravuras de vários artistas, alguns muito consagrados outros menos pode ser vista até ao próximo dia 30.

E mais um S. João se passou...

Em mensagem anterior referi que adoptei o Porto como "uma das minhas terras".... E isso implicou adoptar o S. João. 
Não vou para a rua mas festejo-o em casa com a família e alguns amigos. Há sardinhas, há balões e há cascata (esta a cargo dos mais pequeninos).


E por falar em cascatas fui, mais uma vez,  à Fábrica Social, (Fundação José Rodrigues) ver a exposição de cascatas. Lá estava a do  Sr. Joaquim Correia  e mais algumas de entre as quais fotografei três, duas pela originalidade e uma por ser, para mim, a mais interessante, dentro do tradicional.




Após a ida à Fábrica Social fui ao palácio de Cristal  buscar  o meu neto José que, durante esta semana, está inscrito numa Oficina  dentro do projecto da CMP, OFICINAS DE VERÃO NO PALÁCIO DE CRISTAL.
Na Biblioteca Almeida Garrett estavam também duas cascatas que visitámos.
Aqui ficam também as imagens.



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Na Kontra. Ka Kontra


Já em tempos fiz aqui referência ao livro Na Kontra. Ka Kontra da autoria de Fernando Gouveia.

Nas página 13 e 14 o autor agradece a várias pessoas. O último agradecimento é-me dirigido À minha mulher, com quem aprendi a gostar de ler.

Efectivamente o seu gosto pela leitura não ultrapassava a banda desenhada. Aos poucos foi começando a interessar-se por muitos dos livros que eu ia lendo, de Eça a Saramago passando por Mia Couto, Jorge Amado, Pessoa, Gedeão, Hemingway, Camus, Garcia Marquez, Tolstoi   e tantos outros.

Há cerca de dois anos resolveu aventurar-se na escrita. Assim surgiu o livro acima referido.

A razão por que volto a  este livro tem a ver com uma recensão feita ao mesmo na publicação Africana Studia, nº 17, 2011, Edição do Centro de Estudos da Universidade do Porto, recensão essa da autoria de  René Pélissier, investigador em história, nomeadamente  na história colonial e militar de Portugal. 

Tendo tomado conhecimento do texto através do blogue  Luís Graça e camaradas da Guiné, solicitou o livro ao autor, a quem enviou cópia da referida recensão. Ei-la (chegada hoje).


E já que estamos a falar de livros deixo algumas frases de autores célebres, que poderão encontrar aqui

A leitura engrandece a alma. Voltaire

Acho a televisão muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para outra sala e leio um livro. Groucho Marx

Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto, alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti...Mário Quintana


O livro é uma das possibilidades de felicidade de que dispomos. Jorge Luís Borges

O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. Pe. António Vieira

Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca. Jorge Luis Borges

Os livros são os mais silenciosos e constantes amigos, os mais acessíveis e sábios conselheiros e os mais pacientes professores. Charles W. Elliot

A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde. André Maurois

Dupla delícia: o livro traz a vantagem de podermos estar sós e ao mesmo tempo acompanhados. Mário Quintana

Que nunca o livro fique longe de tua mão e de teus olhos. São Jerónimo

Ler é beber e comer. O espírito que não lê emagrece como um corpo que não come. Victor Hugo

Um livro deve ser o machado que partirá os mares congelados dentro de nossa alma. Franz Kafka

Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias. Mário Vargas Llosa

terça-feira, 19 de junho de 2012

Curiosidades andinas


Pensava ter encerrado o tema "viagem ao Perú" mas, por lapso, não referi duas curiosidades que achei interessantes. Aqui ficam.

A cruz andina

A cruz andina (en quechua: tawa chakana) é um símbolo espiritual dos Andes,  anterior ao império Inca, mas foi com esta civilização que adquiriu  uma enorme importância.  
A cruz andina num adereço dos muitos que se comercializam no Perú …

Os quatro lados da cruz andina simbolizam , o cruzeiro do Sul, os quatro pontos cardeais mas  também os quatro elementos :fogo, terra, ar água.  A forma em escada, sugere pirâmides em torno de um centro circular. Em cada lado das pirâmides há três níveis, o superior representa o mundo dos deuses simbolizado pelo condor, o intermédio representa o mundo dos seres humanos, da força, simbolizada pelo puma e o inferior representa a sabedoria simbolizada pela serpente. 
O centro circular representa o umbigo do mundo; nomeadamente para os Incas, representaria Cusco, a capital do império

Ama sua. Ama llulla. Ama quella 

Significa, em língua aymara , não roubar, não mentir, não ser preguiçoso.
Ainda hoje, a  Ilha de Taquile, a maior  do lago Titicaca, ilha bastante tradicional, conserva os princípios acima.
Se algum habitante transgredir algum desses princípios poderá sofrer diversas sanções,

Estes princípios doutrinários foram apresentados por  Evo Morales Ayma, um indígena de 46 anos filho do povo Aymara, quando em 2006 assumiu a Presidência da República da Bolívia. 

domingo, 17 de junho de 2012

No Brasil, a família...

Idos de Cusco, chegámos a S. Paulo por volta da meia noite do dia 2 de Junho. À nossa espera em Guarulhos, a minha irmã e o filho que nos levaram para Santos.
Quando pensámos visitar o Perú, decidi que só o faria se fosse também ao Brasil visitar a família, embora numa visita muito breve (apenas uma semana)
Graças à boa vontade de todos, consegui estar com a quase totalidade dos familiares. Em Santos reuniu-se a  família do lado do meu pai:  irmãos, cunhada, sobrinhos, sobrinhos- netos, primos, ao todo trinta e duas pessoas, alguns idos de cidades distantes como Curitiba, Goiânia e Uberlândia... Em S. Paulo reuni com a família do lado da minha mãe, vários primos e primas, ao todo dezoito pessoas.
A sua curiosidade por conhecer as origens, levou-me a que fizesse algumas pesquisas quanto às árvores genealógicas, de um e outro lado. Do lado do meu pai não consegui muito pois o Arquivo de Bragança não dispõe ainda de muitos dados. Do lado da minha mãe, Arquivo de Aveiro, consegui já bastantes dados e vou continuar a pesquisa.
Com os dados colhidos construí árvores genealógicas personalizadas que distribui...
Como exemplo, insiro aqui uma de cada um dos lados.


Um primo meu, pelo lado do meu pai,  que vivia em Maputo e recentemente veio viver para Lagos, costuma dizer que gosta muito do calor humano da nossa  família ...Mas também há ovelhas ranhosas....felizmente em minoria.


Eu cresci entre dois mundos...em qualquer deles a família tem um peso enorme e isso emerge nos dois  poemas a seguir, publicados em Reflexões e Interferências
 Imagem
Minha mãe era  brasileira de alma e coração,
para ela, o Brasil era país de eleição.
O meu pai era brasileiro de torna- viagem
e assim,  do Brasil eu construí uma imagem.
Nessa  imagem há uma miscelânea tal
que vai de Salvador até ao Carnaval,
de Copacabana à aguardente de cana.
É Elis, Betânia, Caetano, Jobim
é jeito de samba, sabor de quindim.
São as cataratas do Iguaçu
e as cachoeiras lá em Avaré
É jaca, acerola,   pitanga,  caju
gosto de garapa, cheiro de café, É Sena, Pelé.
É Oscar Niemeyer disperso em Brasília, é toda a família
Irmãos,  tios,  primos, sobrinhos, sei lá,
ali  em S.Paulo, Goiás, Paraná, Santa Catarina.
È Chico Buarque,  o meu cantor dilecto,
Cabral de Melo Neto,"Vida e Morte Severina"
É Manuel Bandeira e é Jorge Amado
Érico Veríssimo, Alcântara  Machado
Di Cavalcanti, Vinicius, Heitor Villa Lobos.
É impossível enumerar todos.
É a bandeira,  verde e amarela,
é cheiro de cravo, sabor a canela
É telenovela, coronéis,  jagunços, grandes fazendeiros,
fazendas, engenhos, bois e boiadeiros.
É praia e é mar, é Sol a brilhar
É o Céu Azul e o Cruzeiro do Sul
É pamonha de milho e  é vatapá
Enfeitando os jardins,  é o manacá
É um povo que canta e seus males espanta
È a Amazónia e é o Pantanal,Pedro Álvares Cabral
É um testemunho bem colonial como  em Olinda e em Parati,
é o negro Zumbi, os Tupi-Guarani 
É onça pintada, tatu, colibri
É cheiro a cocada, gosto de siri
É mistura de gentes
É o Tiradentes. É o Lampião
É o Rio Amazonas e o Maranhão
É arroz com feijão nem sempre na mesa
É a extrema  pobreza dos descamisados,
marginalizados, dos sem terra e sem pão, gente do sertão.
É Carmen Miranda, afinal portuguesa,
tudo isto é Brasil com toda a certeza

 Imaginário
O meu imaginário
lembra, em imagens, um caleidoscópio,
sem o  sonho, seria como um baroscópio,
a que faltou o ar para o empurrar.
No meu imaginário cruzam-se  dois mundos
ligados por laços, em geral, profundos
No meu imaginário há onças pintadas, 
mouras encantadas, há o bem-te-vi,
há o colibri, há a andorinha,  e a joaninha,
que voa, que voa vai para Lisboa,
há o bicho tatu, a surucucu,
há o gato e o cão,  a assombração,   o bicho papão.
Há jaboticabas, caquis e goiabas,
há nozes, amêndoas, pitangas e mangas
há cerejas, castanhas e jacas, tamanhas.
Há cocos, coqueiros bolotas, sobreiros.
Há cheiro a jasmim, há o alecrim,
há o sabiá, há o jacaré.
Há frio e há fumo que sai da chaminé
Há montes e há sol, há neve e há mar,
histórias ao luar.
Há o Zé do Telhado, há o Lampião
o lobo, a raposa, a cobra pitão
há o mocho,  há o cuco,  a perdiz, o tucano
há o vira, o malhão, samba todo o ano.
Há todas as gentes e todas as cores,
múltiplos  cheiros,  múltiplos  sabores.
Há bacalhau no Natal e no fim do ano,
há arroz doce, folar, e há couve mineira
há feijoada,  bem à brasileira, 
há pão- de - ló, leite creme, rolete de cana,
há pé de moleque e cocada baiana.
Há bonecas de trapos e  de porcelana.
Há navegantes e há bandeirantes,
há escravos, há reis e há imperadores,
há grandes senhores, há  marqueses, vilões,
condes e   barões,
burguesia,  nobreza e muita pobreza.
Há muito opressão, muita exploração.
Há jugo e há canga, grito do Ipiranga.
Há guerras com Espanha e a Restauração
Há muita façanha e muito visionário.
No meu imaginário, que une dois mundos,
há laços profundos, de muita beleza.
Há canto de canário, sabor a medronho, 
há quimera e sonho, cheiro a maresia,
alguma tristeza e muita nostalgia, cor azul turquesa.


Imagens tiradas em Santos. A partir do segundo dia o tempo arrefeceu muito e choveu bastante mas ainda deu para rever Santos da ilha Porchat  e para visitar a Pinacoteca e o Museu do Café...



Imagens tiradas com  a família em S. Paulo, as três últimas na represa de Guarapiranga, onde um dos meus primos tem uma casa "de fins de semana". Como se pode ver, o frio fazia-se sentir de uma forma pouco vulgar para o local, embora o Inverno esteja a chegar

Em S. Paulo fomos visitar a Pinacoteca (duas últimas imagens)  e o Museu da língua Portuguesa (gostei imenso deste último) instalado em parte da estação ferroviária da Luz de que a minha mãe tantas vezes me falou

A viagem chegou ao fim. As saudades dos que cá ficaram também já apertavam...

O Porto, à chegada.
O Porto que eu adoptei como "uma das minhas terras".... 
Miragem

Estou sentada no café do cais
aqui na Ribeira junto ao rio,
um passante segue pela rádio o  desafio,
e, ao meu lado, uma jovem  enlevada
olha com o olhar perdido  a outra margem,
enquanto um casal recorda uma viagem.
Os demais conversam sobre tudo.
Aqui e além  falares dispersos.
Aqueles ali creio que falam eslavo
e conversam com um ar muito sisudo
Na minha mesa está pousado um cravo
e o livro que ando a ler "Primeiros versos"[i]
Não me apetece ler, de enamorada
que fico  ao olhar  esta paisagem
mista de sonho e de realidade,
nem sei se ela existe ou se é miragem.
Do outro lado, as caves imponentes;
atravesso a ponte e já me encontro em Gaia,
na vila nova que agora  é cidade.
Vejo o Douro, os barcos rio acima
levam turistas e passam indolentes,
vejo as fachadas de granito, e bem por cima
ameaçando chuva o céu cinzento.
Um ar frio perpassa-me, é o vento
o tal a que chamam de nortada.
Regresso e  inicio  uma viagem,
entro num carro eléctrico,  na paragem
e  aí vou eu  vagueando com o olhar,
S. Francisco, S. Pedro em Miragaia,
a  Alfândega,  Massarelos , vários cais.
O eléctrico avança um pouco mais
e do outro lado já vejo o Cabedelo,
o rio encontrou o Oceano, entrou no mar.
Difusos através da bruma,
uma traineira, um navio parado,
que para entrar na barra ao largo aguarda.
enquanto o mar se agita e regurgita  espuma.
A difusão da luz torna tudo mais  belo,
mas o  meu passeio vai findar, não tarda.
O meu corpo está enregelado
e o vento desalinha-me o cabelo.
É quase noite, urge regressar
mas é difícil ter que abandonar
estas paisagens de bruma e de granito.
Não sei se  adivinhando  o meu pensar
uma gaivota solta um pio, aflito.


[i] de António Nobre