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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 2 de novembro de 2014

Falando de poesia...

Quando pensei em publicar os meus poemas contactei algumas editoras novas (na altura) por admitir que seria mais fácil aceitarem uma autora desconhecida.
Uma delas foi a Quasi, editora fundada em 1999 pelo escritor Jorge Reis-Sá. Com a criação da empresa Do Impensável - Projecto de Atitudes Culturais, Lda., por este e pelo também escritor Valter Hugo Mãe, onde foi incorporada, passou a ser gerida por ambos até Dezembro de 2004, altura em que o segundo alienou a sua participação na mesma empresa. Desde então até Outubro de 2009, foi novamente Jorge Reis-Sá o único gerente. Nessa data cessou, com o encerramento da empresa, a sua actividade editorial. Tinha sede em Vila Nova de Famalicão.

A resposta foi mais ou menos esta: 
Lamentamos  mas esta editora só publica obras de autores consagrados.

Na verdade a Quasi publicou autores como Ramos Rosa e sua mulher,  Agripina Marques, Casimiro de Brito, Eugénio Lisboa,  Vinicius de Moraes, mas também autores como Jorge Melícias e os próprios Jorge Reis-Sá e Valter Hugo Mãe, que na altura  ainda não tinham o “estatuto” que hoje, merecidamente, têm.  
Entretanto publiquei dois livros : Reflexões e Interferência( Ed. Palavra em mutação) e Magnetismo Terrestre(Ed Calendário de letras) cuja edição foi financiada pelo Clube Literário do Porto (que já não existe).

Algum tempo mais tarde contactei uma outra editora,  cujo nome não recordo. Ainda tenho o e-mail enviado e que transcrevo no essencial

Exos Senhores
Tenho um conjunto de poemas (cerca de 20) com os quais  pretendia editar um livro "Requiem pelo planeta azul". Como o nome indica trata-se de um alerta ecológico e por isso, pertinente.
Envio, como "amostra " três desses poemas. Envio ainda uma sinopse curricular.

Passado algum tempo recebi a resposta que transcrevo na íntegra

Exmª Senhora
Também nós partilhamos algumas das suas preocupações ecológicas. Uma das medidas que incrementámos foi a não edição de livros de qualidade duvidosa. A floresta agradece. A literatura rejubila.
Jorge Melícias

A minha primeira reação foi não responder mas, passado algum tempo, decidi fazê-lo :

Sr. Jorge Melícias
Hesitei um pouco em responder-lhe mas acabei por decidir fazê-lo. É óbvio que só partilha algumas das minhas preocupações ecológicas pois se a ecologia tem a ver com o respeito pela natureza, a espécie humana não pode ficar de fora. Ora o seu e-mail, cujo juízo respeito dado que o direito à opinião é um direito consagrado, pela forma arrogante e pouco delicada como é escrito revela muito pouco respeito pela minha pessoa e pela minha idade. Nas minhas preocupações ecológicas  o respeito pelo planeta não pode deixar de passar pelo respeito às pessoas que nele vivem.
Regina Gouveia

A este e-mail já respondeu  doutro modo:

Srª  Regina Gouveia
Tem toda a razão. A minha resposta foi arrogante. Por isso me desculpo.
Desejo-lhe a maior das felicidades na procura de uma editora que aposte no seu trabalho.
Jorge Melícias

Jorge Melícias é precisamente um dos autores que a Quasi editou e que para mim era totalmente desconhecido. Por isso naveguei pela NET e o que encontrei  veio reforçar a ideia com que eu ficara depois de ler a sua resposta .

POESIA - PALAVRAS -SENTIDO, não são absolutos, nem deuses inquestionáveis. Precisam como dizia Camões de "honesto estudo" com "amarga experiência misturado". Não são uns espontâneos armados em iluminados, que pelos vistos, já sabem tudo, que lá chegarão com facilidade. Anónimo

Para escrever algo como "O poema são fogueiras levantadas na garganta"*, queiram-me desculpar, não é necessário arriscar nem a unha do dedo mindinho. Duas coisas bastam. Primeiro: ter lido e relido Herberto Helder em doses cavalares, até nenhuma desintoxicação ser já possível. Segundo: ter analisado ao microscópio (nuclear) as estratégias sintácticas, o leque de recursos estilísticos e as escolhas lexicais do mesmo Herberto Helder. E é preciso ainda - já me ia esquecendo! - saber escrever bem (no sentido mais lato que consigam imaginar). Rui Lage
*autor Jorge Melícias

A que propósito fui eu  buscar todo este “passado” ?
A editora Lua de Marfim acaba de me surpreender ao ter-me  escolhido para integrar o 1º número da coleção Novilúnio, a par de poetas tão consagrados como Ramos Rosa, Agripina Marques, Casimiro de Brito e  Amadeu Batista, anteriormente referidos a propósito da Quasi Editora.



Foi para mim um incentivo para continuar a escrever, tal como o foi o prémio que no passado dia 31  fui receber em Oliveira de Azeméis. 



 Este é o 6º primeiro prémio de poesia que recebo. 

  O 1º foi precisamente em Oliveira de Azeméis, em 2005


O concurso que começou por ser nacional e agora é internacional (o 2º lugar foi para uma autora brasileira) pretende homenagear o poeta Agostinho Gomes(1918-1998).

Termino com três poemas seus

Luar
Lá fora anda o luar
A perguntar 
Se queremos vê-lo.
Mas nós apenas temos olhos 
Para o néon dos candeeiros
Debruçados pelas ruas

Rio de Janeiro
As mãos das montanhas 
Cheias
Apanham o azul...
Depois,
Perdulariamente,
Desbaratam-nas
Nas águas da Baía

Poeta
Dia a dia, este ofício,
Penoso, mas aceite
De tecelão das palavras....
Só para vestir a Primavera
E imitar o canto dos pássaros.

in Paisagem sem cantora

4 comentários:

  1. Não gosto de toda a poesia....gosto de alguns poemas deste ou daquele poeta. Sou muito franca, estes teus poemas são uma sombra dos que já li teus e até me admira tu tê-los escolhido para demonstrar a estupidez e arrogância de quem negou editar os teus livros.
    Para além de poeta, és uma pessoa com enorme valor pedagógico, científico e social, uma grande Mulher.

    E como diria Shakespeare: The rest is silence.

    Abraço, Regina!

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    Respostas
    1. Não sei a que poemas te referes pois os que coloquei" Ode à noite" e "Os rios da memória"( que podes ler nos "panfletos" colocados na mensagem) não foram escolha minha mas dos respetivos júris.
      Os três poemas com que finalizo a mensagem são do poeta Agostinho Gomes que o concurso pretende homenagear e constam do seu livro "Paisagem sem cantora", prefaciado por Arnaldo Saraiva e com uma recensão muito elogiosa de Isabel Pires de Lima
      Quanto à grande mulher, nem sequer em tamanho....
      Ab
      Regina

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  2. Desculpa, Regina, atribuí a ti os últimos poemas....já leio mal no computador, emvez de seus. li meus. Como vês fiz-te um elogio, pois acho a tua poesia a anos luz desta.
    Não sei como é as editoras não te publicam mal apanham o original....é que se vê tanta coisa publicada....que não presta!!!

    bjinho

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  3. Muito obrigada pelo elogio mas sob pena de me repetir, é a visão de uma amiga, que sei que o és, e por isso, involuntariamente "inflacionada".
    Ab
    Regina

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