Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

NOVO BLOGUE

Retomei o blogue que já não usava há anos.

https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/

Dedico-o essencialmente aos mais novos mas todos serão bem vindos, muito em particular pais, avós, encarregados de educação, educadores ...


terça-feira, 27 de outubro de 2020

Falando de música...

Na mensagem anterior, dedicada à poesia,  inseri dois poemas de Victor Gil. Hoje insiro mais dois.

Em Paródia musical, o autor, apreciador de música, “brincou “ com grandes compositores:

-Amadeus e a Flauta Mágica,  uma das obras no catálogo de Köchel  

-Schubert e a Truta

-Scarlatti e o Memorial do Convento 

-Bach e a suite nº 2 para violoncelo, BWV 1008

Ouçamos excertos das referidas obras


https://www.youtube.com/watch?v=H_ox3hnlJKY   Mozart, abertura da flauta mágica

https://www.youtube.com/watch?v=8eLAHCBMBBk,  Scarlatti,sonata em lá menor K61

https://www.youtube.com/watch?v=ki9ySiWQNu8, BWV 1008 - Cello Suite No.2


Num registo mais sério, Victor Gil dedica também um poema a Bach

E porque dediquei esta mensagem à música, não poda terminar sem falar de duas divas da Música:  Amália, no centenário do seu  nascimento e  Juliette Greco falecida, em  20-9, com 93 anos.


  


https://www.youtube.com/watch?v=LcEKzT8EJm4&list=RDGEpaVG3As-c&index=13watch?v=LcEKzT8EJm4&list=RDGEpaVG3As-c&index=13

Juliette Greco era a musa de Jacques Brel com quem termino esta mensagem 


https://www.youtube.com/watch?v=JQn5v-y0TMk&list=PLY3aCixa3Ee7lDCEt_wpQZU9vYviH3qK-&index=822

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Falando de poesia...

No dia 5 de setembro, tele lugar, em Coimbra, o lançamento do livro Poréns e Encantos, da autoria de Victor Gil

Não pude estar presente, mas pedi para me reservarem um livro, autografado pelos filhos.

 Eis a capa do livro, ilustrado pelo autor

 


Victor Gil foi o primeiro reitor da Universidade de Aveiro e timoneiro do primeiro centro interactivo de ciência em Portugal: o Exploratório Infante D. Henrique, em Coimbra. Professor catedrático de Química nas universidades de Coimbra e de Aveiro, responsável pelo primeiro laboratório de Ressonância Magnética Nuclear ….    https://www.diariocoimbra.pt/noticia/32761

Para além disso, interessava-se por poesia , pintura e música

O meu marido, que frequentou o 1º ano do curso de Engenharia Química, em Coimbra, (posteriormente veio para o Porto onde tirou arquitetura) foi seu aluno do e guarda dele uma boa impressão. Pessoalmente conheci-o através da SPQ (Sociedade Portuguesa de Química), frequentei uma ação de formação em Coimbra em que ele era um dos dinamizadores e, posteriormente, no âmbito das minhas atividades no âmbito da formação de professores na área da Física e da Química, estabelecemos uma relação de amizade. Não posso esquecer o carinho com que fui tratada, quando, a seu convite, dinamizei uma sessão para professores, no Exploratório Infante D. Henrique.

Do livro incluo 2 poemas



E já que falo em poesia, deixo mais alguns poemas


Tecidos do céu

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,


Ornamentados com luz dourada e prateada,


Os azuis e negros e pálidos tecidos


Da noite, da luz e da meia-luz,


Os estenderia sob os teus pés.


Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.


Eu estendi meus sonhos sob os teus pés


Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.


William Butler Yeats 

 

Não é ficção nem simbologia.

São homens sem abrigo, 

excluídos da luz, à espera 

de um mês propício para morrer. 

Em seus sonhos não há sol 

e possuem nos pés sem pátria 

todos os vestígios de fuga. 

A pele magoada de ardis 

tem o mesmo cheiro do rio na maré-vaza. 

Sobre os seus ombros apenas a noite: 

sempre tão húmida, sempre tão humilhante. 

 Graça Pires in  A solidão é como o vento, 2020

Graça Pires  é autora do blog https://ortografiadoolhar.blogspot.com e já aqui   “postei” poemas de sua autoria

 Na linha deste belíssimo poema, termino com um haicai de minha autoria e com a obra

 " Despejados"de Portinari" de 1934 (in https://www.facebook.com/portalroteiro/photos/os-despejados-1934-c%C3%A2ndido-portinari/1955056761239428/)

Mare nostrum

A onda agigantou-se,

engoliu o barco,

devorou o sonho

Regina Gouveia


sábado, 17 de outubro de 2020

Após mais um logo interregno-continuação


 Após o aniversário do Miguel regressámos à aldeia. Ainda não tínhamos saído para o campo e ficámos desolados com o abandono em que encontrámos as propriedades. Já de há muito que as pessoas deixaram de cuidar. Apenas tratam as oliveiras, por causa dos subsídios. Tudo o resto é deixado a monte. O mato cresce e é “pasto” para as chamas. Por isso ardeu o amendoal na Adeganha, como referi na mensagem anterior. Mas este ano, o desleixo agravou-se com a pandemia, a ponto de não conseguirmos entrar numa propriedade tal era o matagal de silvas. Pensar quanto ali investiram e trabalharam, avós, bisavós…

Na aldeia reside uma comunidade búlgara, mas dedicam-se essencialmente a trabalhos sazonais (apanha de amêndoa, azeitona, cereja). Não gostam de trabalhar o campo, aliás tarefa árdua porque muitos terrenos não permitem o uso das máquinas.

O prazer que outrora tínhamos em passear pelo campo, ir colher fruta, etc, deu lugar a um sentimento de tristeza. O meu marido particamente não saiu de casa. Eu passeava ao fim do dia pelos caminhos (muitos deles praticamente intransitáveis) geralmente acompanhada por uma familiar afastada, Isabel, de quem já aqui tenho falado e que tem um percurso de vida interessante. Com formação em teatro e em restauro, viveu largos anos em França. Decidiu regressar à aldeia da família do avô paterno (com quem passou parte da infância), após a morte do marido, .Laurent de Gouvion Saint-Cyr (descendente do marquês homónimo), expert em arte, autor de  Le romantisme dans l'art du XIX° siecle  e de vários outros livros )

https://www.google.com/search?q=laurent+de+gouvion-saint-cyr+Le+romantisme+dans+l%27art+du+XIX%C2%B0+siecle&rlz=1C1PRFI_enPT788PT788&biw=1366&bih=625&sxsrf=ALeKk02S1F76fAkRyej1yGqUKQZoUcPRDg:1602867271586&tbm=isch&source=iu&ictx=1&fir=o9nnf7YNl65kBM%252CAUkqWuIWjYpFjM%252C_&vet=1&usg=AI4_-kRDaJRTEw4-i18e0MQxnafCTSIZZQ&sa=X&ved=2ahUKEwivz-DyybnsAhUC0uAKHd4FDpEQ9QF6BAgKEAg#imgrc=o9nnf7YNl65kBM

Isabel está a restaurar duas casas e cuida de uma propriedade sua, com horta e árvores de fruta.

Tem uma burra que trouxe de França (era pertença dela e do marido), mas como os tempos são outros, dispõe também de outros meios de deslocação, deste a moto… ao automóvel

Mas dizia que, ao fim do dia, caminhava geralmente na sua companhia. Quer ao longo das caminhadas, quer do terraço de minha casa, pude desfrutar de vários pores-do- sol

 




Ao longo do dia, fazia duas sessões de hidroterapia na minha “piscininha”  adaptação de um ex-lagar de vinho.

A par disso dediquei-me a uma “empreitada” que já tinha começado há bastante tempo

Familiares brasileiros, pelo lado da minha mãe, de há muito manifestavam vontade de saber um pouco sobre as suas raízes. Como descendem essencialmente de Anadia (Moita) e o  PORTAL DE PESQUISA DO ARQUIVO de aveiro, https://digitarq aveiro, está muito bem organizado, em 2016, iniciei a construção de uma “árvore genealógica”,  pesquisando digitalizações de batismos, casamentos e óbitos, conseguidas a partir dos “LIVROS DE ASSENTO PAROQUIAIS, de 1565 a 1911, em Moita Anadia. Para além dos dados da DIGITARQ, contribuíram outros dados, alguns retidos na memória, de conversas com a minha mãe, que durante parte da infância e adolescência, viveu com a família de um irmão da mãe, o tio Adelino. Alguns desses dados eram desconhecidos de vários elementos da família.

Se até princípios do século XIX, a pesquisa nos arquivos foi tarefa morosa, mas relativamente fácil, daí para trás começou a tornar-se difícil e cada vez mais morosa por várias razões:

1-    Alguns párocos deveriam ter uma instrução muito básica, pelo que a letra é um conjunto de gatafunhos pouco legíveis e escrevem com muitos erros. Mesmo quando escrevem bem, a letra por vezes é muito “rebuscada” o que torna a leitura quase impossível. Por exemplo, há apelidos (Miz, Roiz, Diz, Pais, Reis, ?) cuja grafia tenho dificuldade em decifrar

2-     Os nomes, quase sempre os mesmos, José Gomez Santhiago, Manuel Gomez Santhiago, António Gomez Santhiago, Luís Gomez Santhiago, repetem-se, não só em sucessivas gerações, mas também em primos duma mesma geração

3-   Em alguns dos livros há várias páginas esborratadas, completamente ilegíveis, provavelmente por terem apanhado água

4-    Por vezes a ordem dos apelidos é trocada  (Santhiago Gomez em vez de Gomez Santhiago), ou cai um deles (fica só Gomez ou só Santhiago). Santiagho aparece geralmente com h, mas nem sempre, tal como Gomez, por vezes termina em s Num documento de 1758, Manuel Gomes Santiago assina apenas Manuel Gomes 

5-Registos anteriores a 1700 são genericamente do tipo:  “aos…dias …do mês de….de 15…., nasceu uma criança do sexo masculino, a quem puseram o nome Manoel,  filho  de Manoel e Maria..

Com os dados e com fotografias que consegui juntar, escrevi um opúsculo com algumas das ligações de família até 1702. Nessa data o registo que encontro é Manoel Gomez Santhiago filho de Manoel e Maria. A partir daqui os dados anteriores não me merecem grande confiança.  Apenas consegui inferir que descendemos de uma família Gomez e de uma família Miz (Martins) ambas de Anadia, dado que aparecem referenciados na  Moita

-Aos 5 dias  de… de  1571, foi batizada Lianor Filha de Ayres Gomez e de sua mulher Dona Lianor e foram padrinhos …Miz e sua mulher Dona Violante

Esta ligação da família Gomez à família Miz manteve-se ao longo dos tempos. O meu bisavô, Manoel  Gomes Santiago, casou com uma senhora cujo pai tinha por apelido Miz

No dia 30 de setembro, a minha prima, que agora reside no Porto com o marido e a filha, fez 50 anos, pelo que me empenhei arduamente em conseguir o maior número de dados para construir um opúsculo sobre as nossa raízes. É esse o seu título

Consegui que “Raízes” ficasse pronto a tempo (embora incompleto pois as pesquisas agora serão muito mais difíceis como já referi). Aliás na aldeia avancei pouco por dificuldades em aceder à NET

Durante o período que passei na aldeia, não sendo aconselhável reunir muita gente em simultâneo, recebi “visitas” por 3 vezes, O meu filho Nuno com os dois filhos, depois a minha prima, o marido e a filha e por fim o meu filho Miguel, a mulher e o meu neto Bernardo ( a Rita não pôde ir).

Não houve a alegria dos demais anos, com toda a família junta, não houve a habitual escapadinha a Espanha donde vieram antepassados meus pelo lado paterno, tal como não houve o nosso habitual teatro….

Dessas “visitas” de familiares deixo algumas fotos

A jantar no terraço com o Nuno e os filhos

No terraço após o pequeno almoço



Preparando a charrete e  a burra ( que acima referi a propósito da Isabel)  para dar  um passeio

    



Subindo a um poste de observação cuja função ninguém me soube explicar ao certo (observação de pássaros, alerta de incêndios?)



Almoçando com os meus primos


A visita do meu filho Miguel foi tão breve que nos esquecemos de tirar fotos.
A seguir a essa visita, regressámos ao Porto



segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Após mais um longo interregno

 

Foi há já três meses que escrevi a última mensagem.

Geralmente vou em meados de julho para Trás-os-Montes onde costumo ficar até setembro, dividindo este período de férias em duas partes, uma delas passada na aldeia “do meu marido” (concelho de Moncorvo) e a outra na “minha” aldeia(concelho de Alfândega da Fé)  É nessa aldeia que costumo passar a 2ª parte porque  a 25 de julho há ali uma festa, de que fugimos sempre  a” sete pés”. Uma música (música???) infernal com um nível sonoro ensurdecedor, “conspurca” de tal forma o ambiente, que permanecer ali durante o período da festa, só por masoquismo…    Mas há quem goste. Como é possível ?

Pois bem, este ano, “graças” à COVID, não houve festa pelo que tínhamos previsto passar todo o tempo nessa aldeia( meio mês de julho e todo o agosto), embora com algumas “visitas “à outra.

Uma série de imprevistos levou a que só fôssemos para Trás-os- Montes a 2 de agosto embora tenhamos ” regressado” no dia 7 para festejar o aniversário do meu filho Miguel.

Logo na primeira semana. decidimos ir passar um dia à outra aldeia.  À hora de almoço sentiu-se um cheiro a queimado. Espreitando para o exterior já se via algum fumo e, passado pouco tempo, ouviam-se vozes e a passagem apressada dos gados, acompanhados dos pastores que anunciavam : O fogo já chega ali ao alto. Apercebemo-nos que se tratava de um incêndio. Já há dois anos tinha acontecido algo semelhante, pelo que almoçámos rapidamente, metemos tudo no carro e partimos. Ao chegar ao alto, já as chamas eram bem visíveis para o lado direito da estrada. Como pretendíamos seguira para a esquerda, a GNR, que já controlava a passagem de viaturas, deixou-nos passar. Foi um dos incêndios na zona de Moncorvo, muito reportado pelos vários canais de televisão e que afetou essencialmente as aldeias de Estevais, Cardanha e Adeganha, precisamente a aldeia do meu marido.

Podem ver-se várias imagens em https://www.google.com/search?q=inc%C3%AAndio+Adeganha&sxsrf=ALeKk02ORkfTsvomnhEtEgK23hkJdIbWLA:1602333676979&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwig1YKNhqrsAhWQDxQKHbjXAW4Q_AUoAnoECAsQBA&biw=1366&bih=625#imgrc=3qpi0evH1NCCbM

 


Mantivemo-nos em contacto telefónico com pessoas da aldeia. Foi uma noite de terror…

A após o aniversário do Miguel,  regressámos à Parada  Passados uns dias regressámos à Adeganha. Em redor, uma paisagem desoladora. Mesmo à entrada da povoação, completamente ardido  o único amendoal que o mau marido ainda mantinha,

E a propósito de incêndios deixo  o poema “Denúncia” publicado em Antologia Natureza, 2018-2019, escrito  quando da terrível vaga de incêndios em 2017

 

Denúncia

Símbolo da paz,

erguia-se, centenária, no chão agreste,

o tronco esculpido pelo tempo,

a rama de prata oscilando ao vento.

As drupas negras, de penosa apanha,

sangravam azeite,

deleite  na mesa  e luz na candeia.

Árvore lendária,

Tito Lívio citou-a na história de Roma, 

referiu-a Homero na Odisseia.

Frondosa,

dulcificou muitas tardes cálidas  de verão,

derramando no chão a sombra amena,

convite a sonhos tranquilos, a leituras serenas.

Quantos ali se acolheram ao longo dos tempos?

Gélidos invernos, verões escaldantes,

inclementes chuvas, furiosos ventos,

a tudo resistiu, com seu porte altivo.

Agora, qual viúva vestida de preto,

denunciando um mundo desvalido,

ergue o esqueleto no chão enegrecido.

Gouveia, R, 2017

 

Quando pensava terminar a minha mensagem , uma amiga telefonou-me. Estava de visita a uma aldeia de que eu nunca ouvira falar- Pia do Urso. Ao pesquisar na NET encontrei outros lugares muito interessantes. Alguns  já conheço,  outros não . De entre estes , nunca  ouvira falar em Val de Poldros e em Pia do Urso.  Deixo alguns vídeos

Vale de Poldros


https://www.youtube.com/watch?v=a6B_sjip7IY

https://ncultura.pt/vale-de-poldros-a-aldeia-dos-hobbits-portuguesa/

https://viagens.sapo.pt/viajar/viajar-portugal/artigos/vale-de-poldros-a-aldeia-portuguesa-dos-hobbits-onde-so-vive-uma-pessoa

 Pia do Urso


https://www.youtube.com/watch?v=828eKNvK2Fw

 https://ncultura.pt/pia-do-urso-batalha/

 

Sistelo


https://www.youtube.com/watch?v=HPvy_MgPYiY

(Passadiços do Vez)


https://www.youtube.com/watch?v=UJA4c55WIcA

E com estas  sugestões, resta-nos aguardar  que a COVID vá e não volte...

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Fragmentos de memórias...


  
Na minha lista de blogues está incluído  “Ortografia do olhar” https://ortografiadoolhar.blogspot.com/ cuja autora é Graça Pires https://pt.wikipedia.org/wiki/Gra%C3%A7a_Pires

Na sua última “mensagem “ colocou o poema "Naquela aldeia havia uma ribeira" de que gostei muito

Naquela aldeia havia uma ribeira
onde vinham beber os homens e os lobos.
O menino ficava por perto
à espera que eles
 – os homens e os lobos –
viessem beber nas suas mãos.
Em seu olhar cristalino
há ainda um brilho feroz
que desperta no seu peito
as aves da montanha.
Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 43
A leitura transportou-me de imediato para um poema meu , Xisto, publicado em “Todo o tempo agora é contra o tempo…”
Xisto
 Muros de xisto, tal como outrora
cobertos de silvas, ostentando amoras.
Caminhos.
Este já foi ribeiro, o ribeiro dos linhos.
Já não existe ribeiro, tão pouco o linho.
O pó esvoaça lento por sobre o chão incerto e poeirento.
 Caminho com dificuldade, o sol poente ofusca-me a visão.
Percorro outro caminho, o da memória
que, como o xisto, se esboroa com o tempo.
Firme, a mão do meu pai segura a minha mão.

Este meu livro é uma reedição de dois livros anteriormente publicados e o título fui busca-lo a um poema de Manuel Alegre, Canção do tempo que passa
de que também gosto muito. O poema, publicado em Livro do português errante (publicações D. Quixote, 2001) nas páginas  48 e 49, pode ser lido aqui https://www.unicepe.pt/associados/texto_49.html

Termino com uma imagem da  obra “Persistência da memória” de Salvador  Dali, retirada de


segunda-feira, 6 de julho de 2020

O Fado do Plástico-cont




que referi na mensagem anterior. “O Fado do Plástico”, podem ver  um “post” dedicado a Amália Rodrigues, onde se inclui O Senhor Extraterrestre


E já que estamos a falar de extraterrestres e ambiente, vou colocar mais um  texto do meu livro “Era uma vez,,Ciência e Poesia no Reino da Fantasia (2006,2008, 2013), já referido na mensagem anterior

Era uma vez ….um planeta      
Era uma vez  uma nave espacial,  era branca e tinha riscas pretas,
viajava pelo espaço sideral,  entre estrelas, planetas e cometas.
Era uma vez um extraterrestre,  vindo do espaço celeste
e que, há muito, na nave viajava. Tinha um ar estranho, bizarro,
pequeno era o seu tamanho e todo ele gingava.
Tinha umas grossas melenas e usava duas antenas que ao vento estremeciam.
Os olhos mais pareciam os faróis de um autocarro.
Aterrara  num lugar, junto a um imenso mar. Era uma praia dourada,
banhada por  um mar manso  sempre em  recuo e avanço.
De início não viu mais nada. Foi então  que, de repente,  
surgiu bem à sua frente um menino sorridente  com uns olhos cor do céu
que, segundo a mãe dizia, constantemente vivia no reino da fantasia.
Ao ver o extraterrestre todo ele estremeceu.
Mas o extraterrestre, que vinha do espaço sideral,
explicou ao menino que não lhe queria fazer mal.
Contou-lhe então o que vira na sua longa viagem.
Já tinha visto cometas  e estrelas aos milhões, bem  cintilantes.
Uma era o Sol à volta do qual giravam,  
alguns perto, outros distantes, oito distintos planetas.
Um deles, azul safira,  era tão lindo de ver
que logo o extraterrestre decidiu ali descer.
Fez então  uma aterragem e assim pousou na Terra cujo nome não sabia.
Foi o menino quem o esclareceu, o tal menino de olhos cor do céu
e que,  segundo a mãe dizia,   constantemente vivia no reino da fantasia.
Fizeram boa amizade  e, em pouco mais de  um segundo,
o menino embarcou na sua nave. Lá foram o menino e o extraterrestre
que tinha grossas melenas  e usava duas antenas.
Foram dar a volta ao mundo.
Viram uma montanha coberta de neve e, com cuidado, pousaram ao de leve.
Dos ramos das árvores a neve pendia e a paisagem, tão bela, até entontecia.
Tudo era sereno, tudo era tranquilo, apenas avistaram
um gamo e um esquiloque na neve brincavam.
Na dita montanha, já quase no cimo,
nascia um fio de água que era muito fino.
Enquanto descia, engrossava o fio até se tornar num imenso rio.
Salgueiros nas margens davam sombra calma
e  peixes de prata  que na água saltavam,  eram, do rio, a alma.
Era um belo rio muito cristalino que corria ,
corria para o seu destino lá longe no mar.  
E a nave sempre, sempre,  a vaguear
levando o menino e o extraterrestre de aspecto bizarro
cujos olhos lembravam  faróis de autocarro.
Passaram por florestas densas e por planícies extensas,
por cidades com largas avenidas e por aldeias, em montanhas perdidas.  
Viram navios no mar e aviões pelo ar.
Viram o deserto, de dunas  coberto, era muito belo mas com pouca vida.
Só viram camelos numa caravana bastante comprida.
Viram na savana tigres, elefantes, pacatas girafas de pescoços gigantes
e também um leão. Aves aos milhares cruzavam os ares,
cobras e lagartos, rastejavam no chão.  
Passaram por prados cobertos de flores e de  borboletas de múltiplas cores.
Num imenso charco as rãs coaxavame flores de nenúfar,
por cima boiavam. O céu era sempre um céu diferente
mas de rara beleza,  ora azul safira, ora azul turquesa,  
ora muito escuro,ora acinzentado,  isento de nuvens ou muito nublado.
Por vezes cortava-o um arco de cor, era o arco - íris com o seu esplendor.
E a nave lá ia, nos céus vagueava levando o menino
e o extraterrestre que ao andar gingava.
Viram o sol nascente, viram o sol poente, uma maravilha sempre diferente.
Viram,  estremunhada,  a lua acordar  e vaidosa a mirar-se  num lago espelhada.
Mas o extraterrestre tinha que voltar, a hora da partida já estava a chegar.
O extraterrestre de tamanho pequeno, num voo sereno rumou ao destino
levando na nave o dito menino.
Regressaram à praia de onde haviam partido
e já com saudades do que haviam vivido. Era a despedida.
Dos olhos do menino que eram cor do céu,  
uma lágrima tímida pelo rosto escorreu
e no extraterrestre tremiam, tremiam,  
as grossas melenas e as duas antenas.
Muito emocionado, pegou numa delas,  deu-a ao menino.
Quando ouvires um  hino que vem das estrelas, sabes que sou eu.
Comunica comigo.
Então o menino foi à beira mar,  encontrou uma alga da cor do luar,
deu-a ao amigo.
Mesmo à despedida , o extraterrestre  disse para o menino:
Na minha vida  fiz muitas viagens e nunca tinha visto tão belas paisagens. Este é o planeta mais belo que eu vi e sabes porquê?
Tem água, tem ar, que permitem a vida.
Se estragam a água, se estragam o ar um dia o planeta
vai-se transformar  na terra do nada, uma terra perdida  onde nada se vê.
Tu que és um menino e que vais crescer
cuida do planeta, antes que comece a desfalecer.
Deram um abraço, muito apertadinho e o extraterrestre lá partiu sozinho
na nave redonda, branca às riscas pretas,
em busca de estrelas e  de outros planetas.