Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

NOVO BLOGUE

Retomei o blogue que já não usava há anos.

https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/

Dedico-o essencialmente aos mais novos mas todos serão bem vindos, muito em particular pais, avós, encarregados de educação, educadores ...


sábado, 25 de maio de 2019

Redes sociais

As redes sociais nunca me seduziram. Raramente ali “vou”.
A propósito do tema, partilho convosco um texto de Magda Gomes Dias


Bom dia, bom dia,

Hoje recebi um email que ainda não abri mas cujo título era " Facebook já era?" e fiquei a pensar naquilo que já há muito tenho vontade de partilhar contigo.

Há demasiado barulho e ruído. Vejo contas (de instagram, sobretudo) onde se publica todos os dias, até duas vezes por dia. Como se o silêncio não fosse de ouro e como se a paragem momentânea dos likes, dos shares significasse o nosso valor ou a falta dele. Perco a vontade de estar na presença dessas contas e dessas pessoas porque, apesar dos textos longos e profundos, o que "vendem" não bate certo com o que fazem. Oversharing, overtalking e overlikes e, portanto, ausência de silêncio, de tempo, de pausa e lentidão que impedem o mergulho verdadeiro nas nossas vidas reais, com gente de carne e osso. Não bate certo.

Vejo muita gente a apregoar um estilo de vida sensato, equilibrado, com base em valores humanistas até, com uma retórica quase que imaculada mas a forma como o comunica é totalmente o inverso: ansiedade, consumismo, exposição contínua. Como dizia uma amiga minha há uns dias, parece que algumas acordam de manhã a pensar: como é que as pessoas hoje vão gostar ainda mais de mim? O que é que eu preciso de lhes dar para isso acontecer?
E o jogo é dos dois lados. Ora dou às pessoas aquilo que elas precisam para gostarem de mim, ora eu aplaudo, sem pensamento crítico, aquilo que as pessoas de quem eu gosto, acabaram de postar. Só porque sim. E a vida segue...

Tudo serve para filmar e tudo parece ter de ser registado. E por isso mesmo, muito pouco é autêntico. O dedo bate duas vezes na imagem e o coração surge. E com isto surge culpa de não ser tão fantástica, e com isto há cópia para ser igual.

Quando reparas, sabes que a filha mais velha daquela bloguer tem um feitio difícil, que aquela tem um discurso de encorajamento e que a outra tem dois filhos que são top of the top. No meio deste cocktail, desejas ter a casa da primeira, o feed lindo da segunda e dois filhos como os da terceira. Acabas por conhecê-las e perceber que não é nada disso. Como disse uma amiga minha ontem, bluff! A primeira não sabe lidar com a filha porque ela própria é autoritária e o que importa é o "eu, eu, eu!" , a segunda é, na verdade, uma mulher com uma auto-estima baixa, perceptível pelo oversharing e pela construção de uma persona, e a terceira não suporta as falhas dos filhos porque acredita serem as suas. Vidas e pessoas comuns, portanto. Com isto tudo, a coerência é uma palavra que cai em desuso e praticamente desaparece dos dicionários da vida de todos os dias. Acabou-se a intimidade, acabou-se o debate, acabou-se o que é razoável. Tudo são montras, tudo é descartável e o que é hoje já não é daqui a pouco. Só que nos esquecemos que uma vez na rede, para sempre na rede. E é angustiante o caminho que se está a traçar. Aprender a colocar em questão não só o que lemos e o que vemos, como também os sentimentos que tudo aquilo nos provoca torna-se necessário, diria até obrigatório. Para que o debate possa ressurgir, para que a reflexão renasça e até para que o sentido do rídiculo e do questionamento possam voltar à ordem do dia.

Se as empresas têm responsabilidades sociais, contas com muitos seguidores (eu diria todas as contas, até!) deveriam saber que também a têm. Enquanto profissional que trabalha com o digital (e pessoa!) é minha responsabilidade aquilo que comunico e a forma como o faço. O impacto que tenho nos outros aumenta-me a responsabilidade. E eu creio que está na hora de começarmos a pensar na forma como o fazemos e naquilo que podemos estar (todos) a criar.

As minhas inseguranças, os meus medos, a história dos meus apenas a mim diz respeito. Se preciso da validação dos outros, a resposta não está no oversharing, no overlikings...

Fica o convite à reflexão. Para que, no final, não sejamos todos uma grande fraude!

Bom fim-de-semana, gente boa!

Magda

Magda Gomes Dias é formadora nas áreas comportamentais e comunicacionais há mais de 12 anos. Porque sabe que os comportamentos se escolhem e que «comportamento gera comportamento», aborda as questões parentais e da educação positiva através dessa lente. Com certificação internacional em Inteligência Emocional, em Educação Positiva e em Coaching, esta mãe de duas crianças é também a autora do blogue Mum’s the boss e do site ParentalidadePositiva.com Seja nos workshops, nas conferências, nas empresas, no blogue ou até nas suas sessões de Coaching e Aconselhamento Parental, a missão da Magda é entusiasmar os pais para estas temáticas, provando que é possível educar com base no respeito mútuo, desenvolvendo relações felizes e com profundo significado. Educar da cabeça para o coração, e portanto para a felicidade, é o que a move.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

Chico Buarque e o prémio Camões.


O prémio literário mais importante do universo da língua portuguesa distinguiu nesta terça-feira, na sua 31.ª edição, um ícone da música popular brasileira a que faltava a definitiva consagração como escritor. in https://www.publico.pt/2019/05/21/culturaipsilon/noticia/chico-buarque-premio-camoes-2019-1873609
Já varias vezes me referi,  neste blogue, a Chico Buarque de Holanda , nomeadamente
em 2014, com um “post” a ele dedicado https://docaosaocosmos.blogspot.com/2014/06/chico-buarque.html

Prestando uma modestíssima homenagem ao “cantautor” que mais admiro, deixo um  texto publicado em https://www.unicepe.pt/associados/texto_46.html

De Chico Buarque a Julinho da Adelaide...      por Regina Gouveia 

Chico Buarque de Holanda que, segundo consta, aos 20 anos sonhava cantar como João Gilberto, compor como Tom Jobim e fazer versos como Vinícius de Moraes. é, incontestavelmente, um dos maiores nomes da música popular brasileira.
Filho de Sérgio Buarque de Holanda, historiador e jornalista e de Maria Amélia Cesário Alvim, pintora e pianista, viveu sempre num ambiente extremamente rico do ponto de vista cultural. Niemeyer era amigo de seu pai e de certo modo influenciou o seu ingresso no curso de Arquitetura, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Desistiu do curso em 1965 e começou a dedicar-se por inteiro à carreira artística. Em 1966 ganhou o Festival de Música Popular Brasileira com a canção "A Banda".

Além de compositor e cantor Chico é poeta (para além das letras de inúmeras músicas escreveu, por exemplo, Chapeuzinho Amarelo, um livro-poema para crianças), autor de peças para teatro e de livros de ficção como Estorvo, Benjamim, Budapeste, Leite Derramado e O irmão alemão. Prefiro o cantor /letrista/ compositor ao escritor. No entanto, há textos de Chico que considero verdadeiras obras-primas. Um deles, A casa de Oscar, uma homenagem a Niemeyer, pode ser lido aqui. 
http://blogs.odiario.com/wilameprado/2012/12/06/com-belo-texto-chico-buarque-faz-homenagem-a-oscar-niemeyer/. O outro é Leite derramado , um livro que já li e reli...

Mas centremo-nos no cantor /letrista/ compositor. O primeiro disco que eu comprei, sem ainda ter -gira discos, foi um single que incluía Pedro Pedreiro- 
ver imagem no fim-(o segundo foi o Concerto para Cravo n° 1 in Ré Menor de Bach ...) Já possuidora de um gira discos, fui adquirindo vários LP e singles, até o vinil ser destronado pelo CD.
Quer em vinil, quer em CD, a obra de Chico ocupa um lugar de destaque na minha modesta fonoteca.

Embora grande admiradora de Chico Buarque, só há cerca de 3 ou 4 anos ouvi falar de Julinho da Adelaide, um "heterónimo" de Chico que muitas pessoas desconhecem e que foi usado, durante algum tempo, para driblar a censura.

Lançada em 1970, a canção Apesar de você, supostamente um ataque ao Presidente Médici, conseguiu passar a censura prévia. Posteriormente o Governo Militar proibiu a sua passagem nas rádios. Chico passou então a assinar algumas músicas como Julinho da Adelaide. Entre essas músicas contam-se Jorge Maravilha, Milagre Brasileiro e Acorda Amor, aprovadas pela censura sem nenhum impedimento. Em Jorge Maravilha, Chico canta: "você não gosta de mim, mas sua filha gosta", o que gerou a especulação de que a filha referida na canção seria uma sua fã, Amália Lucy, filha de outro presidente militar, o general Geisel. Chico nunca confirmou essa suspeita

Julinho da Adelaide concedeu uma entrevista ao jornalista
 e escritor Mário Prata que pode ser lida em  http://www.chicobuarque.com.br/texto/artigos/opartigo_09_74.htm e da qual retiro um excerto:

(...) Julinho, ao contrário do Chico, não era tímido. Mas, como o criador, a criatura também bebia e fumava. Falava pelos cotovelos (...) 

Tal como em Portugal, a arte em geral e a música muito em particular, foram, no Brasil, uma grande arma no combate à ditadura. A música de Chico Buarque desempenhou aí um papel preponderante. Várias das suas músicas são verdadeiros hinos de resistência à ditadura militar. Para além de Apesar de você, podemos citar Mulheres de Atenas, composta por Chico Buarque e Augusto Boal em 1976 para a peça Mulheres de Atenas de Boal, Cálice (cuja sonoridade cale-se seria uma clara referência à censura e repressão vivida no país) composta em parceria com Gilberto Gil em 1973, Vai Passar, composta por Chico Buarque e Francis Hime em 1979 que foi o hino da Campanha das Diretas, em 1984, Meu Caro Amigo, também em parceria com Francis Hime, composta para o amigo de Chico, o dramaturgo Augusto Boal, exilado em Lisboa. Em dezembro de 1968, Chico Buarque muda-se para Itália onde chegou a realizar espetáculos com Toquinho. Em 1970 regressa ao Brasil

Tenho muita dificuldade em escolher a canção de Chico de que mais gosto. Refiro algumas das preferidas, que são dezenas: Bem-querer, Quem te viu, quem te vê, Notícia de jornal, Permuta dos santos, Amanhã vai ser outro dia, Fado tropical, Construção....

Termino com a letra de Notícia de jornal.
Atentou contra a existência
Num humilde barracão.
Joana de tal, por causa de um tal João.
Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão,
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou.
Errou na dose  Errou no amor Joana errou de João
Ninguém notou  Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal. 


Eis a capa do disco que comprei em 1967, quando ainda não tinha gira-discos.

A este texto acrescento agora alguns vídeos 







quarta-feira, 17 de abril de 2019

Notre Dame de Paris


Há poucos dias referi que um dos escritores preferidos do meu pai era Camilo Castelo Branco. Praticamente  só lia autores portugueses. Abria algumas exceções para autores brasileiros e para o escritor francês Victor Hugo. Na minha juventude li dois livros do auto,r livros esses que herdei e que continuam nas estantes da minha casa da aldeia- Os Miseráveis (não tenho presente quantos volumes) e Notre Dame ( em outras edições tem o título de O Corcunda de Notre Dame )
Ontem, ao ouvir a notícia do incêndio da Catedral, vieram-me à memória algumas personagens e até parte do enredo de cada uma das obras. Como vou amanhã para a aldeia, onde não tenho facilidade de aceder à NET, deixo aqui dois poemas. O primeiro é de Mário de Sá Carneiro   e pode ser lido aqui

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir.. Onde acoitar-me?
Os braços duma cruz.
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar…
Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar…
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos…
Mas o Oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais…
Fico sepulto sob círios —
Escureço-me em delírios,
Mas ressurjo de Ideais…
– Os meus sentidos a escoarem-se…
Altares e velas…
Orgulho… Estrelas…
Vitrais! Vitrais!
Flores de lis…
Manchas de cor a ogivarem-se…
As grandes naves a sagrarem-se…
– Nossa Senhora de Paris!…

O segundo é do autor colombiano William Ospina e pode ser lido e ouvido aqui
https://palabravirtual.com/index.php?ir=ver_voz.php&wid=2667&t=Notre+Dame+de+Par%25EDs&p=William+Ospina&o=William+Ospina

Notre Dame de París

Siempre llegué al amor por caminos de engaño.
Antes de verte, indemne, frente a mí, en los declives
de un verano imborrable, piedra sagrada, fuiste
un vago sueño de arcos y de luz insinuándose
por el cielo inventivo de mi infancia, y al verte
real como mis manos, calladamente cierta,
tu corteza prehistórica se burló de mis sueños:
no eras el sol de piedra que flotaba en la mente.

Dormía allí una roca. La alzaron siglo a siglo
dolorosas estirpes de polvo. Vi en la noche
las puertas asimétricas, las toscas torres truncas,
los flancos floreciendo de demonios sardónicos.
Sólo vi tu apariencia de navío infernal,
tu alto cuerpo amasado por el miedo, y sentí
que efundiendo la lumbre de la superstición
todo lo contagiabas de pavor medieval
como un grito en la música apacible.

No todo en mis alarmas era error, pero luego,
frecuentando tus nichos, tu esplendor, fui entendiendo
que la belleza llega con máscaras atroces,
que a su primer encuentro lo sagrado horroriza.
Sé que da miedo hallar, hecho ya, lo imposible,
que antes de ser pensado, el mismo cielo espanta.

Así como a los mundos que sin saberlo giran
hechizando la noche con sus brasas perfectas,
vi el vuelo de tus bóvedas, la ebria piedra sin peso
flotando sobre el río de la plegaria humana.
Vi los arcos quebrados, las remotas ventanas,
las altas escaleras cuyo rumbo es enigma,
los cristales que quiebran y disgregan la luz.
Lento husmea el sabueso de la mente en las causas,
tras cada ojiva advierte la previa idea, el acto,
y percibe en las cóncavas, exquisitas alturas,
la labor de una sabia multitud invisible.
Veo en un brusco instante hormiguear los siglos:
la piedra rigurosa
se ordena, fiel al sueño de afanosas estirpes,
cruzan picas, plomadas, martillos, sogas, ángeles,
en el aire alabean ecuaciones y andamios
y fe y miedo trenzados alzan la roca mística.

Y una paz misteriosa nos da el saber que el templo
ascendió de las frentes y las manos del hombre,
por la noche el viento, cayendo hacia los astros.
Que algo divino ardía como fiebre en la sangre,
algo que no sabemos y que no preguntamos,
porque el misterio debe durar en el misterio
y es bello para el hombre que algo perdure oculto.

Así aprendí a querer tu compleja estructura,
allí estaba, envolviéndome,
tu cielo acastillado donde aletea la música,
los colores mordidos por la húmeda tiniebla,
la meditada oblicua de la luz en las criptas,
los sepulcros que agrava un lóbrego latín.
Allí estabas, dibujo fiel de la mente gótica,
retrato de una edad hecha de ley y de abismo,
batalla contra el caos perpetuada en la piedra.
Y te amé en esas tardes sin comprenderte, y fuiste
el sitio señalado para el éxtasis
cuando una aciago amor socavaba mi alma.

Ahora, lejos, Basílica, te recuerdo, orgulloso
de haber amado en ti todo lo que perdura.
En la memoria avanzo de nuevo por tu calma,
se ennoblece otra vez mi conciencia en tu música,
algo anterior a mí tiembla en mí contemplándote.
Morosamente busco lo que conozco y amo,
y no sé, al celebrarte,
qué celebro en secreto, más antiguo y más íntimo;
qué obstinado edificio de la mente o la sangre,
como el rostro anterior que un nuevo rostro evoca,
traza con sus hipérboles la memoria inexacta.






segunda-feira, 15 de abril de 2019

Feliz Páscoa 2019




A todos, familiares e  amigos,
desejo  uma Feliz Páscoa

Regina Gouveia, 2019

O silêncio tece o tempo.
Mansos os rebanhos,
plangentes os chocalhos.
A melancolia funde-se com o pó
que se evola do chão.
Esparsa, a sombra dos arvoredos.
Muros de xisto, centenários,
ostentam flores róseas nos silvedos,
anunciando as negras amoras
que aguardam o Verão.
Colho uma.
Tépido, um fio de sangue 
desponta na mão .

Regina Gouveia in Quando o mel escorre nas searas

domingo, 14 de abril de 2019

Efemérides-3


Após a “romagem” a terras de Torga, a que me referi na mensagem anterior, no dia seguinte rumámos a S. Miguel de Seide, prestando homenagem a Camilo,um dos  autores preferidos do meu pai.

Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, em 1825.  Órfão de mãe aos dois anos e de pai aos dez, foi, juntamente com uma irmã, recolhido por uma tia de Vila Real que se encarregou de os educar. Através da tia recebeu uma educação básica irregular, dada por dois padres de província. Uns anos mais tarde, após o casamento da irmã Carolina, foi viver com o casal, nas imediações de Vila Real.
Com apenas 16 anos, Camilo decide, à revelia da irmã, casar-se com uma jovem de 14, filha de lavradores, e instala-se com ela numa casa em Friúme, distrito de Vila Real. O casamento precoce parece ter resultado de uma mera paixão juvenil e não resistiu muito tempo.

Do casamento anteriormente referido e quando o casal já estava separado, nasce uma filha que morre em criança Passa por outra relação, desta vez com Patrícia de Barros,de quem tem uma filha,  mas foi a sua relação com Ana Plácido, assumida em 1859, que o levou a S. Miguel de Seide

A casa foi construída por Pinheiro Alves em 1830, quando regressou com fortuna do Brasil. O "brasileiro" (como era conhecido) casou em 1850 com Ana Plácido, mas cedo se soube da relação extraconjugal desta com Camilo.  
Fugidos,  perseguidos de terra em terra pela justiça, foram capturados e presos na Cadeia da Relação, no Porto. Foram julgados por adultério, mas absolvidos em 1861 pelo pai   de Eça de Queirós, que era juiz .https://www.publico.pt/2013/07/14/jornal/a-terra-ainda-trata-26818977

Foi na cela da prisão que Castelo Branco escreveu Amor de Perdição. Foi também na prisão que conheceu Zé do Telhado a quem se refere em Memórias do Cárcere.
 Em 1863,   após  a morte de Pinheiro Alves, Manuel (supostamente seu filho) herda a casa de Seide e nesse mesmo Inverno,  Manuel, Camilo, Ana Plácido e o filho Jorge recém nascido, passam a habitá-la. Em 1864 nasce Nuno, o segundo  filho do casal.
Em 1877, com apenas 19 anos, morre Manuel Plácido  por quem Camilo tinha grande afeto.
Em 1865  Camilo começara a sofrer de graves problemas visuais.  Esse facto, juntamente com os problemas criados pelos filhos (Jorge, cujos desenhos de um traço límpido e brilhante estão nas paredes da casa, sofria de esquizofrenia, numa época em que não havia grandes soluções para a doença e Nuno  era muito boémio) foram fortalecendo no escritor, a ideia de suicídio

«Foi muito grave o prognóstico da minha doença de olhos; mas hoje está averiguado que é efeito de venéreo inveterado. Sofro há 4 meses uma diplopia (vista dupla). É horrível para quem não tem outra distracção além da leitura. Tarde será o meu restabelecimento; mas, valham-me as esperanças de não cegar, porque isto importava um inevitável suicídio .»  in Dicionário de Camilo Castelo Branco, de Alexandre Cabral, Editorial Caminho, Lisboa, 1988

Em carta enviada ao Dr. Magalhães Machado, o oftalmologista que o acompanhava,  escreve  "Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante quarenta anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego"
A 1 de junho  de 1890, o médico visita o escritor em Seide. Depois de lhe examinar os olhos condenados, recomenda-lhe descanso numas termas e “adia para mais tarde” um eventual tratamento. Quando Ana Plácido acompanhava o médico até à porta, Camilo Castelo Branco, sentado na sua cadeira de balanço, disparou um tiro de revólver na têmpora direita.
Conforme seu pedido, foi sepultado no cemitério da Lapa, no jazigo de um amigo 

Em 1895 morre Ana Plácido que, além de dedicada companheira de vida, foi  também uma fiel companheira de letras. Com ela, Camilo fundou e dirigiu, em 1868, A Gazeta Literária do Porto.

Senhora de espírito e com alguns dotes literários, colaborou em numerosos jornais e revistas (Gazeta Literária, Revista Contemporânea, O Nacional, O Futuro, A Revolução de Setembro, etc.), com artigos e romances em folhetins, que assinava com os pseudónimos de Lopo de Sousa, Gastão Vital de Negreiros ou, simplesmente, A. A
Foi abandonando, pouco a pouco, os seus sonhos de glória literária, transformando-se de “mulher fatal” em esposa e mãe dedicada. Colaborou diligentemente com Camilo, a quem ajudava, investigando manuscritos que lhe serviam de base a muitos romances ou fornecendo-lhe enredos da vida aldeã, colhidos da sua convivência com os camponeses.
Alberto Pimentel (amigo do casal) in “Os Amores de Camilo”

A sua obra mais importante  “A Luz Coada por Ferros”, reúne, além dos artigos publicados em periódicos, algumas novelas originais e divagações em prosa, a maior parte dos quais escrita na prisão.
Ana Plácido está sepultada no cemitério de  Seide

Após um grande incêndio em 1915, a casa de Seide foi reconstruída, mas com algumas alterações. Em 1956 foi inaugurada a Casa-Museu obedecendo à traça original do edifício.
Muito do mobiliário é da época, ainda que só o relógio seja o único elemento que se mantém desde o tempo do escritor. É descrito em Eusébio Macário (1879) com uma precisão tal que se lê como uma paródia aos códigos do Realismo: "Por debaixo da triplicada cornija do mostrador havia uma medalha com uma dama cor de laranja, vestida de vermelhão, decotada, com uma romeira e uma pescoceira crassa e grossa de vaca barrosã, penteada à 

Algumas fotos da casa




Os filhos Nuno e Jorge



Escritório de Camilo
Vista parcial do quarto do casal com uma das camas

Desenhos do Jorge
O cenário que se avista da janela inspirou algumas das obras, nomeadamente  a freguesia de Monte Córdova,  que "emerge" na obra A Bruxa do Monte Córdova


 Na sala de jantar está uma mesa posta para duas pessoas e, ao lado, o soneto “Os amigos” (pensava que tinha fotografado a mesa, mas pelos vistos não)

Amigos cento e dez, e talvez mais, 
Eu já contei. Vaidades que eu sentia! 
Supus que sobre a terra não havia 
Mais ditoso mortal entre os mortais. 

Amigos cento e dez, tão serviçais, 
Tão zelosos das leis da cortesia, 
Que eu, já farto de os ver, me escapulia 
Às suas curvaturas vertebrais.

 Um dia adoeci profundamente. 
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente 
Que não desfez os laços quase rotos.

 - Que vamos nós (diziam) lá fazer? 
Se ele está cego, não nos pode ver… 
Que cento e nove impávidos marotos

Este, um dos poemas de Camilo que ouvi o meu pai dizer, inúmeras vezes, a tal ponto que, inspirada no mesmo, com toda a ingenuidade dos  meus 14,15 anos escrevi:

Amigos tive-os outrora, mas loucos foram-se embora.
Da nossa antiga amizade resta-me apenas saudade.
A eles não resta nada.
Amigos, como os recordo… Em pensamento os abordo,
mas dessa antiga aliança,  resta-me só a lembrança
A eles não resta nada.
Amigos, só de fachada. Vão pela hora calada
Novo rumo, nova estrada  A mim resta-me a saudade,
A eles não resta nada

Duas vistas do exterior da casa 


 













A Igreja, na Praça junto à casa

 

A pós o almoço fomos visitar o Centro de Estudos Camilianos, em frente à casa,  do outro lado da estrada. Compreende um auditório, salas de leitura e de exposições temporárias, gabinetes de trabalho e uma cafetaria. O projecto é da  autoria de Siza Vieira,

Ali se concentra o vasto património camiliano: bibliografia, documentação manuscrita, iconografia e artes plásticas dedicadas à obra do escritor.


Na sala de entrada podemos ver uma evocação de Camilo na cadeira de balanço onde se suicidou e num dos escaparates, várias peças de Fernando Lanhas, alusivas ao escritor





Na sala de exposições está patente,  desde 15 de dezembro de 2018 e até ao próximo dia 28 de abril,  a exposição temporária de artes plásticas “Evocar Maria Moisés”, baseada na obra “Maria Moisés”, de Camilo Castelo Branco


Termino esta mensagem com fotos de duas obras dessa exposição