sábado, 4 de abril de 2015
Ele gostava era do cinema.
O título desta mensagem, fui buscá-lo ao comentário de João Botelho sobre Manoel de Oliveira
"O Manoel estava farto dos filmes – disso que agora só temos nos centros comerciais. Ele gostava era do cinema. Por isso, pegou nos filmes dele e levou-os para o céu”, defendeu o realizador d'Os Maias, reassumindo que lhe deve tudo".
Hoje fui à Casa das Artes ver Lisbon Story filme em que Wim Wenders foi conduzido pelas ruas da capital portuguesa pela mão De Manoel de Oliveira e pela música dos Madredeus.
Deixo dois pequenos excertos do filme, nesta minha modestíssima homenagem ao grande MESTRE.
Termino com um texto meu de 2010, destinado essencialmente ao público mais jovem e ainda não publicado,
Era uma vez …o cinema
Cinema é uma palavra com origem na
Grécia antiga
e
quer dizer movimento.
Desde
há muito, muito, tempo, já nos tempo das cavernas,
o
Homem tentou gravar, com desenhos e pinturas,
cenas
com movimento como a caça e a dança
e,
entre animais, uma briga.
Em
grutas e outros lugares ficaram para sempre gravuras
que,
pela
arqueologia, hoje são muito
estudadas.
Em
Portugal, junto ao Côa existem muitas gravuras,
são
diversas as imagens junto ao rio, em suas margens.
Figuras
humanas, equestres, e muitas outras que tais
como
cervos e bisontes, que andavam pelos montes
estão
nas pinturas rupestres que são pinturas murais.
Mas
há mais….
Com
o teatro de sombras, os povos orientais
simulavam
movimentos de coisas e de animais,
um guerreiro que lutava com um terrível dragão
e
um príncipe que salvava a princesa em aflição.
Também
a câmara escura, uma caixinha fechada
com
um pequeno orifício, divertia muita
gente.
Com
uma vela acesa à frente, na face oposta à furada
numa
imagem projetada surge, de pernas para o
ar,
uma
chama a oscilar
Daqui
à fotografia e ao cinema foi um passo.
Já
eram então conhecidos uns jogos bem divertidos,
jogos
óticos, chamados.
Objetos
desenhados, variando a posição
mas
dentro da mesma ação,
se
forem observados a seguir, rapidamente,
podem
dar
a ilusão de um movimento (aparente).
Se
num lado dum cartão figurar uma pereira
e
no outro lado uma pêra, desenhada e invertida
ao
rodarmos o cartão, vai parecer-nos que a
pêra
de
uma forma divertida, na árvore está pendurada.
As
imagens que nós vemos ficam durante algum tempo
retidas
na nossa mente.
Estamos
a ver a pereira e a pêra simultaneamente,
Como
tal, parece estar daquela árvore
pendente.
Foram
dois irmãos franceses, Lumiére de apelido,
que
inventaram o cinema usando a fotografia….
Hoje
é visto em toda a parte, corre pelo mundo inteiro,
e
chamam-lhe a sétima arte.
Assim
surgiu uma indústria que gera muito
dinheiro.
Após
o cinema nascer e nos primeiros trinta anos
os
filmes não tinham som. Dizia-se cinema mudo,
filmes
cómicos, geralmente, sempre muito divertidos.
Charlot,
um ator inglês um ator surpreendente,
era
muito conhecido.
Com
um bigode aparado e uma bengala na mão,
na
cabeça uma cartola, um fraque mal
ajeitado,
andando
com os pés de lado num papel de trapalhão
fazia
de quase tudo, fazia rir e chorar.
Hoje
há famosos atores e também realizadores.
Um
deles Manoel de Oliveira fica para sempre na história
pois
não existe memória de alguém assim, aos
cem anos,
bons
filmes realizar
e
ter ainda em seus planos, a obra continuar.
A
máquina de filmar, primeiro uma raridade,
é
hoje banalidade e é sempre divertido
vermos através dos filmes toda a nossa evolução.
Aquele
bebé despido sempre a chapinar na água
era
o tio Sebastião que hoje tem bigode e barba.
E
aquela pequenita que usava uma grande
trança,
era
a madrinha Ana Rita que hoje é a mãe da Constança.
Mas
filmar um grande filme, dos que passam em cartaz,
já
é bem mais complicado, nem toda a gente é capaz.
Podem
ser de animação, históricos, de ficção,
todos
eles, sem exceção, implicam dedicação,
estudo, imaginação, trabalho e custo elevado.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
terça-feira, 24 de março de 2015
Bugiada e mouriscada
No
blog anterior, a propósito da minha visita
à Escola da Estação em Valongo, falei da artista plástica Cláudia
Moreira.
(...)A artista plástica Cláudia Moreira, que desconhecia, mas que faz trabalhos interessantes em papel, nomeadamente As Marias, tinha estado na escola a dinamizar,
com as crianças do 1º ciclo, uma workshop sobre bonecas de papel(...)
No dia 21, Dia Mundial da Poesia, foi também dia de inaugurações no quarteirão Miguel Bombarda.
Fui com uma amiga e,quando na Rua do Rosário nos preparávamos para entar na galeria Artes Solar de Sto António, vi em frente, do outro lado da rua, uma montra com várias Marias de Cláudia Moreira, de quem até à véspera nunca tinha ouvido falar...
Entrámos na loja, uma loja bonita no rés do chão dum edifício projetado pelo arquiteto Marques da Silva. A dona da loja mostrou-nos o espaço e falou-nos um pouco das Marias. Mas eu já tinha feito uma pesquisa na NET após me ter sido oferecida, na escola da Estação em Valongo, a Maria que "mostrei"na mensagem anterior.
No dia 21, Dia Mundial da Poesia, foi também dia de inaugurações no quarteirão Miguel Bombarda.
Fui com uma amiga e,quando na Rua do Rosário nos preparávamos para entar na galeria Artes Solar de Sto António, vi em frente, do outro lado da rua, uma montra com várias Marias de Cláudia Moreira, de quem até à véspera nunca tinha ouvido falar...
Entrámos na loja, uma loja bonita no rés do chão dum edifício projetado pelo arquiteto Marques da Silva. A dona da loja mostrou-nos o espaço e falou-nos um pouco das Marias. Mas eu já tinha feito uma pesquisa na NET após me ter sido oferecida, na escola da Estação em Valongo, a Maria que "mostrei"na mensagem anterior.
Ao fazer a pesquisa na NET encontrei vários sites nomeadamente este . Ali deparei com algo de que nunca ouvira
falar, a Bugiada.
Mais uma pesquisa....
A 24 de Junho, nas Festas de S. João de Sobrado há vários espectáculos cénicos na rua nomeadamente uma celebração que simboliza a guerra entre o Bem e o Mal, personificados, respectivamente, por Bugios e Mourisqueiros numa inversão dos papéis tradicionais. O Bem é desordeiro, folião e anarca, enquanto o Mal apresenta uma postura ordeira, aprumada e correcta.
A origem da festa
remonta aos tempos de ocupação muçulmana na Península Ibérica. Depois da
exploração das jazidas auríferas por parte dos muçulmanos, os cristãos passaram
a viver nos vales e dedicaram-se a actividades agro-pecuárias. Esta comunidade
desenvolveu uma grande devoção pela figura de S. João Baptista pois
atribuíam-lhe a cura da filha do chefe cristão.
Quando o rei mouro
se viu numa situação similar pediu, aos cristãos, a imagem do santo milagroso.
Para os convencer, organizou uma festa e uma procissão. Perante a recusa da
cedência da imagem, o Reimoeiro, chefe dos mouros, reteve a imagem à força e,
para os humilhar, sentou-os numa mesa à parte e serviu-lhes restos e imundices.
Foi uma outra tribo
cristã, os Bugios, que os salvou aparecendo mascarados, munidos de ferramentas
agrícolas e a emitir gritos estridentes. A acompanhá-los estava um animal
fantástico, a Serpe, uma espécie de lagarto, para pregar um susto ainda maior.
A Festa da Bugiada e da Mouriscada de Sobrado, que acontece perto de Valongo, conseguiu - e consegue ainda - não sem tensões e contradições, ressignificar-se nas condições da vida difícil dos tempos que correm, nomeadamente junto dos mais jovens. Para muitos vale o que aparece à superfície: uma banal luta entre o bem e o mal. Em Sobrado, porém, não é fácil dizer quem são os bons e quem são os maus. Porque os dois lados habitam cada um, numa tensão que se diria quase irresolúvel. Mais do que de bons e de maus, a Bugiada e a Mouriscada revela-nos, afinal, como pode conviver a identidade com a diferença. Não apenas conviver, mas também vivificar-se.
Inspiração na festa da bugiada e mouriscada
No vídeo que segue podemos ver como, nesta festa, coexistem pacificamente o profano e o religioso
Também no dia 21, uma publicação distribuída no quarteirão citado, fazia referência ao projeto locomotiva que arrancou no final de 2014. Ainda não tinha visitado o espaço pelo que no dia 22 fui, com o meu marido, visitá-lo.
Começámos para tomar café na Rua das Flores, onde agora é um prazer passear e onde vale a pena espreitar a Jóia da coroa.
De seguida fomos visitar o espaço que está a ser criado na Estação de S. Bento.
Aqui ficam algumas imagens
E continuando a falar de cultura, ontem fui visitar, na Fundação Manuel António da Mota, no espaço Bom Sucesso, a exposição nós na arte tapeçaria de Portalegre e arte contemporânea. Acho que vale a pena uma visita
No vídeo que segue podemos ver como, nesta festa, coexistem pacificamente o profano e o religioso
Também no dia 21, uma publicação distribuída no quarteirão citado, fazia referência ao projeto locomotiva que arrancou no final de 2014. Ainda não tinha visitado o espaço pelo que no dia 22 fui, com o meu marido, visitá-lo.
Começámos para tomar café na Rua das Flores, onde agora é um prazer passear e onde vale a pena espreitar a Jóia da coroa.
De seguida fomos visitar o espaço que está a ser criado na Estação de S. Bento.
Aqui ficam algumas imagens
E continuando a falar de cultura, ontem fui visitar, na Fundação Manuel António da Mota, no espaço Bom Sucesso, a exposição nós na arte tapeçaria de Portalegre e arte contemporânea. Acho que vale a pena uma visita
domingo, 22 de março de 2015
Mais uma vez pelas escolas
Nos passados dias 13 e 19 e a pedido da Porto
Editora, estive em várias escolas com
o livro Ciência para meninos em poemas
pequeninos.
No dia 13 estive em Aradas, Aveiro. Estavam
previstas quatro sessões, duas de manhã
e duas de tarde, mas duas das escolas fecharam por causa da greve.
Reorganizado o programa fiz duas sessões de
manhã, em escolas diferentes. Em ambas tive alunos do 1º ao 4º ano, pois face à
crise demográfica que o país atravessa há cada vez menos alunos. Numa das escolas
havia apenas 4 alunos de 1º ano. Por
tudo isto, voltou-se à situação de um
professor com mais que um nível.
Os alunos estiveram muito participativos,
em particular na primeira escola.
Não mostravam qualquer interesse em abandonar a sala, não aparentavam o mínimo enfado, antes pelo
contrário, pelo que a sessão se alongou.
Chegámos à 2ª escola com meia hora de atraso que compensámos ficando um
bocadinho até mais tarde. Em representação de uma das turmas, duas meninas (Carina e Fátima, se a memória não me falha) vieram entregar-me uma flor feita com papel de lustro de quatro cores, que fecha e abre, conforme tento mostrar a seguir.
No dia
19, estive com alunos de três
escolas de Castelo de Paiva: Serradelo, Casal da Renda e Sobrado. Aguardavam-me
não só professores e elementos da
Biblioteca como também da Junta de
Freguesia e da Câmara, nomeadamente o vereador da cultura, com os quais almocei.
Uma vitela deliciosa....
As duas primeiras sessões (às 10 e às 11h) foram nas respetivas escolas e a terceira, às
14 h, foi na Biblioteca de Castelo de
Paiva um edifício novo com bastante luz.
Como recordação, para além do carinho com que fui tratada e do entusiasmo das crianças, a medalha do município
No dia 20 estive na Escola da Estação em Valongo, a convite da escola.
Fiz três sessões com as crianças que tinham sido muito motivadas para a visita.
Numa das sessões as crianças, juntamente
com a professora, começaram por ler o poema poesia, um dos poemas do livro e, de seguida,
leram uma nova versão feita com textos seus.
A artista plástica Cláudia Moreira, que eu desconhecia, mas que faz uns trabalhos interessantes em papel, nomeadamente As Marias, tinha estado na escola a dinamizar, com as crianças do 1º ciclo, uma workshop sobre bonecas de papel. O tema era a poesia e por isso as crianças fariam as bonecas alusivas a autores que escolhessem. Fizeram várias que vão passar pelas escolas do agrupamento, numa itinerância que terminará na Biblioteca de Valongo.
Tive a sorte de ser uma das autoras escolhidas. Aqui está a minha Maria O vestido reproduz a capa do livro Ciência para meninos em poemas pequeninos onde foram inseridos os títulos dos poemas.
Os professores têm o privilégio de lidar com gente nova por isso tendem a manter uma mente jovem-, referiu uma vez Augusto Abelaira num entrevista (as palavras não terão sido exatamente as que escrevi mas o sentido era precisamente o mesmo).
Penso nessa frase muitas vezes, nomeadamente quando vou a escolas donde saio "rejuvenescida"...
sábado, 21 de março de 2015
Tempo de poesia
Só agora, quase a entrar no dia 22,
arranjei uns minutos para falar na celebração do Dia da Poesia. Mas como diz
Gedeão, todo o tempo é tempo de poesia.
Tempo de Poesia
Todo o tempo é de poesia
Desde a névoa da manhã
à névoa do outo dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue
soçobram.
Vidas que a amar se
consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem
vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.
António Gedeão
Incluo também um poema do meu primeiro
livro Reflexões e Interferências (2002)
Exploração
Qual exploradora, parti um dia.
Embrenhei-me na selva da
vida
onde sabia andar escondida a poesia
Encontrei-a
Encontrei-a
na luz ténue do sol ao fim
do dia,
na molécula, no átomo, no
quantum de energia,
nas leis de Newton, no
conceito de entropia.
Encontrei-a
na reflexão da luz, na impulsão no ar,
no cheiro a maresia e nas
algas do mar,
no orvalho, na geada, na
chuva, no luar.
Encontrei-a
no ínfimo e no imenso
que a vista não alcança,
nas rugas dum idoso, no rir
de uma criança,
numa tela, num
concerto, numa dança.
Encontrei-a
no voo da gaivota, na
pétala da flor,
na chama que tremula e se
multiplica em cor
e que irradia energia na forma de calor
Encontrei-a
nas estrelas, nas galáxias
mais distantes,
no olhar apaixonado
daqueles dois amantes,
nos extintos dinossauros de
dimensões gigantes.
Encontrei-a
em medusas, corais, nos fundos oceanos,
no vento a agitar nas árvores os ramos,
em pinturas rupestres com vários milhares de
anos
Encontrei-a
na violeta escondida no
canto do jardim
e no frasco que continha
essência de jasmim.
Tentei então guardá-la só
para mim.
Foi assim que ela se evolou
e de novo eu aqui estou
a procurá-la.
Regina Gouveia
Termino com um poema de uma amiga minha que
acaba de publicar o seu primeiro livro de poesia.
Cultivar o amor
Houve amores que chegaram
outros foram sem querer
muitos deles adormeceram
mesmo antes de morrer,
perdidos e não achados
tantos e tantos também
ficaram atormentados o
coração estilhaçado
não souberam querer bem, o
amor não escolhe idade
aparece sem dizer dá conta
quando instalado
incrustado em todo o lado é
chama de lume a arder
e quando esmorece cedo por
força do mal querer
apaga-se o enamorado dá
lugar a outro ser
que pode ter bom futuro ou
acabar por ali
se não se alimenta - tem
fome está condenado a morrer,
mas se cresce e se prolonga
com força e vivacidade
terá por testemunho a sorte
pode o amor com vontade
dizer olá à verdade
tornarem-se companheiros um
do outro ter saudade,
não basta dizer que sim
para colher no estio
as flores, as folhas e os
frutos é preciso bem tratar
como o amor –
cultivar.
Maria Fernanda Bahia
sexta-feira, 20 de março de 2015
O eclipse
Platero e Eu é um magnífico livro de prosa
poética, escrito por Juan Ramón Jiménez (Prémio Nobel de Literatura, em 1956).
É um livro de afetos, nomeadamente o que une o autor ao seu burrinho Platero. Recebi-o quando tinha
12 anos e já o reli não sei quantas vezes.

Um dos textos relata consequências de um
eclipse total do sol a que o autor, quando jovem, assistiu na sua aldeia andaluza
METEMOS
as mãos nos bolsos, sem querer, e sentimos na fronte o fino palpitar da sombra
fresca, como quando se entra num espesso pinhal. As galinhas recolheram ao
poleiro, uma a uma. Em redor, o campo enlutou o seu verde, como se o véu roxo
do altar-mor o cobiçasse. Viu-se, branco, o mar longínquo; e algumas estrelas
brilharam, pálidas. Como iam trocando brancura por brancura, os terraços! Nós,
que lá estávamos, gritávamos, uns para os outros, ditos mais ou menos engraçados,
pequenos e escuros naquele silêncio reduzido do eclipse.
Olhávamos
o sol com tudo: com os binóculos de teatro, com o óculo de grande alcance, com
uma garrafa, com um vidro fumado. E de toda a parte: da varanda, da escada da
cerca, da janela do celeiro, da porta do pátio, pelos seus vidros escarlates e
azuis...
Ao
ocultar-se o sol (que, um momento antes, tornava tudo duas, três, cem vezes
maior e melhor com as suas complicações de luz e ouro), tudo, sem a longa
transição do crepúsculo, ficava só e pobre, como se se tivesse trocado ouro primeiro,
e depois prata, por cobre. A aldeia parecia uma pequena moeda ferrugenta e sem
valor. Que tristes e pequenas as ruas, as praças, a torre, os caminhos dos
montes!
Platero
além, na cerca, parecia um burro menos verdadeiro, diferente e recortado; outro
burro...
A minha neta Marta (4 anos) que ontem jantou em minha casa, logo que chegou começou a falar-me do eclipse e fiquei espantada como a miúda o explicava. Com as mãozitas figurava a terra e a lua. O candeeiro era o sol. Dobrando uma mãozita e mantendo a outra aberta.mostrava a sombra da primeira sobre a segunda. E a propósito disso começou a falar de planetas, de estrelas...Comentei: Tenho uma neta fantástica. Ela retorqui: Eu tenha uma avó fantástica. E logo de imediato completou. Eu tenho duas avós fantásticas. São as melhores do mundo. Nâo, são as melhores da galáxia.
Contrariamente ao irmão que, no infantário, teve uma educadora muito fraquinha, a Marta tem uma educadora muito boa, que os estimula muito e que ela adora.
A terminar coloco um excerto do meu livro "Pelo sistema solar vamos todos viajar" e que se refere aos eclipses.
quarta-feira, 11 de março de 2015
A educação em Portugal, pelas ruas da amargura...
.
Conforme tem sido noticiado, os
clínicos que se desloquem para as zonas mais carenciadas, onde há falta de
profissionais, podem vir a receber mil euros a mais nos seis primeiros meses de
trabalho.
A partir daí, o incentivo descerá
para os 500 euros, que passará para 250 euros nos meses seguintes, até
completar cinco anos de contrato.
Além disso, faz parte dos planos
do Executivo garantir a transferência dos filhos dos clínicos de escola e
ajudar os cônjuges a encontrar emprego.
Mas há mais: para o caso dos
médicos que trabalhem em mais do que uma instituição de saúde, com uma
distância de mais de 60 quilómetros entre si, poderá haver ajudas de custo no
valor de 200 euros diários.
Nada tenho a objetar no que se refere a estes
incentivos, antes pelo contrário.
Indigna-me, isso sim, que neste país haja licenciados de 1ª, 2ª , 3ª ,etc, etc, etc. Por isso ponho à vossa reflexão excertos
dum texto que podem ler aqui e
que foi extraído do livro "Da Educação dos Príncipes", de António
Mouzinho

(...)Não vale a
pena estar aqui a listar números com muitos algarismos: basta afirmar que a
remuneração de uma elite que tem como ocupação ensinar os nossos cidadãos não
pode comparar-se muito desfavoravelmente com as profissões liberais. Ou
quaisquer profissões. E é
escusado dizer que não pode reger-se por uma equivalência com tabelas da função
pública: a profissão de professor é específica, e essa especificidade deve ser
clara, também, no capítulo da carreira— que se quer longa, sem sobressaltos, em
benefício da comunidade, com vantagens comummente reconhecidas na economia de
qualquer nação.
(...)Claro que há necessidade de tornar atrativos
os lugares mais afastados dos grandes centros urbanos, o que significa que
haverá que pensar em alguns apoios para instalar o professor e a família que
queiram aceitar a vida na província, no par de anos que corresponde à
integração no terreno. Qualquer empregador privado inteligente faz isso.
Qualquer empregador privado faz mais outra coisa: explica minuciosamente, a alguém
que esteja a contratar, para o que é que precisa dele, e onde.
E abre concurso para uma vaga em Valença, não abrindo um
concurso para uma vaga nacional para, de seguida, surpreender o contratado
algarvio com uma posição no Minho… que ele não pode recusar sem penalizações(...).
Licenciada
em Físico-Químicas lecionei dois anos
antes de ingressar em estágio. Tive um orientador excecional pelo que,
profissionalmente, o estágio me fez crescer muito. No final do estágio fiz
exame de estado. Já com exame de estado, várias vezes as minhas aulas foram
observadas pelo Inspetor Túlio Tomás que andava pelas escolas e assistia
essencialmente às aulas dos mais jovens, fazendo críticas construtivas, dando
sugestões, etc
Assim se formavam os professores. E assim se avaliavam.
Fui professora de Física e Química 39 anos, 29 dos quais como orientadora de estágio e 10 acumulando com a docência da Didática da Física, no mestrado em Física para o ensino, na FCUP. A par da docência fiz investigação em Didática da Física e da Química. Tive oportunidade de contactar com formadores de outros países, que consideravam exemplar o nosso sistema de formação de professores.
Mas voltemos ao texto de A.Mouzinho
(...)a escolha de um docente deve ser feita por um
processo exigente de entrevista, e estágio: os estágios pedagógicos
tradicionais sempre tiveram a seguinte virtude: falava-se essencialmente de
didática das disciplinas, os estagiários observavam aulas de um professor
experimentado, e as dos colegas; as suas aulas eram observadas num prazo
extenso.
(...)os estágios, seguidos dum período
probatório, envolveriam, na sua essência, aquilo que a investigação científica
mais recente estivesse a fornecer quanto a práticas de sala de aula e de
avaliação de conhecimentos dos alunos: teoricamente — em seminários, etc. — mas,
igualmente, em contexto de sala de aula... Envolveriam, por outro lado, maciçamente, didática das disciplinas
ministradas...
A
avaliação dos professores nem sempre foi adequada mas não o é certamente com as medidas ridículas e sem
qualquer sentido propostas pelos Ministérios da Educação dos dois últimos governos
(...) um mestre na
arte de fabricar sapatos só pode ser reconhecido no exercício dessa atividade,
pelo que convém que também a exerça; o mesmo se poderá dizer de um pintor, ou
de um cozinheiro; de um músico, ou de um ator; de um serralheiro, ou de um
arquiteto.
Aos
sessenta anos e com 39 anos de serviço, aposentei-me, desgostosa por ver o rumo que
levaram a formação de professores e consequentemente a docência.
Infelizmente não vejo os nossos políticos
minimamente interessados em investir numa educação de qualidade.
Cito mais uma vez António Mouzinho
(...)Um plano de
educação novo só pode começar a produzir efeitos em dez a vinte anos, pressupõe
colaboração entre quem chega e quem está, e condições de transição equitativas,
sólidas e muito pacíficas.
Não é para mágicos da política munidos de conversa,
pressa, e palavras como «abracadabra». É para políticos sérios, e vai sendo
tempo de eles surgirem, porque a forma como sucessivos ministérios tentam
ocupar primeiras páginas de jornais com gabarolices relativamente ao último
Pisa que correu bem, por exemplo, devia enchê-los de vergonha. Pessoalmente,
tenho-me sentido sempre constrangido: por quem é que essa gente nos toma? Que arrivismo
embaraçoso! :
um posto definitivo num lugar da estrutura educativa é merecedor de respeito:
aí, sim, o professor é-o com todas as prerrogativas, e todos os privilégios.
Tem direito a estabelecer os fundamentos de uma vida de ensino e uma vida privada
sem ser agitado por fenómenos espúrios como concursos sucessivos, colocações
compulsivas, horários zero, tarefas inadequadas de feição administrativa, e
toda a carga de trabalhos e reuniões inúteis que hoje em dia é considerado
normal infligir a docentes — com o pretexto de que estão lá e o Estado tem a
obrigação regular de chocalhá-los.
Uma
educação de qualidade passa necessariamente por condições de trabalho, no
mínimo razoáveis
(...) os horários devem ser— em qualquer idade— razoáveis; as
pessoas devem ter a noção de que (a menos que se trate de vigiar uma turma que
faz um teste, ou coisa semelhante) um professor aplicado que dá quatro aulas de
enfiada, com uma hora cada, fica cansado. Muito cansado.
(...)O resto poderá ser um conjunto variado, dependendo dos
projetos de escola, ou pessoais, em que o professor esteja envolvido, mas a
componente letiva deverá ser essa— e, admito, sem grandes diminuições com o
passar dos anos; um limite mínimo de 14 a 16 horas é aceitável: como é natural,
é aquilo que alguém que escolheu esta profissão mais gosta de fazer.
Uma educação de qualidade implica também alguma liberdade de ação por parte dos professores
(...)dadas as orientações do curriculum nacional,
particularizadas nos programas das disciplinas, assentemos nisto: o professor
deve ser totalmente independente na organização das matérias e das suas aulas.
Pode, e deve, trabalhar com os colegas para apontar caminhos dentro da sua
escola. Mas em matéria pedagógica aceita sugestões, estabelece consensos— não
precisa de ordens.
(...)Demasiados
conselhos pedagógicos de demasiadas escolas portuguesas ganharam o mau hábito
de intervir (com a cobertura das leis da gestão dos estabelecimentos de ensino)
nos projetos de trabalho dos seus professores.
São, geralmente, incompetentes pedagógica e
cientificamente para o fazer, porque são corpos de representação disciplinar
reduzida, porque são designados pela direção, e porque não possuem qualquer
preparação que lhes empreste bigodes de metodólogos.
Que fique a seguinte conclusão, entretanto: é pela
qualidade dos professores que se garante a qualidade do ensino; é por aí que se
deve iniciar um projeto educativo, e ai do país que pense que isto pode
representar um gasto excessivo ou um desvio de coisas mais prementes:
instalações, novas tecnologias, novas pedagogias ou o que quer que seja.
Sem grandes professores não há um grande ensino; sem
este, não temos um grande país.
Termino
citando Carlos Fiolhais
(...)
e ao contrário do que pensam os burocratas do Ministério da Educação, penso que
os professores são a mola real do ensino. É necessário que seja restaurada a
confiança neles:
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