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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Em Louvor das Crianças


Em Louvor das Crianças  
Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.

O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.


Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'
  
A ideia de colocar este texto surgiu após ter visto, por acaso,  na NET  um vídeo, de cujo texto deixo alguns excertos (transcrevendo-os conforme estão escritos)

Olá, sou Severn Suzuki.
Represento a ECO, a organização das crianças em defesa do meio ambiente (…)
(…)Estou aqui para falar em nome das gerações que estão por vir. Estou aqui para defender as crianças com fome, cujos apelos não são ouvidos.
Estou aqui para falar em nome dos incontáveis animais morrendo em todo o planeta, porque já não têm mais para onde ir.

Não podemos mais permanecer ignorados!
(…)Sou apenas uma criança e não tenho soluções, mas quero que saibam que voces também não têm.
Voces não sabem como reparar os buracos da camada de ozônio!
Voces não sabem como salvar os salmões das águas poluídas!
Voces não podem ressuscitar os animais extintos!
Voces não podem recuperar as florestas que um dia existiram, onde hoje é deserto.
Se voces não podem recuperar nada disso, então por favor: parem de destruir!

(…) Sou apenas uma criança, mas sei que esse problema atinge a todos nós e deveríamos agir como se fossemos um único mundo, rumo a um único objetivo.
Apesar da minha raiva, não estou cega. Apesar do meu medo, não sinto medo de dizer ao mundo como me sinto.
No meu país, geramos tanto desperdício, … compramos e jogamos fora,… compramos e jogamos fora,… e os países do Norte não compartilham com os que precisam. Mesmo quando temos mais do que o suficiente!!! Temos medo de perder nossas riquezas, medo de compartilhá-las.
(…)  Há dois dias aqui no Brasil ficamos chocados! Quando estivemos com crianças que moram nas ruas,.. ouçam o que uma delas nos contou:
“Eu gostaria de ser rica e se fosse, daria a todas as crianças de rua, alimentos, roupas, remédios, moradia, amor e carinho.”
E se uma criança de rua que não tem nada, ainda deseja compartilhar, porque nós que temos tudo somos ainda tão mesquinhos???

Não posso deixar de pensar que essas crianças têm a minha idade e que o lugar onde nascemos, faz uma grande diferença.
Eu poderia ser uma daquelas crianças que vivem nas favelas do Rio (Rio de Janeiro –BR). Eu poderia ser uma criança faminta da Somália. Uma vítima da Guerra do Oriente Médio ou uma mendiga da Índia.

Sou apenas uma criança, mas ainda assim sei que se todo o dinheiro gasto nas guerras fosse utilizado para acabar com a pobreza, para achar soluções para os problemas ambientais,… que lugar maravilhoso a Terra seria!!!
Voces adultos, nos dizem que voces nos amam. Eu desafio voces!
Por favor: façam as suas ações refletirem as suas palavras!

Obrigada.

Ao ler este depoimento lembrei-me dos desenhos das crianças campo de Concentração de Terezín, durante a 2ª guerra mundial, e que constam de um acervo  no primeiro andar da Sinagoga Pinkas em Praga.. Os desenhos impressionam muito por retratarem através da subtileza e inocência das crianças uma época de horror absoluto.


A exposição tem sido exibida em vários países, nomeadamente no Brasil

Enquanto  escrevia esta mensagem lembrei-me de alguns poemas meus publicados em Reflexões e Interferências
Aqui ficam dois.

Mina

Mina faz lembrar minério,
e também algum mistério,
naquelas muito profundas,
e muitas vezes imundas,
onde espreita frio e cru
o perigo do grisu.
Mina, lembra ouro, diamantes,
e as condições degradantes
em que se extraem da terra.
Mina também lembra guerra
com todo o horror que  encerra.
Gimbi, menino de Angola,
não vai mais jogar à bola
pois ficou estropiado,
sem as pernas, mutilado,
ao pisar em chão minado.

Hipocrisia

Lactarius deliciosus.
Não sei se foi Lineu
quem o nome lhes deu.
Eu,
no meio do pinhal,
com gestos suaves, subtis, 
vou-as colhendo uma a uma.
São as sanchas, frágeis, delicadas,
como que envergonhadas, 
por baixo da caruma.
Chapéu e pé em tom alaranjado,
já em pequenina,
a medo, eu  as colhia
pois sabia
que mesmo ali ao lado,
outros cogumelos,
alguns muito mais belos,
teciam seus ardis.
Insidiosos, perigosos,
escondem em si a muscarina,
a psilocibina,
tanta, tanta  toxina,
tantas vezes fatal.
Tal qual a hipocrisia
nos humanos,
desumanos,
antes eu diria,
que enchem a boca com a democracia
e a globalização, 
visando um  mundo novo,
enquanto vendem armas para matar o povo
que subjugam pela exploração.

1 comentário:

  1. Esta Entrada é uma pedrada no charco e confesso que ainda estou a digerir toda a mensagem. Passei horas com os meus netos hoje e vi com os meus olhos como são lindos, puros e inocentes. Que me dera que nunca crescessem. :)
    O Daniel que adora futebol veio aqui ver o jogo do Porto comigo e disse-me : Nãõ há muitas avós que vejam futebol com os netos. Tu és especial, Vóvó, mas não é só por isso!

    O texto de Eugénio de Andrade é lindo, arrepia...mas o depoimento da criança no vídeo deixa-nos de rastos.

    Fiquei contente com a notícia de que a Isabel Jonet foi escolhida para levar a chama Olímpica para Londres. É uma grande Mulher. Fossemos todos asssim....

    E os teus poemas.. que dizer? ...tb são especiais como TU.

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