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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Sobre o medo


Uma amiga enviou-me vídeo fantástico: uma intervenção de Mia Couto numa conferência sobre Segurança
Enquanto o ouvia, fui-me lembrando de alguns poemas publicados no meu 1º livro de poesia Reflexões e Interferências, editado em 2002. Aqui deixo dois.

Ausência

Hoje não estou para ninguém.


Se alguém telefonar, nem que seja algum ministro,


(como se fosse vulgar algum ministro ligar...)


digam só que eu não existo, ou então fui viajar,


que ando à deriva no espaço, que estou morta de cansaço.


Sentada no meu terraço, hoje não estou para ninguém.


Quero ver o pôr do sol, mais logo, ao entardecer,


quero ver Vénus nascer e a lua desabrochar.


Quero dormir ao luar, é noite de lua cheia.


Quero ter como lençol este céu que me rodeia,


um céu de estrelas pejado.


Quero ver a estrela polar, Marte, Júpiter, Dragão


Cassiopeia, Leão, quero ver estrelas cadentes,


correndo no céu estrelado brilhando, muito luzentes.


Quero sonhar com pulsares, com galáxias, quasares,


e à luz das constelações embriargar-me de amor.


Quero esquecer meus pesares e todo este amargor


que por dentro me consome ao pensar que ainda há um ror,


são oitocentos milhões, de gente que passa fome.



Tchador

Déboras, Irinas, Svetlanas


ucranianas,  sul- americanas, não importa.


Partiram em busca de uma porta


que lhes desse acesso a melhores vidas.


e acabaram ludibriadas,  iludidas, nas mãos de proxenetas.


São traficadas, são exploradas, vezes sem conta são violadas


e quando, apesar de jovens, acabadas,


são abandonadas, jogadas nas sarjetas.


Sandras, Bintas, não importa o nome,


a vida deu-lhes até hoje violência e fome.


Aquela com onze anos, tão menina, de uma outra menina já é mãe.


Por certo é a primeira boneca que ela tem.


E nos olhos, em vez de ódio e de revolta, uma lágrima solta,


enquanto embala a filha com amor.


Aquela outra ali é argelina, talvez a "pietá" que correu mundo.


Nos olhos um desgosto tão profundo, maior que o próprio mundo.


E aquelas outras das quais não vejo o rosto


que, se doentes, não podem ser tratadas,


que são impuras, se desvirginadas,


que se forem violadas poderão por castigo ser queimadas?


O que dirão os seus olhos por baixo do tchador?


Humilhação? Desgosto? Resignação? Rancor? Talvez revolta?


Se eu um dia usar tchador por meu querer


acreditem que não é para me esconder


é só para tentar não ver  tanta injustiça, tanto horror,


tanto fanatismo, tanta dor, neste mundo cruel à nossa volta.


4 comentários:

  1. Conheço este poema e diz-me muito. Há laguns momentos em que também me apetece esconder de todos - até da família - e isolar-me no meu casulo...não é bem por medo, é mais desgosto,desiluaão, cansaço.

    Bjo

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  2. Um beijo Regina. Parabéns pela beleza e conteúdo dos seus poemas que eu já conhecia, aliás,em especial o primeiro que considero muito ,muito bom.
    Estive 3 dias no Alentejo, com a UPP. Estou cansada mas encantada.
    Mais um beijo.

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  3. Regina
    Esqueci-me de dizer que vi o video em que Mia Couto fala sobre o medo, de que gosetei muito. Obrigada por me ter dado essa oportunidade que, de outro modo, talvez me escapasse.
    Um beijo.

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  4. Sobre o video de Mia Couto,que continuo a achar muito bom, há umas poucas palavras que o desvirtuam um pouco. Alguém me chamou a atenção para isso.São as que se referem ao velho avô que, apesar de tudo, ainda tem muito para dar porque as contradições sociais até tendem a aumentar.
    Mas o texto é lindo e contem muitas verdades.

    Um beijo.

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