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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Encontros e desencontros. (Em crioulo Na Kontra Ka kontra)

Como já tinha aqui anunciado, no dia 13 de Setembro decorreu, na casa da Cultura de Alfândega da Fé, a apresentação do livro Na Kontra Ka Kontra de Fernando Gouveia bem como a inauguração da exposição, Memórias paralelas da Guerra Colonial.

Deixo imagens que podem ver aqui bem como alguns excertos da apresentação que fiz do livro
Excertos da apresentação

Da génese deste livro dá-nos conta o autor no prefácio

(…)Tentei afastar-me das lembranças da guerra da Guiné(…)
(...)Porém, ao fim de quarenta anos tive, por acaso, conhecimento do Blogue “Luís Graça e Camaradas da Guiné”. (…)Há cerca de ano e meio, a convite de Luís Graça, administrador do Blogue, fui instado a escrever meia dúzia de estórias da minha vivência na guerra na Guiné (…).

A publicação no blogue levou o autor a reencontrar amigos e a conhecer outros
(...)Ao fim de uns meses de sã convivência(...)  tomei conhecimento que um grupo, com cerca de trinta camaradas, estava a organizar uma ida à Guiné. Logo me começaram a “desencaminhar” no sentido de ir com eles de carro, África abaixo(...).
(…)Fui de avião, por recear que a minha coluna não aguentasse(…)
(...)Fui, e sabendo o que sei hoje, arrepender-me-ia para sempre se não tivesse ido (…).

A justificação do título do livro, e não só, dá-no-la o autor na página 16

Por mais rocambolescos que pareçam os factos(...)foram realmente vividos pelas personagens, só que, para não haver quaisquer constrangimentos por parte de qualquer interveniente, se optou por ficcionar um pouco a saga(…)
(...)Embora nos primeiros episódios, pareça tratar-se de uma estória da guerra colonial, com o seu desenvolvimento vai tornar-se numa sucessão de encontros e desencontros (NA KONTRA KA KONTRA) amorosos, e não só(…).


Nesta estória, cruzam-se memórias indeléveis, do autor e de outros, envolvendo várias personagens, nomeadamente guineenses que aos olhos do autor representam um povo a quem o livro é dedicado.
E nesta dedicatória não há apenas palavras vãs. O lucro da venda reverte integralmente para as crianças da Guiné Bissau que também eu recordo com imnesa saudade.

E a propósito das minhas recordações da Guiné, incluo o poema telejornal (in Reflexões e Interferências)

Telejornal

Vejo o Telejornal no canal dois
A apresentadora fala da BSE, de clonagem, do Kosovo e, logo depois,
de um acidente no Cais do Sodré e da instabilidade na Guiné.
E eu empreendo no tempo uma viagem...
O Braima, a Binta, o Adrião, onde andarão neste momento?
Conheci-os em Bafatá, há muito tempo, iam buscar o "cume" no fim da refeição.
Recordo os seus olhos vivos de crianças pele negra, dentes alvos, sem igual
os passos apressados quando o vento anunciava em breve um temporal
Eu era aluna e eles mestres do crioulo de que mal guardo lembranças.
Das mulheres, recordo as suas vestes fossem mulheres grandes ou "bajudas"
no tronco, eram em geral desnudas, presos na cinta panos coloridos
que, de compridos, chegavam quase ao chão.
Algumas eram de tal modo belas que pareciam extraídas de telas
Recordo, servindo-me o café, o Infali com aquele seu olhar tão doce e triste
talvez o ar mais triste que eu já vi.
Será que o café ainda existe?
Recordo aquele condutor, o Mamadu, mostrando com orgulho o seu menino
Que terá feito deles o destino?
Recordo os passeios na estrada do Gabu, os mangueiros, os troncos de poilão,
a mesquita, o mercado, a sensação de paz que tudo irradiava,
apesar do obus de Piche que atroava, apesar da maldição da guerra
cujo espectro por cima pairava.
Recordo ainda o cheiro e a cor da terra, o Colufe e o Geba sinuosos
onde canoas esguias deslizavam, recordo macaquitos numerosos
que entre os ramos das árvores saltavam enquanto que lagartos, preguiçosos,
ao sol, pelos caminhos se espraiavam e uma miríade de insectos buliçosos
ao nosso redor sempre volteavam.
Recordo o batuque daquele casamento
Na foto ficou bem impresso o momento em que o dançarino fazia um mortal
numa fantástica expressão corporal
Foi lá na Ponte Nova, naquela tabanca onde de azul se coloriam panos
que as mulheres usavam em volta da anca e que desciam quase até ao chão.
Tudo isto se passou há muitos anos.
A apresentadora fala agora em danos causados por uma longa estiagem
e mostra uma desértica paisagem.
Eu regresso da minha viagem e tento organizar o pensamento.
O telejornal está quase no final. Deve seguir-se a previsão do tempo.

3 comentários:

  1. Não me lembrava deste seu poema. É muito lindo.

    Um beijo, Regina.

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  2. Fantástico poema, Regina, como surpreendente é o romance do teu marido. Já te dei a minha impressão, é uma narração viva e comovente, real e ficção, simultaneamente. É bom criar alguma coisa e se todos tivéssemos possibilidade disso, todos teríamos palavras a dizer...
    Um abraço ao Fernando e Parabens!

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  3. A Guiné deixou em nós marcas indeléveis
    Ab
    Regina

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