Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 18 de setembro de 2011

Ainda a "reportagem" de férias

Após a partida de filhos netos e noras, a minha amiga Ana Maria foi passar uns dias connosco. Foi de autocarro. Fui esperar a chegada do mesmo, uns dias antes às 18 h,  para, junto do motorista saber pormenores: local e horário de partida do Porto, hora de chegada e de partida de Macedo de Cavaleiros. Não precisei de perguntar ao motorista. A sair e a caminhar com muita dificuldade, vinha o Sr. Simão com uma mala.
Então foi passear, perguntei?


Fui ao Porto, parti daqui ontem às 7 h da manhã e estou a regressar hoje; parti de lá às 13. Ontem fiz 87 anos e fui festejá-los com os filhos e netos.

É fantástico aquele senhor; as pernas ajudam pouco mas mesmo assim todos os dias vai ver a sua horta e é frequente vê-lo sentado à porta de casa a ler….

Passei as informações à Ana Maria e passados uns dias aguardava-a na paragem..

Fomos ao Rio Sabor (diz-se “Sábor”), ao Santo Antão da Barca (que vai “mudar de lugar”por causa da barragem que tanta polémica tem causado), à vila, com paragem no Casa da Cultura Mestre José Rodrigues e no Café do Castelo, à estalagem/SPA da Senhora das Neves, de onde se avista uma paisagem deslumbrante. Fizemos algumas caminhadas e “escachámos” amêndoa
A faina da escacha (hoje extinta) é uma das tarefas que recordo com mais saudade. A ele me refiro no livro Estórias com sabor a Nordeste e no poema Nostalgia (in Magnetismo terrestre)

(...)De todos os sons, o que mais recordo é o da escacha da amêndoa. Foi sempre a tarefa que mais me seduziu. Talvez porque eu tomava parte activa nela. Ainda hoje guardo o meu escachador. Era pequenino, cilíndrico e mais perfeito que qualquer outro. A escacha da amêndoa era feita no pátio de baixo. Previamente a amêndoa era escabulhada no mesmo pátio e ensacada. Era dos sacos que as escachadeiras (neste trabalho havia essencialmente mulheres) tiravam punhados de amêndoas que mantinham na mão esquerda. Essas amêndoas eram colocadas, uma de cada vez, sobre uma cova numa pedra, e fixadas entre o polegar e o indicador da referida mão. Com o escachador, usado com a mão direita, partia-se a casca da amêndoa deixando o grão, umas vezes intacto, outras vezes com pequenas mazelas. O grão ia sendo deitado, primeiro para o avental e, posteriormente, para sacos. Era bonito ouvir o som dos vários escachadores, umas vezes em uníssono, outras vezes não. Mas o que eu mais gostava de ouvir, eram as conversas, as histórias, as adivinhas, os provérbios, as cantigas com que se iam preenchendo os serões da escacha. Lembro-me de uma noite em que, ao desafio, se iam dizendo provérbios encadeados.


 No poupar é que vai o ganho .......Grão a grão enche a galinha o papo....... Há quem poupe no farelo e esbanje na farinha.....Vale mais quem Deus ajuda do quem cedo madruga, .....Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer....A conversa é como as cerejas...... Que se comem em Maio ao borralho.


Lembro-me também das adivinhas:


 Alto está, alto mora, todos o vêem, ninguém o adora....Verde foi meu nascimento, mas de luto me vesti, para dar a luz ao mundo mil tormentos padeci.... Destas e de muitas outras (...).



Nostalgia


Quando passo num amendoal, após o verão,


sinto um misto de nostalgia e emoção


ao ver a amêndoa abandonada nas árvores e no chão.


Outrora significou prosperidade e eram guardados os amendoais


para garantir que os rebusqueiros não rebuscavam demais,


que rebuscavam só no chão, à claridade, só de dia e não ao lusco-fusco.


Hoje, já ninguém anda ao rebusco.


No Verão, sob um sol abrasador, era a apanha.


Hoje fica nas árvores e cai na terra que a arrebanha e com ela se funde;

confundem-se os seus tons. Da escacha já há muito não se ouvem sons.


Os escachadores ora em uníssono, ora desfasados, habilmente manejados


com gestos secos, certeiros e breves por mulheres, crianças, raparigas,


que enchiam o ar de risos e cantigas, iam partindo a amêndoa,


sempre cadenciados, deixando o grão intacto ou com mazelas leves,


enquanto das cascas, o monte crescia no chão.


Mais tarde, a par da lenha, na lareira, iriam servir para combustão.


O grão ia para sacos de serapilheira. Mais tarde era vendido


e o seu destino era assim perdido.

Aquele que ficava imperfeito, esbotenado,

iria ser, mais tarde, laminado,

misturado com ovos e açúcar, nos rochedos

cujas receitas eram envoltas em segredos e cuja doçura ocultava a agrura


de tanta fadiga e de tanto suor.


Eram a lavra, a limpa, a enxertia, ano após ano um ritual que se cumpria


e quando floriam as amendoeiras, o lavrador contemplava


do cimo das ladeiras aqueles véus de noiva a perder de vista,


não com o olhar breve de um turista,


mas com um profundo olhar, cheio de amor.

4 comentários:

  1. Que bom ter a Ana Maria como companhia. É uma pessoa especial de quem gosto muito também.
    Bjo

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  2. Temos que combinar uma ida tua lá acima
    Um ab
    Regina

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  3. Olá Regina
    Era o trabalho artesanal de homens e mulheres que dele faziam o seu modo de vida, mas que hoje está tão abandonado.
    A amêndoa é uma das riquezas de Portugal.Porque fica nas árvores e as pessoas têm que emigrar?
    É triste.

    Um beijo.

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  4. Tem toda a razão Graciete mas este país chegou a um estado tal que não vejo grandes saídas...
    Bjs
    Regina

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