Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

NOVO BLOGUE

Retomei o blogue que já não usava há anos.

https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/

Dedico-o essencialmente aos mais novos mas todos serão bem vindos, muito em particular pais, avós, encarregados de educação, educadores ...


domingo, 1 de maio de 2016

De 25 de Abril a 1 de Maio

Passaram já 42 anos sobre o 25 de Abril de 1974. Recordo como se fosse hoje a ansiedade que de início pairou enquanto não se soube ao certo o que tinha acontecido. Recordo-me também das explosões de alegria que surgiram depois,  bem como do Hino do MFA que ecoava por todo o lado.


Não sei se no próprio dia, se num dos  dias seguintes,  fui ao café e levei os meu filhos, o Nuno ao colo, ainda não tinha um ano, o Miguel já pela mão. O hino ecoava no ar e nós "trauteávamos" cada um à sua maneira.
Depois começaram a surgir as decepções de que Chico Buarque nos deu conta


Passados 42 anos, sinto uma grande tristeza por toda a corrupção que se instalou no país mas como sou optimista, tenho alguma esperança que agora as coisas melhorem.

Sempre ouvi  o meu pai falar de corrupção quando se referia ao Brasil, onde viveu cerca de 40 anos.
Hoje acho que, nesse campo, pouco ou nada distingue os dois países.
E volto a recorrer a Chico Buarque com Fado tropical, só que alterando a mensagem. Em vez de ser o Brasil a libertar-se da ditadura, almejando tornar-se no Portugal que acabara de renascer,  foi Portugal que se transformou num país de corrupção, qual Brasil.



De qualquer modo e porque como acima referi, ainda tenho alguma esperança tomo, de empréstimo,
um poema de Graça Pires 

No contorno deste chão
um grito abraçou o povo.
E o frágil coração da liberdade
reinventou o sonho.
Para sempre.

No passado dia 25 de Abril não saí. Aproveitei o dia para, com ajuda do meu marido, limpar a casa. A dada altura tocou a campainha. Era a nossa funcionária (digo nossa porque trabalha para mim e para os meus filhos) que partiu um pé já há dois meses. A fratura foi muito complicada pelo que só agora começou a andar e com canadianas. O  marido trouxe-a de carro mas conversámos à porta da rua pois  ainda não pode subir escadas.  Estava com saudades de todos, em especial das crianças. Só que estas não estavam pois tinham ido passar o fim de semana a Esmoriz, onde  têm uma casa.

No dia 26, terça feira,  retomei as rotinas habituais. O José sai da escola por volta das 16 h. Até há pouco tempo ia buscá-lo mas com o aval dos pais, vem para minha casa a pé com uma colega, o que me agrada. Considero que devemos dar  aos jovens uma certa  autonomia que conduzirá a uma cada vez maior responsabilidade. Procedi sempre assim com os filhos e nunca me arrependi.
Na quarta tive que ir buscá-lo para o levar ao futebol (na escola Hernâni Gonçalves aqui perto de minha casa). Na quinta fui buscá-lo, de seguida fomos buscar a irmã e seguimos para a aula de música.
Sexta é dia de ir buscar a Marta. Fui mais cedo e aproveitei para visitar a Galeria Baganha. Tinha recebido um convite para a última inauguração mas não tive disponibilidade.
Gostei bastante de algumas obras de que deixo imagens




 As obras acima são acrílicos sobre tela de Amelia Palacios


 As duas obras acima são de Francisco Pazos, em aço e granito, respetivamente

Acrílico sobre tela de  Alex Vázquez   e  fotografia de Quique Touriño.

No sábado o dia foi rico em atividades.
Logo pela manhã saí de casa para  a visita guiada "As casas de Carolina", mais uma iniciativa no âmbito das comemorações do centenário do Liceu Feminino do Porto e que, carecendo de inscrição prévia, se repete nos próximos dois sábados, no mesmo horário.
A visita,  muito interessante, foi guiada pelo Dr. Luís Cabral que no fim forneceu, a todos os presentes, um folheto com uma resenha das informações que  foi dando ao longo do percurso. Começámos por visitar a casa onde Carolina Michaëlis viveu, na Rua de Cedofeita 159 (embora tenha vivido períodos de tempo relativamente curtos em outras duas casas foi nesta que viveu praticamente toda a vida após o casamento). A casa, que estava na mais completa ruína, foi restaurada por um casal jovem muito simpático(ele português, ela grega) e é hoje uma guest house de que podemos saber mais aqui e aqui

Esta é uma sala de entrada e a mesa que se vê na imagem, pertenceu a C. M.

Continuando por Cedofeita passámos pelo Palacete da Viscondessa do Seixo(onde D. Pedro IV chegou a estar instalado) e pela casa de Honório de Lima (avô de Pinto da Costa)

(Quando estudante universitária estive hospedada num Lar Feminino que funcionava numa casa que era pertença da mãe de Pinto da Costa. Essa casa foi restaurada há pouco tempo  e é também  uma guest house ou algo no género).

O nosso destino era o palacete no nº 441, edifício onde, em 1914, começou por funcionar a secção Feminina dos Liceus do Porto ( antes tinha havido uma turma mista no Liceu Masculino que nessa altura funcionava em S. Bento da Vitória). Em 1921 o Liceu Feminino, então Sampaio Bruno, vai funcionar na Praça Coronel Pacheco, em frente ao Colégio Almeida Garrett, onde antes funcionara o colégio de Miss Hennessey, que viria a dar lugar ao Colégio de Nossa Senhora do Rosário,onde posteriormente funcionou o Externato Marista do Porto (a minha sogra e a irmã estudaram algum tempo no Colégio do Rosário, precisamente no edifício do Externato Marista).
 Em 1926 o Liceu muda de nome passando a Liceu Carolina Michaëlis.
A partir de 1937 começa a ser projetado e posteriormente construído o Liceu na Ramada Alta, que só ficará concluído em 1951. Foi no atual edifício que terminou a visita
Aos seus promotores, nomeadamente ao colega José Valente, os meus parabéns.

Durante a visita tomei conhecimento de que o Dr. Luís Cabral estava ligado à Câmara do Porto onde o meu marido trabalhou como arquiteto. Ao tentar identificá-lo referi que ainda ali trabalha um colega e grande amigo, o Arquiteto Resende. O Dr. Luís Cabral disse-me: Logo vou ao Lugar do Desenho pois vai haver  uma homenagem  ao pai do Arquiteto Resende. Sorri e disse-lhe. Então até logo. Já sabíamos do evento onde, com muito gosto  iríamos estar presentes.




Tratou-se de uma homenagem póstuma ao Maestro Resende Dias, irmão do Mestre Júlio Resende. Família de artistas, eram primos de Fernando Lanhas...
O nosso amigo ainda em vida do pai integrou, bem como um irmão já falecido, a Orquestra Resende Dias. A orquestra ainda se mantém e atuou durante cerca de 2h, apresentando obras de Resende Dias, de sua mãe, Emília Resende e do filho Carlos Resende(já falecido). Deixo algumas das obras que ali foram apresentadas
Quadras em bossa nova ( Resende Dias)

De rosa ao peito(Resende Dias) na voz de Marisa


Tempo de guerra tempo de paz(Carlos Resende)

Outras referências a este evento poderão ser encontradas aqui , aqui e aqui

Nas paredes do espaço onde a orquestra atuou estavam várias fotos de Resende Dias muitas vezes com o irmão e o primo. Enquanto aguardávamos fomos visitar uma exposição de Júlio Resende,  vários trabalhos relativamente pequenos, quase todos em técnica mista, alguns dos quais já conhecia de outras exposições mas que são sempre um deleite para o olhar.
E ainda houve tempo para comer uma fatia de bolo e beber uma taça de espumante.
Foi um evento muito bonito com várias gerações "Resende Dias". O nosso amigo e a irmã, o filho do nosso amigo que eu conheço desde que nasceu e que já é pai de uma menina com cerca de 9 meses.
Parabéns a todos.


E assim chegámos a 1 de Maio, que neste ano coincide com o Dia da Mãe a quem, entre outros, dediquei este  poema

Memória serena

Ali, naquele sofá de couro,
está uma memória sentada,
doce e serena como a luz do luar,
como o rio que desliza mansamente para o mar.
A mão, já enrugada, pousa no braço do sofá de couro,
onde está marcada a mão real,
tantas vezes pousada.
Doce é o sorriso, profundo o olhar.
Na gola do casaco imaginado,
um alfinete de ouro com o nome gravado.
Ali, na memória sentada no sofá de couro.


in Entre Margens, 2013

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Entre duas interrupções


Já há quase um mês que" aqui". não venho. Da última vez referi que tinha o tempo um pouco limitado pois os netos continuavam em férias. As férias terminaram mas o" tempo não se deve ter apercebido" pelo que continuou escasso.
No dia 2 foi o casamento do filho mais novo da minha comadre a quem já me referi várias vezes. Nascida no mesmo dia e ano que eu, colega de curso, deixou-nos já há sete anos. Tive o imenso privilégio da sua amizade.
No casamento, o noivo entrou dando o braço da irmã que recorda imenso a mãe quando da mesma idade.
Mas a par destes momentos de tristeza e saudade,  a alegria do casamento. Encontrei vários amigos de longa data, nomeadamente colegas de curso e  familiares do noivo


Uns tempos antes, quando pensei no que iria vestir, tive a ideia de levar algo pintado por mim. Adquiri tintas para tecidos e comecei a fazer experiências. A primeira foi uma túnica que eu mesma fiz e de que deixo a foto bem com um destaque da pintura (as fotos foram tiradas com o telemóvel pelo que estão muito fracas)


As minha noras gostaram muito e decidi comprar e pintar uma t-shirt de algodão para cada uma. Ficaram muito giras.
Animada por estes "sucessos" pintei um conjunto túnica e "écharpe"  que usei dia 2, no referido casamento.
No dia 3 a minha neta Rita fez 14 anos e no dia 4 começaram as aulas. Mas devido a  uma série de imprevistos o tempo voou....
Na segunda semana de aulas, o meu neto Bernardo esteve toda a semana de cama com uma amigdalite mas esse foi apenas um pequeno contratempo.
Como já referi mais que uma vez, tenho, pelo lado do meu pai, dois irmãos brasileiros mais velhos que eu 10 e 14 anos. Damo-nos muito bem pelo que, ao longo dos tempos, tenho recebido visitas de irmãos, sobrinhos, sobrinhos netos, bem como já fui por duas vezes  visitá-los ao Brasil. Para além disso, comunicamos com relativa frequência por skipe,  telefone, mail,etc. Contava ir visitá-los novamente no verão mas, quando na Páscoa os contatei, soube que a saúde do meu irmão, que já há algum tempo se vinha agravando, piorara bastante. Decidi ir já pelo que parto no próximo dia 3 e regresso dia 11. A partir do momento em que decidi ir tem sido uma correria, não só para deixar aqui a vida organizada (refeições congeladas, etc, etc) como para  arranjar pequenas lembranças para os vários membros da família que inclui não só os familiares do lado do meu pai como a família da minha mãe( prevejo encontrar no mínimo 30 pessoas). Teriam que ser coisas leves por causa do peso A partir de vários trabalhos que fiz quando ainda frequentava o atelier de pintura, criei uma série de pequenos quadros que irei levar, a par de exemplares do meu último livro, postais, brinquedos para os mais pequenos, etc.





A propósito de brinquedos fiz,  para levar, um "espetroscópio" ( permite ver o espetro da luz a qualquer hora do dia e da noite).
Sempre que vou a escolas levo uma série destes "dispositivos" e os alunos ficam deliciados.
Todos  nos lembramos, por certo, que o  principezinho ficava muito triste por não poder ver o pôr do sol sempre que lhe apetecesse, como acontecia no seu planeta. Se com um espetroscópio  não podemos ver o pôr do Sol sempre que quisermos, podemos ver o "arco-íris" sempre que nos apetecer...
E por falar em escolas nas duas últimas semanas andei por várias. De todas saí sempre com a mente rejuvenescida.
Deixo fotos de flores e alguns trabalhinhos que me foram oferecidos, nomeadamente  pelas crianças,








 Podem encontrar mais pormenores das visitas aqui, e  aqui

No dia 22, último dia pelas escolas, ao fim da tarde encontrei-me com a minha ex -aluna Raquel,  atualmente médica em Bragança, que veio fazer as últimas provas para a especialidade. Os resultados foram excelentes como  era de  esperar. No encontro esteve  presente a colega Maria do Céu Vieira que foi também professora da Raquel. Foi um fim de tarde extremamente agradável
depois  de "tanta corrida".
Termino com dois poemas, um meu e outro  de Manuel Alegre e  de que gosto muito

Procuro o tempo

Procuro o tempo por detrás do tempo.
Procuro um tempo, linha aberta,
não sei se parábola, se reta,
fluindo em direção ao infinito.
Procuro o tempo por detrás do tempo
mas o que encontro é já um tempo elíptico,
linha fechada, quase circular, veloz,
a convergir para o centro
onde não há tempo por detrás do tempo
e já não faz sentido procurar
Gouveia, R




CANÇÃO DO TEMPO QUE PASSA

Não tenho muito tempo para o mar
para nadar no mar para pescar
para nadar e amar não tenho tempo
para outras coisas em ar: o frio aperta
os ossos doem o coração palpita.
Vou pela praia contra o vento mas
sei que tudo agora é sempre assim
contra a corrente o tempo o próprio pensamento
na areia mole os pés vão-se enterrando
já não batem crawl como batiam
já não logram correr como corriam
e no entanto o tempo agora é de corrida
contra o tempo se corre contra o tempo
contra o tempo se corre e assim se morre
em frente ao mar olhando a desmedida
distância entre a tão curta vida e o amor dela
sobretudo ao crepúsculo quando o mar
nos interpela e nos apela a caravela
do coração se põe de novo a navegar
mesmo sabendo que já não há partida
e que as rimas em ar estão a acabar
e todo o tempo agora é contra o tempo
e mesmo sem correr so há corrida.
Alegre, M

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Falando de arte, poesia, música e não só...


Já há algum tempo que não colocava nenhuma mensagem no blogue. Com os quatro netos em férias, o tempo disponível reduz-se ainda mais.
Na primeira semana fomos com dois deles para a minha aldeia. Estava bastante frio, muito em particular à noite mas esteve-se bem.
Regressámos sábado após o almoço para celebrarmos em conjunto o Domingo de Páscoa. No sábado de manhã ainda fomos colher espargos selvagens, que são um "manjar dos deuses"

Gosto deles em migas, em omelete, em "risoto", mas acima de tudo gosto de colhê-los o que não é tarefa muito fácil pois escondem-se  por entre a vegetação


No domingo de Páscoa, contrariamente ao que é habitual, juntámo-nos ao jantar pois o pai da minha nora Teresa saíra dois dias antes do Hospital onde esteve internado alguns dias. Assim não puderam passar a Páscoa connosco. Filho, nora e netos foram almoçar em cada dos outros avós. Assim sendo, optámos por nos juntarmos ao jantar. Foi diferente mas muito bom, de qualquer modo.
Nesta semana continuei com netos mas apenas na segunda feira estive com todos pois os dois mais velhinhos tiveram atividades (surf, a Rita e diversas, o José). Ontem tivemos aula de música ( como já referi eu e o José temos aula de ukulele enquanto a Marte tem aula de piano).
Antes da aula ainda consegui dar "um saltinho"  à exposição  "Portugal Cem Ruínas", na 
Fundação Manuel António da Mota (patente ao público desde 14 de janeiro e até ao próximo dia 14) 


Achei muito interessante. Logo que cheguei a casa fui pesquisar o blogue ruin´arte que vi referido num dos textos da exposição
Dali retirei as duas fotos anexas, duas das muitas expostas na Fundação


De pesquisa em pesquisa, cheguei a um texto de Domingos Amaral publicado a 7/4/2014 e aos videos que anexo
Em Portugal, há milhares de edifícios abandonados, prédios a cair de podre, monumentos ao passado que se degradam aos nossos olhos.
Esquecemo-nos deles, ignoramo-los ou fazemos de conta que eles não estão lá.
Mas estão, e são parte de nós, da nossa memória, do nosso passado.
Gastão de Brito e Silva é um fotógrafo que passou os últimos anos da sua vida a captar as imagens desse Portugal em ruínas.
Ruin´arte é o blog onde mostra o seu trabalho, onde expõe centenas ou milhares de imagens desse Portugal abandonado.
É impressionante, olharmos para os lindíssimos edifícios das nossas cidades, ou campos, e vermos como foi possível aquilo chegar àquele estado.
Que desleixo, que incúria foi a nossa, como povo, para deixarmos o nosso Portugal assim?
Devia ser um projecto nacional de um governo, recuperar este Portugal perdido, este Portugal em ruínas.
Somos um país de deslumbrados com o que é novo, de novos ricos e parolos que só constroem coisas horríveis, enquanto em frente dos nossos olhos estão pérolas perdidas, sujas, destruídas em parte pelo tempo, e o que lhe fazemos?
Vale a pena olhar para o blog do Gastão de Brito e Silva, é Portugal no seu melhor e no seu pior. 





"                                                  

Hoje apenas estive com o Bernardo que acabou de ir para casa. Aproveitando este resto de tarde livre, decidi escrever esta mensagem, que segue com poesia...
Há tempos enviei um poema para  Revista  Philos de Literatura que foi aceite( sem qualquer custo da minha parte) e acaba de ser publicado 
Todos os poemas são ilustrados o que torna a revista muito bonita. Para além disso gosto da capa.
Deixo o  meu poema que pode ser visto aqui.


Numa esquina do tempo

Luxuriosas,
as estrelas crepitam no céu negro.
Voluptuosos,
os ramos das árvores afagam a escuridão.
Quais garças,
miríades de sonhos esvoaçam ledos.
Titubeante,
o amor deambula por entre apaixonados.
Helena ama Demétrio,
que ama Hérnia, que ama Lisandro.
Errante a paixão,
Titânia ama um ser com cabeça de animal.
Duendes e fadas
volteiam por entre a bruma esquiva.
Gorjeia a poesia.
No ar, o róseo perfume a madressilva.
A noite estremece.
De flautas e oboés refulgem os trinados.
Amores reencontrados,
flutuam acordes da marcha nupcial
Cúmplice, a magia,
florescem os sonhos na noite de Verão.
Numa esquina do tempo,
Shakespeare, Mendelson e Chagall.
Subtil, a aurora desliza noite adentro.
Vénus regressa.
Ao amanhecer esvai-se a fantasia.
Balbuciante, o dia,
rumoreja o bosque despertando, lento.

Sonho de uma noite de verão de Shakespeare- versão PDF


Sonho de uma noite de verão Mendelson






Sonho de uma noite de verão, Chagall









segunda-feira, 21 de março de 2016

Feliz Páscoa

Hoje é o Dia Mundial da Poesia, da Árvore, o Dia Internacional das Florestas e a consagração do dia não se fica por aqui.
Ontem entrou a Primavera, embora as temperaturas continuem muito baixas.

A propósito de tudo isto deixo mais um poema de Graça Pires

É primavera


Começou o ritmo da folhagem
ao sabor da seiva.
As árvores escolhem o tom de verde
que o sol prefere dispersar nos troncos.
É primavera.
As aves regressam em bandos
e os amantes ajustam a paixão
nas grutas do corpo.
As crianças trazem no olhar
uma cintilação quase divina
e os descrentes procuram um deus
no claustro da morte.
Os poetas ofertam-nos as primícias
com os frutos a gretarem-lhes a boca.

Graça Pires in Uma claridade que cega, 2015

E porque a Páscoa se aproxima, desejo a todos uma Feliz Páscoa

Como a imagem do "postal" está muito "desbotada"deixo em anexo  uma imagem do quadro (pigmentos naturais sobre saco usado na apanha da azeitona) e o poema (por inteiro).









A primavera não tarda.
Um manto branco cobre a ladeira.
Flores de amendoeira,
                    ledas, 
                    leves, 
                    breves.
A primavera vai alta.
Uma capa de verde veludo cobre o amendruco 
                    doce,
                    tenro, 
                    imberbe.
Pleno o verão
A capa de veludo muito coçada,
a amêndoa já grada. 
                     Fruto 
                     adulto, 
                     maduro.
Oculto dentro da casca, o grão

sábado, 19 de março de 2016

Maratona...

Esta semana foi "dedicada" a várias escolas, onde estive com crianças do 1º ciclo e também de alguns JI, a propósito do livro Ciência para meninos em poemas pequeninos.
No dia 14 estive todo o dia em Amarante com quatro sessões, duas de manhã e duas de tarde.
Nas manhãs do dia 15 e do dia 16, estive em escolas de Penafiel, dia 16 à tarde, no Perpétuo Socorro, no Porto, dia 17 de manhã em Vila do Conde e dia 18 todo o dia em Rio Tinto onde, ao todo, estive com catorze turmas.
Relativamente às crianças, é sempre um prazer enorme estar com elas, pela espontaneidade, a curiosidade, a ternura. No que respeita a professores, alguns envolvem-se com tal entusiasmo em atividades com as crianças que chega a ser comovente tanta dedicação. Foi o caso do JI Boavista Santiago. No seu blogue dão conta da sessão  bem como das atividades preparatórias que foram desenvolvendo à volta do poema Joaninha, voa, voa...
Neste JI, durante a sessão, várias crianças entre os três e os cinco anos, disseram e muito bem, o referido poema
As imagens que seguem foram retiradas do blogue


Ainda na mesma escola, os alunos de 1º ciclo, a propósito de vários poemas do livro, fizeram desenhos e textos  que compilaram num "caderno" que me ofereceram. Deixo uma foto (retirada do mesmo blogue)   e  uma imagem do caderno bem como um dos textos ali contidos.







Num outro JI, o poema trabalhado foi o poema Rio. Duma forma extraordinariamente simples, as crianças dramatizaram o poema. No mesmo agrupamento, alunos da EB1 dramatizaram o poema Sol de inverno.

Numa outra escola apresentaram o poema Diversidade, estando várias crianças vestidas com
roupas alusivas aos vários povos referidos no poema. Numa outra, o poema tratado foi Balão.
Houve também escolas em que nada foi preparado com as crianças mas, apesar disso, estiveram muito interessadas e participativas.
Termino relatando episódios interessantes.
Numa das escolas um menino chegou atrasado porque foi arranjar um ramo de flores para me oferecer.

Duas meninas fizeram questão de me oferecer um desenho, um menino um marcador de livros e um outro um trabalhinho.



Em algumas escolas alguns meninos que não tinham livro pediam autógrafos nos cadernos e até em folhas soltas. Uma das vezes, um pequenino chegou ao pé de mim e disse. Também quero. Um autógrafo? perguntei. Presumo que não saberia do que se tratava pois, quando assinei a folhinha de papel que trazia, virou-se para a professora que estava ao lado e perguntou. Isto para que serve? 
E não deixava de ter razão….

Foi uma maratona mas foi muito gratificante


segunda-feira, 14 de março de 2016

Guerra....

No passado sábado decorreu na Figueira da Foz a apresentação de mais um livro de
Graça Pires, autora de quem já falei em outras mensagens. Ainda tentei ir; tinha uma
boleia de ida mas não de regresso. Não gosto de conduzir, muito em particular de noite.
Fiz uma pesquisa sobre a possibilidade de regressar de comboio (Figueira a Coimbra pela
linha do Oeste e depois Coimbra Porto na linha do Norte) mas o último comboio partia da
Figueira às 18, 09 e a apresentação do livro estava marcada para as 17, 30.
Como também já referi, não conheço pessoalmente a autora. Tomei contacto com a sua
poesia de forma acidental. Quando a Editora Lua de Marfim me propôs a edição do livro
Quando o mel escorre nas searas, como o número nove na coleção Meia Lua,fiz uma
pesquisa no site da referida editora e dos oito autores já editados, não conhecia dois:
Graça Pires e Manuel Madeira.

Mais uma pesquisa e encontrei (em boa hora) a poesia de Graça Pires. Adquiri de imediato o seu livro Caderno de Significados e no dia 25 de Janeiro, deixei aqui uma mensagem com referência a dois poemas desse livro


Hoje começo por colocar mais um, belíssimo, postado na  sua última mensagem

Guerra

Para se abrigarem dos ventos contrários
o abraço dos amigos lhes bastava.
Mas a guerra cercou-os
e deixou-lhes no movimento do olhar
uma pátria ultrajada.
Em suas bocas pisadas de silêncio
sangram agora todos os afectos.

Graça Pires in Caderno de significados, 2013



Selecionei um outro, postado em 3/9/2015.

Poderão perdoar a nossa ausência?

Vêm de todos os lugares, por caminhos
que fervem sangue e luto.
Aos milhares, saem dos túneis da noite e do medo.
Não trazem bandeiras.
Um ardil cavado na lonjura enjeita-lhes a idade.
E chegam extenuados, traídos, indefesos.
Procuram um chão e um abraço.
As sombras coladas aos muros
são a morada da esperança que lhes resta.
Poderão perdoar a nossa ausência?

Todo o horror da guerra traduzido por Picasso, em Guernica sugeriu-me o poema que está publicado em "Entre Margens"




Guernica
A espada de aço quebrada,
presa a um braço decepado do corpo
a que a cabeça foi ceifada.
Nos braços de uma mãe,um filho exangue.
Nos tons escuros a morte,ausente a cor do sangue.
A memória da dor.
Sob a espada de aço e a contrastar com o horror,
jaz uma flor.
Regina Gouveia In Entre margens

Termino com o Quarteto para o fim dos tempos de Olivier Messiaen, obra composta e estreada quando Messiaen era prisioneiro de guerra no campo de Görlitz e Requiem de Guerra de Britten.