Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

NOVO BLOGUE

Retomei o blogue que já não usava há anos.

https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/

Dedico-o essencialmente aos mais novos mas todos serão bem vindos, muito em particular pais, avós, encarregados de educação, educadores ...


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A sílaba

A sílaba


Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba,
Uma única sílaba.
A salvação.

Foi com este poema de Eugénio de Andrade que a Dra Celeste Alves iniciou a apresentação do meu livro Quando o mel escorre nas searas, apresentação que decorreu, como aqui anunciara, na livraria Flâneur, um espaço muito agradável que abriu há relativamente pouco tempo, na minha rua.


Foi belíssima a apresentação, muito generosa relativamente à minha poesia, que por certo não merece tanto.


Quando os amigos me felicitaram no fim, fizeram-no em relação ao livro(o que eventualmente poderia ser um simples gesto de cortesia) mas também pela escolha da apresentadora.

Com a sua autorização transcrevo um excerto dessa apresentação


(...)A junção imprevista destas duas realidades – o mel a escorrer nas searas - força-nos, pela sua estranheza, a uma paragem. Na realidade, é com um olhar mais atento que penetramos em vários ambientes de tudo o que nos rodeia, especialmente na natureza. É sobretudo nela que a autora se compraz, dissecando vivências e memórias. Ex:
A primavera não tarda.
Um manto branco cobre a ladeira.
Flores de amendoeira,
Ledas´,
Leves,
Breves.
A primavera vai alta.
Uma capa de verde veludo
Cobre o amendruco
Doce,
Tenro,
Imberbe.
Pleno o verão
A capa de veludo muito coçada,
A amêndoa já grada.
Fruto
Adulto,
Maduro.
Oculto dentro da casca, o grão.

À semelhança de Eugénio de Andrade que busca uma sílaba, também aqui é de forma meticulosa que a autora se detém nas coisas, fazendo chegar até nós pormenores de toda a espécie. Como? Através de quadros, na maioria campestres donde emanam cores, cheiros e sons, e recordações – muitas recordações do passado… Memórias que se presentificam e agarram, talvez como forma de enfrentar a inelutável voragem do tempo

Estavam vários amigos, entre eles uma ex-aluna minha que é médica em Bragança, e uma amiga( ainda família embora afastada) que veio da aldeia. 
Alguns amigos levaram “outros amigos também”



O meu filho mais novo,bem com a família, não puderam estar: o José teve um torneio de basquete e a Marta teve uma festa de uma amiguinha. 
Mas estiveram o meu filho mais velho , a minha nora e os filhos.
No fim ofereceram-me um ramo de biscoitos, representando flores, obra da minha nora que, como hobbie, faz coisas muito giras na área de bolos, cup cakes, etc



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Fado de Coimbra

Na passada sexta feira fomos( eu, marido, um casal de primos)  ao 157º Jantar de Amizade UNICEPE, cujo programa incluía Fado de Coimbra, por elementos da Associação dos Antigos Orfeonistas da Universidade do Porto. O jantar foi num restaurante  que eu não conhecia, Porto e Vírgula, bem perto da Unicepe.


Neste tipo de situações  aprecio mais os eventos ( e neste caso gosto  muito de fado de Coimbra) e o convívio do que a comida, mas esta  estava muito bem confecionada.
Não contei as pessoas mas seríamos à volta de 40. 
Findo o jantar deslocámo-nos até à Unicepe (felizmente nessa altura chovia pouco) onde, na sala decorrem muitas vezes exposições, assistimos á sessão de fados. Tirei uma foto com o telemóvel mas ficou muito fraca. Vêem-se, embora mal, dois quadros da exposição  ali  patente. Num dos fados, Samaritana, pediram-nos que acompanhássemos no refrão.  Apesar de rouca não resisti mas acho que teria sido melhor termos ficado calados a ouvi-los....


Deixo-vos com dois  dos trechos  ali cantados e tocados, nomeadamente a belíssima Balada de Coimbra de Carlos Paredes





Quando comecei a escrever esta mensagem recordei o Dr. Armando Carvalho Homem (ACH), meu saudoso orientador de estágio com quem muito aprendi, não só como estagiária em 1969/70 mas também como orientadora de estágio a partir de outubro de 1971 em que, por sua indicação, fui substituí-lo na orientação de estágio, enquanto ele ascendia a Metodólogo Itinerante, lugar que "partilhava" com Rómulo de Carvalho. Excelente professor, excelente orientador, tocava fado de Coimbra e fez algumas composições.

Ao pesquisar na NET encontrei aqui (http://guitarrasdecoimbra.blogspot.pt/2008/10/armando-de-carvalho-homem-1923-1991.html) umas notas biográficas escritas por um dos seus filhos, que seguiu as pisadas do pai, no campo musical. Deixo alguns excertos

(...) É assim que, nos restantes anos de Coimbra (até 1948), ACH elabora as suas «Variações em ré menor» e «em lá menor», a «Valsa em lá menor n.º 1» e a «Miscelânea em Lá» (arranjo, sobre temas de Artur Paredes e João Bagão)(...)
Mas a vida prática fazia entretanto valer os seus direitos: licenciado na época de Outubro de 1945, ACH já não pôde ingressar de imediato no Estágio Pedagógico. 1945/46 será assim ano de ensino num Colégio particular, na Régua(...)  1946/47 e 1947/48 serão tempos de regresso a Coimbra, estagiário no Liceu Normal D. João III, aluno de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras. Concluído o Exame de Estado, atinge a situação de agregado do 7.º Grupo dos Liceus (1948), é colocado no Liceu Passos Manuel e,  meses depois, como resultado do concurso para professor auxiliar, é transferido para o Liceu Alexandre Herculano  e aí permanecerá até ao termo de 1948/49. Em 1949/50 inicia funções no Liceu Nacional de Viseu 
Os tempos de Viseu permitirão alguma continuidade das lides guitarrísticas (...) cria-se a Associação dos Antigos Alunos do Liceu Nacional de Viseu, de que é um dos fundadores e membro dos primeiros Corpos Gerentes; e nos seus anos de arranque a novel colectividade realiza regularmente saraus académicos; ACH está logicamente na linha da frente para os indispensáveis «Fados e Guitarradas de Coimbra" ....
 Os anos de 1956/57 e de 57/58 serão de total paragem musical. Colocado em Ponta Delgada no primeiro daqueles anos (e ascendendo então a professor efectivo dos Liceus, 7.º Grupo), na viagem de barco para os Açores, um acidente destruiu a guitarra (obra do construtor RAUL SIMÕES), tornando musicalmente infrutífero o reencontro açoreano com Eduardo Tavares de Melo(...)
Braga, onde ensinou no ano subsequente, não foi ainda o lugar nem o momento de remediar o desastre.
O Porto, para onde se transferiu em 1958 (novamente para o Liceu Alexandre Herculano onde ensinou até à reforma), seria a urbe do renascer dos dedos: em princípios de 1959 adquiriu uma nova guitarra na CASA DUARTE ; o instrumento acabou por revelar-se dos melhores que daqueles construtores (há muito desactivados) algum dia saíram, isto segundo testemunhos múltiplos(...)
E foi o paulatino retomar da execução, na solidão do seu escritório pessoal. Só nos Verões de 1963 a 1965, de férias em Espinho, voltou a ter algum contacto mínimo com outros instrumentistas e cantores, no âmbito das confraternizações de final de Agosto que alguns espinhenses ilustres  organizavam no termo do mês de Agosto(...)
E não mais do que isso: raros continuaram a ser os contactos musicais exteriores de ACH. Até porque, estudantilmente, a conjuntura post-1969 (e, concretamente no Porto, post-1971) pouco ou nada motivava. E profissionalmente ACH tornara-se orientador de Estágios (1969-1976) e mais tarde (1975-1978) Vice-Presidente do Conselho Directivo da sua Escola; e ainda em 1980-1982 integraria uma Comissão para a Revisão dos Programas de Física, nomeada pelo ministro Vítor Crespo. A timidez e a natural discrição em tudo quanto à sua arte dizia respeito faziam o resto…
Musicalmente, algo entretanto iria mudar, mas apenas a partir de 1977. A esse tempo, a sensação de que algo estava a querer renascer levava, aqui e além, ao reflorescimento de pequenas tertúlias (...)
ACH recebeu com entusiasmo a notícia da realização do 1.º Seminário sobre o Fado de Coimbra, em Maio de 1978. Entusiasticamente lá compareceu (...)
Foi na sequência deste Seminário que compôs as suas «Variações em mimenor» que podem ser ouvidas aqui (https://vimeo.com/7133062), na base da alternância tónica/dominante (começo e fim em Sol M, desenvolvimento central em mi m, segundo o ‘paradigma’ da peça de Artur Paredes no mesmo tom); surgirá também a «Valsa em lá menor n.º 2» ; a veia criadora, inactiva desde os anos 40, ressurgia(...)

Os acasos de um destino irão porventura conferir uma notoriedade musical póstuma a quem, dos anos 50 aos 80, essencialmente procurou ser um competente profissional do ensino da Física e da Química a jovens estudantes liceais 





quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Convite

Falta pouco mais de uma semana para a apresentação, no Porto,  do meu novo livro  Quando o mel escorre  nas searas. Será no sábado, dia 20, às 17 horas, na Livraria Flâneur , (http://www.flaneur.pt/sobre/ )um espaço muito acolhedor que abriu,  há pouco tempo,  no 225-229 da minha rua- Rua Ribeiro de Sousa. Aqui fica o convite




Do livro deixo a imagem da capa e dois poemas



Ano após ano,
o mel escorre nas planícies.
Cobre o verde das searas,
que ressurge em cada primavera,
florescente e breve.
Van Gogh imortalizou-as
em perenes pinceladas.
Nas searas de Vang Gogh
o verão será eterno,
sem lugar ao render das estações.




Museu Hermitage.
Em tons rosados,
bailarinas desnudas
dançam, frenéticas,
por entre verde e azul.
Da tela de Matisse
desprendem-se acordes de Stravinsky.


Termino com um excerto Sagração da Primavera de Stravinsky por Pina Bausch

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Felicidade...


Está patente ao público, na Galeria Municipal Almeida Garrett, no Porto, desde 05 de dezembro de 2015, a exposição "A Felicidade em Júlio Pomar" que terminará a 21 deste mês.



Pode ler-se no folheto  que a exposição se  divide em quatro núcleos: “os mitos e as figuras alegóricas; a articulação entre os corpos e o seu erotismo; o movimento e a presença constante de animais, em particular de cavalos; e um conjunto especial que se reporta direta e indiretamente aos posicionamentos políticos e as lutas travadas por este artista ao longo da sua carreira, incluindo o episódio que envolve o Cinema Batalha”.

Outros trechos  do folheto:




A convicção de que muitas pessoas infelizes poderiam tornar-se felizes graças a um esforço bem dirigido, levou Bertrand Russell a escrever o livro A conquista da felicidade.


Hoje passei pela exposição. Gostei imenso ; podia fotografar-se, desde que sem flash . Deixo duas fotos tiradas com o meu celular.



Pegando no termo felicidade, creio que a felicidade completa é uma utopia. Poderá alguém ser completamente feliz num mundo onde há tanta injustiça, sofrimento, dor,…?
Genericamente considero-me feliz, uma vez que me sinto privilegiada pois tenho saúde, uma família em que os afetos desempenham um papel primordial, não tenho problemas de maior…. Considero também que me ajuda uma certa filosofia de vida “valorizar os momentos bons e tentar subestimar os maus”.
Ora hoje foi um dia cheio de momentos bons. Dois dos meus netos dormiram em minha casa ( ao fim de semana acontece com alguma frequência, mas durante a semana, não).
Pus o despertador para as 7,30 mas às 7,20 fui acordada pela mais pequenina. Hoje era o dia do Cortejo de Carnaval no Infantário e ela estava um pouco excitada com a sua fantasia de “Sininho”. Fomos tomar o pequeno almoço, aguardando a hora de acordar o irmão. Logo que este acordou arranjou-se e foi tomar o seu pequeno almoço, que já estava preparado na cozinha. Entretanto fui vestir a fantasia à Marta.
Às 8h chegou o pai para os levar: para a escola o José, para o infantário, a Marta.
O cortejo deveria iniciar-se às 10h. Cheguei ao portão da escola por volta dessa hora mas o cortejo só saiu por volta das 10, 20.
Acompanhei-o até ao fim, de mão dada com a minha neta, pois uma das educadoras sugeriu que os familiares que acompanhavam as crianças mais novas, dessem esse apoio. Ela ia feliz .

Estando na zona da Boavista aproveitei para passar pela Biblioteca Almeida Garrett para ver a exposição acima referida. De seguida, e como precisava de ir buscar uns livros que me tinham deixado na Unicepe, fui lá.
A Unicepe foi fundada em 1963
Quando aluna universitária ia ali com alguma frequência pois ficava ( e fica ainda) mesmo em frente ao edifício da Reitoria, onde na altura funcionava a Faculdade de Ciências. Já há muitos anos que ali não ia. Foi muito agradável a conversa que tive com o Dr. Rui Vaz Pinto, conversa que se centrou em torno de um tema grato a ambos-a poesia 

A caminho da Unicepe recebi um telefonema da Tubitek avisando-me da chegada de um disco que tinha encomendado. Trata-se de um disco de Juliette Gréco que entre outras canções contém sous le ciel de Paris

https://www.youtube.com/watch?v=fNBO0pYyKKI



Tentei comprar qualquer disco da cantora e pesquisei na NET. Na FNAC on-line havia vários mas, quando me dirigi a Santa Catarina, o empregado, pouco simpático, disse-me que estar on-line não significava existir nas lojas (o que é óbvio) mas não fez o mínimo esforço para mo arranjar dizendo que nunca chegaria antes de um mês. Dirigi-me então à Tubitek e o atendimento foi totalmente diferente. O senhor, na minha presença, fez uma série de telefonemas e conseguiu que o disco chegasse a tempo (precisava dele para uma oferta de aniversário, amanhã).

Logo que saí da Unicepe fui buscar o disco. Ao passar por uma sapataria onde gosto de comprar, encontrei em saldo, por 35 euros (60% de desconto), uns botins muito confortáveis, tamanho único, precisamente o nº 35...

O dia a correr tão bem…. 
Saída da Tubitek, fui para a paragem de autocarro em frente, esperar o 302. Ando muito pouco de autocarro mas como transportava uma saca com livros, muito pesada, não arrisquei  fazer o percurso para casa a pé. Das poucas vezes que naquela paragem esperei o 302, demorou sempre cerca de 40 min (embora esteja prevista a passagem de 12 em 12 min…). Parecia estar mesmo em maré de sorte... Passados 15 min chegou, mas só ia até à Boavista….Ali, apanharia o 402, que também anuncia passagens de 12 em 12 minutos. Mas os 12 minutos converteram-se em mais de 30… As pessoas desesperavam mas, felizmente, eu não tinha horários a cumprir.
Tinha deixado o almoço pronto. Da paragem liguei para casa avisando que não fazia ideia da hora a que iria chegar. Cheguei a casa eram quase 14 h, o meu marido estava a acabar de almoçar.

Um pequeno contratempo, comparado com o resto do dia.

Termino com “Felicidade” de Tom Jobim

https://www.youtube.com/watch?v=M85YonmYwfk



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

No próximo dia 6...

No próximo dia 6, a banda Proud Creedence, de que o meu filho Nuno faz parte, vaia atuar no Mary Sopt Vintage, em Matosinhos. O concerto está marcado para as 23,30 h.



Trata-se de uma banda  tributo aos Creedence Clearwater Revival,  banda americana do início dos anos 70  cujas  músicas mais conhecidas são Proud Mary ou Have you ever seen the rain. 




Aqui poderão ouvir alguns trechos da banda

O Mary Sopt Vintage fica na Rua Ló Ferreira , 125 muito  perto da Câmara de Matosinhos



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Quando o mel escorre nas searas


Quando o mel escorre nas searas é o título do meu novo de livro de poesia, que acaba de me chegar às mãos, editado pela Lua de Marfim


Foi a mesma editora que publicou Entre Margens e tem vindo a publicar a coleção Novilúnio, Sete poemas de Sete autores, que integro no volume I.

O novo livro integra-se também numa coleção, Meia Lua, que já vai no 9º livro


Numa  das últimas mensagens, referi  uma autora cuja poesia conheci há pouco. Trata-se de Graça Pires e um dos seus livros, Caderno de Significados, é o 5º da referida coleção.



Gosto muito da sua poesia. Deixo dois poemas do referido livro.


O 1º poema fez-me viajar até à minha infância. Também a minha boneca de papelão se desfez na água, o que inspirou um dos poemas do meu livro para crianças Ciência parar meninos em poemas pequeninos.



Relativamente ao meu novo livro deixo também dois poemas.





Na sequência dos poemas termino com  uma seara  de Van Gogh, e   Verão de Vivaldi





quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A seta do tempo

Provavelmente muitos viram O Estranho Caso de Benjamin Button, filme realizado por David Fincher, em 2008. baseado no conto homónimo escrito por F. Scott Fitzgerald, na década de 20 do século passado.
Conta a história de Benjamin Button, nascido em 1918, após o final da 2.ª Guerra Mundial. A sua mãe morre no parto e o pai vê-se sozinho com um bebé invulgar, com o aspeto e com as doenças de um velho de 80 anos. Incapaz de lidar com a situação, abandona-o às portas de um orfanato onde lhe dão o nome de Benjamin. À medida que o tempo avança Benjamin começa a rejuvenescer e o filme relata as peripécias, os encontros e os desencontros que trazem esse desenvolvimento inverso. Pode ser visto aqui, mas entretanto deixo este trailer
https://www.youtube.com/watch?v=p8ucIL2tLLo



As equações que descrevem as leis que regem o Universo são reversíveis, ou seja, podem igualmente descrever eventos que se desenrolam  do passado para o futuro ou do futuro para o passado, sem distinção. No entanto, muitos acontecimentos da nossa vida quotidiana são irreversíveis,  só ocorrem num sentido. Se introduzirmos um copo com água quente dentro de um recipiente com água fria, a água do copo irá arrefecer e a do recipiente aquecer até ficarem à mesma temperatura. Neste processo há transferência de energia da água mais quente para a mais fria. Mas porque razão não ocorre transferência de energia da água mais fria para a mais quente ficando esta ainda mais quente a a outra ainda mais fria?. Se filmarmos a queda de um copo até se estilhaçar no chão e se de seguida passarmos o filme para trás, veremos a recomposição do copo o que, na realidade, não acontece. Há algo que nos indica de forma natural se o tempo avança ou retrocede.
O tempo, tal e qual o percebemos, move-se do passado para o futuro e não em sentido contrário. 
Em 1920, o astrónomo Arthur Eddington estabeleceu a designação “seta do tempo” para descrever esta irreversibilidade, que está relacionada com a grandeza física entropia, ligada ao “grau de desorganização” dos sistemas. Na Física há várias leis de conservação (da massa, da energia, do momento linear, do momento angular,….). A entropia não obedece a uma lei de conservação. 
A seta do tempo é consequência imediata da 2ª lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia média nunca diminui. pois tende sempre a aumentar

(...)É pois de acordo com esta definição termodinâmica de tempo, que à medida que avançamos, nos vamos olhando ao espelho e vendo que tudo o que começou num estado organizado, se vai decompondo lentamente, até alcançar um estado caracterizado pela maior desorganização de tudo. Dada a tão óbvia e observável evolução humana ao longo da flecha do tempo seria provável alguém pensar sobre uma hipótese que a contrariasse? Não seria provável, mas como tudo no universo acontece porque existem infinitas possibilidades de concretização (de acordo com a Lei de Murphy) isso acabou por acontecer.
(...)O trio de cientistas Julian Barbour de Oxford, Tim Koslowski da Universidade de New Brunswick e Flavio Mercati do Instituto de Física Teórica de Perimeter começaram a estudar uma nova hipótese de flecha do tempo, não baseada na termodinâmica (como aquela que é aceite atualmente) mas baseada na gravidade, sendo que defendem que aquilo que é verdadeiramente indiscutível sobre as leis da física é que elas são exatamente as mesmas independentemente da direção em que o tempo corre.
Ao elaborarem a presente teoria este trio de cientistas conseguiu chegar mais perto da noção de que existem diferentes futuros, passados e presentes, dada a co-existência de universos paralelos, gerados no mesmo momento e da mesma fonte, em que tudo está a acontecer simultaneamente. Todavia, os observadores desses acontecimentos (quem vive nesses universos) percecionam-nos de uma forma única, vivenciando apenas a seta do tempo que é característica desse universo e não sendo possível ter a noção da existência de outras realidades noutros universos paralelos. A teoria dos multiversos – ou universos paralelos – apesar da sua complexidade e exigência constitui-se assim, como uma teoria de esperança, que nos permite pensar que a existência não é apenas o que vemos e o que tocamos, mas sim, paralelamente, algo mais que não se vê, não se toca, mas que está simultaneamente a acontecer.
A curiosidade e necessidade de compreender o mundo que nos rodeia leva-nos a não desistir de tentar cada vez mais, perceber verdadeiramente em que devemos acreditar. Sim, porque todos nós precisamos de acreditar em algo. Seja um Deus criador, seja um universo gerado através do Big Bang, seja a existência de multiversos que permitem que a flecha do tempo não corra só para a frente. Precisamos de acreditar para nos sentirmos parte da criação.

A propósito da teoria dos universos paralelos sugiro este artigo  e este vídeo com comentários de um dos grandes físicos da atualidade, Michiu Kaku



https://www.youtube.com/watch?v=bXWS3Tc9q1w

Poderia argumentar-se que estes conceitos resultam de estudos e simulações meramente no campo teórico, mas surgiriam de imediato contra argumentos fortes. Einstein previu a dilatação do tempo e  a contração do espaço bem como a curvatura da luz pela gravidade, conceitos bizarros para a época, mas que a experiência viria a confirmar. Com os universos paralelos poderá acontecer algo semelhante. O facto de vivermos num mundo a 3 dimensões ( e uma 4ª o tempo) não nos permite percecionar outras dimensões. A animação que segue, ajuda-nos a perceber essa impossibilidade


Mas o  tempo é um enigma não apenas para os físicos...

(...)O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
(...)Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas(...)
Alberto Caeiro.

Tempo Revisitado
O tempo a que sempre regressamos
e nos visita um instante
O tempo que depois destruímos
construímos e alimentamos se nos
alimenta
O tempo onde a luz buscamos e
a morte sempre
encontramos

Casimiro de Brito


(...)Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.
À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto(...).
Graça Pires
( Só há pouco tempo tomei conhecimento da poesia de Graça Pires, mas poderão encontrá-la aqui


Será que existe algures, ainda que volátil e etérea,
uma memória do tempo antes do tempo?
Será que essa memória se propagou e difratou,
qual onda,
gerando padrões de interferência
num qualquer universo?
Donde vem o tempo que não tem reverso,
e se escoa nos meandros da memória ?
Para onde vai o tempo onde pulsa imerso o passado,
mas também o futuro e presente
que são amalgamados pela história?
Enigma profundo, o tempo.
Será um ser imponderável ou será um não ser,
pura invenção da mente?
Tudo isso, que importa?
Beija-me o sol que entra pela vidraça
porventura alheio ao tempo que passa.
Regina Gouveia (em Entre Margens)



 Inspirada na frase de Hugo von Hofmannsthal termino com música, Roda viva  de Chico Buarque e Poema Sinfónico D. Juan de Richard Strauss, com quem colaborou von Hoffmannsthal


https://www.youtube.com/watch?v=IpAR9DlQV6o
(...)Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu(...)

https://www.youtube.com/watch?v=CcBGsjPky0c