segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Por terras do Marão
Na passada sexta feira estive em Vila Real num dos Agrupamentos de Escolas do
1º ciclo. a fim de “explorar”
o livro Ciência para meninos em poemas pequeninos, agora em 3ª edição,
desta vez com a chancela Porto Editora(PE).
Às
8, 40, com a pontualidade que lhe é habitual,
estava à minha porta um colaborador da PE. Lá fomos. Aguardava-nos um
dia frio mas o Sol fez-nos companhia e o
vento deve ter adormecido....
À nossa espera estavam dois professores
também colaboradores da PE ( neste
momento não dão aulas) e que eu já conhecia de sessões anteriores.
Não sei ao certo com quantas crianças
estive, sei apenas que eram do 3º e do 4º ano.
Estavam programadas 4 sessões ao longo do dia
mas, ao chegar, informaram-me que iam ser apenas duas, de manhã.
Logo na primeira sessão, o auditório, muito
pequeno, encheu-se por completo e ainda deveriam entrar mais crianças. Gerou-se
uma certa confusão, saíram umas turmas, entraram outras pelo que a sessão não
começou à hora prevista.. Eu teria apenas 30 min para estar com aquelas crianças.
Fiz o melhor que pude, li à pressa alguns
poemas (com tempo, teriam sido os alunos a ler) e reduzi o número de
experiências. Mas não houve tempo para conversar com os miúdos.
Logo a seguir entrou outro grupo idêntico, em
número, e novamente a confusão de lugares.
Uma professora, não sei se a própria bibliotecária, sugeriu
então que duas turmas passassem para uma outra sessão, à tarde. Uma das turmas
já tinha sido “desalojada “na sessão anterior mas o professor acedeu a mais uma mudança; na outra
turma, havia atividades já programadas para a tarde, mas a professora acabou
por ceder.
Mais uma vez houve um atraso no início da sessão,
mas pude dispor de um pouco mais de tempo pelo que os alunos já puderam
intervir.
Fomos almoçar (os três colaboradores da PE
e eu). Quando saía, alguns alunos da 1ª sessão vieram ter comigo, com um ar um
pouco desconsolado: Nem tivemos tempo de falar consigo...
À tarde tudo correu muito melhor. Apenas
duas turmas.
Houve tempo para experiências, para
intervenções dos alunos (alguns muito vivos e empenhados). No fim dois alunos
foram ler poemas. Um leu o poema Poesia e o outro leu o Inventor
Este último poema foi lido pelo João, um
menino muito empenhado, sempre com o dedito no ar para poder intervir. Começou
por esclarecer que, embora parecido com o seu homónimo no poema, ele não é
trapalhão.
E assim passei mais um dia muito agradável
na companhia das crianças.
Quando cheguei ao Porto senti muito frio. O
vento soprava de Norte....
E por associação de ideias, veio-me à memória a canção My bonnie, que por vezes cantávamos nas aulas de Inglês, nos meus tempos de Liceu. Na canção o vento sopra do Oceano...
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
POR QUE NÃO UM SUDOKU?
É este o título da mensagem que segue, colocada por Carlos Fiolhais in De Rerum Natura
Já tínhamos saudades de Vasco Pulido
Valente. Nesta crónica no Público de hoje arrasa a incompetente prova que pretende
avaliar os candidatos a professores. No
fundo trata-se de uma prova de charadas e o IAVE, cuja competência não dá para
mais, bem poderia pôr um sudoku ou palavras cruzadas, que o resultado seria
semelhante. O resultado deste tremendo erro político de insistir numa prova
absurda é o desprestígio, na opinião pública, não só dos professores como dos
exames, que deveriam servir para seleccionar os melhores e melhorar o sistema e
assim só servem
para polémicas inúteis.
A crónica de VPV pode ser lida aqui
Aconselho também a leitura do artigo Português dos redactores da PACC não cumpre os requisitos mínimos
in http://www.mdb.pt/content/crato
in http://correntes.blogs.sapo.pt/2013/11/
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Mestre Resende na Fundação Cupertino de Miranda
Começo esta mensagem com um excerto de um texto de Jorge Fiel, publicado em 2007, a propósito de uma exposição de Mestre Resende na Alfândega
do Porto
Ouça
um bom conselho. Faça a si próprio o favor de se deixar mergulhar na formidável
explosão de cores intensas que experimentará ao visitar a exposição
comemorativa dos 90 anos de mestre Júlio Resende...
Faço minhas as palavras de Jorge Fiel a propósito da exposição “Sinais do Modernismo no Porto- anos 50 " patente na Fundação Cupertino de Miranda.
Com outras cores, mas nem por isso menos
formidável.... O meu marido tinha ido à inauguração mas eu não
pude ir pois fiquei com a minha neta mais nova que estava com gripe.
Gosto muito da obra de Mestre Resende que
tenho visto quer em exposições permanentes no Lugar do Desenho e na galeria Baganha, quer em exposições
temporárias em vários locais, nomeadamente na Alfândega do Porto.
Para João Fernandes, director do Museu de
Arte Contemporânea de Serralves, não há dúvidas que a obra de Júlio Resende “é
um dos capítulos mais importantes da história da arte portuguesa do século XX”.
Deixo fotos dos duas obras de que mais
gostei( gostei de todas, em geral) bem como de um trabalho feito só com linhas.
Todas elas foram retiradas do catálogo que
contém um texto belíssimo da filha,
Marta Resende
Como referi na mensagem anterior, na Fundação estava (ou devia estar por dois dias...) uma outra exposição"Reciclar é Arte". Parece que foram entregues pouquíssimos trabalhos.
De qualquer modo deixo uma foto do meu (no cavalete) , feito a partir de pedaços de persiana estragada e tendo por moldura rolos de cartão, e dos que estavam ao lado

E já que comecei a mensagem com um "bom conselho" termino com " Bom Conselho " de Chico Buarque
Quando procurava no youtube, encontrei no Ciber Dúvidas" uma análise" do poema que achei interessante.
De qualquer modo deixo uma foto do meu (no cavalete) , feito a partir de pedaços de persiana estragada e tendo por moldura rolos de cartão, e dos que estavam ao lado
E já que comecei a mensagem com um "bom conselho" termino com " Bom Conselho " de Chico Buarque
Quando procurava no youtube, encontrei no Ciber Dúvidas" uma análise" do poema que achei interessante.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Senilidade precoce?
Um terço dos professores chumbou na prova
de avaliação é o título de uma notícia que pode ser lida aqui
Mas que avaliação?
Nada melhor para responder que um texto de
António Mouzinho, publicado em De Rerum Natura. Não resisto a transcrevê-lo na
íntegra porque é de uma enorme lucidez
Como defendo que os professores devem ser
um escol, a flor das nossas instituições de ensino e das profissões —
acrescentada do gosto e do talento para lidar com alunos com esta ou aquela
idade —, fico particularmente impressionado com os testes psicotécnicos a que
agora são obrigatoriamente submetidos para entrar (ou permanecer) nas malhas do
ensino.
Aqui há uns anos (antes do Decreto
Regulamentar respetivo, o 26 de 2012) pediram-me que avaliasse um conjunto de
colegas, com uma condição: não metia o pé nas suas aulas. Há dois tipos de
avaliação do exercício docente: presencial e não presencial. A minha era do
segundo tipo.
Inteirei-me da forma como a coisa era
feita: havia uns formulários a preencher, com (e atente-se ao vocabulário)
«Dimensões», subdivididas em «Domínios», com «Descrição/Avaliação da Actividade
Realizada» (a atividade ainda tinha um «c») e, para rematar, «Evidências».
As Dimensões eram, afinal, (1)«Vertentes»:
vertente profissional, social e ética, (2)«Desenvolvimentos» (parte I):
desenvolvimento do ensino e da aprendizagem, (3)«Participações»: participação
na escola e relação com a comunidade educativa, e (4)«Desenvolvimentos» (parte
II): desenvolvimento e formação profissional ao longo da vida.
A primeira dimensão (só um bocadinho mais
de paciência, caro Leitor, que já começo o fogo de artifício propriamente dito)
refletia-se em três domínios: (1)«Compromisso com a construção e o uso do
conhecimento profissional», (2)«Compromisso com a promoção da aprendizagem e do
desenvolvimento pessoal e cívico dos alunos», e (3)«Compromisso com o grupo de
pares e com a escola».
A segunda dimensão (estamos quase…) incidia
em mais quatro domínios: (1)«Preparação e organização das actividades lectivas»
(os dois últimos «c» podem ser utilizados pelo Leitor numa ocasião de carência,
se assim o entender), (2)«Realização das actividades lectivas«, (3) «Relação
pedagógica com os alunos» e (4)«Processo de avaliação das aprendizagens dos
alunos». Os pontos 2 e 3 eram, por razões óbvias, excluídos da minha atuação
como avaliador sem presença na sala de aula.
A terceira dimensão (está a
escaldar!…) versava os três domínios
seguintes: (1)«Contributo para a realização dos objetivos do Projecto Educativo
e dos Planos Anual e Plurianual de Actividades», (2) «Participação nas
estruturas de coordenação educativa e supervisão pedagógica e nos órgãos de
administração e gestão» e (3)«Dinamização de projetos de investigação,
desenvolvimento e inovação educativa e sua correspondente avaliação».
A quarta dimensão tinha de ser… o tempo!:
«Formação contínua e desenvolvimento profissional».
Como é que eu lidava com isto tudo? Ora
bem: Cada um dos domínios era esclarecido por indicadores e descritores (de que
vou dar um exemplo mais adiante), premiado com uma quantificação e — coisa
importante — fundamentado por uma evidência (mais uma vez a linguagem). A
«evidência» é o fenómeno com existência física comprovada: não basta afirmar
«vi uma senhora com doces olhos que se dirigiu a mim num clarão de luz e me
interpelou dizendo "António, são 5 horas e 58 minutos, menos uma hora nos
Açores, e presta atenção ao que te vou confidenciar"». É necessário captar
a senhora em vídeo e passar pela secretaria da escola para dar veracidade à
gravação. O professor afirma que em novembro fez uma ação de formação no
Instituto Superior Técnico tendo saído de lá com um doutoramento numa área da
engenharia de materiais? Sim senhor, mostre lá o canudo. Fez uma visita de
estudo com os alunos de Sociologia à Disneyland de Paris? Ok: exiba os bilhetes
e os bonés do rato Mickey.
Vamos, então, aos descritores; pego logo no
segundo, e adiantemos serviço: trata-se do «Desenvolvimento do ensino e da
aprendizagem». São listados indicadores: «Correcção científica, pedagógica e
didáctica da planificação das actividades lectivas», «Planificação do ensino de
acordo com as finalidades, as aprendizagens previstas no currículo, a
rentabilização dos meios e recursos disponíveis e a articulação curricular». Os
descritores e os níveis de desempenho respetivos são estes:
(1)«Planifica as actividades lectivas com
correcção científica, pedagógica e didáctica, demonstrando uma articulação
lógica e coerente dos diferentes domínio curriculares — Excelente»;
(2)«Intermédio — Muito Bom»;
(3)«Planifica as actividades com correcção
científica, pedagógica e didáctica —
Bom»;
(4)«Intermédio — Regular»;
(5)«Demonstra graves inconsistências na
planificação, sem articulação evidente dos diferentes domínios» — Insuficiente.
Topam?
Vá lá; mais um para o caminho, que está
frio: desta vez sobre o «Processo de avaliação das aprendizagens dos alunos».
Os indicadores: «Desenvolvimento de actividades de avaliação das aprendizagens,
para efeitos de diagnóstico, regulação do processo de ensino e avaliação e
certificação de resultados», «Promoção de processos de auto-regulação nos
alunos que lhes permitam apreciar e melhorar os seus desempenhos». E,
novamente, os descritores e níveis:
(1)«Mobiliza diversas modalidades de
avaliação (diagnóstica, formativa, sumativa, auto-avaliação) com regularidade,
adequação e rigor, construindo e aplicando instrumentos de avaliação
diversificados e representativos dos critérios de avaliação definidos em
departamento curricular e aprovados em Conselho Pedagógico — Excelente»;
(2)«Intermédio — Muito Bom»;
(3)«Mobiliza diversas modalidades de
avaliação (diagnóstica, formativa, sumativa, auto-avaliação) com regularidade,
adequação e rigor, construindo e aplicando instrumentos de avaliação
representativos dos critérios de avaliação definidos em departamento curricular
e aprovados em Conselho Pedagógico — Bom»;
(4)«Intermédio — Regular»;
(5)«Mobiliza com incorreções graves as
modalidades de avaliação» — Insuficiente».
Pescam?
Vamos, então, à pirotecnia: o resultado de
todo este processo é que o professor avaliado nunca poderia ter nota superior a
Bom. Porquê? Porque não existia avaliação presencial.
Assim sendo, o que poderia acontecer? Que
qualquer indivíduo inteligente poderia recolher, de entre o programa aprovado e
meia dúzia de sugestões dadas pelos próprios livros adotados — com a respetiva
ganga de orientações para a planificações de aulas, execução de testes e
fichas, e receituários variados —, a estrutura do seu relatório final; esta
seria facilmente verificável pelos sumários e avaliações sortidas feitas aos
alunos. Claro, também estaria alinhado com os critérios de avaliação da escola.
Imaginemos, agora, que este professor produzia turmas com resultados medianos
que, em exame, se iam abaixo com «os nervos» (surgem como nos bifes: quando são
examinados). Somente o relatório, fechado antes dos exames, nada tinha a ver
com eles. O Bom seria o máximo: 7,9 em 10.
Ao lado, um colega mais descuidado gizaria,
à última hora, um relatório feito à pressa, com uma ou outra falha na descrição
da atividade, com ausência desta ou daquela evidência ou, simplesmente, lapsos
de memória. Baseando-se na sua boa intuição ou na experiência de anos
anteriores, produzia a sua planificação de aulas por grandes blocos soltos, sem
registos minuciosos. Seja, no entanto — por hipótese —, que produzia turmas com
resultados igualmente medianos mas que, em exame, superavam a classificação
interna da frequência, fazendo aquilo que se designa por «brilharete». O Bom
seria inferior, porque o relatório, que foi entregue antes dos exames, estava
bem redigido, mas apresentava deficiências: digamos, 7 em 10.
Vamos admitir que o professor avaliador fez
o seu trabalho com correção, de acordo com as boas práticas, definidas pelo
ministério, que a escola lhe transmitiu. Em agosto, adormecia, prazenteiro,
numa espreguiçadeira algarvia, beirã, ou transmontana (só a espreguiçadeira é
de rigueur), aliviado por se ver livre de critérios e tabelas que, muito
simplesmente, estava longe de poder verificar: era-lhe vedada a entrada numa
sala de aula dos colegas avaliados; nunca os viu ensinar e avaliou-os a partir
de paleio de sanzala; enfim, perdão: baseando-se em relatórios de atividade.
O professor medíocre e cuidadoso safou-se
com 7,9; o professor excelente mas menos atento à papelada ficou pelos 7. O
palerma é o segundo, que não se precaveu e fez um relatório assim-assim. Ora o
relatório é que era avaliado (ó palerma!). A comunidade respira fundo: tudo
está bem.
Agora, a confidência, a fechar a estória:
resolvi o problema cumprindo a lei, mas atribuindo, de acordo com os visados, a
mesma nota aos avaliados que cumpriram o guião — e foram todos. Sei, por portas
e travessas, que eram diferentes como professores, mas não sou abelhudo ao
ponto de ter arranjado maneira de urdir um inquérito paralelo para fazer a
folhinha a eventuais patifes, levando os outros à glória. Nada disso
transparecia proporcionalmente, de qualquer forma, nos relatórios entregues.
Era aquela a bambochata que o ministério
encomendara, e teve.
Não serviu para nada.
O Bom, de qualquer forma, foi passado por
inerência do cargo a milhares de professores antes disso; limitei-me a produzir
mais uns quantos. Não voltei a ser solicitado — se calhar — porque as notas
todas iguais irritaram alguém.
A novidade, agora, é os psicotécnicos!
Nunca uma alma, em ministério de que eu me
lembre, cuidou de estabelecer uma estrutura de ações de formação rotineiras,
para grupos inteiros das escolas, sobre didáticas das disciplinas ensinadas.
Não se tornava necessário para quem, em tempos, emergia de um estágio
pedagógico tradicional (isso era feito, longamente, lá dentro), mas é
absolutamente necessário hoje, se o professor saiu de uma dessas trapalhadas
que por aí há a «formar» professores (acreditadas por sucessivos ministros).
Não é feito, mas é feita uma espécie de
testezinhos psicotécnicos como expediente para verificar capacidades
perfeitamente elementares, lógicas e de expressão na língua materna. Como dizia
Carlos Fiolhais nestas páginas, «para excluir os supostamente piores».
Ora o ensino público nacional tem
considerável qualidade, apesar das deficiências todas que se lhe aponta (ao
sistema, à formação e seleção de professores, às condições materiais de
funcionamento, à gestão do curriculum e dos programas, e por aí fora). Essa
qualidade é-lhe emprestada, unicamente, por um corpo docente empenhado que
continua a sustentar tão bem como pode, com dedicação aos alunos, com brio
profissional, e com uma paciência notável, toda a casta de asneiras que
sucessivos ministérios põem de pé.
Retire-se-lhe uma resma de papéis idiotas
da frente substituindo-a por uma boa ação de formação sobre as matérias que
ensina diariamente, e logo se verá o professor a bendizer o tempo empregue, em
vez de maldizer a vida e a burocracia. Mas é mais fácil fazer testezinhos
manhosos do que didática.
O presente ministério, na sua prática
corrente, desvaloriza algumas das boas medidas tomadas com um comportamento
geral de espertice saloia: sim, vai apanhar os professores impertinentes num
ardil de testezinhos manhosos; sim, vai promover uma cultura da «utilidade»,
reforçando os conteúdos que, «realmente», servem para alguma coisa; sim, vai
desfazer-se dos projetos de investigação que gastam dinheirinho público sem
gerar retorno aparente imediato (castigando e premiando os projetos de
investigação «como um mestre-escola do antigamente», no dizer de José Vítor
Malheiros, citado no De Rerum Natura); sim, vai regular-se por uma enérgica
política de avaliação de resultados, transferindo para instituições de ensino critérios
do mundo empresarial. Sim, vai pôr Baião a falar Inglês, porque Baião, assim,
fica melhor. Diz quem? Diz quem sabe. Holy Cross of the Douro - Bayou terá a
sua EQ Foundation, claro (correspondendo i-quiu a um escritor inglês do século
19 chamado, por extenso, Eça de Queirós: escreveu King Solomon's Mines). No
restaurante, o arroz de favas é divino (divine)!
O ministério da educação (assim, com letra
minúscula) consegue ser sempre igual a si mesmo, por mais que mudem os
ministros, porque estes, de conluio com aquele, entendem que devem legislar com
mão alvar pondo-se, de seguida, à espreita, em vez de fazerem o seu trabalho —
resolvendo.
Os
professores precisam de boa formação, não de chicanes.
Se o
ministério se sujeitasse aos seus próprios critérios de avaliação de figurino
empresarial, estaria despedido em dois dias.
Ah:
e com justa causa! António Mouzinho
Recomendo , do mesmo autor, o texto
publicado aqui em 2011 cujos comentários merecem ser lidos. Transcrevo um deles
Para cúmulo do teatro a que vamos
assistindo, repare que no palco da 5 de Outubro, os actores Professores/as
estão a representar os papeis de homens e mulheres a dias nas escolas
Contratam-se por um mês, ou no que der na
real gana aos donos das lojas (lojas=escolas).
Depois das indignidades lançadas contra o
professorado, a matéria não tem fim.
O que apetece repetir como César, quando se
apercebeu que um dos assassinos era o seu filho Brutus, e adaptá-lo na boca dos
professores: "Tu quoque, Crate, fili mi?" (Até tu, Crato, meu filho?)
De assassinato em assassinato vamos indo.
Com um abraço de muita mágoa.
Outro não é possível.
O problema
vem de há muito como os textos referidos evidenciam. Já em 2008, Desidério Murcho
referia:
"Há quem pense que a avaliação de
professores imposta pelo Ministério da Educação visa melhorar o ensino, mas
isto é falso. Pior: nem é por essa razão que os responsáveis ministeriais
querem avaliar os professores. Pois se o fosse, a maneira mais óbvia de os
avaliar, com menos custos e menos complicações processuais, seria através do
tratamento estatístico dos resultados dos alunos em exames nacionais,
cientificamente rigorosos e pedagogicamente lúcidos."
Ainda a propósito da atual prova, diz
Carlos Fiolhais:
(...)Defendo que devemos escolher os
melhores professores, mas para isso essa prova é mal feita. De resto, é inútil.
Mal feita porque não passa de um teste
psicotécnico, sem nada a ver com a profissão docente. Inútil porque não serve
para escolher os melhores docentes, mas sim para excluir os supostamente
piores. Apenas afasta meia dúzia de candidatos a professores, num tempo em que
há poucos lugares. Quanto a escolher os melhores, o MEC já mostrou que não o
sabe fazer.
A prova tem outros danos: instalou na
sociedade a ideia de que os professores
são, em geral, incompetentes. Ora não são, são na sua grande maioria
profissionais não só capazes como dedicadíssimos. A insistência na prova
serviu, portanto, para colocar a
profissão contra os actuais ocupantes da 5 de Outubro, que estão a perturbar o
clima escolar e a afastar a atenção dos verdadeiros problemas da educação.
O ministro Nuno Crato colocou-se contra os
professores que o levaram, em ombros, a ministro. Quanto à direcção do IAVE,
antigo GAVE - Gabinete de Avaliação Educativa, que devia ser um organismo
técnico para realizar exames e não político, ela não é independente do Ministério nem do ministro.
É grave!
Num artigo que escrevi em 2011, refiro
(...) É preciso que o que se avalia tenha realmente
a ver com a qualidade de ensino e aprendizagem, não virtuais como as que nos
tentam impingir, mas reais.
E a real qualidade de ensino- aprendizagem
será tanto melhor quanto menor o tempo que os professores tiverem que dedicar a
preencher papéis e a assistir a reuniões, ambos obsoletos na maior parte dos
casos.”
Hoje, ao ouvir Nuno Crato falar da prova, fazendo
uma analogia com o exame para tirar a carta de condução, fiquei “estarrecida”...
Senilidade precoce?
Sr. Ministro, para tirar a carta de condução é preciso prestar uma prova, não num simulador, mas conduzindo realmente por várias trajetos escolhidos pelo examinador, enfrentando os verdadeiros problemas que um condutor enfrenta no seu dia a dia
Por essa lógica o Sr. Ministro devia ser o maior defensor de uma avaliação dos professores que teria que que passar pela prática da docência, necessariamente em sala de aula. Aí estaria totalmente de acordo consigo...
Deixo-vos com um texto, que podem ler aqui e
que vai no mesmo sentido daquilo que acabo de exprimir
Confesso que fiquei embaraçado com a
prestação. o Senhor passou nitidamente por momento mau, patético, que deixou em
baixo. Talvez cansaço, uma reacção à onda de frio, uma tentativa de fazer
humor, não sei. Mas que não correu bem, não correu.
Lembrou-se Nuno Crato de comparar a PACC
com o exame de condução. Disse o Senhor Ministro na RTP que um exame de
condução também não avalia tudo pelo que a PACC também não pode avaliar tudo.
Genial.
Existe um pormenor irrelevante, nos exames
de condução, certamente porque estão fora da alçada do MEC, os candidatos a
condutores têm que obrigatoriamente, adivinhem ... isso, conduzir. E realizam
também o exame teórico sobre o famoso "Código".
Mas na visão iluminada de Nuno Crato e do
IAVE é adequado avaliar as capacidades e conhecimentos para se ser professor
sem observar o seu trabalho em sala de aula. Serve uma prova de que avalie,
dizem "competências lógicas". Está, logicamente, certo.
A comparação de Nuno Crato entristeceu-me
mais do que me sentir discordar ou indignado. Acho um insulto à inteligência
comum fazer esta comparação, nós não somos parvos Senhor Ministro. Não vale a
pena produzir mais comentários, é a náusea.
Cartoon selecionado aqui
Mais um cartoon 
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Reciclar é uma Arte
Em Outubro tomei conhecimento do concurso Reciclar é uma Arte.
Quando frequentei a escola UTOPIA , o Professor Domingos Loureiro,um dia lançou-nos o desafio de fazer um trabalho com material supostamente sem valor. Pessoalmente resolvi usar uns pedaços de uma persiana, que tinha sido substituída numa das janelas de minha casa. Foi esse o trabalho que apresentei para o concurso.
Passado algum tempo recebi este mail:
Caro participante,
Agradecemos, mais uma vez, a
inscrição efetuada no concurso “Reciclar é uma Arte”, e aproveitamos para
informar que existe a possibilidade do seu trabalho ser exposto durante a
realização do Encontro
Internacional da Ciência para a Reciclagem (http://imsr2015.wix.com/ercr#!inicio/cuus),
organizado pelo ERCR (European Research Centre for Recycling) que se irá
realizar de 22 a 23 de janeiro de 2015, na Fundação Cupertino Miranda.
Caso esteja interessado em
participar nesta exposição extra
concurso, deverá informar a organização até 30 de Dezembro de 2014
e o trabalho terá que ser entregue até 15 de janeiro de 2015.
A Comissão Organizadora.
Assim, nos próximos dia 22 e 23, o meu trabalho, figurará, entre muitos, na Fundação Cupertino de Miranda. Aqui fica o convite.
Pessoalmente, estou curiosa quanto aos trabalhos apresentados.
sábado, 17 de janeiro de 2015
Fiat Lux
Em 2010 fui convidada a escrever um texto sobre a Luz, para o catálogo de uma exposição. Enviei o texto e passado algum tempo, traduzido em espanhol e inglês, recebo- o para revisão de provas.
Como domino relativamente bem o espanhol foi fácil fazer a revisão mas o mesmo não se passaria com o inglês. Por acaso estava a passar uns dias em minha casa um primo meu, tradutor, que chegou a fazer traduções em simultâneo, na ONU. O texto em inglês foi comparado com o original e feita uma ou outra alteração de modo a traduzir melhor o que eu pretendia referir.
Passado mais algum tempo recebi dois exemplares do catálogo, Fiquei um pouco surpresa pois não imaginava que fosse um catálogo tão bem apresentado e com tão elevada qualidade.
a quem mostrei o catálogo.
Disse-me:
Não interprete mal as minhas palavras mas, provavelmente, nunca nenhuma das obras que já escreveu ou irá escrever, será lida em tantas parte do mundo como este seu texto no catálogo.
Não me tinha apercebido de tal....
Fiat Lux. Creación e iluminación es el
catálogo preparado para ilustrar la exposición comisariada por Paulo Reis en el
espacio de MACUF (Museo de Arte Contemporáneo Gas Natural Fenosa) entre el 15
de Abril y el 4 de Julio de 2010. En este, se recogen, además de abundante
material gráfico de la exposición, textos de M. de Fátima Lambert, Regina
Gouveia y Paulo Reis, así como fichas explicativas del trabajo de cada uno de
los artistas participantes en la exposición e imágenes de todas las obras. La
portada de Fiat Lux ha sido concebida por DARDO para dejar que la luz se haga,
y por ese motivo se ha diseñado en negro con un troquel de círculos. El papel
blanco brillante también se ha seleccionado para facilitar el reflejo de la luz
sobre las superficies. Al tratarse de una exposición colectiva, el catálogo se
ha estructurado teniendo en cuenta la presencia de una serie de fichas de
Deixo um pequeno excerto do texto em espanhol, que poderá ser lido aqui, na íntegra.
MISTERIOSA LUZ, SIMPLE Y BELLA
Regina Gouveia
Unos ojos que me habían mirado con demora,
no sé si por amor o por caridad,
me habían hecho pensar en la muerte, y en
la nostalgia
que yo sentiría si me muriese ahora.
Y pensé que de la vida no tendría
ni nostalgia ni pena por perderla,
sino que en mis ojos muertos guardaría
ciertas imágenes de lo que pude ver.
Me gustó mucho la luz. Me gustó verla en
todas las maneras,
Desde la luz de la luciérnaga a la fría luz
de la estrella,
del fuego de los incendios a la llama de
las hogueras.
Me gustó mucho ver como centellea en la
cara de un cristal,
cuando traspasa, en una lámina tranquila,
la polvorienta niebla de un pinar,
cuando salta, en las aguas, con
contorsiones de culebra,
desecha en piedras preciosas de un lapidado
cetro,
cundo incide en un prisma y se desdobla
en los siete colores del espectro (...)
Gedeão, A. in Saudades da terra
La fascinación por la luz se remonta a las
sociedades más primitivas que habían divinizado al
Sol y a la Luna. La Serra de Sinta fue
conocida antiguamente como sierra de la Luna pues ahí se
practicó su culto.
En la antigua Grecia los hombres habían
empezado a intentar explicar el mundo físico a su
alrededor, de una forma más racional y
menos mitológica. Pero el estudio de la luz estaba
fuertemente ligado a la percepción visual.
Pitágoras y en general los seguidores del platonismo
admitían que los ojos emitían luz. Epicuro
fue el primer filósifo en defender que la luz sepor fuente y al entrar en los
ojos produce la sensación visual(...).
Tudo isto veio a propósito de 2015 ser o Ano Internacional da Luz cujo objetivo, segundo a Unesco, é "esclarecer os cidadãos de todo mundo para a importância da luz e das tecnologias óticas nas suas vidas, no seu futuro e no desenvolvimento da sociedade"
No site poderão encontrar muitos vídeos e também muitos textos como o que anexo a seguir.
A Brief History of Light
From early attempts to understand the motion of stars and planets to the appreciation of the importance of light in photosynthesis, efforts to understand the nature and the characteristics of light have revolutionized nearly every field of science. This page will provide an overview and timeline of the history of our understanding of light, and will provide a link to the presentation given on this topic at the Opening Ceremony.
Where to begin?
An important stage of the evolution of the Universe occurred around 300,000 years after the Big Bang, when the temperature was cool enough (around 4000 degrees) for neutral atoms to form. Before that time, there were too many charged particles to allow light to travel more than a very short distance. After atoms were formed, light could travel immense distances. In fact, we can receive today ‘light’ (in the form of microwaves) that has been traveling for over 13 billion years.
An important stage of the evolution of the Universe occurred around 300,000 years after the Big Bang, when the temperature was cool enough (around 4000 degrees) for neutral atoms to form. Before that time, there were too many charged particles to allow light to travel more than a very short distance. After atoms were formed, light could travel immense distances. In fact, we can receive today ‘light’ (in the form of microwaves) that has been traveling for over 13 billion years.
Perhaps of more importance to us was the formation of the Sun and the solar system - including our planet - about 4.5 billion years ago. Earth has been bathed with light from the Sun ever since; it is our most important source of energy. Sunlight warms us, causes weather patterns, allows plants to manufacture oxygen and our food from carbon dioxide and water, and it allows us to find our way around in the daytime!
The use of sunlight in photosynthesis, to make oxygen and carbohydrates from carbon dioxide and water, is a process first established over two billion years ago by cyanobacteria. They made the large quantities of oxygen in the atmosphere which allowed oxygen-breathing life to evolve. Today plants use chlorophyll to achieve the same result, keeping the atmosphere breathable, and providing food energy for us and all other advanced life forms.
Of course, mankind has found other sources of light over the course of history. Fire is obviously the earliest of these: from the camp fires of our cave-dwelling ancestors to the spirit lamps still used where there is no electricity. But electricity is the source of artificial light today, starting with the invention of the incandescent light by Joseph Swan and Thomas Edison and progressing via fluorescent lighting to modern light emitting diode (LED) lights.
Mankind has also learned to control light. The use of mirrors and lenses to divert light, or to magnify images, dates from pre-history. Microscopes and telescopes, using multiple mirrors and/or lenses are two closely related inventions from just a few hundred years ago. They allow us to study objects smaller than our naked eyes can see, and objects at large distances, whether ships at sea, or astronomical bodies at enormous distances.
We can also send light from one place to another using optical fibres or ‘light guides’ . These allow us to use light to transmit large amounts of information, and to explore regions where we cannot go, such as in medical probes or endoscopes.
No blog De Rerum Natura, Carlos Fiolhais tem colocado vários "post" a propósito, nomeadamente "O ARTISTA PORTUGUÊS NUNO MAYA VAI ABRIR O ANO INTERNACIONAL DA LUZ EM PARIS"
Um outro post tem por título O que é a luz ? Podem lê-lo a seguir.
Vale a pena, neste Ano Internacional da Luz, voltar a esta questão muito antiga. Ao longo da história, foram-lhe sendo dadas diferentes respostas. Para os atomistas gregos, a luz era, como aliás tudo o resto, constituída por partículas. No início do século XVIII, o físico inglês Isaac Newton recuperou esta teoria, uma vez que ela permitia explicar, entre outros fenómenos ópticos, a propagação rectilínea da luz, a reflexão (embate da luz na superfície de um espelho) e refracção (desvio da luz ao passar de um meio para outro).
Contudo, um outro físico, o holandês seu contemporâneo Christian Huyghens, conseguia explicar os mesmos fenómenos usando ondas. Apesar do enorme prestígio de Newton, foi a teoria ondulatória que acabou por prevalecer no século XIX: logo no início desse século, uma famosa realizada pelo inglês Thomas Young, exibindo a interferência de luz que passa por duas fendas, só podia ser compreendida com a ajuda de ondas. Uma partícula nunca pode anular outra partícula, mas uma onda já pode anular outra onda. Assistiu-se então ao triunfo da teoria ondulatória, para a qual muito contribuiu uma memória de 1815 do francês Augustin-Jean Fresnel, sobre a difracção da luz (espalhamento quando sai de um pequeno orifício).
Se a luz é uma onda, o que é que está a vibrar? Há 150 anos, o escocês James Clerk Maxwell, ao juntar, na mesma descrição matemática, a electricidade e o magnetismo, foi o primeiro a propor que a luz era uma onda que resultava da vibração do campo electromagnético. O que é esse campo? Para explicar a força eléctrica e a magnética à distância tinha-se introduzido a noção de campo. Existe um campo magnético associado ao campo eléctrico e a luz mais não é do que a propagação de uma perturbação periódica desses dois campos, conjunto a que chamamos campo electromagnético. A velocidade da luz foi calculada a partir de propriedades eléctricas e magnéticas. Apesar de essa velocidade ser constante, podiam existir ondas com comprimentos de onda muito diferentes. A luz visível corresponde a uma pequena “janela” no conjunto dos comprimentos de onda. Luz invisível, como a ultravioleta e a infravermelha, é tão luz como a luz visível, só diferindo desta por o comprimento de onda ser menor ou maior. Com a detecção instrumental de luz invisível, a onda parecia ter ganho à partícula!
Mas a luz reservava-nos surpresas. Em 1905 as partículas de luz voltaram quando o físico suíço Albert Einstein se viu obrigado a introduzir a noção de “pacote” de luz (fotão) para descrever o arranque de electrões de um metal por luz ultravioleta. Graças a Einstein Newton estava vingado… A energia do fotão dependia do comprimento de onda: havia fotões ultravioletas, infravermelhos, e, com uma energia intermédia, fotões azuis, verdes e vermelhos. Como conciliar a descrição ondulatória, que funciona bem em certas circunstâncias, e a descrição corpuscular, que funciona bem noutras? Uma estranha teoria – a teoria quântica – conseguiu fazê-lo, impondo-se como a moderna teoria da luz. A luz propaga-se no espaço como uma onda, mas pode ser produzida ou apanhada como partícula. Hoje em dia conseguimos emitir luz fotão a fotão, evidenciando o seu carácter corpuscular, mas, se colocarmos um obstáculo com duas fendas à frente dessa luz, verificaremos que ela passa pelas duas, como seria de esperar de uma onda. A experiência desafia o nosso senso comum. Quem diz que o mundo tem de estar de acordo com o nosso senso comum?
Termino com dois poemas meus.
Misteriosa luz
Desde
o Big-Bang corre pelo espaço
sem aparentar o mínimo cansaço.
Sem
concorrente na corrida
é,
de antemão, a vencedora da partida.
Durante
a já longa viagem
foi
criando vários laços na passagem
ao
tornar iridescente o belo diamante
quando
nele se reflete e se refrata,
ao
cobrir o mar de um manto cor de prata,
ao
ruborizar o céu à hora de alva e ao sol poente,
ao
emprestar à lua um manto de luar,
ao
tornar multicolor o céu e o mar,
ao
brincar com a chuva, como se fora criança,
traçando
no céu o arco da aliança,
ao
espargir de cor a mãe natureza
que
a ama com fervor e a
olha com enleio.
Misteriosa
luz, lasciva, bela.
Através
dos vidros da janela vejo,
projetada
no passeio,
a
indelével sombra dum longínquo amor.
In Entre margens(2013)
Arco-íris
Passeio no jardim das Tulherias,
o céu é cinza, o ar é baço.
Pelo espaço
ecoam doces melodias
que uma criança extrai da concertina.
Não sei se é menino ou se é menina,
só vejo as mãos e os olhos de um negro penetrante.
Um velho casaco do irmão, talvez do pai
cobre-lhe a cabeça e
sobre os ombros cai,
tentando protegê- la do frio que é cortante
É Abril, um Abril de chuva
e frio,
o dia é sombrio.
No Céu, um arco íris imenso
cobre a cidade com um halo intenso.
Lá ao fundo o obelisco hirto e só,
recorda o Egipto, e um certo faraó.
Mais além o Arco do Triunfo e la Défense
"Honni soit qui mal y pense".
Para trás, o Louvre e a Catedral
ali à esquerda, sempre monumental,
a torre Eiffel
qual torre de Babel
onde se ouvem os
idiomas mais diversos,
são os turistas, por Paris dispersos.
Lá em cima, o Sacré Coeur, Monmartre,
esta é a cidade luz, da boémia e da arte
no país de Renoir, Rodin, Ravel e Sartre,
Belmondo, Godard, Chevalier
do grande Le Corbusier,
de Descartes e Lavoisier,
de Aznavour, Piaff e Juliette
Paris dos Boulevards, de la Vilette,
do centro Pompidou, Beaubourg, Les Halles
do Moulin Rouge e de
Pigalle,
da Ópera, da
Madalena,
das pontes sobre o Sena.
É Abril, um Abril de chuva
e frio.
A música flutua no ar denso
e no Céu, sombrio,
um arco íris imenso.
Tudo isto me fascina e me seduz:
Paris, o som da
concertina,
e a dispersão da luz
In Reflexões e Interferências (2002)
sábado, 10 de janeiro de 2015
A besta humana
Quando tinha os meus 18 anos li “A besta
humana” de Zola, obra onde o autor
contrapõe à evolução tecnológica da sociedade, marcada na época pelos transportes
ferroviários, a natureza humana permanecendo cruel e corrupta.
O livro marcou-me bastante e essa marca
ressurge, geralmente, quando ocorrem atrocidades como as que, recentemente,
tiveram lugar em França, fruto de um fundamentalismo bárbaro, sem sentido.
Para Leonard Boff, o fundamentalismo representa
a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista assumindo doutrinas
e normas sem cuidar do seu espírito e da sua inserção no processo sempre evolutivo
da história, que obriga a contínuas interpretações e atualizações, exatamente
para manter a sua verdade essencial.
Lembrei-me de outros excertos ou citações que nos fazem refletir sobre qualquer
fundamentalismo, seja étnico, religioso, político ou outro.
A mente do fundamentalista é como a pupila
do olho: quanto mais luz recebe, mais se fecha. (Stephen Hawking)
Não tenho nenhum preconceito de raça, nem
de casta ou de credo. Todo o que me importa saber é que um homem é um ser
humano, e isto é suficiente para mim. (Mark Twain).
Quanto menos evidência existe em favor de
uma ideia, maior a paixão, maior a violência. (Bertrand Russell)
O desejo de salvar a humanidade é quase
sempre um disfarce para o desejo de controlá-la. (H. L. Mencken)
Discutir com um homem que renunciou à sua
razão é como medicar um cadáver. (Thomas Paine)
A forma mais comum de loucura é a crença
apaixonada no palpavelmente falso. Essa é a principal ocupação da humanidade.
(H. L. Mencken)
Os medos coletivos estimulam o instinto de
rebanho e tendem a produzir ferocidade para com aqueles que não são
considerados como membros do mesmo. (Bertrand Russell)
Eu jamais iria para a fogueira por uma
opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de
ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse. (Friedrich Nietzsche)
Acreditar é mais fácil do que pensar. Daí
existirem muito mais crentes do que pensadores. (Bruce Calvert)
Sempre que o correto se torna dependente da
autoridade divina, as coisas mais imorais, injustas e infames podem ser
justificadas e estabelecidas. (Ludwig Feuerbach)
O respeito pela vida religiosa dos outros,
por suas opiniões e seus pontos de vista, é um pré-requisito para a
coexistência humana. Isto não significa que tenhamos que aceitar tudo como igualmente correto, mas que
cada um tem o direito de ser respeitado em seus pontos de vista, desde que
estes não violem os direitos humanos básicos.(Hellern, Notaker, Gaarder).
As religiões são fundadas sobre o temor de
muitos e a esperteza de poucos. (Stendhal)
Quanto menos inteligente é o branco mais
estúpido lhe parece o negro. (André Gide)
O racismo é a expressão do cérebro humano
reduzida à sua mínima expressão. (Rigoberta Menchú)
Termino com alguns “cartoons” .
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