Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

NOVO BLOGUE

Retomei o blogue que já não usava há anos.

https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/

Dedico-o essencialmente aos mais novos mas todos serão bem vindos, muito em particular pais, avós, encarregados de educação, educadores ...


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Por terras do Oriente- 2


Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
Yat-lô--ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô...Ghi-...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
Álvaro de Campos in Passagem das horas

(...)Macau é um daqueles lugares capazes de oferecer ao recém-chegado a ilusão de que ele pode perder- se da vista das pessoas, ficar submerso e anónimo no emaranhado de ruas e becos da cidade velha, afogado pelas casas, a humidade, os novelos e teias de fios eléctricos que trepam pelas fachadas e saltam de prédio para prédio em ligações piratas. Dizem-me, e estou pronto a acreditar, que essa ilusão não dura muito tempo e que o verdadeiro problema, para um europeu, é nunca conseguir passar despercebido. Mas eu ainda estou chegado de fresco e portanto fui capaz de gozar a sensação de fuga, durante as primeiras horas da manhã, ajudado por uma chuva miúda que punha no dia um filtro cinzento-claro sem conseguir refrescar o ar pesado  
João Aguiar in O comedores de pérolas


Macau, junto à foz do rio das Pérolas, a sul de Cantão, foi a última colónia Portuguesa, a última colónia Europeia na Ásia e a primeira e última na China. Em 1557 foi reconhecido oficialmente como  entreposto comercial de Macau. Foi um território Português por quase 500 anos desde 1535 até 1999. Tal como Hong Kong  que lhe fica em frente, também na foz do mesmo rio, Macau é hoje uma Região Administrativa Especial da China. Tem a sua própria bandeira, moeda (a pataca). As línguas oficiais são o Chinês e o Português. Tem também um crioulo (o patuá) falado por pouca parte da população luso-chinesa (macaense).

Chegámos a Macau, idos de Hong Kong, no dia 17 de Agosto, à tarde.
Nesse dia visitámos as ilhas de Taipa e Coloane (hoje ligadas entre si). Passámos por vários pontos entre eles visitámos o Centro Comercial  Venetian Macau com casino, hotel e centro comercial, propriedade de uma multinacional de Las Vegas. Não é propriamente o tipo de "coisas" que procure nas viagens mas gostei de ver. No seu interior há uma "réplica de Veneza,onde o céu, artificial, parece real



Visitámos também vários locais turísticos de interesse nomeadamente a capela de S. Francisco Xavier em Coloane em cujo interior há uma imagem de Nossa Senhora com o menino ao colo, ambos representados como chineses







Almoçámos  num restaurante flutuante, propriedade de Stanley Ho. Vê-se por detrás do barco onde nos deslocámos  para ali ir.

No final do dia fomos transportados para o hotel, em Macau,  onde jantámos (buffet)

No dia 18 visitámos Macau propriamente dita. Fomos às ruínas de S.Paulo, à Igreja de S. Francisco Xavier, à Praça do Senado, ao templo de A Ma


Vimos também o antigo hospital que por detrás tem um cemitério. Ao lado foi instalado o 1º casino
que não funcionou pois os chineses,muito supersticiosos,  tinham receio de tão assustadora vizinhança..
Almoçámos na Torre Macau, num restaurante giratório, tudo propriedade de Stanley Ho.  Dali pudemos desfrutar de uma magnífica vista sobre todo o território bem como das pontes que ligam ilhas e península . Também  pudemos assistir a  vários saltos  de bungee jumping do cima da torre, com 338 m de altura





 Falar de Macau é falar também de  casinos e de ópio

(...)Wang  Wu  assistiu, portanto,  aos amuos de dois impérios decadentes, o do Céu e o dos Lusitanos(...) Enquanto o leão inglês prosperava, sorrindo de tanta impotência- e impunha o ópio à China e vinha a Macau para se embebedar e jogar(...)João Aguiar in O comedores de pérolas

A grande fonte de rendimento de Macau é o jogo e ali acorrem inúmeros chineses da China e de Hong Kong bem como de todas as partes do mundo.

Quanto ao ópio...
(...)Produtos chineses como a seda, porcelanas e chá vendiam-se então facilmente no Ocidente, mas era difícil escoar os produtos da Europa industrializada no mercado chinês, que continuava praticamente fechado. Para inverter esse défice comercial, difundiu-se na China o ópio, um esforço conduzido sobretudo pela Inglaterra (que o trazia da Índia), o que veio a originar as guerras do ópio (primeira fase: 1839–1842; segunda fase: 1856–1860). A China importava ópio apenas para uso medicinal, mas as grandes quantidades que passaram a entrar através de Macau e Hong-Kong levaram a excessos de consumo, atingindo todas as camadas da população. A China perdia, assim, enormes quantidades de prata para pagar as importações de ópio, decretando a sua proibição, o que acabaria por levar a Inglaterra a declarar guerra. A superioridade tecnológica e naval britânica ditou a destruição dos obsoletos juncos chineses. A paz chegou com a assinatura do Tratado de Nanquim, que permitiu a abertura de vários portos aos ingleses (incluindo Xangai e Ningbo), passando ainda a ilha de Hong-Kong para o poder britânico até 1997(...).


 Falar de ópio e Macau implica falar de Camilo Pessanha (1867 - 1926), um dos maiores poetas simbolistas portugueses. Dependente do ópio até à hora da morte, aos 59 anos em Macau, vítima de tuberculose. Da sua obra, destaca-se o poema Branco e Vermelho, onde o poeta descreve o estado de privação dos opiómanos.

Até ao chão, curvados,

Exaustos e curvados,

Vão um a um, curvados,

Os seus magros perfis;

Escravos condenados,

No poente recortados,

Em negro recortados,

Magros, mesquinhos, vis....


 Também por ali passou o imortal Camões cujo busto podemos ver no Jardim de Camões

  


De tarde deixámos Macau. fomos de autocarro para Cantão, atravessando as portas do cerco, fronteira com a China

Havia muito mais a dizer mas deixo-vos com belíssimas imagens de Macau que podem ver aqui

(as fotos, à exceção da última, são da autoria de Fernando Gouveia (arquiteto)



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Por terras do oriente-1


Na mensagem anterior postada em 14 de Agosto dava conta da minha partida no dia seguinte, rumo ao Oriente, viagem com que há muito tempo o meu marido sonhava.  Um amigo (António) falou-nos num programa  da Fundação Oriente. Inscrevemo-nos os três e ainda a amiga Fátima que costuma viajar conosco. 

Quando a pneumonia de que fui “vítima” em meados de Julho ameaçou pôr em causa a minha ida, os filhos ajudaram-me a convencer o pai de que deveria ir, mesmo que eu não fosse. No entanto, dia 11 tive o aval do pneumologista.
Partimos dia 15 no alfa das 7, 45. Na gare do Oriente aguardava-nos  o filho da Fátima, que reside em Lisboa e que nos levou ao aeroporto, donde partimos às 12h 45 min em direção ao Dubai onde fizemos escala seguindo para Hong Kong. Chegámos dia 16, por volta das 15, 30 locais( 8,30 h em Portugal), ou seja após quase 26 h de viagem.
A viagem foi acompanhada pelo Dr. Graça de Abreu, por parte da Fundação Oriente , e uma acompanhante por parte da agência Abreu. 

Hong Kong é uma das duas regiões administrativas especiais da República Popular da China sendo a outra Macau. Situada na costa sul da China e delimitada pelo delta do Rio das Pérolas e pelo Mar da China Meridional, é conhecida por seu horizonte repleto de arranha-céus e por seu profundo porto natural. Com uma área de 1,104 km² e uma população de sete milhões de pessoas, Hong Kong é uma das áreas mais densamente povoadas do mundo. A população da cidade é composta por 95% de pessoas de etnia chinesa e 5% de outros grupos étnicos.
O Território Autônomo de Hong Kong é formado pela Ilha de Hong Kong, a Península de Kawloon, que fica em frente, uma área conhecida como “Novos Territórios” e dezenas de ilhas menores que ficam na baía de Hong Kong. Os ingleses adquiriram o território de Hong Kong, como uma colónia, após a Primeira Guerra do Ópio de 1839 a 1842. Hong Kong foi uma indenização de guerra. Após a Segunda Guerra do Ópio, adquiriram a Península de Kawloon e ampliaram o território. Depois fizeram um acordo com os chineses e alugaram uma área anexa a Kawloon, denominada de Novos Territórios
Sob o princípio do "um país, dois sistemas", Hong Kong tem um sistema político diferente do da China continental. A Lei Básica, a constituição da cidade, estipula que Hong Kong deve ter um "alto grau de autonomia" em todas as esferas, exceto nas relações exteriores e na defesa militar.
O seu pequeno território e a consequente falta de espaço causou uma forte demanda por construções mais densas e altas, o que desenvolveu a cidade como um centro para a arquitetura moderna e a tornou uma das mais verticais do planeta. Hong Kong também tem um dos maiores PIB per capita do mundo (adaptado de  http://pt.wikipedia.org/wiki/Hong_Kong

O nosso hotel ficava na Península de Kawloon e o aeroporto numa das várias ilhas artificiais. No percurso de autocarro para o hotel, pudemos aperceber-nos desta última caraterística.
À noite, fomos de autocarro  até um ponto onde se pode ver a baía. Assistimos ao acender das luzes. Uma visão fantástica da ilha refletida no delta do rio das pérolas.

No dia seguinte fomos fazer uma vista à cidade que entre outras etapas teve  uma subida  ao  Pico Vitória, a mais alta colina de Hong Kong, localizada a 552 metros de altitude, para daí ter uma visão panorâmica. Visitámos também a vila piscatória de Aberdeen e almoçámos no restaurante  flutuante Jumbo, uma das infindáveis pertenças de Stanley Ho.



Lembrei-me então de “Os Comedores de Pérolas” de João Aguiar(1992) e decidi relê-lo logo que chegasse a Portugal.
De tarde partimos em jetfoil para Macau.
Termino este primeiro texto com uma pequena citação do referido livro “(...)Wang Wu recortou ou mandou recortar muitos jornais(...) notícias que (...) haviam despertado o seu interesse: ataques de piratas no delta do Rio das Pérolas- lucrativa atividade que durou até muito tarde neste século e que não se encontra de todo extinta nos mares asiáticos (...)”

As fotos desta mensagem são todas da autoria de Fernando Gouveia, arquiteto


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Peripécias...


Vou fazer um breve interregno no “silêncio” que dura já há mais de um mês. E digo breve, porque parto amanhã para férias.
No dia 15 de julho, terça feira,  fomos para a “minha aldeia” e, como é habitual, levámos alguns netos, desta vez o José e a Marta.
Estava previsto irem todos mas o Bernardo, muito ligado à mãe, à última hora desistiu. A irmã, que já há 9 anos era companhia infalível, não quis deixar o irmão. Ficou previsto que na sexta, dia 18, os pais iriam levá-los e ficariam então os quatro connosco.
Mas o “diabo teceu-as”.
Durante o dia de quarta feira os miúdos brincaram, eu e eles fomos à mini piscina (aproveitamento do antigo lagar de vinho) e consegui que a minha neta (vai fazer 4 anos) ganhasse algum à vontade com a água. Após o jantar fomos ao parque infantil da aldeia e ao regressar senti uma dor muito aguda no peito e muita dificuldade em respirar. Não comentei o caso e no dia seguinte, quinta-feira, acordei bem. Fomos à vila (Alfândega da Fé) nomeadamente à Biblioteca e enquanto o José foi jogar no computador (limite de tempo 30 min), a Marta foi para a secção infantil brincar com outras crianças com as quais interagiu como se as conhecesse desde sempre.
Era feira na Vila pelo que ainda demos uma voltinha na feira e regressámos à aldeia.
À tarde o meu marido foi à outra aldeia, Adeganha, no concelho de Moncorvo (há dois anos, por morte do irmão, herdou ali uma casa, tipo senhorial, bastante degradada no interior) para continuar a tarefa ciclópica de organizar e eliminar “tralhas” pois o meu cunhado era comprador compulsivo e é indescritível o caos que encontrámos. 
Só para dar uma ideia, deixo uma imagem de um dos compartimentos, mas em qualquer outro a situação era idêntica.


Voltei com os miúdos para a “piscina” e continuaram os progressos da Marta. Quando saí da piscina senti novamente a dor e a falta de ar mas imaginei que, tal como acontecera na véspera, iriam passar em breve.
De noite a dor e a falta de ar tornaram-se frequentes. Mudei de quarto para não acordar o meu marido mas passei mal a noite pelo que, no dia seguinte, sexta feira,  contei o que se estava a passar e fui ao serviço de urgência em Macedo de Cavaleiros.
Numa radiografia aos pulmões foi detectada uma pneumonia. Teria que fazer umas análises para se poder decidir se teria que ficar internada. Estive 5 horas na urgência e o meu marido lá teve que “aguentar” com os dois netos, os mais irrequietos dos quatro. Felizmente não tive que ficar internada. Nesse dia chegariam os outros dois netos com os pais bem como o pai do José e da Marta (a mãe ainda está na Argentina, num projeto de investigação). Chegaram, não para deixar os netos que “faltavam” mas para  levar os que estavam...
Ficaram até domingo e decidiu-se que eu viria para o Porto com eles para ser novamente vista. Fui para a urgência (mais 5 h com os mesmos exames). O diagnóstico foi confirmado, a medicação foi aumentada. O médico fez um relatório circunstanciado e no dia seguinte, segunda feira,  fui ao médico de família com o processo. Mais um reforço de antibióticos...De acordo com o médico de família,  decidi regressar ao Nordeste, não para a minha aldeia, mas para a do meu marido, que é mais tranquila e para onde ele se mudou logo que eu lhe comuniquei a decisão. Ao fim do dia ainda consegui apanhar o comboio (o meio de transporte de que mais gosto) para o Pocinho onde ele me foi buscar. Na viagem, a beleza inigualável do Douro...
Quando fomos para a minha aldeia levámos o gato, como é habitual no Verão. Só que não nos lembrámos que era a festa da aldeia. Uma barulheira infernal (um conjunto a emitir ruídos porque não àquilo não se pode chamar música) com um nível sonoro muito acima daquele que é tolerável. Já no ano passado aconteceu o mesmo e o gato ficou simplesmente histérico. Neste ano ficou de tal modo assanhado que se atirava às pessoas pelo que o meu marido não o conseguiu levar.
Passados dois dias foi buscá-lo e munido de luvas e casaco de couro, tentou apanhá-lo. Por azar o gato conseguiu arrancar-lhe uma luva e mordeu-o em vários locais da mão. Mas conseguiu apanhá-lo e lá foi ele para a Adeganha.
No dia seguinte a mão estava vermelha e com um grande edema.  Desta vez foi ele à urgência  a Alfândega que é a vila que fica mais perto. Foi-lhe de imediato receitado um antibiótico e, durante uma série de dias, teve que lá voltar a fazer curativos.
Felizmente eu tinha levado uma série de refeições congeladas, para poder estar mais disponível para os netos e 15 dias antes tínhamos ido lá levar uma velha máquina de lavar louça (estava aqui e foi substituída).
Tendo que descansar o máximo possível, passei o tempo deitada ou sentada, a ouvir música e a ler. Reli “Os velhos marinheiros”e “Farda, fardão, camisola de dormir” de Jorge Amado, “O Evangelho segundo Jesus Cristo” de Saramago, “Miss Esfinge” de Campos Monteiro (livro que tinha lido na adolescência ) e li “Olhos nos Olhos” de J.Machado Vaz e “Fátima desmascarada” de João Ilharco. Também folheei livros sobre vários pintores de que gosto (Klee, Picasso, Chagall, Miró..)e  Arcimboldo 
 que , embora não aprecie, não posso deixar de considerar fabuloso, para a sua época, pois tudo era criado a partir de elementos geralmente naturais como frutos, mas também  livros, etc 


Estava eu “posta em sossego” telefonou-me o pintor e escritor António Afonso,  meu amigo de infância, que está como comissário português de uma exposição internacional que iria  inaugurar  no Museu Abade Baçal em Bragança,  a 4 de Agosto com terminus a 28.


Queria que eu colocasse  lá dois quadros meus. Gostaria de colocar os últimos que fiz, pigmentos naturais sobre sacos de azeitona. Não tinha nada comigo que valesse a pena. A única hipótese era pedir aos meus ilhos que os levassem quando fossem a 2 de Agosto.
Mas era preciso colocá-los em Bragança. Eu tinha que fazer um novo raio X para ver como evoluíra a doença. Lembrei-me então que uma ex- aluna minha, com quem mantenho contacto, estivera como médica em Bragança e tinha ido fazer um estágio no Brasil. Lembrei-me de lhe telefonar para me indicar onde deveria fazer a “vistoria”. Para grande alegria minha, estava de novo em Bragança e de imediato me mandou ir ter com ela ao Centro de saúde. Conciliando com a necessidade de alguém levar os quadros  a  Bragança, marquei a consulta para o dia 4. Assim levaria os quadros e se tivesse o aval médico, iria nesse mesmo dia à inauguração da  exposição.
O meu amigo António Afonso disse não haver problema porque ele reservaria o lugar para os quadros  e assim foi.
No dia 2 chegaram filhos netos, quadros e uma piscina insuflável. Na Adeganha  não há lagar de vinho transformado em piscina, mas há um grande pátio onde a mesma foi instalada





Logo que soube da minha doença a Rita comentou, em jeito de pergunta: Este ano não vai haver teatro, pois não? Respondi : Vamos ver o que se pode arranjar...
Durante os meus repousos lembrei-me de fazer algo muito simples. A casa que o meu marido herdou é uma casarão...O meu cunhado, na fase última da doença, por vezes tinha visões e dizia ter visto antepassados emergirem das paredes. Lençóis brancos eram fáceis de arranjar,  halibut  e talco para “pintar” rostos e cabelos  também.  E assim surgiu uma peça muito simples...
Entretanto dia 4, em  Bragança, fui muito bem atendida pela minha ex-aluna Raquel e equipa. O mal parecia estar debelado. Mandou-me tudo por e-mail para eu enviar ao meu médico de família (de quem a  Raquel foi aluna na Faculdade) que mal recebeu os dados me telefonou confirmando a boa notícia. Assim pude ir à inauguração da exposição que foi precedida de um pequeno buffet para os participantes e respetivos acompanhantes.

Deixo dois  vídeos, fotos de trabalhos da participação portuguesa e algumas fotos da inauguração que podem ver aqui
























Regressando à Adeganha, filhos e netos passavam o dia na piscina e eu assistia da varanda...


Nas horas mortas ensaiámos a peça. 

Noites de terror no casarão
Atores:
1º fantasma- José (8 anos, quase 9)
2º Fantasma-Marta (3 anos, quase  4)
3º Fantasma-Bernardo (5 anos)
4º fantasma-Rita (12 anos)

Os actores, vestidos de fantasmas (lençóis brancos, rosto e cabelos brancos) estão escondidos num quarto  pequeno,  perto da sala grande
Ouvem-se uns sons metálicos macabros,  uivos, arrastar de móveis, chiar de portas...

(Voz da Rita)

Diz a lenda que três pastoras,
enquanto o rebanho guardavam
a vários jogos, jogavam,
mas sempre a mesma ganhava
As outras,  muito zangadas,
decidiram acabar
com aquele maldito azar
Deitaram fogo à terceira
que, mesmo assim na fogueira,
continuava a ganhar
Arde e ganha…. Arde e ganha….
Assim nasceu Adeganha 
onde tudo se vai passar

(voz  do José )

No enorme casarão,
bem no Largo da Lameira,
vagueiam a horas mortas,
por vezes a noite inteira,
uns decadentes morgados
Pobres coitados….          
Atravessam as paredes
e atravessam as portas…. 

(vozes do Bernardo e da  Marta)

Fazem uma barulheira

Ouvem-se novamente os barulhos  e a seguir entra o 1º fantasma com uma bengala

Vivo aqui há duzentos anos,
sempre agarrado à muleta,
infelizmente sem cheta.
Isto não estava em meus planos

Sai.

(Todos)
Uuuu      uuuuuu    uuuuu

Ouvem-se novamente os barulhos  e entra o 2º fantasma 

Ainda sou fantasminha
Neste casarão, só gosto da cozinha…

(vozes)
Ah    Ah   Ah…

Ouvem-se novamente os barulhos  e entra o 3º fantasma 

Claro, tu só pensas em comer

(vozes)

Ah    Ah   Ah…

2º fantasma
 
E não

3º fantasma 

E sim

2º fantasma
 
E não

3º fantasma 

E sim

(Novamente os barulhos e entra de novo o 1º fantasma  com a bengala)

Calem-se  fedelhos.
Respeitem os fantasmas mais velhos

(vozes)
Ah    Ah   Ah…

Novamente os barulho e entra o 4º fantasma

Mas quem manda aqui sou eu,
ouviste velho morgado?
Quero tudo sossegado
acordei com a discussão.
Todos fora do casarão

Os outros 3 fantasmas  em coro

Não te zangues com a malta.
Não te zangues, por favor.
Todos nós fazemos falta
para as noites de terror
neste velho casarão.

4º fantasma 

Tendes  razão , podeis ficar,
mas hoje é tarde de mais
e a farra terminou.
Ide deitar que eu já vou.
Amanhã haverá mais…


Como sempre terminámos com um RAP

No enorme casarão, uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, vagueiam a horas mortas
por vezes a noite inteira, uns decadentes morgados. Pobres coitados….  
       
Atravessam as paredes e atravessam as portas…. 
Fazem uma barulheira   uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Mas não se assustem senhores. Vamos contar um segredo.
Um até já está gágá, tem as costas meias tortas e  anda sempre  com muleta.

Dos outros, dois são pequenos, e o mandão é uma  treta.
Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

São fantasmas mais ou menos, não vale a pena ter medo.

Boa noite meus senhores.Vão dormir, já não é cedo.


Um dia, ainda antes da representação,  fui  dar  com a Marta e o Bernardo num dos quartos a ensaiarem, por  livre iniciativa,  as suas “falas”
Uma ternura...
A peça  foi apresentada no a 7 de Agosto, dia  do aniversário do meu filho Miguel.

Foto tirada no fim do espetáculo. A Marta já despira o fato de fantasma... 

Filhos e netos regressaram a 9 e nós a 10.
Dia 11 fui ao pneumologista, fiz provas funcionais respiratórias e tive “permissão” de ir à China destino que o meu marido escolhera e que era um dos seus  grandes sonhos ....Quando me foi diagnosticada a pneumonia, foi-me dito que ir ou não, dependia da evolução da doença.
A muito custo eu e os filhos conseguimos convencê-lo a ir mesmo que eu não pudesse. Ficou a aguardar, ansioso, todo este tempo.
Partimos amanhã.


terça-feira, 1 de julho de 2014

A semana que passou...

A semana que passou foi rica de emoções
Com os netos de férias, havia que pensar em actividades para todos. Na segunda feira começámos o dia com uma visita à  cascata que os Bombeiros Sapadores (meus vizinhos...)  montaram este ano, pela 1ª vez. Estava bastante interessante pelo que todos gostaram muito, essencialmente o Bernardo que tem 5 anos.
Vieram cheios de ideias para a nossa cascata que este ano esteve um pouco mais rica que em anos anteriores.
Mas os festejos foram mais pobres...Habitualmente somos  mais de vinte pessoas mas como o tempo estava muito fraco, previmos que não poderíamos fazer os festejos no quintal pelo que estávamos apenas nós, filhos, netos e os pais de uma das minhas noras.
Assámos as sardinhas no quintal mas tivemos que as comer dentro de casa, concretamente em casa  do meu filho  Miguel, meu vizinho...
Fiz o caldo verde e deixei-o em minha casa para levar só no fim da sardinhada.
Contrariamente ao habitual as sardinhas eram fracas, muito secas e o caldo verde ficou em minha casa porque nunca mais nos lembrámos dele...
Mas a alegria, particularmente dos mais novos, fez  esquecer todos os fracassos.
No dia seguinte e como é habitual, almoçámos todos em minha casa.  Não foi o habitual anho mas cachupa, um prato de que todos gostamos muito e que comi pela primeira vez na Guiné em 1969. Leva anho, galinha, porco, vitela, milho, feijão, couve, cenoura...
Ao jantar ficámos nós, o meu filho mais novo e os filhos (a minha nora, investigadora, está na Argentina onde vai ficar até setembro).
Como o meu neto José mudou de escola no 3º período ainda não consolidou amizades fortes como algumas que tinha na escola anterior. Por isso decidi convidar dois dos novos colegas, aqueles com quem se entende melhor.
No dia 24 o José dormiu cá pois o colega David vinha passar o dia seguinte com ele e chegava às 8 da manhã. Ao José disse que chegaria só às 10 pois, caso contrário, acordaria muito cedo com a excitação da vinda.
Jogaram à bola, foram à piscina, fizeram passatempos em inglês e jogaram à caça ao tesouro que é uma brincadeira de que as crianças gostam imenso e que eu já fazia com os meus filhos.
Começámos por procurar o primeiro tesouro (havia um tesouro para cada um). As pistas eram em inglês.
Suponhamos que a primeira pista era book. Tinham que procurar e encontrar num livro, a indicação de uma outra pista.
Suponhamos que a nova pista era  dog. Teriam que encontrar um cão de peluche onde estava escondida a pista. E assim por diante até encontrarem o tesouro.
O David delirou e quis de imediato jogar de novo. Mas entretanto eram horas de almoçar.
À tarde fizeram de novo a caça ao tesouro, jogaram à bola e foram mais uma vez à piscina. O pai do menino veio buscá-lo às 19,30. Não queria ir embora. Ficou a promessa que virá de novo.
Os meus netos do lado não estiveram; foram passar o dia a casa dos outros avós. À noite veio o meu filho mais novo e jantámos os cinco. O José, muito excitado, queria contar todas as novidades do dia.
Quando foram embora liguei o computador e tive uma agradável surpresa. Aqui vai...

 NOVA EDIÇÃO DE "CIÊNCIA PARA MENINOS EM POEMAS PEQUENINOS"



Regina Gouveia foi professora de Físico-Química, deixou uma obra pedagógica notável, e está agora aposentada. É a autora do blogue “Do Caos ao Cosmos” http://docaosaocosmos.blogspot.pt/  Gosta de escrever poesia de base científica (um pouco à maneira de António Gedeão, o pseudónimo poético de Rómulo de Carvalho, também ele professor de Físico-Química numa escola secundária). Alguns desses poemas dirigem-se aos mais pequenos. É o caso de  Era Uma Vez… Ciência e Poesia no Reino da Fantasia, Palavras & Rimas (2013), recomendado para o 2.º ano pelo Plano Nacional de Leitura,  Breve História da Química, 7 Dias 6 Noites (2011), que saiu no Ano Internacional da Química, e  Pelo Sistema Solar Vamos Todos Viajar, Editora Gatafunho (2010). Agora, na Primavera de 2014, saiu, finalmente numa grande editora (a Porto Editora), com capas duras e excelente aspecto gráfico uma das suas colecções de poemas infantis: “Ciência para meninos em poemas pequeninos”, com ilustrações do filho Nuno Gouveia, tal como tinha já acontecido com alguns livros anteriores. Contém um poema por página, em letra gorda, sempre com bonitas ilustrações alusivas. Quem quiser ler um  poema  ilustrado, pode ler este sobre a “Chuva”:  http://recursos.wook.pt/recurso?&id=9644999

É um livro encantador onde se pode aprender, em tenra idade, alguma ciência com a sensibilidade  e a imaginação que só a poesia podem proporcionar. De facto, este livro já tinha saído em 2010 numa edição de capa mole na editora  Ana Paula Faria (colecção Ciência e Poesia de Mãos Dadas). Mas a nova edição  de capa dura e formato maior (distingue-se nas livrarias por ter um buraco no meio da capa com a palavra “Histórias” desenhada), além de chegar a faixas maiores do mercado, foi feita para durar. Servindo-se dela professores e pais podem mostrar aos pequeninos que ciência e poesia são aliadas na busca do conhecimento.


- Regina Gouveia, “Ciência para meninos em poemas pequeninos”, ilustrações de Nuno Gouveia, Porto Editora, 2014.
Posted by Carlos Fiolhais at 09:59 http://img1.blogblog.com/img/icon18_email.gif

Obrigada Professor Fiolhais.


Na quinta feira a Rita teve um convite para passar a tarde com uma colega e a pequenina foi para o infantário. Ficaram os dois rapazes que, apesar da diferença de idades (um tem 5 anos, o outro vai fazer 9) são inseparáveis. O Bernardo sozinho é muito tranquilo, mas com o primo fica quase tão irrequieto como ele..
Por isso, programei para a tarde uma saída.  Fomos de autocarro (algo a que o Bernardo não está habituado e por isso adora) até à reitoria (antiga faculdade de ciências) visitar duas exposições. Uma delas, "INAUDITO - A AVENTURA DE OUVIR" e a outra EVOLUÇÃO DA VIDA NA TERRA onde, recorrendo a fósseis e fragmentos de rochas e meteoritos, se propõe aos visitantes uma "aula" prática sobre a evolução do nosso planeta.

Como o Bernardo adora animais ainda pôde ver alguns embalsamados no átrio do Museu de Zoologia, que está fechado para obras, devendo reabrir em 2015.
Quando convidei o David convidei também uma menina, Catarina,  que na altura não se mostrou muito entusiasmada mas, na 5ª feira ao fim da tarde, ligou a perguntar se poderia vir no dia seguinte depois de almoço.

Ao fim do dia o pai do José veio buscá-lo e trouxe a mais pequenina,  Marta. Jantaram todos e foram embora. 
Fiquei de ir buscar o José no dia seguinte por volta das 9h.

Mas dia 26, quinta feira,  foi também o dia em que Portugal se viu afastado do Mundial. Não gosto de futebol mas gostaria que Portugal tivesse passado...

Na sexta feira fui buscar o José e lembrei-me de passar pelo café dos pais da Catarina, onde ela costuma estar. Se ela quisesse poderia ir passar todo o dia e não apenas a tarde. Aceitou o convite. Chegados a casa fomos buscar o Bernardo, que estava na casa ao lado, com a empregada. A Rita ainda dormia.
Como a Catarina mostrou vontade de ver a cascata dos bombeiros fomos visitá-la mais uma vez. O Bernardo ficou delirante. À saída perguntou ao bombeiro que nos atendeu: Eu posso vir todos os dias ver a cascata?

Com a Catarina o programa foi idêntico ao que usara com o David. Como não sabe nadar, a piscina foi substituída por jogos. Mas do que ela gostou mesmo foi da caça ao tesouro de que fizemos três edições...

No sábado a Marta foi ao aniversário da maior amiga, Ariadne, uma colega do infantário. A mãe é mexicana e o pai inglês, astrofísico.Está envolvido num projeto de investigação na Faculdade de Ciências. Eu e o José  fomos levar a Marta(o meu filho, que pratica atletismo, tinha um campeonato nesse dia) 
Enquanto decorria a festa fui dar uma volta com o José. Como a menina mora na Rua Miguel Bombarda, fomos ao centro comercial que ali existe.
Estava em festa. 


Havia bebidas, bolinhos, etc. Comemos uns brigadeiros de laranja, deliciosos.
No fim fomos buscar a Marta e o José ainda brincou um bocadinho com as pequeninas (eram só meninas). O casal é muito simpático e fizeram questão que provássemos alguma coisa. Comi uma fatia de tarte de limão, muito boa.

Regressámos a casa e jantámos quando o meu filho chegou do campeonato.

Quando foram embora sentei-me a ouvir Impromptu nº 3 de Schubert 
Foi uma semana um pouco cansativa mas a alegria superou o cansaço.