Uma mulher de 75 anos morreu, este sábado, na sequência de "queimaduras graves" provocadas por uma queda na lareira de sua casa, em Parada, Alfândega da Fé.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Não deixes para amanhã...
Chamava-se Rosalina e tinha 75 anos. Trabalhou muitos anos
em casa dos meus pais.
Quando passava à minha porta, na aldeia, cumprimentava-me
sempre com o mesmo comentário. Ai que
saudades tenho do tempo em que aqui trabalhava.
Nos últimos anos
deslocava-se já com muita dificuldade.
No verão passado não a vi. Uma sobrinha informou-me que já quase não saía
de casa, devido às dificuldades de locomoção.
Decidi ir visitá-la. Estava no fim das minhas férias e fui
adiando a visita, por um ou outro motivo.
Ainda há dias tinha dito aos meu marido: quando for à Parada tenho que ir visitar
a Rosalina. Agora é tarde demais. Soube há pouco que a Rosalina morreu ontem, aos 75
anos de idade.
Ao abrir o blogue Alfândega da Fé... Noticias de cá e
de lá deparei com a
notícia.
Uma mulher de 75 anos morreu, este sábado, na sequência de "queimaduras graves" provocadas por uma queda na lareira de sua casa, em Parada, Alfândega da Fé.
Lá diz o ditado: Não deixes para amanhã o que podes fazer
hoje...
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Não podemos esquecer que a sociedade é feita de pessoas
Publicado já em 5/12, mais um texto que merece ser lido
Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres
humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos
ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família.
Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.
Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um
mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.
E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.
Pedro Afonso
Médico psiquiatra
Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres
humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos
ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família.
Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.
Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um
mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.
E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.
Pedro Afonso
Médico psiquiatra
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Complemento oblíquo....
Há dias, quando acompanhava a minha neta mais velha nas tarefas dos TPC, deparei com os complementos oblíquos...
Hoje tomei conhecimento deste texto, imperdível, de Teolinda Gersão, datado de 11/06/2012.
Tempo de
exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar
português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles
gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as
ideias são todas deles.
Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar,
mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um
massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que
não se aguenta. Por exemplo, isto: no ano passado, quando se dizia “ele está em
casa”, “em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o
predicativo do sujeito. “O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo
do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. “Bonita” é uma
característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra
também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se
dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar, etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: “Algumas árvores secaram”, “algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado, se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos, no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar, etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: “Algumas árvores secaram”, “algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado, se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos, no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando
a setôra me perguntar: “Ó João, onde está a tua gramática?” Respondo: “Está nula e subentendida na retrete, setôra,
enfiei-a no predicativo do sujeito.”
João
Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até
é simpática).
Teolinda Gersão
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Nostalgia da infância
Ultimamente, todos os trabalhos que tenho produzido na pintura têm por suporte antigos sacos usados na apanha da amêndoa e da azeitona. Descobri-os no Verão na adega da casa que foi de meus pais e que há anos tento organizar no sentido de ali criar um pequeno museu (só para uso familiar...). Neste blogue já referi várias vezes esse projeto.
A amêndoa e a azeitona eram os principais produtos da aldeia, por isso muitas atividades estavam relacionadas com o tratamento das árvores, amendoeiras e oliveiras, bem como da apanha e posterior tratamento dos frutos. Nos livros tenho dedicado textos a este tema. Deixo aqui alguns
Tempos agrestes
A amêndoa e a azeitona eram os principais produtos da aldeia, por isso muitas atividades estavam relacionadas com o tratamento das árvores, amendoeiras e oliveiras, bem como da apanha e posterior tratamento dos frutos. Nos livros tenho dedicado textos a este tema. Deixo aqui alguns
Tempos agrestes
Eram tempos
agrestes
quando da
azeitona ou da amêndoa, a apanha.
Era o
vento cieiro que vinha de Espanha
uma brisa
seca, cortante, gelada
que gretava a
pele já de si curtida,
era a
soalheira que encardia o rosto no ateado Agosto
Eram tempos
agrestes
de fugas para
França e de passadores
de silêncios
pesados, de densos suores
que iam
desgastando dia a dia a vida
qual roupa delida já de tanto usada.
Eram tempos
agrestes
grávidos de sol, de frio e de nada.
Quando passo
num amendoal, após o verão,
sinto um misto
de nostalgia e emoção
ao ver a
amêndoa abandonada nas árvores e no chão.
Outrora
significou prosperidade e eram guardados os amendoais
para garantir
que os rebusqueiros não rebuscavam
demais,
que rebuscavam
só no chão, à claridade, só de dia e não
ao lusco-fusco.
Hoje, já
ninguém anda ao rebusco.
No Verão, sob um sol abrasador, era a apanha.
Hoje fica nas
árvores e cai na terra que a arrebanha e
com ela se funde;
confundem-se os seus tons.
Da escacha já há muito não se
ouvem sons.
Os
escachadores ora em uníssono, ora desfasados, habilmente manejados
com gestos
secos, certeiros e breves por mulheres, crianças, raparigas,
que enchiam o
ar de risos e cantigas, iam partindo a
amêndoa,
sempre
cadenciados, deixando o grão intacto ou com mazelas leves,
enquanto das
cascas, o monte crescia no chão.
Mais tarde, a
par da lenha, na lareira,
iriam servir para combustão.
O grão ia para
sacos de serapilheira. Mais tarde era vendido
e o seu
destino era assim perdido.
Aquele que ficava imperfeito, esbotenado,
iria ser, mais tarde, laminado,
misturado com ovos e açúcar,
nos rochedos
cujas receitas
eram envoltas em segredos
e cuja doçura ocultava a agrura
de tanta
fadiga e de tanto suor.
Eram a lavra,
a limpa, a enxertia, ano após ano um ritual que se cumpria
e quando
floriam as amendoeiras, o lavrador contemplava
do cimo das
ladeiras aqueles véus de noiva a perder
de vista,
não com o
olhar breve de um turista,
mas com um
profundo olhar, cheio de amor.
Constava no
compêndio que eu tinha que estudar
que o azeite,
no essencial, é um misto de oleína e
palmitina
de diferente
densidade e ponto de fusão
Falava ainda o
meu compêndio em decantação, ponto de inflamação,
porém, ainda
antes do compêndio, era bem pequenina e já sabia
que os negros
frutos de todo o olival iriam ser esmagados no lagar
para das
entranhas o azeite retirar
junto com o alpechim
do qual se iria separar
Amargo e
negro, o alpechim, iria ser lançado nos infernos[1].
Também antes
do compêndio já sabia que em candeias o azeite iria alumiar
e que em gélidos Invernos
iria talhar, em duas camadas se iria separar,
a inferior,
pastosa, esbranquiçada, a superior ,
viscosa, amarelada.
Mas quando
criança, também me apercebia que o tão dourado azeite,
à mesa sempre
usado com deleite, na malga do pobre não ia ter lugar,
quando muito o
azeite das sobras de fritar.
Só que isso não constava no compêndio.
(...)De todos os sons, o que mais recordo é o da escacha da amêndoa.
Foi sempre a tarefa que mais me seduziu. Talvez porque eu tomava parte
activa nela. Ainda hoje guardo o meu escachador. Era pequenino, cilíndrico e
mais perfeito que qualquer outro. A escacha da amêndoa era feita no pátio de
baixo. Previamente a amêndoa era
escabulhada no mesmo pátio e ensacada. Era dos sacos que as escachadeiras
(neste trabalho havia essencialmente mulheres) tiravam punhados de amêndoas que mantinham na mão esquerda. Essas
amêndoas eram colocadas, uma de cada
vez, sobre uma cova numa pedra, e fixadas entre o polegar e o indicador da
referida mão. Com o escachador, usado
com a mão direita, partia-se a casca da amêndoa deixando o grão, umas vezes
intacto, outras vezes com pequenas mazelas. O grão ia sendo
deitado, primeiro para o avental e,
posteriormente, para sacos. Era bonito ouvir o som dos vários
escachadores, umas vezes em uníssono, outras vezes não. Mas o que eu mais
gostava de ouvir, eram as conversas, as histórias, as adivinhas, os provérbios,
as cantigas com que se iam preenchendo os serões da escacha. Lembro-me de uma
noite em que, ao desafio, se iam dizendo
provérbios encadeados.
Ø No poupar é que vai o
ganho .......Grão
a grão enche a galinha o papo....... Há
quem poupe no farelo e esbanje na farinha.....Vale mais quem Deus ajuda do quem
cedo madruga, .....Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer....A conversa é como as
cerejas...... Que se comem em Maio ao borralho.
Lembro-me também das adivinhas:
Ø Alto está, alto mora, todos o vêem, ninguém o
adora....Verde foi meu nascimento, mas de luto me vesti, para dar a luz ao
mundo mil tormentos padeci.... Destas e de
muitas outras.
Lembro-me ainda de certas conversas e histórias de uma ingenuidade
comovedora mas a que na altura achava imensa graça, como uma contada pelo
ti Geraldo. O ti Geraldo era um
homem que trabalhava muitas vezes lá para casa. Quando, por qualquer razão aparecia, a minha mãe
perguntava, como é habitual na TERRA:
Ø Quer uma pinguinha?
Ao que ti Geraldo respondia, de imediato, sempre da mesma maneira:
Ø Já que tanto insiste,
minha senhora.
Ora a história que o ti Geraldo contou numa sessão da escacha, e que por
certo era fruto da sua imaginação, tinha a ver com a festa da Vila. O ti Geraldo
contava que para a festa tinham convidado o Bispo. No momento em que o Bispo entrava na Vila, o presidente da comissão das festas disse para
o mestre da Banda de Música:
Ø Toque qualquer coisa homem, não vê que o Sr. Bispo está a chegar.
Ø E o que é que quer que
toque ?
Ø Qualquer coisa.
Então ouve-se a banda a
tocar uma modinha da altura, que começava assim: “A mim não me enganas tu,
a mim não me enganas tu”. Comentava o ti Geraldo:
Ø Coitado do “home”. “Pori”
na altura “num” se l´ atinou outra.
In Estórias com sabor a Nordeste
A terminar deixo alguns dos trabalhos que referi inicialmente
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Pastelaria Serrana
Hoje fui lanchar à Pastelaria Serrana, a que fiz referência
aqui no dia 31 de Janeiro. Decidi conversar com a senhora que a dirige, a mesma
senhora que é entrevistada na reportagem da
TVI
. O estabelecimento está nas mãos da família há 37 anos, pelo que é muito forte a sua ligação ao mesmo. Conjuntamente
com a mãe, passou a dirigi-lo após a morte do pai, há dez anos.
A obra, belíssima como podem
ver na reportagem, precisa de uma intervenção séria mas não parece haver
ninguém interessado em preservar este património que a senhora, corajosamente,
tenta manter de pé. Sou uma lutadora, disse-me. Talvez com esta divulgação da
TVI e outras que serão sempre bem vindas,
haja um incremento apreciável no
movimento.
Hoje, por acaso ou não, a par de outros clientes, estava uma família francesa a
lanchar
Alterei os versos que seguem, adaptando-os para a Pastelaria Serrana (Ver os versos mais abaixo).
Leitaria Garrett dá cá o pé
Ai tira a mão, João,
Da coxa doce,
Já está, antes não fosse...
O Saricoté, foi parar à Marques
Lá pràs Belas-Artes...
Pastelaria Serrana, junto a S. Bento.
Quem dá a mão, senão mais se degrada
e importa conservá-la.
Não vamos deixá-la só à sua sorte,
uma jóia do Norte....
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Mais uma vez com alunos...
Dia 30, a convite da professora Rosário Martins, bibliotecária do Agrupamento Abel Salazar, de escolas de S. Mamede de Infesta,
estive com alunos de 4º ano das escolas EB/JIda Ermida, EB/JI Padre Manuel de Castro, EB da Igreja Velha e EB da Asprela, num total de três sessões,
duas de manhã e uma à tarde. Os professores tinham trabalhado com os alunos o livro Pelo sistema solar vamos todos viajar
Rosário Martins é minha conterrânea dado que nasceu e
cresceu numa aldeia do concelho de Alfândega
da Fé, Sambade, a que já fiz aqui referência
a propósito do seu Museu Rural. Conheci-a há três ou quatro anos, no âmbito destas minhas "lides" de escrita para crianças O entusiasmo de Rosário é contagiante pelo que
ir às escolas do seu agrupamento constitui um prazer redobrado. Já em anos
anteriores tenho feito referência ao trabalho que os professores ali
desenvolvem com as crianças. Em todas as sessões sou sempre surpreendida com textos
feitos pelas crianças e /ou dramatizações e/ou montagens de maquetas e /ou intervenções
musicais.
Na intervenção musical de uma das escolas, os meninos cantaram e tocaram a Canção das Perguntas de João Loio.
Aqui ficam excertos da letra bem como um endereço onde poderão ouvir a canção (que eu não conhecia) cantada por outras crianças
Que mistério é o Sol,
e a chuva a cair,
e o tempo sempre a passar...
Para onde é que eu vou?
E de onde é que eu vim?
Que mistérios sem par!
....
E lá vai uma noite,
E lá vem mais um dia
e a Terra a girar!
passa um, passam dois,
passam milhões de dias,
e eu sempre a pensar...
Que mistério é o Sol,
e a chuva a cair,
e o tempo sempre a passar...
Para onde é que eu vou?
E de onde é que eu vim?
Que mistérios sem par!
Na intervenção musical de uma das escolas, os meninos cantaram e tocaram a Canção das Perguntas de João Loio.
Aqui ficam excertos da letra bem como um endereço onde poderão ouvir a canção (que eu não conhecia) cantada por outras crianças
e a chuva a cair,
e o tempo sempre a passar...
Para onde é que eu vou?
E de onde é que eu vim?
Que mistérios sem par!
....
E lá vai uma noite,
E lá vem mais um dia
e a Terra a girar!
passa um, passam dois,
passam milhões de dias,
e eu sempre a pensar...
Que mistério é o Sol,
e a chuva a cair,
e o tempo sempre a passar...
Para onde é que eu vou?
E de onde é que eu vim?
Que mistérios sem par!
....
E lá vai uma noite,
E lá vem mais um dia
e a Terra a girar!
passa um, passam dois,
passam milhões de dias,
e eu sempre a pensar...
E lá vai uma noite,
E lá vem mais um dia
e a Terra a girar!
passa um, passam dois,
passam milhões de dias,
e eu sempre a pensar...
Deixo também algumas imagens de trabalhos (apenas uma amostra pois foram vários)
produzidos pelos alunos sob a orientação
dos professores que genericamente trabalham em equipas multidisciplinares, abrangendo o desporto, a música,
o ensino especial , etc
Os textos acima serviram de base a representações e constam de um "livrinho que me foi oferecido
O Agrupamento tem alunos com necessidades educativas especiais e embora não tivesse tido nenhuma sessão com esses meninos a professora do ensino especial, com a colaboração deles, fez o raminho acima que me foi oferecido e em que os elementos brancos representam as mãos das crianças.
Logo que tenha fotos da visita, colocá-las-ei numa mensagem
Logo que tenha fotos da visita, colocá-las-ei numa mensagem
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Educação, Cultura e Ensino.
A minha amiga Adelaide Pereira enviou-me hoje um artigo de sua autoria, que já foi publicado em 2012 do qual deixo alguns excertos
Porque não enraizar desde
as mais tenras idades, hábitos de conhecimento nas várias
áreas do saber, para que a cultura se transforme num gosto e numa
necessidade para todos?
Isto é possível. Fui ver ao
Rivoli uma peça intitulada “O Grande Musical da Química” inspirada na
peça do livro Breve
História da Química de Regina Gouveia(…)
(…)Qualquer pessoa de
qualquer idade iria achar interessantíssimo.
Isto
fez-me ver como, desta forma, é muito fácil conseguir transmitir
conceitos e torná-los acessíveis a qualquer pessoa e idade. Desta forma,
desenvolve-se o gosto de aprender(…)
(…)A educação quer seja
para a cultura, quer seja para a cidadania ou para a formação do
individuo é da responsabilidade e competência da família, da escola, das
organizações, do estado e de cada um de nós. Qualquer entidade
singular ou colectiva devia estar comprometida
na construção da educação
(em sentido lato) das nossas crianças e jovens, para que sejam
capazes de adquirirem espírito critico, atento, observador, mas também
aberto e contemplativo(…)
(…)Se isto é tão óbvio,
porque não se faz muito mais para criar hábitos de leitura nas nossas
crianças e jovens? A falta de hábitos de leitura (boa leitura) é, em grande
parte, responsável pelo fracasso destes em cultura geral e em
língua materna(...)
(...)Não basta falar de grandes
pintores, escultores se não se criam hábitos de visita aos museus. O mesmo vale para a boa
Música, essa arte para a qual devíamos reservar uns minutos todos
os dias(…)
(…)A arte, enquanto
manifestação do individuo, traduz as necessidades mais elementares, como tal,
as mais essenciais(...)
(…)A poesia, inegável forma
de arte, não raras vezes nos transcende e, no entanto, podemos
encontrá-la nas coisas mais simples e belas.
(…)Assim pensava, também,
António Gedeão(…)que diz num dos seus inúmeros poemas: “ Todo o
tempo é de poesia…”
Numa crónica (in Gazeta da
Física) com o título A LUA
ENTRE A CIÊNCIA
E A LITERATURA, escreveu
Carlos Fiolhais: … Tenho em mãos uma reedição
ilustrada, de apenas cem exemplares, datada de 2006 (do prelo da
Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com introdução de Maria
Luísa Malato Borralho). E leio uma engraçada sátira social, com a forma
roubada a Os Lusíadas. O argumento é científico: Matemáticos pontos combinando,/ Tendo por base a
grande
Astronomia,/
Um Génio, que não tem nada de brando, / Projecta ir ver o Sol,
fonte do dia: / Em pejado Balão vai farejando,/ Subindo mais e mais
como devia;/ Divisa a Lua, mete-se por ela, / Pasma de imensas cousas
que viu nela. Mas, partindo
da ciência, a literatura voa livre.
A Lua, nesta utopia
portuguesa, está povoada pelos Lulanos, nome parecido com Lusitanos.
Mas, como numa utopia à la More tudo deve ir ao contrário, eis que nessa
Lua habitada, ao contrário de Portugal, a justiça funciona: Aqui não há ladrões! Se um aparece. / É logo e
sem demora
castigado; /Tenha empenhos ou não, ele padece,/ Sofrendo o que na
Lei lhe é destinado.
Há que fazer
justiça a Bocage e a Rodrigues da Costa, por
cruzarem a ciência, ou melhor,
a tecnologia, com a arte.
Se eles não têm a notoriedade de Kepler e de Poe deviam ter, pelo
menos, uma maior notoriedade no vasto espaço da língua portuguesa.
(fim de citação).
Também hoje recebi , via e-mail, um texto de Valter Hugo Mãe que é como que um complemento do anterior, na medida que fala de professores.Este texto foi publicado em
Autobiografia Imaginária | Valter Hugo Mãe | JL
Jornal de Letras, Artes e Ideias | Ano XXII | Nº 1095 | 19 de Setembro de 2012 e pode ser lido aqui
Deixo também alguns excertos
Os professores
(...)A escola, como mundo completo, podia ser esse
lugar perfeito de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada
indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os
professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o
caminho das pedras na porcaria do mundo em que o mundo se tem vindo a tornar.
Nunca tive exatamente de ensinar ninguém.
Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências
ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo
na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que
estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza
dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que
não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e
atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir
conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os
recebe.
Os alunos nascem diante dos professores, uma e
outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras
dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti
outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesses
crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais
gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se
discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo(...)
(...) Dá-me isto agora porque me ando a convencer de
que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que
perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa.
Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de
algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da
maravilha que é a meninice dos nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem
telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa
todos os dias.
Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo.
Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os
nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um
dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua
condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a
felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma
conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos
de afeto.
As escolas não podem ser transformadas em lugares
de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são
elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os
alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um
país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer
preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa
de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.
À Adelaide Pereira e a Valter Hugo Mãe, muito obrigada.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




