segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Quando o mel escorre nas searas
Quando o mel escorre
nas searas é o título do meu novo de livro de poesia, que acaba de
me chegar às mãos, editado pela Lua de Marfim
Foi a mesma editora que
publicou Entre Margens e tem vindo a publicar a coleção Novilúnio, Sete poemas de Sete autores, que integro no volume I.
O novo livro
integra-se também numa coleção, Meia Lua, que já vai
no 9º livro
Numa das últimas mensagens, referi uma
autora cuja poesia conheci há pouco. Trata-se de Graça Pires e um
dos seus livros, Caderno de Significados, é o 5º da referida
coleção.
Gosto muito da sua
poesia. Deixo dois poemas do referido livro.
O 1º poema fez-me viajar até à minha infância. Também a minha boneca de papelão se desfez na água, o que inspirou um dos poemas do meu livro para crianças Ciência parar meninos em poemas pequeninos.
Relativamente ao meu novo livro deixo também dois poemas.
Na sequência dos
poemas termino com uma seara de Van Gogh, e Verão de Vivaldi
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
A seta do tempo
Provavelmente muitos viram O Estranho Caso de Benjamin Button, filme realizado por David Fincher, em 2008. baseado no conto homónimo escrito por F. Scott Fitzgerald, na década de 20 do século passado.
Conta a história de Benjamin Button, nascido em 1918, após o final da 2.ª Guerra Mundial. A sua mãe morre no parto e o pai vê-se sozinho com um bebé invulgar, com o aspeto e com as doenças de um velho de 80 anos. Incapaz de lidar com a situação, abandona-o às portas de um orfanato onde lhe dão o nome de Benjamin. À medida que o tempo avança Benjamin começa a rejuvenescer e o filme relata as peripécias, os encontros e os desencontros que trazem esse desenvolvimento inverso. Pode ser visto aqui, mas entretanto deixo este trailer
Conta a história de Benjamin Button, nascido em 1918, após o final da 2.ª Guerra Mundial. A sua mãe morre no parto e o pai vê-se sozinho com um bebé invulgar, com o aspeto e com as doenças de um velho de 80 anos. Incapaz de lidar com a situação, abandona-o às portas de um orfanato onde lhe dão o nome de Benjamin. À medida que o tempo avança Benjamin começa a rejuvenescer e o filme relata as peripécias, os encontros e os desencontros que trazem esse desenvolvimento inverso. Pode ser visto aqui, mas entretanto deixo este trailer
https://www.youtube.com/watch?v=p8ucIL2tLLo
As
equações que descrevem as leis que regem o Universo são
reversíveis, ou seja, podem igualmente descrever eventos que se
desenrolam do passado para o futuro ou do futuro para
o passado, sem distinção. No entanto, muitos acontecimentos da nossa vida quotidiana são irreversíveis, só ocorrem num
sentido. Se introduzirmos um copo com água quente dentro de um
recipiente com água fria, a água do copo irá arrefecer e a do
recipiente aquecer até ficarem à mesma temperatura. Neste processo
há transferência de energia da água mais quente para a mais fria.
Mas porque razão não ocorre transferência de energia da água mais
fria para a mais quente ficando esta ainda mais quente a a outra
ainda mais fria?. Se filmarmos a queda de um copo até se
estilhaçar no chão e se de seguida passarmos o filme para trás,
veremos a recomposição do copo o que, na realidade, não acontece. Há
algo que nos indica de forma natural se o tempo avança ou retrocede.
O tempo, tal e qual o percebemos, move-se do passado para o futuro e
não em sentido contrário.
Em 1920, o astrónomo Arthur Eddington
estabeleceu a designação “seta do tempo” para descrever esta
irreversibilidade, que está relacionada com a grandeza física
entropia, ligada ao “grau de desorganização” dos sistemas. Na
Física há várias leis de conservação (da massa, da energia, do
momento linear, do momento angular,….). A entropia não obedece a
uma lei de conservação.
A seta do tempo é consequência imediata
da 2ª lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia média nunca
diminui. pois tende sempre a aumentar
(...)É
pois de acordo com esta definição termodinâmica de tempo, que à
medida que avançamos, nos vamos olhando ao espelho e vendo que tudo
o que começou num estado organizado, se vai decompondo lentamente,
até alcançar um estado caracterizado pela maior desorganização de
tudo. Dada a tão óbvia e observável evolução humana ao longo da
flecha do tempo seria provável alguém pensar sobre uma hipótese
que a contrariasse? Não seria provável, mas como tudo no universo
acontece porque existem infinitas possibilidades de concretização
(de acordo com a Lei de Murphy) isso acabou por acontecer.
(...)O
trio de cientistas Julian Barbour de Oxford, Tim Koslowski da
Universidade de New Brunswick e Flavio Mercati do Instituto de Física
Teórica de Perimeter começaram a estudar uma nova hipótese de
flecha do tempo, não baseada na termodinâmica (como aquela que é
aceite atualmente) mas baseada na gravidade, sendo que defendem que
aquilo que é verdadeiramente indiscutível sobre as leis da física
é que elas são exatamente as mesmas independentemente da direção
em que o tempo corre.
Ao
elaborarem a presente teoria este trio de cientistas conseguiu chegar
mais perto da noção de que existem diferentes futuros, passados e
presentes, dada a co-existência de universos
paralelos,
gerados no mesmo momento e da mesma fonte, em que tudo está a
acontecer simultaneamente. Todavia, os observadores desses
acontecimentos (quem vive nesses universos) percecionam-nos de uma
forma única, vivenciando apenas a seta
do tempo que é característica desse universo e não sendo possível
ter a noção da existência de outras realidades noutros universos
paralelos. A
teoria dos multiversos – ou universos paralelos – apesar da sua
complexidade e exigência constitui-se assim, como uma teoria de
esperança, que nos permite pensar que a existência não é apenas o
que vemos e o que tocamos, mas sim, paralelamente, algo mais que não
se vê, não se toca, mas que está simultaneamente a acontecer.
A
curiosidade e necessidade de compreender o mundo que nos rodeia
leva-nos a não desistir de tentar cada vez mais, perceber
verdadeiramente em que devemos acreditar. Sim, porque todos nós
precisamos de acreditar em algo. Seja um Deus criador, seja um
universo gerado através do Big Bang, seja a existência de
multiversos que permitem que a flecha do tempo não corra só para a
frente. Precisamos de acreditar para nos sentirmos parte da criação.
A
propósito da teoria dos universos paralelos sugiro este artigo
e este vídeo com comentários de um dos grandes físicos da atualidade, Michiu Kaku
https://www.youtube.com/watch?v=bXWS3Tc9q1w
Poderia
argumentar-se que estes conceitos resultam de estudos e simulações
meramente no campo teórico, mas surgiriam de imediato contra
argumentos fortes. Einstein previu a dilatação do tempo e a
contração do espaço bem como a curvatura da luz pela gravidade,
conceitos bizarros para a época, mas que a experiência viria a
confirmar. Com os universos paralelos poderá acontecer algo
semelhante. O facto de vivermos num mundo a 3
dimensões ( e uma 4ª o tempo) não nos
permite percecionar outras dimensões. A
animação que segue, ajuda-nos a perceber essa impossibilidade
Mas o tempo é um enigma não apenas para os físicos...
(...)O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
(...)Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas(...)
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
(...)Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas(...)
Alberto Caeiro.
Tempo Revisitado
O tempo a que sempre regressamos
e nos visita um instante
O tempo que depois destruímos
construímos e alimentamos se nos
alimenta
O tempo onde a luz buscamos e
a morte sempre
encontramos
Casimiro de Brito
e nos visita um instante
O tempo que depois destruímos
construímos e alimentamos se nos
alimenta
O tempo onde a luz buscamos e
a morte sempre
encontramos
Casimiro de Brito
(...)Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.
À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto(...).
Graça Pires
( Só há pouco tempo tomei conhecimento da poesia de Graça Pires, mas poderão encontrá-la aqui
Será
que existe algures, ainda que volátil e etérea,
uma
memória do tempo antes do tempo?
Será
que essa memória se propagou e difratou,
qual
onda,
gerando
padrões de interferência
num
qualquer universo?
Donde
vem o tempo que não tem reverso,
e
se escoa nos meandros da memória ?
Para
onde vai o tempo onde pulsa imerso o passado,
mas
também o futuro e presente
que
são amalgamados pela história?
Enigma
profundo, o tempo.
Será
um ser imponderável ou será um não ser,
pura
invenção da mente?
Tudo
isso, que importa?
Beija-me
o sol que entra pela vidraça
porventura
alheio ao tempo que passa.
Regina Gouveia (em Entre Margens)
Inspirada na frase de Hugo von Hofmannsthal termino com música, Roda viva de Chico Buarque e Poema Sinfónico D. Juan de Richard Strauss, com quem colaborou von Hoffmannsthal
https://www.youtube.com/watch?v=IpAR9DlQV6o
(...)Tem
dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu(...)
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu(...)
https://www.youtube.com/watch?v=CcBGsjPky0c
domingo, 17 de janeiro de 2016
O Tempo perguntou ao tempo...
O Tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o Tempo respondeu ao tempo que em 2015 o tempo tem mais um segundo. No dia 30 de junho de 2015, o relógio bateu mais um segundo do que seria normal. Depois das 23 horas, 59 minutos e 59 segundos, vieram as 23 horas, 59 minutos e 60 segundos. Só um segundo depois chegou a meia noite. E assim ganhámos um segundo extra, o chamado "segundo intercalar".
Assim começa no nº 4 da revista Lusíadas (Inverno 2015) um artigo muito interessante da autoria do Professor Rui Agostinho, Diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, e que tive oportunidade de ler anteontem, enquanto guardava por um consulta no Hospital da Boavista. Tenho o privilégio de conhecer pessoalmente Rui Agostinho, um excelente comunicador que fala com paixão de tudo aquilo que faz. Deixo um quadro que acompanha o artigo e a indicação do site do observatório (oal.ul.pt) onde, entre outras informações, poderão ter informações sobre o cometa C/2013 US10 (Catalina) que está visível este mês.
Coo referi, fui ao Hospital Lusíadas numa consulta de rotina, Aproveitei para visitar a colega Manuela Mota que ali está internada, na sequência de um atropelamento. Durante vários anos professora no Departamento de Química da Faculdade de Ciências, por vontade própria deixou o Ensino Superior. Leccionou no então Liceu Carolina Michaëlis (CM). Creio que foi a primeira doutorada que ali leccionou. Terá à volta de 86 anos, mas continua com o dinamismo que sempre lhe conheci, conduz, viaja, etc,etc
Há dias foi visitar um irmão que está internado e ao dirigir-se para o carro que tinha estacionado ali perto, foi atropelada na passadeira. Teve fratura de crânio, está cheia de equimoses pelo corpo e tem uma lesão na cervical. Quando do acidente foi transportada para o Hospital de Santo António. Quando, na 4ª feira me dirigi ao Hosptial para visitá-la já tinha ido para o Hospital Lusíadas.
Mal entrei no quarto fiquei espantada pois apesar de todos os estragos estava sentada em frente a uma mesa, ao telemóvel com alguém, a tomar notas sobre qualquer coisa, como se nada tivesse.
Estivemos bastante tempo à conversa pois de cada vez que eu propunha ir-me embora dizia-me com um ar jovial: deixe-se estar, estamos tão bem à conversa... Soube por ela que uma outra colega, mais ou menos da mesma idade, que também foi professora no CM estava na urgência do mesmo hospital, pois tinha caído em casa. Fui vê-la. Um pouco combalida, contrastava com a vivacidade da Manuela.
Lembrei-me que em tempos tinha lido um artigo interessante sobre envelhecimento e fui procurá-lo. Deixo alguns excertos mas pode ser encontrado aqui
(...)O conhecimento científico só avança quando podemos medir ou contar as coisas de alguma forma. Podemos determinar a idade das árvores contando seus anéis anuais e a idade de alguns peixes contando quantas camadas de escamas possuem, mas não há forma de medição disponível por meio da qual possamos determinar a idade biológica dos seres humanos e da maior parte dos outros animais. No caso dos homens, obviamente, podemos usar a certidão de nascimento, mas, por mais confiável que seja, ela especifica apenas um único ponto no tempo. A idade cronológica mede quanto tempo, quantos anos se passaram a partir daquele ponto. Informa-nos quando devemos comemorar os aniversários e que números devemos escrever no campo idade dos formulários, mas, para os gerontologistas, o envelhecimento é cronológico apenas no sentido legal ou social. O tempo, em si, não produz efeitos biológicos. Os eventos ocorrem no tempo, mas não devido à sua passagem. Os eventos biológicos que se seguem ao nascimento acontecem em momentos diferentes e em ritmos diferentes em cada um de nós.(...)
(...)Em termos de envelhecimento, assemelhamo-nos a uma loja de relógios. Cada um de nossos muitos tecidos ou órgãos comporta-se como um relógio independente, que trabalha em um ritmo diferente dos demais. Por causa disso, uma pessoa com uma determinada idade cronológica poderia ser consideravelmente mais jovem ou mais velha biologicamente, dependendo da velocidade média na qual seus relógios estão trabalhando. Seria muito mais informativo conhecermos nossa idade biológica do que nossa idade cronológica, mas infelizmente não temos como medi-la.(...)
(...)Todos nós somos compostos de bilhões de células individuais e dos produtos gerados pelas células. A maioria das células presentes no nosso organismo hoje não estava presente há cinco ou dez anos. Na verdade, algumas não estavam presentes nem mesmo ontem.(...)
(...)A complicação é que, como resultado dos processos metabólicos normais, as moléculas podem se renovar ou ser substituídas sem que as células individuais nas quais estão contidas sejam substituídas. O que acontece com uma célula velha é análogo ao que poderia acontecer com um carro antigo. Se todas as peças do carro forem substituídas, o carro não será mais o mesmo. Se todas as partes da célula forem substituídas, a célula não será mais a mesma. Os neurônios com os quais você nasceu podem, aparentemente, ser os mesmos hoje, mas na realidade muitas das moléculas que os compunham quando você nasceu (exceto o DNA) podem ter sido substituídas por outras moléculas.(...)
(...) Todas as moléculas, tenham ou não sido renovadas, são compostas de unidades mais fundamentais chamadas átomos, a maioria dos quais não sofreu mudanças desde a criação do nosso planeta.(...). Quando morremos, nossos átomos dissipam-se no meio ambiente, e alguns talvez venham a fazer parte de outro ser humano, em um padrão contínuo de átomos reciclados. (...). Nossos átomos são imortais, mas nós, como indivíduos, não.
(bilhão/bilião corresponde para nós a mil milhões)
A propósito destas últimas frases do texto lembrei-me de um poema do meu primeiro livro (Reflexões e Interferências)
Mas regressando ao tempo, não poderia deixar de me referir a "Uma breve história do tempo" de que deixo um pequeno excerto:
Durante os anos 70 dediquei-me particularmente ao estudo dos buracos negros, mas em 1981 o meu interesse pelas questões da origem e destino do Universo reacendeu-se quando assisti a uma conferência organizada pelos jesuítas no Vaticano. A Igreja Católica tinha cometido um grave erro com Galileu, quando tentou impor a lei numa questão científica, declarando que o Sol girava à volta da Terra. Agora, séculos volvidos, decidira convidar alguns especialistas para a aconselharem sobre cosmologia. No fim da conferência, os participantes foram recebidos em audiência pelo papa que nos disse que estava certo estudar a evolução do Universo desde o *big bang* , mas que não devíamos inquirir acerca do *big bang* em si, porque esse tinha sido o momento da Criação e, portanto, trabalho de Deus. Nessa altura fiquei satisfeito por ele ignorar qual havia sido a minha contribuição para a conferência: a possibilidade de o espaço-tempo ser finito mas sem fronteiras (3), o que significaria que não tinha tido um princípio e que não havia nenhum momento de Criação. Não tinha qualquer desejo de partilhar a sorte de Galileu, com quem me sinto fortemente identificado, em parte devido à coincidência de ter nascido exactamente trezentos anos depois da sua morte! (...
Ontem à noite decidi ver o filme Teoria de Tudo que tenho gravado mas que pode também ser visto aqui.
De qualquer modo deixo o trailer
https://www.youtube.com/watch?v=OgVdYzUW0yk
E a propósito de Tempo termino com a Persistência da memória de Salvador Dali

Assim começa no nº 4 da revista Lusíadas (Inverno 2015) um artigo muito interessante da autoria do Professor Rui Agostinho, Diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, e que tive oportunidade de ler anteontem, enquanto guardava por um consulta no Hospital da Boavista. Tenho o privilégio de conhecer pessoalmente Rui Agostinho, um excelente comunicador que fala com paixão de tudo aquilo que faz. Deixo um quadro que acompanha o artigo e a indicação do site do observatório (oal.ul.pt) onde, entre outras informações, poderão ter informações sobre o cometa C/2013 US10 (Catalina) que está visível este mês.
Coo referi, fui ao Hospital Lusíadas numa consulta de rotina, Aproveitei para visitar a colega Manuela Mota que ali está internada, na sequência de um atropelamento. Durante vários anos professora no Departamento de Química da Faculdade de Ciências, por vontade própria deixou o Ensino Superior. Leccionou no então Liceu Carolina Michaëlis (CM). Creio que foi a primeira doutorada que ali leccionou. Terá à volta de 86 anos, mas continua com o dinamismo que sempre lhe conheci, conduz, viaja, etc,etc
Há dias foi visitar um irmão que está internado e ao dirigir-se para o carro que tinha estacionado ali perto, foi atropelada na passadeira. Teve fratura de crânio, está cheia de equimoses pelo corpo e tem uma lesão na cervical. Quando do acidente foi transportada para o Hospital de Santo António. Quando, na 4ª feira me dirigi ao Hosptial para visitá-la já tinha ido para o Hospital Lusíadas.
Mal entrei no quarto fiquei espantada pois apesar de todos os estragos estava sentada em frente a uma mesa, ao telemóvel com alguém, a tomar notas sobre qualquer coisa, como se nada tivesse.
Estivemos bastante tempo à conversa pois de cada vez que eu propunha ir-me embora dizia-me com um ar jovial: deixe-se estar, estamos tão bem à conversa... Soube por ela que uma outra colega, mais ou menos da mesma idade, que também foi professora no CM estava na urgência do mesmo hospital, pois tinha caído em casa. Fui vê-la. Um pouco combalida, contrastava com a vivacidade da Manuela.
Lembrei-me que em tempos tinha lido um artigo interessante sobre envelhecimento e fui procurá-lo. Deixo alguns excertos mas pode ser encontrado aqui
(...)O conhecimento científico só avança quando podemos medir ou contar as coisas de alguma forma. Podemos determinar a idade das árvores contando seus anéis anuais e a idade de alguns peixes contando quantas camadas de escamas possuem, mas não há forma de medição disponível por meio da qual possamos determinar a idade biológica dos seres humanos e da maior parte dos outros animais. No caso dos homens, obviamente, podemos usar a certidão de nascimento, mas, por mais confiável que seja, ela especifica apenas um único ponto no tempo. A idade cronológica mede quanto tempo, quantos anos se passaram a partir daquele ponto. Informa-nos quando devemos comemorar os aniversários e que números devemos escrever no campo idade dos formulários, mas, para os gerontologistas, o envelhecimento é cronológico apenas no sentido legal ou social. O tempo, em si, não produz efeitos biológicos. Os eventos ocorrem no tempo, mas não devido à sua passagem. Os eventos biológicos que se seguem ao nascimento acontecem em momentos diferentes e em ritmos diferentes em cada um de nós.(...)
(...)Em termos de envelhecimento, assemelhamo-nos a uma loja de relógios. Cada um de nossos muitos tecidos ou órgãos comporta-se como um relógio independente, que trabalha em um ritmo diferente dos demais. Por causa disso, uma pessoa com uma determinada idade cronológica poderia ser consideravelmente mais jovem ou mais velha biologicamente, dependendo da velocidade média na qual seus relógios estão trabalhando. Seria muito mais informativo conhecermos nossa idade biológica do que nossa idade cronológica, mas infelizmente não temos como medi-la.(...)
(...)Todos nós somos compostos de bilhões de células individuais e dos produtos gerados pelas células. A maioria das células presentes no nosso organismo hoje não estava presente há cinco ou dez anos. Na verdade, algumas não estavam presentes nem mesmo ontem.(...)
(...)A complicação é que, como resultado dos processos metabólicos normais, as moléculas podem se renovar ou ser substituídas sem que as células individuais nas quais estão contidas sejam substituídas. O que acontece com uma célula velha é análogo ao que poderia acontecer com um carro antigo. Se todas as peças do carro forem substituídas, o carro não será mais o mesmo. Se todas as partes da célula forem substituídas, a célula não será mais a mesma. Os neurônios com os quais você nasceu podem, aparentemente, ser os mesmos hoje, mas na realidade muitas das moléculas que os compunham quando você nasceu (exceto o DNA) podem ter sido substituídas por outras moléculas.(...)
(...) Todas as moléculas, tenham ou não sido renovadas, são compostas de unidades mais fundamentais chamadas átomos, a maioria dos quais não sofreu mudanças desde a criação do nosso planeta.(...). Quando morremos, nossos átomos dissipam-se no meio ambiente, e alguns talvez venham a fazer parte de outro ser humano, em um padrão contínuo de átomos reciclados. (...). Nossos átomos são imortais, mas nós, como indivíduos, não.
(bilhão/bilião corresponde para nós a mil milhões)
A propósito destas últimas frases do texto lembrei-me de um poema do meu primeiro livro (Reflexões e Interferências)
Sorriso
Junto
à campa da minha mãe
nasceram
lírios no passado mês.
Alguns
dos seus elementos,
o
magnésio talvez,
já
terão sido, por certo,
pertença
da minha mãe.
Há
momentos,passava
perto
de
um lírio que ali cortei
e
quando o olhar fixei,
pareceu-me
ver alguém
que
sorria para mim.
Doce,
o sorriso, sem fim.
Por
certo era a minha mãe,
só
ela sorria assim.
Mas regressando ao tempo, não poderia deixar de me referir a "Uma breve história do tempo" de que deixo um pequeno excerto:
Durante os anos 70 dediquei-me particularmente ao estudo dos buracos negros, mas em 1981 o meu interesse pelas questões da origem e destino do Universo reacendeu-se quando assisti a uma conferência organizada pelos jesuítas no Vaticano. A Igreja Católica tinha cometido um grave erro com Galileu, quando tentou impor a lei numa questão científica, declarando que o Sol girava à volta da Terra. Agora, séculos volvidos, decidira convidar alguns especialistas para a aconselharem sobre cosmologia. No fim da conferência, os participantes foram recebidos em audiência pelo papa que nos disse que estava certo estudar a evolução do Universo desde o *big bang* , mas que não devíamos inquirir acerca do *big bang* em si, porque esse tinha sido o momento da Criação e, portanto, trabalho de Deus. Nessa altura fiquei satisfeito por ele ignorar qual havia sido a minha contribuição para a conferência: a possibilidade de o espaço-tempo ser finito mas sem fronteiras (3), o que significaria que não tinha tido um princípio e que não havia nenhum momento de Criação. Não tinha qualquer desejo de partilhar a sorte de Galileu, com quem me sinto fortemente identificado, em parte devido à coincidência de ter nascido exactamente trezentos anos depois da sua morte! (...
Ontem à noite decidi ver o filme Teoria de Tudo que tenho gravado mas que pode também ser visto aqui.
De qualquer modo deixo o trailer
https://www.youtube.com/watch?v=OgVdYzUW0yk
E a propósito de Tempo termino com a Persistência da memória de Salvador Dali
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Sábado, dia 9, uma página do meu diário...
Esta é mais uma página do meu diário que partilho com quem quiser ler.
Sábado, dia 9, foi o Concerto de Reis e Ano Novo que referi em mensagem anterior e cujo programa definitivo incluo a seguir
Sábado, dia 9, foi o Concerto de Reis e Ano Novo que referi em mensagem anterior e cujo programa definitivo incluo a seguir
O coro (Rouxinóis)
de que faço parte, abriu o concerto com a canção Ano Novo mas, dada a minha "aselhice", não sei como colocar a música que só tenho em CD.
Após uma breve intervenção do Padre Domingos foi a vez de sete crianças, das mais pequeninas ( quatro e cinco anos), entre elas a minha neta Marta ( a menina mais à direita), tocarem em teclados Jolly Old Saint Nicholas cuja música deixo num vídeo retirado do youtube
Após uma breve intervenção do Padre Domingos foi a vez de sete crianças, das mais pequeninas ( quatro e cinco anos), entre elas a minha neta Marta ( a menina mais à direita), tocarem em teclados Jolly Old Saint Nicholas cuja música deixo num vídeo retirado do youtube
Seguiu-se mais um grupo de sete crianças um pouco mais crescidas tocando DecK the Hall cuja música podem ouvir aqui
Seguidamente, um novo grupo de sete crianças, ainda em teclados, tocou Little Children
Depois foi a vez dos violinos: cinco jovens tocaram Infant Holy, Infant Lowly.
Deixo uma versão com coro pois não encontrei nenhuma apenas instrumental.Aos violinos seguiram-se guitarras, duas crianças tocaram o conhecidíssimo tema, Jingle Bells.
Deixo uma versão com coro pois não encontrei nenhuma apenas instrumental.Aos violinos seguiram-se guitarras, duas crianças tocaram o conhecidíssimo tema, Jingle Bells.
Seguiu-se-lhes um grupo de nove jovens com ocarinas, teclados, piano, violino que tocaram The first Noel.
Em teclados, um grupo de seis jovens tocou Rudolph the Red -Nosed Reindeer a que se seguiu, também em teclados, M y Favorite Things ( um dos temas de Música no Coração), interpretado por sete jovens.
Mais um grupo de sete intérpretes tocou em teclados, Christmas Tree
Em piano solo uma jovem tocou um Alegro a que se seguiu Blue Christmas em teclados, também com sete intérpretes
O coro voltou a atuar com dois temas: Patas de veludo, Estrelas, cujas músicas devem corresponder a outros "títulos" pelo que não as identifiquei na NET. Tenho-as em CD mas a tal "aselhice" não me permite colocá-las aqui. Do mesmo modo não consigo encontrar E agora? o tema que o coro cantou a seguir, após uma interpretação do mesmo em violino.
Novamente o coro, acompanhado por dez intépretes tocando ukulele, cantou ding dong merrily on high designado no programa, como Gloria
Em
teclados (sete intérpretes) seguiu-se Silent
Night e
em piano solo, duas jovens tocaram Away
in a Manger.
Novamente em teclados, sete intérpretes tocaram Rockin´Around the Christmas Tree a que se seguiu, em piano solo e com duas intérpretes, Santa Baby.
Mais um grupo de cinco teclados com White Christmas seguido de um solo Joy to the World em guitarra. Mais um solo em piano, Sleigh Ride
https://www.youtube.com/watch?v=_eMV9O2NQ1o
O coro regressou com O Inverno vai passar, uma adaptação de Singin´in the rain com a letra que segue.
A chuva a cair,
o vento a soprar,
mesmo assim vou sorrir,
mesmo assim vou cantar,
o frio esquecer
o verão, recordar.
O inverno?
O inverno vai passar..
O dia amanheceu,
cinzento, a chorar,
mesmo assim cá estou eu,
mesmo assim a cantar,
pois guardo em mim, o sol e o mar::
O inverno?
O inverno vai passar..
Quase a finalizar o meu neto e eu fizemos parte de um grupo de dez "ukulele", que juntamente com um grupo de seis teclados e acompanhados pelo coro (que desta vez não integrei...) interpretou E se o Natal chegar ao fim ? cuja música deve corresponder a outro "título" pelo que não a identifiquei na NET.
De seguida regressei ao coro para cantarmos, This Little Light is Mine, acompanhados por seis guitarras,
Deixo uma versão que retirei da NET e de que gostei bastante
O concerto finalizou com uma música muito alegre, uma canção tradicional da Nova Zelândia Epo i tai tai e, que significa Vou ser feliz
Nesse dia, às 12,30 foi o ensaio final para os mais pequeninos mas quem acompanhou a minha neta, foi a mãe. À tarde decorreu o ensaio geral, com início às 16 h mas que se prolongou por bastante tempo. Em face disso estava com algum receio que à noite o espetáculo se alongasse muito, até porque levámos connosco uma amiga . Mas fiquei estupefacta porque tudo correu "sobre esferas"
com todas as entradas no tempo previsto, etc, etc, etc.
Eu já admirava a Margarida, responsável pela escola.É quem dirige o coro e é também a professora de piano da minha neta (e de muitas outras crianças, obviamente). Mas ontem, quer eu quer o meu filho e a minha nora ficámos muito bem impressionados com a organização do concerto, em que também colaborou o Nelson, nosso professor de ukulele, que desde pequeno foi aluno de piano da Margarida e hoje está mais ligado às cordas.
Nunca tinha visto/ouvido a minha neta a tocar piano mas saiu-se muito bem. O José também teve um bom desempenho mas como tenho aulas conjuntamente com ele, tenho acompanhado o seu progresso.
Todos nós vestimos umas camisolas com referência à escola Teclarte.
Frente Costas
Terminado o concerto, tínhamos à nossa espera um "lanche" oferecido pelo Padre Domingos.
Foi uma noite muito agradável.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Vaidade ou talvez não.... eis a questão
Nos
comentários à minha anterior mensagem fiquei surpreendida com a
referência de forma explícita ou implícita à minha vaidade. Não
quer isto dizer que não me considere vaidosa. Sou bastante, mas no
que respeita a gostar de “trapos”, sapatos, carteiras e toda uma
panóplia de coisas perfeitamente supérfluas.
Nos
aspetos que têm a ver com aquilo que consigo ou não consigo fazer,
não me considero vaidosa.
Decidi
consultar, via NET, o Dicionário Priberam
1.Qualidade
do que é vão, inútil, sem solidez nemduração.=VANIDADE
2.Fatuidade,
ostentação.
3.Sentimento
de grande valorização que alguém tem em relação a si
próprio.=VANGLÓRIA
4.Futilidade.
http://www.priberam.pt/dlpo/vaidade [consultado
em 12-01-2016].
É
certo que ninguém é bom juiz em causa própria mas acho que, sem
falsa modéstia, tenho a perfeita noção das minha limitações.
Gostaria imenso de saber tocar um instrumento (bem, obviamente) e de
ter os conhecimentos de música que outros têm, nomeadamente a minha
amiga Virgínia Barros. Gostaria de ter uma boa cultura geral que
passasse por áreas como a história, a geografia, a economia (área
em que sou completamente analfabeta…), a sociologia, a filosofia,
etc, etc
Mesmo
na minha área, particularmente na Física de que gosto muito,
gostaria de saber muito mais que aquilo que sei na área da mecânica
quântica, da nova cosmologia, enfim…
Estou
sempre aberta a aprender coisas novas embora cada vez tenha menos
capacidades para isso.
Mas
regressando à mensagem, na mesma relato uma situação que vivenciei
na passada quinta feira, durante a minha manhã de voluntariado e que
me fez sentir muito pequenina face “à lição de vida” com que
me deparei, e relato ainda um encontro com uma ex-aluna de quem já
não me lembrava e que terei marcado muito positivamente.
No
livro que publiquei em 2002, Se eu não fosse professora de
Física. Alguma reflexões sobre práticas letivas,
dou conta de quão fascinante foi para mim a experiência docente. Por isso tenho uma grande satisfação quando sinto que ex-alunos me recordam com carinho. Não considero que seja vaidade, mas sim uma sensação de dever cumprido (embora tenha a consciência que não terei marcado todos os alunos de igual forma)
dou conta de quão fascinante foi para mim a experiência docente. Por isso tenho uma grande satisfação quando sinto que ex-alunos me recordam com carinho. Não considero que seja vaidade, mas sim uma sensação de dever cumprido (embora tenha a consciência que não terei marcado todos os alunos de igual forma)
Um
dos livros que me marcou logo que iniciei a carreira docente foi o
Diário de Sebastião da Gama.
Reproduzo de seguida dois
trechos do mesmo:
(...)O
que era bom era dar sempre aulas como a de hoje! Vir da aula tão
feliz que tivesse precisão de gritar ao primeiro desconhecido: -
"Sabe? Dei hoje a melhor aula, a aula mais linda da minha vida!"
Quis, ao entrar na Sala dos Professores, gritar isto mesmo ao Senhor
Director - Mas não fui capaz, talvez por ele estar acompanhado; e
foi pena, porque tenho a certeza de que ele compreenderia o meu
contentamento, me sorriria com a bondade e delicadeza de alma que lhe
são próprias. Assim, vim pelo Alecrim abaixo a contá-lo só a mim:
"Que linda aula! Que linda aula! Que linda aula!" E foi no
vapor que não pude resistir: - "Sabe? Dei hoje a melhor aula, a
mais linda aula da minha vida!" Quase desconhecida, a mimosa
menina que me ouviu com simpatia; vira-a apenas uma vez, falara com
ela apenas dois minutos; mas ficámos amigos, porque dias como o de
hoje são dias grandes.
(…)
A
aula passada ao papel fica sempre mesquinha. A aula de Português
acontece, como atrás ficou dito em letras grandes; mas acontece lá,
acontece na sala 19 e não aqui, neste papel aos rectângulozinhos.
Depois, eu não sei inventar nem doirar; e há uns tempos para cá
nem sei reproduzir - ando doente da mão. Por tudo isto é que são
uma caricatura das aulas as linhas que ficam neste caderno. Não que
as aulas sejam excelentes; - apesar da confiança em mim, e até do
arzinho de vaidade que às vezes pareço ter e não sei reprimir,
sinto que me faltam muitas qualidades; sabe-me a pouco, cá dentro,
tudo o que faço, e bem vistas as coisas não tenho vaidade nenhuma.
Tenho para mim que o vaidoso só o é verdadeiramente se está
convencido de que é um ás naquilo de que é vaidoso; ora eu não
estou convencido; aparento por vezes que o estou, levado por um
demónio que eu não sou capaz de afogar. Eu só estou convencido de
que tenho em mim algumas qualidades, graças às quais não é
desonestamente que sou professor; e estou convencido também de que
há mil outros que não têm estas qualidades, ao mesmo tempo que há
outros ainda que têm, além das minhas, aquelas que me fazem falta.
O que me absolve é que tenho o bom propósito de ir melhorando e de
chegar um dia (se o espírito se não acovardar com o tempo...) em
que serei quase um bom professor; é justamente nesse dia que
morrerei: quando for quase um bom professor(...
)
Apesar
da evolução dos conceitos de ensino aprendizagem desde Sebastião
da Gama até hoje, ainda
acho estes textos admiráveis, como aliás todo o livro. Nunca “li”
neles qualquer vaidade mas sim a necessidade de partilhar com os
outros aquilo que o tornava feliz.
Jár
aqui
referi
que este blogue, que não se destina a ninguém em especial e a todos
em geral, é essencialmente uma espécie de diário para mim, que
doutra forma nunca escreveria. Não tinha ideia de relatar o
episódio de 5ª feira mas contei-o em conversa a uma colega de
ginásio, uma senhora de uma grande sensibilidade com quem costumo
conversar. Partiu dela a ideia de o partilhar no blogue
Esse
episódio é tão bonito e comovedor que devia partilhá-lo no seu
blogue.
Quando
se aproximou de mim a ex-aluna, eu estava precisamente à conversa
com essa colega que de seguida comentou.
Também
devia referir no blogue este reencontro.
Para
mim o blogue é um espaço de partilha e, de preferência, gosto de
partilhar aquilo que para mim é/foi agradável ou enriquecedor.
Ainda a propósito do Diário sugiro esta leitura
E a propósito da vaidade, deixo Os Sete Pecados Capitais de Hieronymus Bosch com a vaidade em destaque
Em tempos concorri a um concurso em que os poemas teriam que estar relacionados com os pecados capitais.
Não fui classificada mas deixo o poema
Os
sete pecados capitais ( Hieronymus Bosch)
Uma
esfera central como se fosse um olho,
o
misterioso olho de Deus que tudo vê.
Na
pupila, Cristo Redentor
e,
dispostos em redor,
os
sete pecados capitais.
Nos
cantos da tela,
a
morte,
a
glória,
o
juízo final
e
o inferno,
cujas
chamas bruxuleavam
em
macabra dança,
nos
meus pesadelos de criança.
A
obra pertenceu a um “senhor” do mundo,
Filipe
primeiro, rei de Portugal,
também
rei de Espanha, Filipe segundo.
E a propósito de Filipe II deixo o poema Fecho éclair de António Gedeão
Filipe II
tinha um colar de oiroFilipe II
tinha um colar de oiro
com pedras rubis.
Cingia a cintura
com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz
Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.
Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.
Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.
Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.
O que ele não tinha
era um fecho éclair.
Aqui na voz de Carlos Mendes e José Nisa
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