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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 21 de julho de 2012

Dia do Amigo...


Ontem doi o Dia do Amigo.
Não sabia que existe um Dia do Amigo. Soube-o, por acaso, através de dois dos blogues que incluí  nos meus favoritos:  De Rerum Natura e Letra Pequena.
No primeiro  podemos ler um belíssimo poema de Vinícius de Morais que eu usei numa pequena colectânea de textos sobre a amizade que organizei em 2005,Ano Internacional da Física, em que se comemorou o centenário do “Annus mirabilis”, 1905.
Nesse ano Einstein publicou quatro brilhantes artigos, entre eles um sobre relatividade restrita e outro sobre o efeito foto elétrico, trabalho pelo qual lhe viria a ser atribuído o prémio Nobel da Física em 1921.
Para mim, 2005 foi também “um ano miraculoso”. Recebi dois primeiros prémios em concursos de poesia, o Prémio Rómulo de Carvalho  e fui agraciada com a Comenda da Instrução Pública, por sugestão da Sociedade Portuguesa de Física. Quando recebi um telefonema a dizer que teria que ir a Lisboa para uma sessão na presença do Sr. Presidente da República (à data, Jorge Sampaio), mesmo sem imaginar que  iria ser agraciada, pensei que era uma brincadeira do meu amigo Ricardo Mota, perito em pregar partidas. Nunca imaginara tal situação. Foi para mim uma grande honra, eventualmente imerecida, que teve apenas um senão. Para  os meus pais, muito em especial para a minha mãe, teria sido um motivo de enorme contentamento. Infelizmente já ambos tinham falecido.
Tudo isto começou a propósito dos Dia dos Amigo. É que na sequência do que anteriormente referi, um grupo de amigos decidiu, sem eu saber, promover um almoço em Alfândega da Fé que teve lugar no dia 8/4/2006. Quando decidiram tomar tal iniciativa falaram com o meu marido, por isso ele estava a par do acontecimento. Eu só soube quando, em determinado dia,  me comunicou que dali a dois dias teríamos que ir a Trás-os-Montes, expondo então as razões da ida.
Disse-me o número de pessoas previstas, residentes em vários pontos do país, e fiquei espantada pois não  supunha ter tantos e tão bons amigos.
Pensei que teria que fazer algo que pudesse mostrar, embora de uma forma muito modesta, quanto o gesto me tinha tocado.Surgiu-me a ideia da colectânea. Fiz uma para cada um dos participantes. Só cerca de um ano mais tarde ingressaria na Utopia, para ter aulas de pintura com o Mestre Domingos Loureiro, mas uns tempos antes tinha, como autodidata,  feito uns trabalhos com pintura e  colagem e foi com um desses trabalhos que fiz a capa. 

Os textos incluídos foram os que seguem, tendo o primeiro, de minha autoria, sido escrito para o evento

Amizade
Como um rio, o tempo flui
arrastando consigo múltiplas memórias.
Algumas dissolve-as na voragem
e assim se desvanecem e em exponencial decrescem
tendendo para o nada.
Memórias há, porém, que o tempo não dilui,
antes sedimenta na passagem.
São as ausências que o não são porque, presentes,
têm o travo amargo doce da saudade;
são as presenças, que o são mesmo que ausentes,
dando real sentido à amizade.
(Regina Gouveia)

A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa…..Se queres um amigo, cativa-me.
( Saint-Exupéry)

A AMIZADE duplica as alegrias e divide as tristezas.
(Francis Bacon)

A AMIZADE é como os títulos honoríficos; quanto mais velha, mais preciosa.
(W Goethe)

A AMIZADE é como a sombra na tarde - cresce até com o ocaso da vida.
(La Fontaine)

Amigos
Tenho amigos que não sabem
o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto
e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre
do que o amor, eis que permite que o objecto dela se divida em outros afectos, enquanto o amor
tem intrínseco o ciúme,
que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor,
que tivessem morrido todos os meus amores,
mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
A alguns deles não procuro,
basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja
a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade,
não lhes posso dizer o quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crónica
e não sabem que estão incluídos
na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro,
noto que eles não tem noção
de como me são necessários,
de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo
que eu, tremulamente, construí
e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam,
eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece
é, em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos
sobre alguns deles.
Quando viajo
e fico diante de lugares maravilhosos,
cai-me alguma lágrima
por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece
é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo,
andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente
os que só desconfiam
ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.
(Vinícius de Moraes)

Procura-se um amigo
Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaros, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
(Vinicius de Moraes)

Traz Outro Amigo Também
Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também
(José Afonso)

Um amigo
Há  uma casa no olhar de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice e o verão das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.
Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e exílios,
onde a ira nómada da cidade
arde como um cego em busca de luz.
(Eduardo Bettencourt Pinto)

Amizade ao longo
Passam lentos os dias
e muitas vezes estivemos sós.
mas depois há momentos felizes
para existir em amizade.
Olhai, somos nós.
…………………………………………………………………
No entanto calai-vos.
Quero dizer-vos algo. Quero apenas dizer
que estamos todos juntos. às vezes, ao falar, alguém esquece o seu braço sobre  meu e eu
ainda que esteja calado dou graças, porque existe paz nos corpos e em nós.
Quero dizer-vos como todos trouxemos
nossas vidas para aqui, para contá-las. Por muito tempo, uns com os outros, a um canto falámos, tantos meses que nos conhecemos bem,
e na lembrança o júbilo é igual à tristeza.
Para nós  a dor é terna.
Ai o tempo! Já tudo se compreende.
(Jaime Gil de Biedma)

Carta aos amigos

Mando-vos estes sabores
construídos na terra onde nasci.
E se mais não vos envio é porque eu mesmo
já não sei inventar outros amores
mal ou bem consentidos nos horizontes desta vida que pouco  a pouco construí
Agarrai-lhe o cheiro
que tem os odores da minha insatisfação
Segurai-lhe o gosto que guarda a memória
da minha paixão. 
Fazei o que no tempo melhor vos convier
mas não deixeis perder este sonho
curtido em dias e noites a fio
à roda de uma mesa qualquer.
Não deixeis morrer a alma
da voz que nos anima
cá por dentro ao desafio
pela vida que queremos vencer.
Como se o despontar de um novo dia
fosse apenas outro querer…
Como se a revolta interior
gritada contra toda a maldade
que nos traz o sofrimento
fosse apenas o livro aberto e puro
de tudo quanto está por escrever.
Mas que fique a sede da verdade
e da tolerância e do entendimento
de que sós andamos para trás
nesta terra que não merece fingimento
e nos pede simplesmente
que juntos aprendamos a crescer!
(Francisco José Lopes)

A propósito deste evento, Francisco José Lopes, natural de Alfândega da Fé, autor do último poema, escreveu uma mensagem no seu blogue http://resistente.3e.com.pt/. Infelizmente o blogue foi corrompido e não foi possível recuperar as mensagens anteriores a 2009. Como a guardei  coloco alguns excertos.

Regina Gouveia – em torno de uma Comenda e de um Prémio, com a amizade no coração

(…) Em 2005 foi distinguida com o prémio Rómulo de Carvalho instituído pela Sociedade Portuguesa de Física (…)  Foi-lhe igualmente atribuída a Comenda da Ordem da Instrução Pública pelo Presidente da República Jorge Sampaio.
No dia 8 de Abril, um grupo de familiares e amigos sentou-se à mesa
com Regina Gouveia num restaurante de Alfândega da Fé. O pretexto foi dar-lhe os parabéns por aquelas honrosas distinções, mas o motivo foi transmitir-lhe a amizade e a consideração que muita gente tem por ela. Foi, de facto, um excelente momento de convívio e amizade, no qual não faltou sequer o canto de um dos temas mais paradigmáticos da música de José Afonso, “Traz outro amigo também”. Aliás, bem de acordo com a sua forma de estar na vida, foi Regina Gouveia quem acabou por surpreender todos os presentes com uma “prenda” muito especial: um pequeno conjunto de poemas de vários autores que falam de amigos e de amizade, começando exactamente por um da sua autoria e onde naturalmente se incluía o texto/música já mencionado de José Afonso.

A finalizar deixo quatro  de entre as muitas fotos tiradas. 





E tudo isto a propósito do Dia do Amigo…

3 comentários:

  1. Regina
    Faltam-me as palavras para comentar este seu post.É um verdadeiro hino à amizade e uma evidência da sua qualidade como ser humano.
    Sinto-me feliz por a ter encontrado e ser sua amiga. Foi um pouco tarde, para mim, mas aconteceu, felizmente.

    Um grande beijo de muita amizade e admiração.

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  2. Não vale a pena repetir o que tenho dito vezes sm conta...és uma pessoa especial....neste Portugal dos Pequeninos...ainda bem que me posso considerar tua Amiga, é um privilégio.

    Conheço-te há 33 anos....e sempre foste assim!

    Bjo

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  3. Ou me conhecem mal, ou só valorizam o que é positivo, ignorando tudo o que é negativo. De qualquer forma, creio que o qualquer um de nós espelha, é também fruto das amizades que estabelece. E eu tenho o privilégio de vos ter às duas por amigas.
    Um grande abraço
    Regina

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