Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quarta-feira, 30 de março de 2011

Fotos prometidas

Tal como prometido, envio algumas fotos que me foram enviadas pelas escolas de Cantanhede e Vila Pouca de Aguiar. Estas últimas podem ser vistas em http://www.eb23vpa_biblioteca.blogs.sapo.pt/.
De qualquer forma deixo aqui algumas









.

sábado, 26 de março de 2011

Um país adiado

Portugal é, de há muito, um país para muito poucos. Mas, infelizmente, talvez nunca como agora, quiçá nem nos tempos da ditadura, se tenha transformado, do ponto de vista económico, num inferno para muitos, num purgatório para grande parte e num paraíso inigualável para uma minoria de corruptos.

António Marinho Pinto, controverso bastonário da Ordem dos Advogados, cujas intervenções pecam por vezes por alguma demagogia, na abertura do ano judicial proferiu um discurso com que me identifico muito.
Frisou que "pessoas houve que acumularam fortunas gigantescas no exercício exclusivo das mais altas funções públicas, durante anos" e que "bancos foram saqueados em milhares de milhões de euros e os principais beneficiários continuam impunes".

José Sócrates pediu a demissão. E agora?

Ainda recentemente, face a uma proposta creio que do BE, para diminuir regalias e vencimentos dos grandes senhores, PS e PSD votaram contra.

Nenhum deste partidos pode merecer o voto dos portugueses, salvo dos que pertencem  à minoria anteriormente  referida.
Mas tal como no Triunfo dos Porcos de George Orwell, a ignorância favorece  a manipulação das massas.

Sou optimista por sistema, mas neste momento sinto algum pessimismo. Será que alguma formação política poderia mudar este status quo?

Sartre, no livro  A engrenagem , retrata uma situação onde os que causaram a revolução se sentem traídos, porque os que lideraram a revolução não cumpriram o que prometeram.
Também George Orwell, no já citado Triunfo dos Porcos, apresenta uma alegoria bastante original: um grupo de animais revolta-se numa quinta governada pelos humanos e funda uma corrente ideológica que, como tantas outras, começa como uma grande ideia cheia de nobres valores e intenções a acaba por servir como meio de favorecer os mais fortes, violando todos os princípios a que se tinha proposto.

Os caminhos afiguram-se rochosos mas temos que recomeçar.

Termino precisamente com duas obras de Edith Cohen-Gewerc, uma artista de que muito gosto e a que já tenho recorrido em outras ocasiões

Chemins rocailleux


L´eternel recommencement

sexta-feira, 25 de março de 2011

De Cantanhede a Izeda passando por Bragança

No âmbito das actividades levadas a cabo para promover a leitura, a convite de várias escolas fui a Cantanhede (dia 21) e a Vila Pouca de Aguiar(dia 23). De Vila Pouca segui directamente para a Bragança (dia 24) e dali a Izeda (dia 25) donde regressei a meio da tarde. Em todas as escolas a alegria das crianças, desde o pré-primário até ao 3º ciclo e  a afabilidade de professores e funcionários. A acrescentar a tudo isto, a ida a Bragança é sempre um regresso à infância e adolescência que ali passei. A escola primária onde fiz a quarta classe, já não o é, e o Liceu Emídio Garcia mudou-se… No seu lugar a Biblioteca Municipal. Foi a convite da  Biblioteca, em coordenação com as respectivas escolas, que visitei Bragança e Izeda, sempre acompanhada pela respectiva Bibliotecária, uma senhora encantadora.

Fiquei alojada no Hotel Tulipa, um hotel muito simpático e bem perto da casa onde morei os oito anos que vivi na cidade. Da Bragança de hoje só conheço o centro, que fui rever. Passeei um pouco pelo Praça da Sé e pelas ruas circundantes, numa espécie de viagem ao passado. Estive com amigos e matei algumas saudades.
Fui a duas escolas e, em quatro sessões, estive com mais de trezentos alunos. Os professores temiam pelo comportamento de alguns mas, talvez por se sentirem na presença de uma conterrânea, portaram-se de modo exemplar. Para além da minha apresentação houve inúmeras apresentações dos alunos, todas elas com qualidade. Nalguns casos a qualidade foi mesmo excepcional.
Em algumas apresentações os alunos leram poemas acompanhados de música, que tocavam sob a orientação do Professor de Música. Enquanto tocavam,  iam passando numa tela imagens alusivas, e com muita qualidade.
Na selecção das músicas, pareciam adivinhar os meus gostos. Uma ária de Bach, e a canção Barco Negro que aqui deixo na voz de Amália Rodrigues
Destaco Bragança pela razão afectiva e não só, mas em todas as escolas alunos, professores e funcionários, me surpreenderam pela positiva.

O empenho dos alunos revela muito empenho dos professores e, mais uma vez, me indigno com o modo como a tutela os tem tratado de uns tempos a esta parte, e com a iniquidade de certas avaliações, que não premeiam o trabalho desenvolvido, mas a subserviência demonstrada .

Mas voltemos às visitas. Tenho ainda poucos documentos. Ficaram de me enviar fotos mas ainda as não tenho. Deixo,  no entanto, um filme com uma entrevista para uma estação local de televisão, dois trabalhos colectivos que me foram entregues por alunos, e um livro editado pela Câmara Municipal, um conto colectivo escrito e ilustrado por alunos, sob a orientação de professores e que, gentilmente, me foi oferecido pela Coordenadora da Biblioteca.





Em Izeda, a referida Bibliotecária e eu fomos tomar café a um cafezinho da terra, pertencente a um casal de pessoas simples mas muito afáveis. Faziam anos, ambos. Ele 73 e ela 71. Ele é analfabeto e ela aprendeu a ler, já adulta , porque o marido a incentivou a fazê-lo. Que bonito casal…

Estas viagens são cansativas mas altamente compensadores pelo lado humano .

segunda-feira, 21 de março de 2011

Todo o tempo é de poesia...

Hoje é o Dia Mundial da Poesia. Mas para quê um dia,  se todo o tempo é de poesia...

Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã

à névoa do outro dia.


Desde a quentura do ventre


à frigidez da agonia


Todo o tempo é de poesia


Entre bombas que deflagram.


Corolas que se desdobram.


Corpos que em sangue soçobram.

Vidas qu'a amar se consagram.


Sob a cúpula sombria


das mãos que pedem vingança.



Sob o arco da aliança


da celeste alegoria.


Todo o tempo é de poesia.


Desde a arrumação ao caos


à confusão da harmonia.


António Gedeão

E porque de poesia falamos, deixo um poema de Camões e outro de Fernando Pessoa, porventura os dois expoentes máximos da poesia portuguesa

Verdes são os campos


Verdes são os campos,


De cor de limão:


Assim são os olhos

Do meu coração.


Campo, que te estendes


Com verdura bela;

Ovelhas, que nela


Vosso pasto tendes,


De ervas vos mantendes


Que traz o Verão,


E eu das lembranças


Do meu coração.


Gados que pasceis


Com contentamento,


Vosso mantimento


Não no entendereis;


Isso que comeis


Não são ervas, não:


São graças dos olhos


Do meu coração.

Luís de Camões


Ouçamos o poema, com música de José Afonso (também poeta), na voz de  Teresa Silva Carvalho






Camões visto por Júlio Pomar – azulejos da estação de metro Alto dos Moinhos














Autopsicografia


O poeta é um fingidor.


Finge tão completamente


Que chega a fingir que é dor


A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,


Na dor lida sentem bem,


Não as duas que ele teve,


Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda


Gira, a entreter a razão,


Esse comboio de corda


Que se chama coração.


Fernando Pessoa (Ortónimo)

Ouçamos o poema na voz de João Villaret 



Retrato de Fernando Pessoa da autoria de Almada Negreiros, também ele poeta















Termino com um poema bem menor, um poema  meu do primeiro livro publicado, Reflexões e Interferências

E para ilustrá- lo, dois pequenos quadros (20x30cm), os meus primeiros quadros a óleo


Exploração


Qual exploradora, parti um dia.


Embrenhei-me na selva da vida


onde sabia andar escondida


a poesia


Encontrei-a


na luz ténue do sol ao fim do dia,


na molécula, no átomo, no quantum de energia,


nas leis de Newton, no conceito de entropia.


Encontrei-a


na reflexão da luz, na impulsão no ar,


no cheiro a maresia e nas algas do mar,


no orvalho, na geada, na chuva, no luar.


Encontrei-a


no ínfimo e no imenso que a vista não alcança,


nas rugas dum idoso, no rir de uma criança,


numa tela, num concerto, numa dança.


Encontrei-a


no voo da gaivota, na pétala da flor,


na chama que tremula e se multiplica em cor


e que irradia energia na forma de calor

Encontrei-a

nas estrelas, nas galáxias mais distantes,

no olhar apaixonado daqueles dois amantes,

nos extintos dinossauros de dimensões gigantes.

Encontrei-a

em medusas, corais, nos fundos oceanos,

no vento a agitar nas árvores os ramos,


em pinturas rupestres com vários milhares de anos
Encontrei-a


na violeta escondida no canto do jardim

e no frasco que continha essência de jasmim.


Tentei então guardá-la só para mim.


Foi assim que ela se evolou


e de novo eu aqui estou


a procurá-la.



Hoje é também o dia Mundial da Árvore

Estive  no Agrupamento de Escolas de Cantanhede.  Mais uma vez me deliciei com a atenção a a curiosidade das crianças. Numa das escolas as crianças  distribuíam pequenas árvores em cartolina. Eis  a frente o verso, este com uma semente.






E porque hoje também se iniciou a Primavera, termino a mensagem com um excerto da Sagração da Primavera de Stravinsky , num bailado com a famosa bailarina  Pina Bausch

sábado, 19 de março de 2011

Março, mês da leitura

Já por várias vezes aqui exprimi a minha tristeza por danos no sistema de ensino-aprendizagem, , a meu ver irreparáveis, consequência da gestão do ministério de MLR .

Há no entanto um aspecto positivo a realçar (creio que é mesmo o único). Refiro-me à Semana da Leitura, lançada pelo Plano Nacional de Leitura em 2006/2007.

Adoptada como uma prática anual por muitas escolas de todo o país e também por várias bibliotecas públicas, está actualmente integrada nos planos anuais de actividades. Decorre geralmente durante o mês de Março, incluindo múltiplas acções, como feiras do livro, jogos, debates, sessões com escritores, maratonas de leitura, dramatizações, recitais de poesia, entre outras.
No âmbito da referida semana desloquei-me já  a várias escolas e vou continuar a digressão.

Apesar da iniciativa ser altamente louvável e com resultados evidentes no interesse das crianças pela leitura, creio que seria mais eficaz se em vez da concentração de actividades numa semana, as mesmas fossem dispersas ao longo do ano lectivo. Esta concentração, a meu ver, não permite uma reflexão sobre as diferentes actividades, já que todas se acumulam num período muito curto. Também para os autores é complicado pois não podem desdobrar-se e, consequentemente, não podem dar resposta a muitas solicitações.

Foi por esta razão que estive em alguma escolas ainda em Fevereiro (como noticiei em postagem anterior) e tenho agendadas deslocações em Abril, Maio e Junho.

Mas regresso às escolas já visitadas em Março. A convite da professora bibliotecária Manuela Lima, estive em Esmoriz (duas escolas) e a convite da livraria Índex, estive no Colégio Efanor , em Matosinhos.

Nas várias visitas estive com crianças desde o pré-primário ao 4º ano. Como faço habitualmente, acompanho a leitura de alguns textos com uma ou outra actividade experimental simples, numa perspectiva da “ciência e poesia de mãos dadas”. É altamente compensador ver o olhar extasiado das crianças, nomeadamente as do pré-escolar, querendo todas participar falando das suas experiências. Eu já uma vez vi o arco-íris…Eu também… E quando o espectro da luz solar é projectado na parede batem palmas efusivamente.

E o ar de admiração dos mais velhos quando confrontados com a explicação das estações do ano. Muitas vezes estão convencidos que o Verão e o Inverno, dependem do maior ou menor afastamento da Terra ao Sol. Quando confrontados com o facto de que ao inverno numa parte do globo, corresponde o Inverno na outra, apercebem-se de que a distância sol-terra não pode ser justificação. E ficam perfeitamente atónitos quando lhes é dito que no hemisfério Norte é Verão quando estamos mais longe do Sol e Inverno quando estamos mais perto. E tudo isto emerge das poesias que vão sendo lidas…

Perguntaram à Maria


o que era a poesia

e a Maria respondeu:

É saber olhar o Céu,

ouvir as ondas do mar,

e sentir a maresia,

as aves a chilrear,

desde que o sol se levanta,

deixar a areia escapar

por entre os dedos da mão,

é saber ouvir o vento

que traz sempre uma mensagem

quando chega de viagem.

É acarinhar a terra,

cada animal, cada planta,

cada pedra, cada rio.

É cantar ao desafio com o melro,

o gavião, e também a cotovia,

o pardal , o rouxinol.

É saudar o arco-írisnum dia de chuva e sol

In Ciência para meninos em poemas pequeninos




(…)Por causa da luz que emito, faço a noite e faço o dia,

a Primavera, o Outono, o Inverno e o Verão, o luar na escuridão.

Isto no planeta terra, nos outros é semelhante com alguma alteração.

E já que falo na Terra é divertido contar

que enquanto uns muito transpiram, outros estão a tiritar.

É que todos os planetas estão sempre em translação, giram à volta de mim,

mas também em torno deles estão sempre a rodopiar.

É assim que noite e dia se sucedem à porfia.

Só que a terra enquanto gira,

face ao sol fica inclinada

e recebe a luz solar de uma forma variada.

Umas vezes é no norte que me recebe mais forte,

no Sul é então Inverno, e é o Verão, no Norte,

e quando neste é pleno Inverno, no Sul é o Verão forte.

Uns a banhar-se no mar outras a usar escalfeta…

In Era uma vez o Sol (in Pelo sistema solar vamos todos viajar)

E porque estamos a falar de leitura de de livros, termino com  um poema não publicado

Submissão


Gosto de livros. São objectos simples e muitas vezes belos.

Alguns são mesmo muito belos.

Quando pego num, passeio o meu olhar por título e autor.

Depois, qual ritual, num gesto sensual acaricio a capa e a lombada,

aspiro o seu odor.

Por fim decido-me a abri-lo, a folheá-lo

e de uma forma sôfrega, apressada, começo a lê-lo.

Leio-o por vezes só de uma assentada.

Mais tarde, releio-o lentamente saboreando frases e palavras uma a uma,

tentando adivinhar sentido e intenção na pontuação, se a mesma existe,

na que imagino, quando ausente.

Paulatinamente releio-o uma outra vez, ainda mais uma. Em suma, ler

é uma fonte inesgotável de prazer

Mas o livro não pode ser qualquer. Alguns, simplesmente não os leio,

outros abandono-os quando a meio.

Todos eles simples, submissos, aceitam os meus gestos, manifestos ou omissos.

domingo, 13 de março de 2011

Por terras de Aragão, viagem ao passado …

Não se depreenda deste título que  pretendo viajar até aos tempos da Reconquista Cristã e da formação dos reinos de Leão, Castela, Navarra, Aragão, bem como dos condados da Catalunha e Portucalense, donde iria emergir o reino de Portugal.
Não fui grande aluna na disciplina de História pelo que de modo alguma me atreveria a tal viagem.

O passado da minha viagem é bem mais recente - os tempos da minha infância e adolescência

Vivi em Bragança desde os 8 aos 16 anos e nunca esqueci o fascínio da cidade coberta de neve, especialmente quando os nevões obrigavam a fechar as escolas e me divertia a fazer bonecos de neve, a jogar à pelotada com os colegas e a deliciar-me comendo neve acabada de cair , misturada com sumo de laranja e açúcar ( não sei se é por isso que ainda hoje adoro granizados).
Regresso com muita frequência ao Nordeste Transmontano, não a Bragança, mas à aldeia das minhas origens , no concelho de Alfândega da Fé. Mas no Inverno, evito ir porque me desabituei da agressividade do frio intenso .
O meu filho mais velho adora esquiar e o gosto é partilhado pela mulher e pela minha neta de oito anos. Quando em 2009 nasceu o irmão, tornou-se evidente que a ida à neve era mais difícil. Prontifiquei-me a ficar com o bebé e assim foi em 2010. Este ano pôs-se de novo o problema. Decidi acompanhá-los. Fomos para Panticosa onde existe uma estância de esqui
Panticosa fica na Província de Huesca, no Valle de Tena, em pleno coração dos Pirinéus. É uma povoação interessante com uma igreja do século XIII. A zona mais elevada da estância é a de Valle de Sabocos, com mais de 2000 metros de altitude
Imgem de Panticosa, tirada da cabine, numa das descidas
Filho, nora e neto iam por volta das 8, 30 e eu subia por volta das 12 h com o pequenino. Antes passeávmos junto ao hotel, onde fizemos amizade com um gato que costumava acompanhar-nos.



Almoçávamos e os dois regressávamos por volta das 14,30. Na quarta feira fui logo de manhã e a minha nora subiu por volta das 12 h com o pequenito. Só foi esquiar de tarde. Nunca tinha estado numa estação de esqui. È interessante ver todo aquele movimento mas o que mais me tocou foi a chegada no dia em que fui mais cedo. Ainda não estava praticamente ninguém A montanha coberta de neve ainda virgem, o céu azul muito límpido e uma fantástica sensação de paz. Durou pouco. Passados alguns minutos a música numa intensidade aberrante, poluía brutalmente aquele espaço e assim se manteve ao longo do dia, como era habitual.
Porquê? Para quê? Para quem ?




Se quiserem ver imagens de toda esta zona consultem http://www.valletena.com/.    O site é do marido da dona de uma papelaria/livraria onde entrei . Conversei bastante tempo com a senhora, muito simpática, que mo sugeriu.
 No regresso jantámos e dormimos em Logroño. O Hotel em que ficámos situa-se centro histórico. À noite, nas ruas estreitas do casco antigo, há uma alegria e uma vida contagiantes. Jantámos num dos inúmeros bares que pululam por essas ruas.

No dia seguinte, sexta-feira, levantei-me cedo e, de mapa na mão, fui explorar o centro histórico.

Edifício arte nova numa das ruas da cidade
Infelizmente fiquei sem bateria na máquina e tirei muito poucas fotografias.
No caminho tentei comprar caramelos.
Em criança e ainda na adolescência, passei várias férias em Vila Verde da Raia pelo que as idas a Espanha eram vulgares. Recordo-me sempre dos gelados “de corte” ( o gelado que era cortado de uma barra e colocado entre duas bolachas rectangulares) e dos caramelos de Logroño. Nestes, o que mais me admirava era virem dentro de uns sacos de celofane. Em Portugal não havia gelados de corte, caramelos e rebuçados compravam-se à unidade.
Resolvi comprar caramelos para trazer. Só os encontrava a peso. Mas para mim, só os embalados correspondem à imagem da minha infância. Tanto procurei que encontrei. Não sei se por isso, o sabor parece-me o de outros tempos. Será?
Saímos por volta das 11h já em direcção a Portugal,

Na viagem, a minha neta pediu-me para falarmos em castelhano O pequenito ri-se às gargalhadas sempre que o fazemos.
Durante a conversa lembrei-me de uma canção que se ouvia muito, creio que ainda na década de 50. Foi uma das que cantámos durante a viagem.

Chiquitina, chiquitina le dicen los muchachos al verla pasar.


Buenos dias chiquitina la trenza de tu pelo quien la cortará (bis).


Chiquitina, chiquitina ojitos inocentes la hará desmayar.


Y la pobre chiquitina quisiera ser tan alta como la luna (bis).
Para vertirse de largo, para poderse pintar, para ponerse tacones y aprender a caminar.

Deixo a canção na voz de Mariluz

Continuemos a viagem. Saímos numa das saídas da autovia e almoçámos num restaurante. Mais tarde, já próximos da fronteira, parámos para lanchar. A televisão da cafetaria mostrava imagens do sismo no Japão. Desde que partira, propositadamente quebrara todas as ligações com televisão, jornais, etc.
Consegui descansar mas havia que regressar à realidade.

sexta-feira, 4 de março de 2011

“Sou um carpinteiro da pintura”

“Ontem fui assistir na FBAUP às provas de Mestrado do meu professor de pintura, Domingos Loureiro. A arguente foi Isabel Sabino.
Brilhante a arguente, brilhante o candidato.

Domingos Loureiro é um jovem artista, em início de carreira, mas já com provas dadas de qualidade e talento. Loureiro Podemos ter aqui um ideia do currículo do candidato (incompleto na medida em que só estão incluídas obras até 2009)
A paisagem está muito presente em toda a sua obra, mas numa perspectiva de contemporaneidade. Entre as suas obras contam-se  trabalhos notáveis em madeira, onde as árvores se tornam o  objecto predilecto de representação
Um dos muitos exemplos deste trabalho é a obra “Arqueologia de um lugar”, que se encontra no Largo do Centenário, em Valongo.
Quando do seu casamento, os alunos do atelier de pintura quisemos manifestar-lhe o nosso carinho e consideração. Pessoalmente escrevi um poema para o evento em que faço referência à dita obra

Numa praça da vida


Eros avistou uma árvore


e decidiu fazer dela um símbolo de amor


Sulcou-a de linhas sinuosas


a lembrar aquela outra


feita de utopia e de realidade


erguida no Centenário, o Largo da Cidade


Foi Eros que inspirou o jovem escultor


ou, pelo contrário,


foi na sua obra que Eros se inspirou?


Regina Gouveia

Sou um carpinteiro da pintura” disse em 2005, quando entrevistado pela revista “As cidades e a serra”.

Ns seus último trabalhos, que podem ser vistos no Fórum de Ermesinde até 27 de Março,
a paisagem continua presente, desde o título Volver paisagem às obras que podem ver aqui
Na obra que figura no cartaz de apresentação vê-se o “avesso” da pintura ….

Mas regressando à defesa da tese, O júri referiu-se ao talento do artista, à sua generosidade e modéstia.

Contrariamente a alguns intelectuais jovens e não só, cuja petulância esconde muitas vezes uma mediocridade tangível, Domingos Loureiro oculta, por detrás da sua modéstia , um enorme talento e uma enorme generosidade.

terça-feira, 1 de março de 2011

A Ciência ao Alcance todos. Relatividades

Hoje, terça feira decorreu a última sessão desta oficina.

Desde a última viagem aqui referida fizemos outras.

Mais uma viagem panorâmica, desta vez à Sala Eureka, no Departamento de Física e da Universidade do Porto, na rua do Campo Alegre. Ali pudemos interagir com a ciência através de experiências em diversas áreas da Física. Aqui fica uma imagem. Outras poderão ser vistas aqui
Uma das experiências serviu de porta de entrada a uma nova viagem agora por “terras da relatividade”.

Numa calha horizontal com atrito reduzido, é lançado um “carro” que dispõe de uma espécie de funil onde está depositada uma pequena. A meio da calha há um túnel e à entrada um sistema electromagnético faz disparar a esfera . A esfera eleva-se e quando o carro sai do túnel a esfera cai no “funil”

Nós, observadores exteriores ao carro, vemos a bola descrever uma trajectória parabólica, mas se, quais liliputianos, viajássemos dentro do carro teríamos visto uma trajectória vertical.
Quando leccionava, sentia que muitos alunos tinham dificuldade em aceitar que, para um observador dentro do carro, a esfera cairia no mesmo lugar . E como S. Tomé, só acreditavam depois de ver. No entanto não nos causa estranheza que lançando ao ar uma bola, dentro de um avião ou de um comboio, a mesma regresse às nossas mãos (desde que comboio ou avião se desloquem a velocidade constante). Também já todos nós, experimentámos a estranha sensação de estar num veículo parado ao lado de outro que se desloca e pensar que é o nosso veículo que se está a deslocar em sentido contrário. Ou também a sensação de dúvida que temos dentro de um elevador quando em movimento uniforme. Estamos parados ou estamos a deslocar-nos?

Esta relatividade nos conceitos de repouso e movimento e a sua interpretação vem já de Galileu, por isso se designa por relatividade galileana nada tem a ver com a relatividade de Einstein.

Lagrange que morreu no início do século XIX dizia que a ciência do nosso mundo só podia ser criada uma vez e fora Newton que a criara.
Anos mais tarde, Lorde Kelvin, respeitado por importantes contribuições na Física, chegou a sugerir que a Física havia atingido o seu limite.
Estavam muito enganados.

Nos finais do século XIX, a necessidade de explicar alguns fenómenos no âmbito do electromagnetismo, nomeadamente o comportamento da luz como onda electromagnética tinham conduzido a uma ruptura com a Física clássica. Um dos problemas residia na interpretação da velocidade da luz com base na relatividade galileana. Por exemplo, a velocidade da luz deveria ser diferente, quando a terra está em duas posições diametralmente opostas em relação ao sol. Ora foram totalmente infrutíferas todas as experiências levadas a cabo para mostrar que a velocidade da luz, dependia da velocidade do observador.
Num golpe de génio, Einstein postula que a velocidade da luz não é relativa mas absoluta, e é inatingível. Nada se move à velocidade da luz.
E, de passagem, a velocidade da luz no vazio e aproximadamente no ar é de 300.000 km por segundo. É fácil ter uma ideia da distância a que estão de nós o Sol e a Lua. A luz do primeiro demora 8 minutos a chegar à terra e a luz difundida pela lua demora 1, 2 segundos. Há estrelas cuja luz demora milhões de anos a chegar….

Mas regressemos a Einstein. Quando falamos de relatividade einsteiniana, temos que distinguir entre relatividade restrita e relatividade geral

Comcemos pela primeira.  Com base no que  postulou para a velocidade da luz,  Einstein  iria mostrar que o tempo corre mais devagar para um observador em movimento, o que já é comprovado todos os dias no CERN, com partículas elementares, mas também o foi na situação que podem ver neste vídeo. Em 1971 os físicos Joe Hafele e Richard Keating colocaram relógios atómicos precisos em aviões, viajaram com eles em volta do mundo e compararam as suas indicações com as de relógios idênticos deixados em terra. Os resultados foram conclusivos: o tempo passava mais devagar no avião do que no laboratório e, assim, quando terminou a experiência, os relógios voadores estavam 59 nanossegundos atrasados relativamente aos que tinham ficado em terra — exactamente o valor previsto pela teoria de Einstein.
O espaço e o tempo deixam de ser absolutos e independentes e temos uma nova dimensão espaço-tempo

Mas se a velocidade da luz é inatingível, nada se pode propagar instantaneamente. Então há que repensar a gravidade que se pensava actuar de forma instantânea.
E assim surgiu mais tarde a teoria da relatividade geral, na qual Einstein trabalhou arduamente durante dez anos, que passa a explicar a gravidade por uma deformação no espaço tempo, provocada por qualquer corpo massivo. Einstein admitiu que uma grande massa, como o Sol, deveria "deformar" a estrutura do espaço-tempo em sua volta. Como consequência, um objecto que, no espaço vazio percorre uma linha recta, perto de uma grande massa "percebe" a deformação do espaço-tempo e muda de trajectória.

Assim, a luz ao passar perto do sol é desviada como foi provado em 1919, durante um eclipse solar
O astrónomo inglês Arthur Eddington, entusiasta das ideias de Einstein, convenceu as autoridades britânicas a financiar duas expedições para observar um eclipse do Sol em 1919. Uma delas, liderada pelo próprio Eddington, foi para a ilha de Príncipe, então colónia portuguesa, e outra foi a Sobral, no Ceará A tarefa era fotografar e medir a posição relativa das estrelas em redor do Sol, tornadas visíveis quando o disco solar fosse encoberto pela Lua. Comparando essas posições com as posições normais das mesmas estrelas, em fotografias obtidas à noite, longe do Sol, seria possível, em tese, medir a deflexão da luz.

O nome de Einstein é associado geralmente à gravidade mas o prémio Nobel foi-lhe atribuído pela sua explicação do efeito fotoeléctrico, explicação que abriu as portas à Física Quântica.
A luz ao interactuar com a matéria tem comportamento corpuscular ( não os corpúsculos da teoria corpuscular de Newton a que já nos referimos mas corpúsculos de energia , designados por quanta) embora se comporte como onda enquanto se propaga.
Este comportamento dual da luz é também o comportamento da matéria, que assume ao nível do “infinitamennte” pequeno aspectos muito bizarros e difíceis de explicar

 O próprio Niels Bohr, por muitos considerado o pai da mecânica quântica, defendia que esta é quase totalmente incompreensível, e chegou ao ponto de dizer que, para abordar o mundo quântico, a linguagem da razão e da lógica já não é apropriada, e que convém ir buscar a linguagem da psicologia ou da arte; por exemplo a linguagem dos poetas que não procuram representar os factos de forma precisa, mas apenas criar criar imagens e estabelecer conexões no plano das ideias .
In D´Espagnat B. e Klein E., Olhares sobre a matéria, (pp 20,21)

Deixo aqui um filme de animação muito interessante que pretende mostrar essas bizarrias…

Aqui fica também Gilberto Gil com a canção quanta,  de sua autoria. Ficam ainda alguns versos do texto

Quanta do latim Plural de quantum

Quando quase não há Quantidade que se medir

Qualidade que se expressar Sei que a arte é irmã da ciência

Ambas filhas de um Deus fugaz Que faz num momento

E no mesmo momento desfaz


A terminar esta viagem,  um filme e um poema



Fascinou-o uma bússola que lhe deram em menino


Talvez apontasse, bem cedo, o seu destino


cujos indícios não eram evidentes.


Como imaginar que um funcionário do registo de patentes,


com o estigma da época -era judeu -


pudesse vir a ombrear um dia com Newton e Galileu?


Espírito inquieto, infatigável,


havia de empreender uma aventura notável


pelos trilhos da ciência.


Para a luz, sublime, etérea, com audaz clarividência,


previu a curvatura face à gravitação.


Os dados colhidos num eclipse solar deram-lhe razão.


Nobel da Física, ganhou o galardão


pelos estudos da interacção luz e matéria.


Tolerante, livre, com a maior dignidade


caminhou sempre em busca da verdade


o que originou na ciência, uma revolução -


a relatividade, com novas relações espaço –tempo,


que ainda não cabem no vulgar entendimento.


Talvez qualquer mortal ouse afirmar


que a velocidade provoca no tempo uma dilatação


enquanto que no espaço provoca contracção.


(provavelmente não sabe é o porquê),


e com idêntica ousadia falará na relação massa-energia,


E = mc2 que, por ironia, iria contribuir para a chacina


em Nagasaqui e também em Hiroshima.


Entristeceu-o tão bárbara imprudência,


tanta estupidez no uso da ciência.


“Com armas podem vencer-se guerras, mas a paz não se conquista”


era o seu lema de empenhado pacifista


Um dia deixou de bater o coração


mas a inteligência deixou-a, como legado, para a ciência.


O seu espírito, liberto agora das pressões do mundo,


talvez vagueie num espaço- tempo mais profundo


a uma velocidade, quiçá maior que c.

Regina Gouveia

A última viagem foi uma viagem muito breve ao mundo da radioactividade

Fez-se referência à descoberta um pouco casual dos raios X por Rontgen. A investigação que levou a cabo após a descoberta da radiação e os resultados da mesma foram apresentados a 28 de Novembro de 1895, sete semanas depois da descoberta, em comunicação no Instituto de Física e Medicina de Wurzburg.
Da comunicação constava a imagem dos ossos da mão da sua mulher, Bertha.
As potencialidades que se deixavam adivinhar pela aplicação revelada desencadearam uma mediatização que, de certo era, no final do séc. XIX, pouco comum. “Uma nova luz vê os ossos através da pele” e “Através da nova luz, revelam-se objectos escondidos” são exemplos de manchetes de jornais norte-americanos, logo em meados de Janeiro de 1896.
A opinião pública estava fascinada com os raios X (até poemas lhes foram dedicados!) e o mundo médico imediatamente reconheceu o extraordinário potencial da descoberta.

A revista "Life", em Fevereiro de 1896, publicou a seguinte poesia, de autoria de Lawrence K. Russel.

"Ela é tão alta, tão esbelta; e seus ossos,

aqueles débeis fosfatos e aqueles carbonatos

tornam-se magníficos aos raios catódicos

pelas oscilações, ampères e ohms;

suas vértebras não se ocultam sob a pele,

mas tornam-se inteiramente visíveis.

Por sobre suas formosas costelas

em número de vinte e quatro

desenha-se um ténue halo de sua carne;

sua face sem nariz e sem olhos volta-se para mim

e eu sussurro: "querida eu te adoro";

seus dentes brancos e brilhantes sorriem.

Ah! doce, cruel, adorável catografia".


Por sua vez, a revista "Photography", na mesma época, contribuiu com esta outra poesia


"Os raios Roentgen, que viraram mania

e excitam a cidade com a nova fase

de rumos futuros, deixam-me aturdido,

pois agora eu percebo que se pode ver e mirar

através dos vestidos com estes travessos raios,

malvados raios Roentgen".


Henri Becquerel, professor na Escola Politécnica de Paris encetou um estudo sobre a eventual relação entre a nova radiação e o fenómeno de fosforescência natural estudo a que se dedicava, entre outros.
Ao trabalhar com sais de urânio, verificou que, expostos à luz solar, eles tinham a capacidade de impressionar uma chapa fotográfica coberta por papel opaco. Em Fevereiro de 1896, e também um pouco por acaso, descobriu que esta capacidade é independente da exposição à luz solar o que levou à admissão de que o mesmo tinha origem no próprio sal de urânio. Foi a descoberta da radioactividade natural!
Os raios de Becquerel, como inicialmente foram designados, foram por ele estudados exaustivamente.
Demonstrou que, tal como os raios X, podiam causar ionização em gases, mas contrariamente ao que acontecia com eles, podiam sofrer deflexão por um campo magnético.

Marie Curie encetou, em finais de 1897, um estudo sistemático (que viria a ser a sua tese de doutoramento na Sorbonne) sobre os “raios de Becquerel”. Juntamente com o seu marido Pierre Curie propôs-se procurar outros materiais com as mesmas propriedades. Propôs o uso do termo radioactividade, para a emissão desses raios pelas substâncias como o urânio e o tório, aos quais chamou “radioelementos”.
Continuando as suas pesquisas, descobriram dois novos elementos radioactivos a que deram o nome de polónio (em homenagem á Polónia de onde era natural Maria Curie) e rádio.
Marie Curie, a primeira mulher a ter um lugar no corpo docente da Sorbonne (sucedendo a seu marido, tragicamente desaparecido), foi ela própria uma das promotoras da utilização do rádio no tratamento do cancro.
Em 1934, já depois da identificação e caracterização das partículas nucleares, o casal Joliot-Curie, formado por Irène Curie(filha de Marie Curie) e por Fréderic Joliot produziu, pela primeira vez, um elemento radioactivo em laboratório.
Estas três aquisições da ciência
• descoberta dos raios X
• descoberta da radioactividade natural,
• produção de elementos radioactivos artificiais 

juntamente com o conhecimento aprofundado da estrutura atómica e nuclear, onde os nomes de Niels Bohr  e Ernest Rutherford são incontornáveis, determinaram a evolução da radioterapia ao longo do século XX e até aos dias de hoje

(M.C. Lopes in gazeta de Física, nº 30, fasc 1, pp 14-29)

A radioactividade não é um fenómeno recente. Com efeito,a Terra sempre esteve sujeita à radiação cósmica e da sua constituição sempre fizeram parte elementos radioactivos, pelo que a espécie humana tem vivido, desde a sua origem, num ambiente naturalmente radioactivo.
A radioactividade no ambiente pode ter origem natural ou artificial e resulta, basicamente: da interacção da radiação cósmica com gases atmosféricos, da utilização industrial de matérias que contêm radionuclidos,
radionuclidos resultantes de testes nucleares, produção de energia eléctrica por via nuclear, produção de radioisótopos, acidentes, e exalação para a atmosfera de elementos radioactivos com origem em constituintes naturais de solos e rochas
A utilização da radioactividade em medicina, nomeadamente na radioterapia, explica-se porque a radiação causa danos ( substituições, falhas, trocas, roturas) à estrutura do DNA de uma célula podendo inviabilizar a sua reprodução, ou seja, conduzir à sua morte. Do ponto de vista terapêutico é esse o objectivo. Por outro lado pretende-se que sobrevivam as células dos tecidos sãos circundantes. É pois este balanço custo-benefício, que determina o resultado de um tratamento