quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
O melhor do mundo são as crianças....
O melhor do mundo são as crianças....
Bastaram 10 minutos de "independência" ( e algum descuido...) para que a minha neta Marta
(4 anos) organizasse a sala para uma festa imaginária....
E a propósito da lógica infantil, deixo um vídeo "delicioso" que creio já ter "postado" aqui
sábado, 21 de fevereiro de 2015
O mar...
Tem-me faltado tempo e também alguma
disposição para escrever. Em compensação, tenho lido a um ritmo maior do que
ultimamente tenho conseguido. Estou a reler poesia (desta vez Albano Martins, Eugénio de
Andrade, Casimiro de Brito e Ana Luísa Amaral) e a ler um livro novo(para mim). É de Patrick Modiano e tem por título “Na
rua das lojas escuras”. Patrick Modiano, Nobel em 2014, ganhou o o Prémio Goncourt, em 1978, com o livro que estou a ler
Aos sábados geralmente junto toda a família
ao almoço, mas o meu filho mais velho e família, no carnaval, aproveitam para
fazer uma semana de férias na neve pelo que só regressam amanhã à tarde. O mais novo e família virão almoçar amanhã para ainda nos podermos encontrar todos .
Aproveitando o sábado ”livre” fomos almoçar
à praia dos ingleses, onde vamos com relativa frequência (bem menor do que
aquela que eu gostaria mas o meu marido gosta pouco de sair...).
A luz intensa, o céu azul, o mar soberbo.
As
ondas batiam no paredão e “pulavam “ por
cima do mesmo.
Ao fundo um barco de pesca, pequeno, enfrentava a ondulação.
Ao fundo um barco de pesca, pequeno, enfrentava a ondulação.
Levei comigo “Eugénio de Andrade”. O seu poema Mar de Setembro a descrever o mar de Fevereiro que ali se me ofertava
Mar de Setembro
Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
Fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves, só
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.
Ao nosso lado estava um casal de ingleses.
E a propósito de ingleses, vou contar um episódio que ocorreu na 5ª feira e que me fez bem ao ego...
Como é habitual, à quinta feira de manhã faço
voluntariado no Hospital de Santo António, onde conjuntamente com um “colega”, orientamos as
pessoas que entram pelo edifício “novo “ e pretendem dirigir-se a diferentes consultas.
As pessoas dirigem-se ao funcionário e, se o local da consulta é de acesso complicado ou se o doente tem dificuldades
de qualquer ordem (idade avançada, vem de uma zona rural distante, é analfabeto
ou quase, etc), nós ajudamo-lo a chegar ao local.
A certa altura o funcionário dirige-se a
mim e pergunta: A senhora fala inglês?
Creio já ter referido aqui que tenho bastante facilidade em
falar e entender as línguas latinas mas não se passa o mesmo relativamente à
língua inglesa, que vou lendo, mas tenho dificuldade em falar e mais ainda em
entender.
Tratava-se de um senhor escocês. Disse-lhe
da minha dificuldade e pedi-lhe que falasse devagar para eu tentar entendê-lo.
O senhor assim fez e conversámos muito bem durante o percurso que tivemos que
fazer para chegarmos ao local onde a esposa, inglesa, se tinha dirigido para uma
consulta.
Perguntei se eram turistas e fiquei a saber
que vivem há 6 anos em Portugal,
nomeadamente em Amarante e que adoram viver cá. Mas o mais interessante é que o
pai, com 92 anos, vive também em Amarante no mesmo prédio porque, quando veio
visitá-los pela primeira vez, gostou tanto de Portugal que adquiriu um apartamento
junto do filho.
Quando nos despedimos comentou:
Disse
que não sabe falar inglês mas eu gostaria de saber falar português tão bem como
a senhora fala inglês.
Em
terra de cegos quem tem um olho é rei,
diz o ditado. Mesmo assim, foi bom para o meu ego.
Regressando ao mar....
Deixo duas obras musicais sobre o mar, o 2º andamento de La mer de Debussy e O Mar de
Dorival Caymmi que tantas vezes ouvi cantar a minha mãe
Deixo também a obra Ondas de Turner, talvez o pintor que mais pintou o mar
Si hay un sentido constante en las acuarelas de Turner (y también en su pintura al óleo) creo que es el ofrecer a la mirada cielo y mar, arriba y abajo, enlazados en una unidad cósmica. Por ejemplo, mediante el arcoiris, tendido como un gran puente simbólico. O con una serie de pinceladas, de gestos que borran violentamente la línea del horizonte: una ola encrespada que sube hasta el cielo o, a la inversa, una nube que descarga una lluvia furiosa. A veces la unidad total se consigue, paradójicamente, con una perfecta estabilidad, mostrando cielo y mar como dos aspectos paralelos de la misma sustancia, como dos mitades iguales del espacio vacío.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Por terras do Marão
Na passada sexta feira estive em Vila Real num dos Agrupamentos de Escolas do
1º ciclo. a fim de “explorar”
o livro Ciência para meninos em poemas pequeninos, agora em 3ª edição,
desta vez com a chancela Porto Editora(PE).
Às
8, 40, com a pontualidade que lhe é habitual,
estava à minha porta um colaborador da PE. Lá fomos. Aguardava-nos um
dia frio mas o Sol fez-nos companhia e o
vento deve ter adormecido....
À nossa espera estavam dois professores
também colaboradores da PE ( neste
momento não dão aulas) e que eu já conhecia de sessões anteriores.
Não sei ao certo com quantas crianças
estive, sei apenas que eram do 3º e do 4º ano.
Estavam programadas 4 sessões ao longo do dia
mas, ao chegar, informaram-me que iam ser apenas duas, de manhã.
Logo na primeira sessão, o auditório, muito
pequeno, encheu-se por completo e ainda deveriam entrar mais crianças. Gerou-se
uma certa confusão, saíram umas turmas, entraram outras pelo que a sessão não
começou à hora prevista.. Eu teria apenas 30 min para estar com aquelas crianças.
Fiz o melhor que pude, li à pressa alguns
poemas (com tempo, teriam sido os alunos a ler) e reduzi o número de
experiências. Mas não houve tempo para conversar com os miúdos.
Logo a seguir entrou outro grupo idêntico, em
número, e novamente a confusão de lugares.
Uma professora, não sei se a própria bibliotecária, sugeriu
então que duas turmas passassem para uma outra sessão, à tarde. Uma das turmas
já tinha sido “desalojada “na sessão anterior mas o professor acedeu a mais uma mudança; na outra
turma, havia atividades já programadas para a tarde, mas a professora acabou
por ceder.
Mais uma vez houve um atraso no início da sessão,
mas pude dispor de um pouco mais de tempo pelo que os alunos já puderam
intervir.
Fomos almoçar (os três colaboradores da PE
e eu). Quando saía, alguns alunos da 1ª sessão vieram ter comigo, com um ar um
pouco desconsolado: Nem tivemos tempo de falar consigo...
À tarde tudo correu muito melhor. Apenas
duas turmas.
Houve tempo para experiências, para
intervenções dos alunos (alguns muito vivos e empenhados). No fim dois alunos
foram ler poemas. Um leu o poema Poesia e o outro leu o Inventor
Este último poema foi lido pelo João, um
menino muito empenhado, sempre com o dedito no ar para poder intervir. Começou
por esclarecer que, embora parecido com o seu homónimo no poema, ele não é
trapalhão.
E assim passei mais um dia muito agradável
na companhia das crianças.
Quando cheguei ao Porto senti muito frio. O
vento soprava de Norte....
E por associação de ideias, veio-me à memória a canção My bonnie, que por vezes cantávamos nas aulas de Inglês, nos meus tempos de Liceu. Na canção o vento sopra do Oceano...
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
POR QUE NÃO UM SUDOKU?
É este o título da mensagem que segue, colocada por Carlos Fiolhais in De Rerum Natura
Já tínhamos saudades de Vasco Pulido
Valente. Nesta crónica no Público de hoje arrasa a incompetente prova que pretende
avaliar os candidatos a professores. No
fundo trata-se de uma prova de charadas e o IAVE, cuja competência não dá para
mais, bem poderia pôr um sudoku ou palavras cruzadas, que o resultado seria
semelhante. O resultado deste tremendo erro político de insistir numa prova
absurda é o desprestígio, na opinião pública, não só dos professores como dos
exames, que deveriam servir para seleccionar os melhores e melhorar o sistema e
assim só servem
para polémicas inúteis.
A crónica de VPV pode ser lida aqui
Aconselho também a leitura do artigo Português dos redactores da PACC não cumpre os requisitos mínimos
in http://www.mdb.pt/content/crato
in http://correntes.blogs.sapo.pt/2013/11/
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Mestre Resende na Fundação Cupertino de Miranda
Começo esta mensagem com um excerto de um texto de Jorge Fiel, publicado em 2007, a propósito de uma exposição de Mestre Resende na Alfândega
do Porto
Ouça
um bom conselho. Faça a si próprio o favor de se deixar mergulhar na formidável
explosão de cores intensas que experimentará ao visitar a exposição
comemorativa dos 90 anos de mestre Júlio Resende...
Faço minhas as palavras de Jorge Fiel a propósito da exposição “Sinais do Modernismo no Porto- anos 50 " patente na Fundação Cupertino de Miranda.
Com outras cores, mas nem por isso menos
formidável.... O meu marido tinha ido à inauguração mas eu não
pude ir pois fiquei com a minha neta mais nova que estava com gripe.
Gosto muito da obra de Mestre Resende que
tenho visto quer em exposições permanentes no Lugar do Desenho e na galeria Baganha, quer em exposições
temporárias em vários locais, nomeadamente na Alfândega do Porto.
Para João Fernandes, director do Museu de
Arte Contemporânea de Serralves, não há dúvidas que a obra de Júlio Resende “é
um dos capítulos mais importantes da história da arte portuguesa do século XX”.
Deixo fotos dos duas obras de que mais
gostei( gostei de todas, em geral) bem como de um trabalho feito só com linhas.
Todas elas foram retiradas do catálogo que
contém um texto belíssimo da filha,
Marta Resende
Como referi na mensagem anterior, na Fundação estava (ou devia estar por dois dias...) uma outra exposição"Reciclar é Arte". Parece que foram entregues pouquíssimos trabalhos.
De qualquer modo deixo uma foto do meu (no cavalete) , feito a partir de pedaços de persiana estragada e tendo por moldura rolos de cartão, e dos que estavam ao lado

E já que comecei a mensagem com um "bom conselho" termino com " Bom Conselho " de Chico Buarque
Quando procurava no youtube, encontrei no Ciber Dúvidas" uma análise" do poema que achei interessante.
De qualquer modo deixo uma foto do meu (no cavalete) , feito a partir de pedaços de persiana estragada e tendo por moldura rolos de cartão, e dos que estavam ao lado
E já que comecei a mensagem com um "bom conselho" termino com " Bom Conselho " de Chico Buarque
Quando procurava no youtube, encontrei no Ciber Dúvidas" uma análise" do poema que achei interessante.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Senilidade precoce?
Um terço dos professores chumbou na prova
de avaliação é o título de uma notícia que pode ser lida aqui
Mas que avaliação?
Nada melhor para responder que um texto de
António Mouzinho, publicado em De Rerum Natura. Não resisto a transcrevê-lo na
íntegra porque é de uma enorme lucidez
Como defendo que os professores devem ser
um escol, a flor das nossas instituições de ensino e das profissões —
acrescentada do gosto e do talento para lidar com alunos com esta ou aquela
idade —, fico particularmente impressionado com os testes psicotécnicos a que
agora são obrigatoriamente submetidos para entrar (ou permanecer) nas malhas do
ensino.
Aqui há uns anos (antes do Decreto
Regulamentar respetivo, o 26 de 2012) pediram-me que avaliasse um conjunto de
colegas, com uma condição: não metia o pé nas suas aulas. Há dois tipos de
avaliação do exercício docente: presencial e não presencial. A minha era do
segundo tipo.
Inteirei-me da forma como a coisa era
feita: havia uns formulários a preencher, com (e atente-se ao vocabulário)
«Dimensões», subdivididas em «Domínios», com «Descrição/Avaliação da Actividade
Realizada» (a atividade ainda tinha um «c») e, para rematar, «Evidências».
As Dimensões eram, afinal, (1)«Vertentes»:
vertente profissional, social e ética, (2)«Desenvolvimentos» (parte I):
desenvolvimento do ensino e da aprendizagem, (3)«Participações»: participação
na escola e relação com a comunidade educativa, e (4)«Desenvolvimentos» (parte
II): desenvolvimento e formação profissional ao longo da vida.
A primeira dimensão (só um bocadinho mais
de paciência, caro Leitor, que já começo o fogo de artifício propriamente dito)
refletia-se em três domínios: (1)«Compromisso com a construção e o uso do
conhecimento profissional», (2)«Compromisso com a promoção da aprendizagem e do
desenvolvimento pessoal e cívico dos alunos», e (3)«Compromisso com o grupo de
pares e com a escola».
A segunda dimensão (estamos quase…) incidia
em mais quatro domínios: (1)«Preparação e organização das actividades lectivas»
(os dois últimos «c» podem ser utilizados pelo Leitor numa ocasião de carência,
se assim o entender), (2)«Realização das actividades lectivas«, (3) «Relação
pedagógica com os alunos» e (4)«Processo de avaliação das aprendizagens dos
alunos». Os pontos 2 e 3 eram, por razões óbvias, excluídos da minha atuação
como avaliador sem presença na sala de aula.
A terceira dimensão (está a
escaldar!…) versava os três domínios
seguintes: (1)«Contributo para a realização dos objetivos do Projecto Educativo
e dos Planos Anual e Plurianual de Actividades», (2) «Participação nas
estruturas de coordenação educativa e supervisão pedagógica e nos órgãos de
administração e gestão» e (3)«Dinamização de projetos de investigação,
desenvolvimento e inovação educativa e sua correspondente avaliação».
A quarta dimensão tinha de ser… o tempo!:
«Formação contínua e desenvolvimento profissional».
Como é que eu lidava com isto tudo? Ora
bem: Cada um dos domínios era esclarecido por indicadores e descritores (de que
vou dar um exemplo mais adiante), premiado com uma quantificação e — coisa
importante — fundamentado por uma evidência (mais uma vez a linguagem). A
«evidência» é o fenómeno com existência física comprovada: não basta afirmar
«vi uma senhora com doces olhos que se dirigiu a mim num clarão de luz e me
interpelou dizendo "António, são 5 horas e 58 minutos, menos uma hora nos
Açores, e presta atenção ao que te vou confidenciar"». É necessário captar
a senhora em vídeo e passar pela secretaria da escola para dar veracidade à
gravação. O professor afirma que em novembro fez uma ação de formação no
Instituto Superior Técnico tendo saído de lá com um doutoramento numa área da
engenharia de materiais? Sim senhor, mostre lá o canudo. Fez uma visita de
estudo com os alunos de Sociologia à Disneyland de Paris? Ok: exiba os bilhetes
e os bonés do rato Mickey.
Vamos, então, aos descritores; pego logo no
segundo, e adiantemos serviço: trata-se do «Desenvolvimento do ensino e da
aprendizagem». São listados indicadores: «Correcção científica, pedagógica e
didáctica da planificação das actividades lectivas», «Planificação do ensino de
acordo com as finalidades, as aprendizagens previstas no currículo, a
rentabilização dos meios e recursos disponíveis e a articulação curricular». Os
descritores e os níveis de desempenho respetivos são estes:
(1)«Planifica as actividades lectivas com
correcção científica, pedagógica e didáctica, demonstrando uma articulação
lógica e coerente dos diferentes domínio curriculares — Excelente»;
(2)«Intermédio — Muito Bom»;
(3)«Planifica as actividades com correcção
científica, pedagógica e didáctica —
Bom»;
(4)«Intermédio — Regular»;
(5)«Demonstra graves inconsistências na
planificação, sem articulação evidente dos diferentes domínios» — Insuficiente.
Topam?
Vá lá; mais um para o caminho, que está
frio: desta vez sobre o «Processo de avaliação das aprendizagens dos alunos».
Os indicadores: «Desenvolvimento de actividades de avaliação das aprendizagens,
para efeitos de diagnóstico, regulação do processo de ensino e avaliação e
certificação de resultados», «Promoção de processos de auto-regulação nos
alunos que lhes permitam apreciar e melhorar os seus desempenhos». E,
novamente, os descritores e níveis:
(1)«Mobiliza diversas modalidades de
avaliação (diagnóstica, formativa, sumativa, auto-avaliação) com regularidade,
adequação e rigor, construindo e aplicando instrumentos de avaliação
diversificados e representativos dos critérios de avaliação definidos em
departamento curricular e aprovados em Conselho Pedagógico — Excelente»;
(2)«Intermédio — Muito Bom»;
(3)«Mobiliza diversas modalidades de
avaliação (diagnóstica, formativa, sumativa, auto-avaliação) com regularidade,
adequação e rigor, construindo e aplicando instrumentos de avaliação
representativos dos critérios de avaliação definidos em departamento curricular
e aprovados em Conselho Pedagógico — Bom»;
(4)«Intermédio — Regular»;
(5)«Mobiliza com incorreções graves as
modalidades de avaliação» — Insuficiente».
Pescam?
Vamos, então, à pirotecnia: o resultado de
todo este processo é que o professor avaliado nunca poderia ter nota superior a
Bom. Porquê? Porque não existia avaliação presencial.
Assim sendo, o que poderia acontecer? Que
qualquer indivíduo inteligente poderia recolher, de entre o programa aprovado e
meia dúzia de sugestões dadas pelos próprios livros adotados — com a respetiva
ganga de orientações para a planificações de aulas, execução de testes e
fichas, e receituários variados —, a estrutura do seu relatório final; esta
seria facilmente verificável pelos sumários e avaliações sortidas feitas aos
alunos. Claro, também estaria alinhado com os critérios de avaliação da escola.
Imaginemos, agora, que este professor produzia turmas com resultados medianos
que, em exame, se iam abaixo com «os nervos» (surgem como nos bifes: quando são
examinados). Somente o relatório, fechado antes dos exames, nada tinha a ver
com eles. O Bom seria o máximo: 7,9 em 10.
Ao lado, um colega mais descuidado gizaria,
à última hora, um relatório feito à pressa, com uma ou outra falha na descrição
da atividade, com ausência desta ou daquela evidência ou, simplesmente, lapsos
de memória. Baseando-se na sua boa intuição ou na experiência de anos
anteriores, produzia a sua planificação de aulas por grandes blocos soltos, sem
registos minuciosos. Seja, no entanto — por hipótese —, que produzia turmas com
resultados igualmente medianos mas que, em exame, superavam a classificação
interna da frequência, fazendo aquilo que se designa por «brilharete». O Bom
seria inferior, porque o relatório, que foi entregue antes dos exames, estava
bem redigido, mas apresentava deficiências: digamos, 7 em 10.
Vamos admitir que o professor avaliador fez
o seu trabalho com correção, de acordo com as boas práticas, definidas pelo
ministério, que a escola lhe transmitiu. Em agosto, adormecia, prazenteiro,
numa espreguiçadeira algarvia, beirã, ou transmontana (só a espreguiçadeira é
de rigueur), aliviado por se ver livre de critérios e tabelas que, muito
simplesmente, estava longe de poder verificar: era-lhe vedada a entrada numa
sala de aula dos colegas avaliados; nunca os viu ensinar e avaliou-os a partir
de paleio de sanzala; enfim, perdão: baseando-se em relatórios de atividade.
O professor medíocre e cuidadoso safou-se
com 7,9; o professor excelente mas menos atento à papelada ficou pelos 7. O
palerma é o segundo, que não se precaveu e fez um relatório assim-assim. Ora o
relatório é que era avaliado (ó palerma!). A comunidade respira fundo: tudo
está bem.
Agora, a confidência, a fechar a estória:
resolvi o problema cumprindo a lei, mas atribuindo, de acordo com os visados, a
mesma nota aos avaliados que cumpriram o guião — e foram todos. Sei, por portas
e travessas, que eram diferentes como professores, mas não sou abelhudo ao
ponto de ter arranjado maneira de urdir um inquérito paralelo para fazer a
folhinha a eventuais patifes, levando os outros à glória. Nada disso
transparecia proporcionalmente, de qualquer forma, nos relatórios entregues.
Era aquela a bambochata que o ministério
encomendara, e teve.
Não serviu para nada.
O Bom, de qualquer forma, foi passado por
inerência do cargo a milhares de professores antes disso; limitei-me a produzir
mais uns quantos. Não voltei a ser solicitado — se calhar — porque as notas
todas iguais irritaram alguém.
A novidade, agora, é os psicotécnicos!
Nunca uma alma, em ministério de que eu me
lembre, cuidou de estabelecer uma estrutura de ações de formação rotineiras,
para grupos inteiros das escolas, sobre didáticas das disciplinas ensinadas.
Não se tornava necessário para quem, em tempos, emergia de um estágio
pedagógico tradicional (isso era feito, longamente, lá dentro), mas é
absolutamente necessário hoje, se o professor saiu de uma dessas trapalhadas
que por aí há a «formar» professores (acreditadas por sucessivos ministros).
Não é feito, mas é feita uma espécie de
testezinhos psicotécnicos como expediente para verificar capacidades
perfeitamente elementares, lógicas e de expressão na língua materna. Como dizia
Carlos Fiolhais nestas páginas, «para excluir os supostamente piores».
Ora o ensino público nacional tem
considerável qualidade, apesar das deficiências todas que se lhe aponta (ao
sistema, à formação e seleção de professores, às condições materiais de
funcionamento, à gestão do curriculum e dos programas, e por aí fora). Essa
qualidade é-lhe emprestada, unicamente, por um corpo docente empenhado que
continua a sustentar tão bem como pode, com dedicação aos alunos, com brio
profissional, e com uma paciência notável, toda a casta de asneiras que
sucessivos ministérios põem de pé.
Retire-se-lhe uma resma de papéis idiotas
da frente substituindo-a por uma boa ação de formação sobre as matérias que
ensina diariamente, e logo se verá o professor a bendizer o tempo empregue, em
vez de maldizer a vida e a burocracia. Mas é mais fácil fazer testezinhos
manhosos do que didática.
O presente ministério, na sua prática
corrente, desvaloriza algumas das boas medidas tomadas com um comportamento
geral de espertice saloia: sim, vai apanhar os professores impertinentes num
ardil de testezinhos manhosos; sim, vai promover uma cultura da «utilidade»,
reforçando os conteúdos que, «realmente», servem para alguma coisa; sim, vai
desfazer-se dos projetos de investigação que gastam dinheirinho público sem
gerar retorno aparente imediato (castigando e premiando os projetos de
investigação «como um mestre-escola do antigamente», no dizer de José Vítor
Malheiros, citado no De Rerum Natura); sim, vai regular-se por uma enérgica
política de avaliação de resultados, transferindo para instituições de ensino critérios
do mundo empresarial. Sim, vai pôr Baião a falar Inglês, porque Baião, assim,
fica melhor. Diz quem? Diz quem sabe. Holy Cross of the Douro - Bayou terá a
sua EQ Foundation, claro (correspondendo i-quiu a um escritor inglês do século
19 chamado, por extenso, Eça de Queirós: escreveu King Solomon's Mines). No
restaurante, o arroz de favas é divino (divine)!
O ministério da educação (assim, com letra
minúscula) consegue ser sempre igual a si mesmo, por mais que mudem os
ministros, porque estes, de conluio com aquele, entendem que devem legislar com
mão alvar pondo-se, de seguida, à espreita, em vez de fazerem o seu trabalho —
resolvendo.
Os
professores precisam de boa formação, não de chicanes.
Se o
ministério se sujeitasse aos seus próprios critérios de avaliação de figurino
empresarial, estaria despedido em dois dias.
Ah:
e com justa causa! António Mouzinho
Recomendo , do mesmo autor, o texto
publicado aqui em 2011 cujos comentários merecem ser lidos. Transcrevo um deles
Para cúmulo do teatro a que vamos
assistindo, repare que no palco da 5 de Outubro, os actores Professores/as
estão a representar os papeis de homens e mulheres a dias nas escolas
Contratam-se por um mês, ou no que der na
real gana aos donos das lojas (lojas=escolas).
Depois das indignidades lançadas contra o
professorado, a matéria não tem fim.
O que apetece repetir como César, quando se
apercebeu que um dos assassinos era o seu filho Brutus, e adaptá-lo na boca dos
professores: "Tu quoque, Crate, fili mi?" (Até tu, Crato, meu filho?)
De assassinato em assassinato vamos indo.
Com um abraço de muita mágoa.
Outro não é possível.
O problema
vem de há muito como os textos referidos evidenciam. Já em 2008, Desidério Murcho
referia:
"Há quem pense que a avaliação de
professores imposta pelo Ministério da Educação visa melhorar o ensino, mas
isto é falso. Pior: nem é por essa razão que os responsáveis ministeriais
querem avaliar os professores. Pois se o fosse, a maneira mais óbvia de os
avaliar, com menos custos e menos complicações processuais, seria através do
tratamento estatístico dos resultados dos alunos em exames nacionais,
cientificamente rigorosos e pedagogicamente lúcidos."
Ainda a propósito da atual prova, diz
Carlos Fiolhais:
(...)Defendo que devemos escolher os
melhores professores, mas para isso essa prova é mal feita. De resto, é inútil.
Mal feita porque não passa de um teste
psicotécnico, sem nada a ver com a profissão docente. Inútil porque não serve
para escolher os melhores docentes, mas sim para excluir os supostamente
piores. Apenas afasta meia dúzia de candidatos a professores, num tempo em que
há poucos lugares. Quanto a escolher os melhores, o MEC já mostrou que não o
sabe fazer.
A prova tem outros danos: instalou na
sociedade a ideia de que os professores
são, em geral, incompetentes. Ora não são, são na sua grande maioria
profissionais não só capazes como dedicadíssimos. A insistência na prova
serviu, portanto, para colocar a
profissão contra os actuais ocupantes da 5 de Outubro, que estão a perturbar o
clima escolar e a afastar a atenção dos verdadeiros problemas da educação.
O ministro Nuno Crato colocou-se contra os
professores que o levaram, em ombros, a ministro. Quanto à direcção do IAVE,
antigo GAVE - Gabinete de Avaliação Educativa, que devia ser um organismo
técnico para realizar exames e não político, ela não é independente do Ministério nem do ministro.
É grave!
Num artigo que escrevi em 2011, refiro
(...) É preciso que o que se avalia tenha realmente
a ver com a qualidade de ensino e aprendizagem, não virtuais como as que nos
tentam impingir, mas reais.
E a real qualidade de ensino- aprendizagem
será tanto melhor quanto menor o tempo que os professores tiverem que dedicar a
preencher papéis e a assistir a reuniões, ambos obsoletos na maior parte dos
casos.”
Hoje, ao ouvir Nuno Crato falar da prova, fazendo
uma analogia com o exame para tirar a carta de condução, fiquei “estarrecida”...
Senilidade precoce?
Sr. Ministro, para tirar a carta de condução é preciso prestar uma prova, não num simulador, mas conduzindo realmente por várias trajetos escolhidos pelo examinador, enfrentando os verdadeiros problemas que um condutor enfrenta no seu dia a dia
Por essa lógica o Sr. Ministro devia ser o maior defensor de uma avaliação dos professores que teria que que passar pela prática da docência, necessariamente em sala de aula. Aí estaria totalmente de acordo consigo...
Deixo-vos com um texto, que podem ler aqui e
que vai no mesmo sentido daquilo que acabo de exprimir
Confesso que fiquei embaraçado com a
prestação. o Senhor passou nitidamente por momento mau, patético, que deixou em
baixo. Talvez cansaço, uma reacção à onda de frio, uma tentativa de fazer
humor, não sei. Mas que não correu bem, não correu.
Lembrou-se Nuno Crato de comparar a PACC
com o exame de condução. Disse o Senhor Ministro na RTP que um exame de
condução também não avalia tudo pelo que a PACC também não pode avaliar tudo.
Genial.
Existe um pormenor irrelevante, nos exames
de condução, certamente porque estão fora da alçada do MEC, os candidatos a
condutores têm que obrigatoriamente, adivinhem ... isso, conduzir. E realizam
também o exame teórico sobre o famoso "Código".
Mas na visão iluminada de Nuno Crato e do
IAVE é adequado avaliar as capacidades e conhecimentos para se ser professor
sem observar o seu trabalho em sala de aula. Serve uma prova de que avalie,
dizem "competências lógicas". Está, logicamente, certo.
A comparação de Nuno Crato entristeceu-me
mais do que me sentir discordar ou indignado. Acho um insulto à inteligência
comum fazer esta comparação, nós não somos parvos Senhor Ministro. Não vale a
pena produzir mais comentários, é a náusea.
Cartoon selecionado aqui
Mais um cartoon 
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Reciclar é uma Arte
Em Outubro tomei conhecimento do concurso Reciclar é uma Arte.
Quando frequentei a escola UTOPIA , o Professor Domingos Loureiro,um dia lançou-nos o desafio de fazer um trabalho com material supostamente sem valor. Pessoalmente resolvi usar uns pedaços de uma persiana, que tinha sido substituída numa das janelas de minha casa. Foi esse o trabalho que apresentei para o concurso.
Passado algum tempo recebi este mail:
Caro participante,
Agradecemos, mais uma vez, a
inscrição efetuada no concurso “Reciclar é uma Arte”, e aproveitamos para
informar que existe a possibilidade do seu trabalho ser exposto durante a
realização do Encontro
Internacional da Ciência para a Reciclagem (http://imsr2015.wix.com/ercr#!inicio/cuus),
organizado pelo ERCR (European Research Centre for Recycling) que se irá
realizar de 22 a 23 de janeiro de 2015, na Fundação Cupertino Miranda.
Caso esteja interessado em
participar nesta exposição extra
concurso, deverá informar a organização até 30 de Dezembro de 2014
e o trabalho terá que ser entregue até 15 de janeiro de 2015.
A Comissão Organizadora.
Assim, nos próximos dia 22 e 23, o meu trabalho, figurará, entre muitos, na Fundação Cupertino de Miranda. Aqui fica o convite.
Pessoalmente, estou curiosa quanto aos trabalhos apresentados.
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