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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 15 de abril de 2012

Ecletismo cultural - casas subterâneas


Há casas
cuja beleza começa no projecto;
outras, e são talvez as mais belas,
existem só na cabeça do arquitecto.
.

Há casas feitas à medida do homem,
outras há para andar de bicicleta;
há casas sobre cascatas
onde ao sortilégio da água
se junta a música de Bach.
.

Há casas tão ajustadas
como fato por medida
ou um verso de Cesário,
outras de tão confusas
não viram régua nem esquadro.
.

Há casas de papel, casas de madeira,
casas de palha e de barro;
casas que trepam pelo céu,
casas que cheiram a jasmim do Cabo;
há casas só para dormir
parecidas com um sudário.
.

Há casas onde
habitar é o começar da morte;
há casas de pátios caiados
com varandas para o mar;
casas onde apetece estar sentado
com um gato nos joelhos
e o coração apaziguado.
.

Há casas com recantos para amar,
há outras onde o amor
se faz em cinco minutos
e às vezes já é demais;
há casas como um dedal
e geometria de abelhas,
casas de perfil atento
ao rumor das nascentes e das estrelas.
.

Há casas como um cristal,
casas de luz circular,
casas onde não é possível
ouvir correr o silêncio; há casas
que de casas só têm o nome;
há casas que nem para cães.
.

Há casas tão inteligentes
que não consentem qualquer margem
para luxos e arrebiques,
casas onde a alegria se instala
sem tempo nenhum para a mágoa.
.

Há casas onde o pão é triste
e a roupa mal lavada;
há casas que são um rio, há casas
que são um barco;
outras têm pomares
onde os diospiros ardem;
há casas com terras de vinha e trigo
e muros a toda roda.
.

Há casas que são um poema
para dar a um amigo.
.
Eugénio de Andrade

Este poema que foca Relações de casas boas e más para juízo dos arquitectos Carlos Loureiro e Pádua Ramos, pode ser encontrado no catálogo da exposição   40 Anos de Arquitectura 1950/1990: Um Gabinete do Porto: J. Carlos Loureiro, L. Pádua Ramos, J. Manuel Loureiro. Porto, Cooperativa Árvore, 1992.

Na sequência do belíssimo poema de Eugénio de Andrade apetece-me acrescentar:

Há arquiteturas escavadas,
casas no solo enterradas
onde apetece morar...


São assim as  Vivendas de Matmâta um dos locais onde terão sido feitas filmagens para “Guerra das estrelas”.

A arquitetura subterrânea é uma  arquitetura solar  que aproveita os recursos naturais para a construção: A inércia térmica do solo permite obter um grande conforto térmico (o contributo da física sempre presente…). Este tipo de construção no passado era essencialmente auto-construção Para além da Tunísia, existem outros países com arquitectura subterrânea, como por exemplo Espanha, especialmente na Andaluzia e nas Canárias, França e China

Esta arquitectura inspirou uma arquitetura subterrânea contemporânea   de que a imagem anexa é um exemplo


E conforme a sugestão do poema terminemos com música de Bach

1 comentário:

  1. E há as casas em que os blocos de granito deixados pelos glaciares são aproveitados como parede. Já vi várias dessas casa com a
    UPP.
    E também há os que não têm casa.

    Um beijo, Regina.

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