Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Breves...

Já foi há mais de uma semana.

No dia 19, na galeria Vieira Portuense, foi inaugurada uma exposição da artista galega Cármen Santaya
A par deste evento, e como é habitual no terceiro sábado de cada mês ,a poesia esteve presente pela voz de Constança Nery, Lurdes dos Anjos, Jorge Vieira, Eduardo Roseira, entre outros.

Um primeiro momento foi dedicado a Chico Buarque . Foi lida poesia do "cantautor", Carlos Andrade tocou e cantou algumas das canções mais emblemáticas e Eduardo Roseira representou excertos de “O leite derramado” livro a que já uma vez aqui me referi e que acho fantástico.

Podem ver aqui a actuação de Eduardo Roseira .

E já que se tratou de Chico Buarque , deixo três vídeos do autor  em canções relacionadas com o Carnaval

http://www.youtube.com/watch?v=zu2B2z9XRxQ&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=NJPOSsy5MNo&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=a62maWloQHQ&feature=related

Após o momento dedicado a Chico Buarque, seguiram-se dois outros  dedicados à poesia de vários autores. Só assisti ao primeiro pois a sessão alongou-se muito.
Mas valeu a pena.



Hoje, 27 , acabo de chegar do meu Nordeste florido

Como não podia deixar de ser, fui à Galeria do Centro Cultural José Rodrigues (Alfândega da Fé). Estava uma exposição de lenços de namorados
Deixo-vos com fotos da exposição e de amendoeiras em flor. São da autoria de Fernando Gouveia.




 Este é um lenço maior; lenço de casamento





Flores de amendoeira



As flores de amendoeira, antes da Primavera,


cobrem a ladeira como um branco véu


ou como vestes de anjo que se esfumou no céu.


Impressa no código genético a química magia


da ebúrnea cor que recende a nostalgia
Regina Gouveia in Magnetismo terrestre




quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

De novo pelas escolas...

Na segunda feira no Colégio Universal com meninos do pré primário, ontem com os meninos do básico e do 6ºano, em Arouca. Em todas as escolas sou genericamente muito bem recebida mas há algumas que se têm destacado pela forma calorosa com que me envolvem professores e alunos. È o que acontece quando me desloco a Arouca.
Os meninos da EB1 presentearam-me com um “livro” de poesias feitas e ilustradas por eles.

Gostaria de as colocar todas, mas são trinta e uma… Sob os mais variados temas, algumas referem-se a livros que leram, entre eles os meus. Mas há três que me são especialmente dedicadas. Selecciono uma ao acaso.


Para além desta prenda do grupo, algumas das crianças resolveram oferecer-me individualmente desenhos e textos. Deixo aqui dois mas gostaria de realçar que todos os textos e ilustrações, são de uma imensa ternura.



No fim todos quiseram despedir-se de mim com um beijinho.

O melhor do mundo são as crianças…

As professoras tiraram fotos que ficaram de me enviar. Colocá-las-ei no blogue.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Ciência ao alcance de todos. Retomando as viagens...

Tendo os Planetas de Holst  como música de fundo inicia-se uma viagem aos tempos de Galileu e Newton. A leitura do poema para Galileu serviu de “mote” para uma abordagem simples de alguns conceitos fundamentais da mecânica clássica. Foram ainda passados vários vídeos

http://www.cienciamao.if.usp.br/tudo/exibir.php?midia=von&cod=_marteloepenanalua

http://www.youtube.com/watch?v=sr3PPuKLEK4&feature=related


http://www.youtube.com/watch?v=4ZIYMmJ2ewE&feature=related

Poema para Galileu


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,


aquele teu retrato que toda a gente conhece,


em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce


sobre um modesto cabeção de pano.


Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.


(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.


Disse Galeria dos Ofícios).


Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.


Lembras-te? A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...


Eu sei... Eu sei...


As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.


Ai que saudade, Galileu Galilei!


Olha. Sabes? Lá em Florença


está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.


Palavra de honra que está! As voltas que o mundo dá!


Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário.


Eu queria agradecer-te, Galileu,


a inteligência das coisas que me deste.


Eu, e quantos milhões de homens como eu


a quem tu esclareceste,


ia jurar - que disparate, Galileu!


- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça


sem a menor hesitação -


que os corpos caem tanto mais depressa


quanto mais pesados são. Pois não é evidente, Galileu?


Quem acredita


que um penedo caia com a mesma rapidez


que um botão de camisa ou que um seixo da praia?


Esta era a inteligência que Deus nos deu.


Estava agora a lembrar-me, Galileu,


daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo


e tinhas à tua frente um guiso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo a olharem-te severamente.


Estavam todos a ralhar contigo,


que parecia impossível que um homem da tua idade e da tua condição, se estivesse tornando um perigo


para a Humanidade e para a civilização.


Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios, e percorrias, cheio de piedade, os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.


Teus olhos habituados à observação dos satélites


e das estrelas, desceram lá das suas alturas


e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las , nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.


E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual conforme suas eminências desejavam,


e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal


e que os astros bailavam e entoavam


à meia-noite louvores à harmonia universal.


E juraste que nunca mais repetirias


nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma, aquelas abomináveis heresias que ensinavas e escrevias


para eterna perdição da tua alma. Ai, Galileu!


Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo, que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,


andavam a correr e a rolar pelos espaços


à razão de trinta quilómetros por segundo.


Tu é que sabias, Galileu Galilei.


Por isso eram teus olhos misericordiosos,


por isso era teu coração cheio de piedade,


piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos a quem Deus dispensou de buscar a verdade.


Por isso, estoicamente, mansamente,


resististe a todas as torturas,


a todas as angústias, a todos os contratempos,


enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,


foram caindo, caindo, caindo, caindo, caindo sempre,e sempre, ininterruptamente,na razão directa dos quadrados dos tempos.

Gedeão, A. Poema para Galileu

Galileo diante do Santo Oficio, pintura do século XIX, por Joseph-Nicolas Robert-Fleury.


A primeira paragem levou-nos ao mundo da luz e, necessariamente, à teoria corpuscular de Newton e à teoria ondulatória, de Huyghens a Young.

Como fundo musical, Somewhere over the rainbow

Experiências simples sobre dispersão, difracção e interferência ajudaram a perceber a polémica gerada à volta das duas teorias .

A poesia esteve mais uma vez presente


Desde o Big-Bang corre pelo espaço


sem aparentar o mínimo cansaço.


Não tem concorrente na corrida.


pelo que, de antemão, é a vencedora da partida.


Durante a já longa viagem,


foi criando vários laços na passagem


ao tornar iridescente o belo diamante


quando nele se reflecte e se refracta,


ao cobrir o mar de um manto cor de prata,


ao ruborizar o céu


à hora de alva e ao sol poente,


ao emprestar à lua um manto de luar,


ao tornar multicolor o céu e o mar,


ao brincar com a chuva, como se fora criança,


traçando no céu o arco da aliança,


ao espargir de cor a mãe natureza


que a ama com fervor, e a olha com enleio.


Misteriosa luz, lasciva, bela .


Através dos vidros da janela, vejo, projectada no passeio,


a indelével sombra dum longínquo amor.

Gouveia R, Sombra


Física


Colho esta luz solar à minha volta,


No meu prisma a disperso e recomponho:


Rumor de sete cores, silêncio branco.


Como flechas disparadas do seu arco,


do violeta ao vermelho percorremos


O inteiro espaço que aberto no suspiro


Se remata convulso em grito rouco.


Depois todo o rumor se reconverte


tornam as cores ao prisma que define


À luz solar de ti e ao silêncio.

José Saramago, in Poemas possíveis

A propósito do arco-íris foram citados Keats e Dawkins

Keats, poeta inglês do século XIX, indignado com o facto de haver explicação natural para um fenómeno tão belo e envolto em misticismo, acusou Newton de destruir a "poesia do arco-íris".

Richard Dawkins, cientista da Universidade de Oxford e grande divulgador científico, no seu livro Decompondo o Arco-Íris refere:

O sentimento de respeitoso deslumbramento que a ciência nos pode oferecer é uma das experiências mais notáveis da mente humana. É uma profunda paixão estética que tem o seu lugar entre o melhor que a música e a poesia podem proporcionar


A Natureza é tanto mais bela quanto melhor for compreendida....

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Ciência ao alcance de todos

Ciência ao alcance de todos é a Oficina de Ciência que estou na orientar no Vivacidade-espaço criativo.



Com sons da sinfonia do novo mundo de Dvorak por fundo musical, os participantes começaram com uma viagem panorâmica pelo “mundo à nossa escala e fora dela” . Foram do macrocosmos ao microcosmos e a propósito do infinitamente pequeno falou-se de nanotecnologia que o prémio Nobel Richard Feynman previu já nos anos 50

"Os princípios da física, pelo que eu posso perceber, não falam contra a possibilidade de manipular as coisas átomo por átomo. Não seria uma violação da lei ; é algo que, teoricamente, pode ser feito mas que, na prática, nunca foi levado a cabo porque somos grandes de mais" – Richard Feynman

A propósito da nanotecnologia foram passados dois vídeos

Para além dos três vídeos anteriormente referidos, foram realizadas algumas experiências simples e  lidos alguns trechos poéticos

Lá longe, longe, muito mais longe do que o longe que longe quer dizer,
numa distância mais dura que a pedra dura do pensamento
durante a longidão da pedra, que dura, resiste, como a luz, na velocidade,
a ser menos que a luz movente, matéria e energia,
luz distante, pedra longínqua, luz de pedra, pedra de luz.
Lá, pois, longiluz, pedra luzente, quando a estrela solar,
o Sol que aquece e a vida renova em nosso planeta,
daqui a bilhões, bilhões, bilhões, bilhões e bilhões de anos,
estiver chegando, envelhecida, enfim, ao final de si própria
para transformar-se, cumprindo seu destino cósmico, numa anã branca,
lá nesse ponto de fuga, nessa dobradura do espaço-tempo,
de nada valerá a memória de nossas perdas
e das quedas sucessivas do homem em busca da afirmação,
pelo conhecimento, de sua própria humanidade.
Ninguém já saberá de erros, de culpas, de arrependimentos
e os mitos de criação, cumprindo seus presságios,
terão percorrido, na série infinita de gerações,
a saga de suas narrativas que os homens contam, sendo contados,
como a chuva molha e aquece e o solo seca e o Sol esfria.
Quem mandou Galileu também chamar-se Galilei
e repetir-se, assim, quase fechado, no nome arredondado,
como a observação que lhe confirmou a suspeita
de que o repouso era movimento e de que a Terra,
como outros corpos semelhantes, andava em círculos,
circulando o Sol, pelos espaços?
Como não ouvir estrelas se elas, mensageiras do universo,
estiveram, sempre, desde que eles se deram conta,
falando com os homens, traçando-lhes caminhos,
indicando-lhes rotas, desenhando-lhes futuros, revelando-lhes passados,
silentes como a eloquência do silêncio nas pausas da peroração?
Deu no que deu! Nicolau Copérnico, Giordano Bruno, Hans Lippershey,
René Descartes, Isaac Newton, Albert Einstein, John Wheeler,
todos, outros mais e nós também, olhando juntos,
de “perspicillium”para Galileu Galilei.
É o destino – a destinação, melhor talvez fosse dizer –,
que permite enxergar, na longa distância cósmica, o
 futuro dos astros e estrelas que daqui já vemos, ou que não vemos, e admiramos:
anã branca, como se tornará o Sol, supernova, buraco negro,
buraco negro supermaciço, sem paradoxo de conceito, só o do dizer, com defeito.
Paradoxo mesmo é o da teoria, a da relatividade geral, que,
de tanto prever tudo o que cabia e o que não cabia,
acabou prevendo o buraco negro, ponto único, alef dos contos siderais,
que em si concentra uma densidade infinita
e no qual as leis da física não têm validade,
nem mesmo as que o previram e explicam
sem, contudo, serem de sua existência e funcionamento explicação.
Freud, cuja morte tem 70 anos,
ao lado dos 150 da publicação de A origem das espécies, de Darwin,
e dos 400 anos das observações telescópicas das estrelas por Galileu,
havia anotado que o homem veio,
ao longo de sua história e de sua vida mítica,
sofrendo quedas traumáticas para a imagem narcísica de sua reputação senhorial.
Cai do paraíso, deixa o centro do universo,
cai do galho da divindade e segue a escala da evolução,
é ejectado do centro da história e, enfim,
do abrigo da consciência para as complicações do inconsciente,
como tijolos de sua solidão.
Tudo isso também se junta num único ponto como uma estrela que colapsa,
como uma singularidade de espaço-tempo,
como um buraco negro, como o que já era previsto pelo que sabíamos,
como o que sabemos o que tem sido a vida,
que expande e resume nosso movimento
para dar sentido ao que não compreendemos
e velar de mistérios nossa compreensão.

Carlos Vogt, Viagem ao Sol

(... )Se ao teu cérebro frio fosse dado pensar,
pensarias no Sol, no Sol que te aqueceu quando andavas no mundo,
nesse dragão magnífico que nos atrai
e obriga a andar em seu redor sem repouso possível.
Presos sem grades somos e assim presos
vogamos pelo espaço à mercê de um braseiro,
roendo as unhas limpas, sem ferrugem.
Ontem eras tu frio; hoje são outros; amanhã outros, outros;
e assim pelo tempo fora até que, também ele, o tal dragão magnífico,
o indispensável centro do carrossel celeste em que penamos,
como tu, como eu, como um qualquer de nós, acabará em frio.
O que aquece, arrefece. O inexorável tempo
que é cego, surdo e mudo pulverizá-lo-á
num formidável estrondo sem ruído.
Entretanto, enquanto isso não vem (nem é comigo)
enfio as mãos nos bolsos e aconchego-as

António Gedeão in Poema das mãos frias

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio em suma. O resto é a matéria.
Daí que este arrepio
Este chamá-lo e tê- lo, erguê-lo e defrontá- lo,
Esta fresta de nada aberta no vazio, deve ser um intervalo.

Gedeão.A, Máquina do Mundo
Tempo


Para os físicos, o tempo é uma grandeza,
não por ser grande, com toda a certeza.
É grandeza porque é mensurável
e é esta ideia que eu acho contestável.
Usando raciocínios, em geral profundos,
os físicos, a contratempo,
em horas, minutos e segundos, tentam dividir o tempo.
E ainda usam múltiplos, outras vezes submúltiplos,
como nano, pico, fento.
Ora há minutos que duram como vidas
e há vidas que nem segundos duram,
como há imagens que ficam esquecidas
enquanto outras para sempre perduram.
O tempo do calendário e da agenda
é simplesmente um tempo por encomenda.
Que saudades eu tenho do tempo de criança,
tempo da ilusão, do sonho, da esperança, tempo de quimera,
em que o tempo não era tempo,
porque o tempo, simplesmente não era.
Mas voa o meu pensamento para as crianças da rua,
que embaladas pelo vento, tendo a velá-las a lua,
dormem no chão ao relento, enquanto passa, alheio, o tempo.

Gouveia, R in Reflexões e Interferências


A esta viagem já se seguiram outras e mais se seguirão. Delas, a seu tempo,
iremos dando conta,

Termino com a obra Nostalgia do Infinito de Giorgio de Chirico

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Cumplicidades

A minha neta mais velha tem oito anos. Temos, desde há muito, uma relação cheia de cumplicidades. Quando em 2006 foi lançado o meu livro “Era uma vez ciência e poesia no reino da fantasia”, após uma apresentação em Outubro, no Clube Literário do Porto, chegou a casa muito triste e disse-me. Eu também queria ser escritora mas não sei escrever. Expliquei-lhe que havia escritores que não sabiam escrever mas o importante era ter as ideias. Sugeri então que me transmitisse essas ideias e poderia eu passá-las ao papel, sob a forma de pequenas rimas.

Ficou entusiasmadíssima . Combinei com ela o seguinte: vamos nós fazer um livrinho com as histórias que tu me contares e que ilustrarás com desenhos. O título será “A minha neta contou-me”. Podemos oferecer esses livrinhos no Natal, mas era importante que guardasses segredo, para ser surpresa. E para meu espanto, manteve o silêncio até ao Natal. Nem à mãe disse nada.

Capa e um dos textos com as respectivas ilustrações


Poderia relatar muitas mais situações que evidenciam essas cumplicidades. Relato apenas a última. Sábado, dia 12 pediu-me:

Ajuda-me a preparar um jantar surpresa para amanhã oferecer aos meus pais. É que dia 14 é o dia dos namorados, mas nesse dia tenho trabalhos para fazer e não posso preparar nada.

Escrevemos uma ementa alusiva ao dia e fizemos alguns improvisos.

Com um pacote de leite construímos uma forma em forma de coração que serviu para moldar o arroz, pusemos uma mesa com velas, etc, etc. Ela estava feliz e os pais ficaram muito sensibilizados com a surpresa.

As crianças são fantásticas…

E a propósito do dia dos namorados, vou colocar um texto que escrevi para o dia, por sugestão da minha editora

Um belo dia uma raia

resolveu ir passear,

e assim foi a flutuar,

lá desde as águas profundas

onde costuma habitar

quase até à beira mar

onde sabe que há perigos

sempre prontos a atacar.

Foi quando viu um peixinho,

lindo, lindo de encantar,

pendurado duma cana

que viera para o pescar.

Nadou então velozmente

para o fio ir cortar

Ao peixinho, já cansado

de se tentar libertar

quando a viu aproximar

pareceu-lhe ver um anjo

com as asas a adejar.

Liberto daquela cana

que o tentara pescar

tirou-lhe a raia o anzol,

que ainda estava a magoar,

cobriu-o com a barbatana

como se fora um lençol.

Levou-o então mar afora

para a sua casa no fundo

e o peixinho descansou,

dormiu um sono profundo.

Sonhou com o Nemo e a Dora.

A raia que o velava

começou a perceber

que já estava enamorada

Foi então que ele acordou

e ao ver o seu anjo ao lado

ficou logo enfeitiçado.

Foram nadar enlaçados

conhecer o mar inteiro.

Foi quando viram no mar

uma placa a anunciar:

14 de Fevereiro,

o dia dos namorados.


Regina Gouveia, inédito

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Complementaridades

Ontem, no espaço criativo Vivacidade,  assisti  à palestra complementaridade das Artes, proferida pela Prof. Drª. Isabel Ponce de Leão

Foi uma “viagem” muito interessante numa abordagem integrada de literatura, arte e sociedade, em que a conferencista foi destacando aspectos históricos, sociais, políticos, culturais e as várias mudanças paradigmáticas ao longo dos tempos. Para mim, apenas um senão. Em momento algum foi feita referência à cultura científica e à sua relação com as artes. Na fase de intervenções da assistência exprimi este meu sentir provavelmente decorrente da minha formação científica, que falou mais alto.
Antes da palestra, na aula de pintura também falámos de complementaridade a propósito das cores. E tudo começou a propósito de um quadro de Turner. Do que conhecia de Turner, não era grande apreciadora da sua pintura. Mas ao investigar um pouco mais, deparei com obras lindíssimas como aquela que aqui deixo



Mas voltemos à conversa, no decorrer da qual se falou em cores primárias. Aí, mais uma vez a minha formação científica falou mais alto. Cores primárias aditivas ou subtractivas?

Genericamente as pessoas consideram que da junção de azul com amarelo resulta verde. e  de  vermelho com verde, um acastanhado. E isso é verdade se se tratar de pigmentos. Mas se sobrepusermos um luz azul com uma luz amarela, obteremos luz branca e se sobrepusermos luz vermelha com verde obteremos luz amarela como podemos ver aqui
O azul, o verde e o vermelho são cores primárias aditivas, que adicionadas duas a duas, dão as cores primárias subtractivas



A síntese aditiva ocorre quando projectamos sobre uma superfície luzes de cores diferentes. Aqui as cores adicionam-se. Na imagem da esquerda podemos ver que da adição de verde com  vermelho resulta amarelo,de vermelho com azul, magenta  e de  azul com verde, ciano.
Na TV usa-se esta a síntese aditiva daí a designaão RGB- vermelho (R), verde (G) e azul (B).  

Quando se coloca um corante ou pigmento sobre uma superfície branca este  "subtrai" cor à luz incidente! Vê-se a parte da luz que não foi subtraída.
As cores primárias subtractivas ciano ( C) , magenta (M) , amarelo (Y), também designadas por aditivas secundárias,  constituem o sistema CMY usado, por exemplo, nos tinteiros das impressoras

Na imagem da esquerda  podemos ver que da adição de azul com  amarelo  resulta efectivamente verde
Sugiro a aleitura deste artigo e deste

E de novo as complementaridades, agora outras...
Na ciência das cores, duas cores são chamadas complementares se, quando misturadas, produzem o branco(cores aditivas), ou o negro (cores subtractivas) .

Voltemos agora o quadro de Turner antecipando o impressionismo

O modo como Turner trata a água, o céu e a atmosfera, afasta-se de todo o realismo natural e transforma-se no reflexo anímico da situação. As pinceladas soltas e difusas dão forma a um torvelinho de nuvens e ondas, a uma desesperança interior que se transmite à natureza, uma das características básicas do romantismo.Também foi de grande relevância para sua pintura a viagem que fez a Veneza em 1812, quando o pintor descobriu a importância da cor e conseguiu dar corpo à atmosfera de uma maneira que, anos depois, os impressionistas retomariam.

Termino com a importância da luz para os impressionistas  e um quadro de Monet

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Da invisibilidade à nanoarte

Rumo ao mundo invisível é o título de um artigo publicado já em 2008 do qual deixo um excerto mas  que podem ver aqui

A invisibilidade está deixando o campo da ficção científica e se encontra cada vez mais perto do alcance de nossas mãos depois da descoberta de materiais tridimensionais capazes de desviar a luz visível(...) Os cientistas que realizaram os experimentos com nano-objetos (a milionésima parte de um milímetro) acreditam que podem aplicar o mesmo princípio para tornar uma pessoa, um tanque ou até um petroleiro completamente invisíveis.
Os novos materiais ("metamateriais") devem desviar a luz ao redor do objecto, de modo a envolvê-lo, e, em seguida, recuperar sua forma original, assim como uma corrente de água recupera sua forma após passar por um obstáculo. O observador já não vê a perturbação na luz e, desta forma, o objecto desaparece. Embora uma das aplicações mais imediatas destes “metamateriais” possa ser a construção de lentes especiais para enxergar até um vírus ou uma molécula de DNA, o mais interessante para a imaginação tem a ver com a concretização da previsão da invisibilidade descrita por autores como H.G. Wells ("O homem invisível") e J.K. Rowling (Harry Potter) e muito utilizada em telesséries de ficção científicas como “Jornada nas Estrelas” (Star Trek).

O tema surge agora de novo em Ciência Hoje
Dispositivo desenvolvido em Birmingham ocultou pequenos objectos


Tornar alfinetes ou clipes invisíveis ao olho humano já é possível graças a uma invenção de Zhang Shuang, da Universidade de Birmingham (Inglaterra), que desenvolveu um dispositivo capaz de ocultar objectos dentro do espectro de luz visível.
Nesta investigação, descrita na revista científica “Nature Communications”, os cientistas criaram um aparelho composto por dois cristais de calcite, um mineral que possibilita a polarização da luz, sendo capaz de criar um “manto da invisibilidade”.
Quando um raio de luz incide na calcite, decompõe-se em dois feixes polarizados em direcções perpendiculares e com velocidades diferentes. Os investigadores colocaram dois prismas deste mineral unidos em forma piramidal na parte superior e recorreram a ouro para fortalecer a reflexão. Daí resultou o “desaparecimento” dos elementos colocados entre os cristais.
A investigação nesta área de estudo tem vindo a dar largos passos desde 2006, quando um grupo de cientistas liderado por John Pendry descreveu a técnica de “óptica de transformação”, que consegue controlar a luz e outras ondas electromagnéticas.
(…)Tendo em conta o sucesso alcançado com este dispositivo, futuramente os investigadores esperam conseguir esconder objectos maiores, como artigos militares. Outra das aplicações desta investigação poderia reflectir-se na indústria cosmética, visto que as calcites, segundo Zhang Shuang, podem ocultar pequenas manchas e imperfeições da pele.

Se esta última aplicação me pode criar a esperança de tornar invisíveis as minhas muitas rugas, a outra assusta-me…
Já em 2006 um artigo publicado também em ciência hoje alertava para aspectos éticos.

Recordo aqui parte do texto

Dois estudos independentes apresentaram na revista Science uma teoria pioneira sobre como tornar objectos invisíveis, delineando um plano para fabricar “capas de invisibilidade” que serão capazes de esconder objectos ou pessoas de forma a não serem detectadas.
As capas deverão ser manufacturadas a partir de metamateriais, compósitos artificialmente estruturados que têm vindo a ser desenvolvidos nos últimos cinco anos. Os metamateriais podem ser fabricados de forma a possuírem uma vasta gama de propriedades ópticas que permitem manipular luz e outras ondas electromagnéticas..
Engenheiros na Universidade de Duke procuram agora fazer dos metamateriais uma realidade. Espera-se que as primeiras amostras possam ser testadas na frequência de ondas rádio, mas serão contudo capas sólidas e pesadas, com pouco uso prático. Também é difícil prever ainda o quão perfeita será a invisibilidade obtida através destes materiais. Até agora existem fortes limitações relacionadas com o facto dos metamateriais serem ainda fortes absorventes de radiação, o que os leva a reflectir luz e assim serem detectados.
Outro aspecto limitador prende-se com o facto da teoria funcionar idealmente para uma dada frequência e ter um rendimento deteriorado para outras frequências. De momento, os cientistas estão ainda duvidosos de que alguma vez se possam fabricar capas que sejam eficientes para todo o espectro da radiação visível.
Os autores colocaram também água na fervura em relação à especulação mediática em torno da possibilidade de se poderem fabricar capas do estilo Harry Potter nos próximos cinco ou dez anos. “A ideia de podemos encobrir uma pessoa ou um objecto completamente permanece ainda firmemente no campo da ficção cientifica”, disse Smith ao CH. Contudo, os cientistas deixam antever que outro tipo de aplicações militares, de telecomunicações e médicas da tecnologia serão possíveis no futuro.
A teoria da invisibilidade também já atraiu a preocupação das associações de nanoética para os perigos advindos em termos de privacidade e segurança. “ Os problemas relacionados com ética, segurança e privacidade envolvidos neste assunto só são limitados pela nossa imaginação. Os problemas de visão e também de maleabilidade destas capas são perfeitamente passíveis de serem resolvidos a qualquer altura”, avisou Patrick Lin, director do Nanoethics Group. “Podemos imaginar alguém a usar uma capa para algo tão mesquinho como roubar um banco ou um casino, ou então algo muito mais sério como entrar na Casa Branca. Podemos também conceber que versões mais leves destas capas possam esconder veículos móveis (tecnologia furtiva para carros por exemplo) que levem contrabando, pessoas ou armas”.

Em todo o processo a polarização da luz desempenha um papel importante. Poderão ver,  de seguida,  um pequeno vídeo sobre polarização da luz
A experiência ilustrada no vídeo pode ser feita, com igual sucesso, usando lentes de óculos (polaróide, claro)

E já que temos vindo a falar de um mundo à escala nanométrica, passemos à nanoarte

Aproximar a ciência das pessoas por meio da arte. Esse é o intuito do grupo de pesquisadores do Liec (Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica) da UFScar que lançarão em breve aquele que é considerado o primeiro livro sobre a nanoarte. A nanoarte é feita a partir de imagens tiradas por microscópios eletrônicos de transmissão por varredura coloridas digitalmente pelos nanoartistas, que são pesquisadores e cientistas. “Nanoarte: a arte de fazer arte” será intitulada essa obra pioneira. Ela conterá cerca de 250 imagens dispostas em 85 páginas. As imagens foram coloridas pelos pesquisadores do CMDMC (Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos). Esse grupo de 450 pesquisadores procura imagens que se assemelhem a elementos do cotidiano a fim de que haja esse aproximação entre a plateia e o cientista. O organizador do projeto, Edson Longo, coordenador do Liec declarou à Revista da Cultura que sua meta é tornar um tema considerado “antipático” como a química em algo interessante.
A nanoarte é um campo recentemente explorado. Foi o  romeno Cris Orfescu, o grande precursor dessa área.
Deixo-vos com uma imagem de partículas de poeira



Poderão encontrar várias na Galeria de Arte Nanotecnologia aqui

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Do reino de Oz ao arco-íris...

Hoje, ao ouvir mais uma vez uma obra de que gosto muito, a Sinfonia Fantástica de Berlioz, lembrei-me de um poema, Reino de Oz, que faz parte de um projecto que gostaria de editar , Poemas no espaço-tempo.
Pessoalmente acho que este projecto, a concretizar-se, seria o meu melhor livro de poesia, mas sou suspeita….Mas se a poesia eventualmente não merece ser publicada( por princípio não “alinho” em edições de autor) valeria pelo prefácio, da autoria de Carlos Vaz, escritor que muito admiro
Aqui deixo o poema, o prefácio do projecto do livro, um excerto da Sinfonia Fantástica e outro de o Feiticeiro de Oz (somewhere over the rainbow)

Reino de Oz



Era a luz do luar que a noite adoçava,


uma luz argêntea que o espaço varria,


era a fantasia dos sons de Berlioz


numa sinfonia que no ar pairava,


era o rodopiar de inúmeras memórias


em redor de quiméricas histórias,


perdidas algures na bruma do tempo,


era o pensamento com asas de vento


partindo em busca do reino de Oz
Regina Gouveia


PREFÁCIO

Telescópio Vocabular
O estudo da poesia como um instrumento de observação


Encontrei, pela primeira vez, os versos de Regina Gouveia no espaço de uma livraria movimentada do Porto. Procuro habitualmente nestes lugares de despejo e, ao mesmo tempo, de encontro, onde os livros se situam perfilados na ordem dos dias, pequenas tabuinhas de carbono com que me dou à leitura. Na arqueologia de autores, aconteceu o primeiro movimento de legente por páginas folheadas um pouco ao calha, “como quem joga aos dados”, numa obra intitulada Magnetismo Terrestre . Desde então, tornei-me um apreciador das palavras de Regina.
Vejo o legente como um mineiro que nas paredes e prateleiras de uma livraria procura uma pedra valiosíssima para observar primorosamente. Na actividade mineira dessa tarde, achei-me, pela primeira vez, num encontro de afecto com a poesia da autora. Mas, se há livros que de facto são obras ímpares pela sua beleza e forma de entrega ao leitor, o que terá realmente feito dessa obra uma pedra única? A haver uma resposta, ela é incerta como a escrita, mas talvez seja pelo facto de ter observado, nos seus textos, um caminho que me é caro, a correcta linhagem da literatura com a ciência.
Uma autora da minha afeição, Agustina Bessa-Luís , evidenciou recentemente que o correcto caminho que a literatura terá de tomar, para não desaparecer nem cair no desgaste temático, é procurar juntar-se à ciência, principalmente quando se refere à “ciência do caos”, uma vez que o próprio caminho literário é, por vários motivos, a fomentação do caos, o espaço absoluto que toma parte do universo .
É já um facto certo que, na literatura portuguesa, vários foram os autores que aproximaram a sua oficina literária à ciência. Sobre o assunto já muito se tem dito e os estudos andam por aí. Por isso, o que realmente importa é sobretudo verificar não tanto o que Regina faz de igual, mas antes quais as novas “experiências pensadas”, trazidas pela autora para o novo caminho da “ciência poética”, na literatura contemporânea portuguesa. Antes de mais, é certo que a Regina é uma autora singular, cujo exemplo marca a literatura que continua a resistir à união clara da escrita com a ciência. Ao ler as suas obras verifiquei que, ao contrário dos outros autores de “experiências pensadas”, a autora não procura ficcionar, educar, ou exorcizar o conhecimento científico através da literatura, mas antes dar-lhe a paradoxal correcta incerteza das palavras, através do seu conhecimento da poesia criadora da ciência.
Na obscuridade que envolve todo o começo da oficina literária, poucos são os textos que procuram, com clareza, evidenciar o verdadeiro significado para que foi construído. Na obra “Poemas no Espaço e no Tempo”, que agora se segue, o legente não se inscreve na ambiguidade da compreensão, por sua vez, a sua afeição essencial como leitor é conduzida pelos versos, numa espécie de contrato de leitura previamente poetizado. O apelo do texto vem do espaço absoluto literário, engendrado por um “tempo elíptico” que em cada verso se estende na locomoção da memória para o infinito. E assim tudo começa, de forma clara e precisa, com a verdadeira origem da criação e da escrita. Nos poemas que se seguem ao vórtice, esmiúça-se o verso até à combustão inicial das palavras, para aí “exorcizar todas as dores do mundo”. A partir do novelo poético, a reminiscência do poema, tal como o do cosmos, faz-se no desenrolar de uma linha circular que se alonga, dando um rosto e corpo ao tempo, que já é aqui a própria linha dos versos que se enchem de memórias. Mas voltemos ao princípio: antes do “efeito”, a “causa”, o nanossegundo da criação, e a poesia funciona assim, como uma espécie de telescópio na procura das origens anteriores às palavras agora gastas (curiosa ligação com Eugénio de Andrade evidenciada ao longo destes poemas), aí nesse lugar da criação primordial da língua as palavras são outras, carregadas de pureza, cheias de coisas por serem ditas: No início eram palavras/ perfumadas que nem rosas/ Com o tempo foram perdendo o perfume,/ ficaram desbotadas, /a planta estiolou. De facto, a poesia é usada por Regina como um instrumento de observação para perscrutar as origens vocabulares do cosmos, onde as verdadeiras palavras vivem livres, no silêncio branco e denso, antes da memória que delineia o tempo em permanente interferência e difracção. Ora, segundo o “Princípio da Incerteza”, sendo a observação portadora de dúvida, gerada de indivíduo para indivíduo, por mais que a autora procure este princípio criador e original da palavra, o mesmo confunde-se sempre no jogo incerto da memória temporal, onde o sinal persiste distorcido/ por entre a realidade e a ficção.
A procura do mutismo criador é, em toda a obra, um princípio de locomoção do próprio poema. Temos, desta forma, o silêncio colorido de uma recordação, o da difracção, e o silêncio negro, o do absoluto. Curioso é ainda o constante avanço do tempo através da anamnese, quer diluindo quer sedimentando-a. A experiência corruptora do vestígio cria a erosão das palavras, carregadas de sinais amontoados ao longo do tempo, pintando-as com a luz que dá a cor ao poema, enquanto que nas origens das galáxias vocabulares, apenas coexistia a pureza do nada absoluto, a matéria negra que poema procura encontrar.
Curioso ainda é que, para suportar a fugacidade do tempo, resta apenas a apreensão do espaço. Assim, a arte funciona como uma espécie de mentira da humanidade face ao tempo, por que ela é a apreensão de um espaço, um recorte temporal, fora do seu próprio instante. Ora, pela arte viaja-se, não no tempo, mas no espaço, e deste modo se transfiguram os lugares oníricos do Homem: para as bailarinas de Degas o momento angular/ e a sua conversão só fazem sentido pela fixação perene à tela. Pelo contrário, ao bailado que toma o espaço de Degas, opõe-se o bailado do cosmos que se move, em rodopio, pelos salões do tempo. As palavras são, assim, filhas do tempo e do espaço, evoluindo algumas como “cristais” outras “punhais”.
Os vocábulos chegam-nos desde o nanossegundo da criação, que a memória vai corrompendo através das dicotómicas formas de coexistir, assim, as antíteses entram no próprio bailado gerado pelas incertezas: a diversidade/unidade; retracção/refracção; implícita/explícita, trato/retrato, desdobrar/comprimir, encolher/estender, e no uso inteligente das antíteses gera-se o movimento do poema, dando-lhe vida literária, na constante permuta de jogos incertos entre a experiência científica e a literária. Entre elas fica o observador que usa o poema como um instrumento de observação que permite desenvolver a capacidade dos olhos humanos para observar e analisar palavras longínquas.
No encontro do legente com os versos de Regina, a palavra ganha uma virtuosidade incomparável, em relação às restantes artes e até à própria incerteza da ciência. O poema não ensaia o espaço “virtual” da arte, mas é antes portadora da diacronia e da sincronia do instante. A palavra destes poemas vem de trás, do vernáculo das formas que existiam antes do próprio espaço, antes do cosmos se revelar em forma de expansão. Na procura dessa linguagem, do original rosto das palavras, na serenidade do cosmos irrompe a equação poética dos versos de Poemas no Espaço e Tempo: E eis que, sem mote, sem tema,/ veemente, impulsivo, irrompe o poema, poemas esses que surgem num lugar transfigurado, fora do tempo objectivo, aquilo que em ciência se pode chamar de “espaço aberto”.
Por fim, a singularidade da obra de Regina Gouveia reside essencialmente nesta agudeza com que a mesma procura apurar a visão do seu leitor, por isso, na obra que agora começa, a poesia será essencialmente um instrumento de observação, um telescópio, por onde o legente poderá observar as estrelas vocabulares, e é este o contributo e a singularidade da obra da autora na história da literatura portuguesa
Carlos Vaz

E dado que neste blogue também se fala de ciência, não podemos deixar de falar de Newton, um dos físicos mais famosos de todos os tempos, que viveu na Inglaterra de 1642 a 1727. Newton estudou a decomposição da luz através de um prisma e explicou o espectro de cores obtido, admitindo que a luz branca é uma mistura de diferentes cores que se separam quando a luz atravessa o prisma (ou as gotas de água quando ocorre o arco-íris) . Em 1820, Keats, um importante poeta inglês, indignado com o facto de haver explicação natural para um fenómeno tão belo e envolto em misticismo, acusou Newton de destruir a "poesia do arco-íris".
Mas a Natureza fica sempre mais bela quanto melhor compreendida.
Richard Dawkins, cientista da Universiddae de Oxford e grande divulgador científico, no seu livro Decompondo o Arco-Íris refere:
O sentimento de respeitoso deslumbramento que a ciência nos pode oferecer é uma das experiências mais notáveis da mente humana. É uma profunda paixão estética que tem o seu lugar entre o melhor que a música e a poesia podem proporcionar

E a propósito do arco-íris incluo aquio duas obras de Turner



Contrariando Keats, termino com  Álvaro Campos
O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Solidariedade

Já aqui falei do Sr. Álvaro, de sessenta anos, invisual desde os quatro.
Um homem cheio de vontade de viver, casado com uma senhora invisual de quem fala com muito carinho, o Sr. Álvaro está a aprender a lidar com os computadores. Mas, infelizmente, está com muitas dificuldades auditivas que o impedem de continuar a sua formação nessa área.

Conheci-o no Hospital de Santo António durante a minha manhã de voluntariado. Acompanhei-o quer na consulta, quer nos testes audiométricos que teve que fazer. Face aos exames, o médico concluiu que apenas com próteses se lhe poderia restituir alguma audição.

E aqui começou o maior problema. O Sr. Álvaro não tinha qualquer possibilidade económica de adquirir as próteses.


Já há anos que contribuo para algumas associações de solidariedade. Achei que era hora de lhes pedir algo. Contactei-as e, de imediato, a Futuro Viver se empenhou no sentido de ajudar a resolver o problema. Estão em curso várias diligências. Uma delas tem a ver com a exposição de pintura que tenho no espaço Vivacidade. Ofereço o valor de um quadro. Para isso basta que a pessoa interessada escolha o quadro (pode ver o folheto aqui) e faça o pagamento à Futuro Viver, indicando o destino a dar ao seu contributo – as próteses para o Sr. Álvaro

Ofereci também uma aguarela que vai ser “rifada”.

Creio que o valor de cada rifa é dois  euros e quem estiver interessado deverá contactar a Futuro Viver através da Drª Cristina Pereira.

Solidariedade

Na nova visão do universo


não há espaço e tempo separados,


espaço e tempo estão inter-ligados


como se fossem apenas uma dimensão.


Assim com o tempo e o amor,


ambos ganhariam mais sentido.


Mais amor ao tempo


e mais tempo ao amor


Cada um sairia enriquecido


desta nova dimensão tempo-amor


Regina Gouveia, não publicado