Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Vivacidade ...

O Vivacidade – Espaço Criativo é uma entidade cultural que já aqui referi por diversas vezes.
Promove várias formas do conhecimento, proporcionando uma Vida mais Activa a todos os que pretendem aproveitar os seus tempos livres de uma forma criativa e em contacto com o mundo e com os outros. 
 
Aqui deixo a agenda de eventos para Junho.

Deixo também o convite para a exposição, a inaugurar no próximo dia 6 e que incluirá  dois trabalhos meus.


terça-feira, 28 de maio de 2013

Ironias do destino...


Na década de 90, não posso precisar já o ano, eu e mais  duas colegas fomos convidadas pela Porto Editora para constituir uma equipa de elaboração de um livro de problemas de Física e Química para o 10 º ano (não o conceito habitual de problema como exercício, mas um conceito de cariz construtivista). Estavam em perspetiva novos programas para o ensino Secundário que, no caso da Física e da Química, estavam a ser elaborados por uma equipa da qual faziam parte  Luís Silva e Jorge Valadares.

O nosso trabalho foi sendo construído na base do projeto de programa que estava em discussão.

Muito contestado, o programa acabou por “cair” e o nosso trabalho, de meses, foi por água abaixo sem que tivéssemos tido qualquer compensação a não ser o prazer que nos deu.

Durante esses meses tivemos vários contactos com a Dra Rosália Teixeira que sempre nos tratou de modo afável.

Entretanto eu trabalhava  já num projeto de divulgação da ciência para um público infantojuvenil, através de texto poético.

Apresentei-o à Dra Rosália que me encaminhou para a Dra. Maria João Aires Pereira,
ao tempo colaboradora da editora.
A recetividade não poderia ter sido melhor. De entre os vários projetos começámos por selecionar um que seria o inicial e o meu filho mais novo fez as respetivas ilustrações. Só que o projeto nunca mais avançava. Agora porque era altura de editar os manuais escolares, depois por isto, depois por aquilo. E assim passaram, pasme-se, dois anos, findos os quais recebi uma carta da editora dizendo que não estava vocacionada para o tipo de projeto que eu propunha.

Tentei contactar a Dra. Maria João Aires Pereira e a Dra Rosália. Relativamente à primeira fui informada de que já não trabalhava na editora e quanto à Dra Rosália  tentei duas vezes, mas estava indisponível.

Fiquei muito chocada com este procedimento mas como não sou pessoa de cruzar os braços fui apresentar o projeto à Campo das Letras. Mostraram-se um pouco reticentes dado que se tratava de um livro de uma autora totalmente desconhecida. Mas arriscaram e fiquei-lhes sempre grata por isso. Em maio de 2006 foi publicado, pela Campo das Letras, o meu primeiro livro para público infantojuvenil Era uma vez...ciência e poesia no reino da fantasia.

Passado algum tempo telefonaram-me a comunicar que o livro tinha sido incluído no PNL. Eu nem queria acreditar...Em  2008 foi publicada uma 2ª edição mas, infelizmente, a Campo das Letras viria a entrar num processo de insolvência.

Arranjei uma nova editora, Gatafunho, com a qual editei Ciência para meninos em poemas pequeninos (1ª edição 2009, 2ª edição 2010)  e Pelo sistema solar vamos todos viajar(2010). O primeiro foi também incluído no PNL e foi alvo de uma recensão pelo IEC, U.Minho  

O 2º consta de uma lista de livros aconselhados pelo Centro de Ciência Júnior , lista que contém os “12 melhores livros de divulgação científica para público infantojuvenil” como pode ler-se aqui e aqui.

A minha relação com a editora era (aparentemente) ótima. Sabendo que passava por alguma dificuldades criei-lhe, graciosamente,  um blog que ainda hoje mantém.

Mas, ironia do destino,  também esta editora não se portou como “pessoa de bem” .Por incrível que pareça, continua sem me pagar direitos de autor. Mas pior que isso, foi ter faltado a um compromisso que assumira. No âmbito das celebrações do Ano Internacional da Química foi-me pedido um texto para uma peça de teatro. Escrevi Breve História da Química cuja edição foi patrocinada pela Sociedade Portuguesa de Química(SPQ). A primeira apresentação da peça teve lugar no Rivoli, em 20 de junho de 2011, sob o título O Grande musical da Química. Da minha parte havia para com a SPQ o compromisso de que na data da estreia o livro estaria nas bancas, compromisso esse que assumi dado que a Gatafunho me garantiu até à última hora que o livro estaria pronto para esse dia. Nem para esse, nem  para qualquer outro. E na sequência desta atitude deixou de atender o telefone e de me responder a qualquer outra forma de contacto.

Tive que mudar de editora. A Breve História da Química foi editada pela 7dias6noites e saiu em Julho de 2011, cerca de um mês depois do espetáculo no Rivoli.

Também este livro foi alvo das mesmas apreciações que Pelo sistema solar vamos todos viajar.

A história já vai longa, mas ainda há mais ironias do destino ....

Regresso  a Era uma vez...ciência e poesia no reino da fantasia.
Dado o processo de insolvência da Campo das letras, a Gatafunho tinha-me abordado no sentido de reeditar o livro. Em face do que acima referi,  tal não sucedeu. 
A editora 7dias6noites dispôs-se a editá-lo o acaba de sair.




Os textos deste livro bem como os de Ciência para meninos em poemas pequeninos pertenciam todos ao conjunto de textos que a Porto Editora assumira editar, no início dos anos 2000...

Há dias uma amiga ligou-me dizendo que o livro de Língua Portuguesa da neta, que frequenta o 3º ano de escolaridade, continha dois poemas de  Ciência para meninos em poemas pequeninos.

Fiquei curiosa e qual não é o meu espanto ao ver que os poemas, Diversidade e Marconstam respectivamente   nas página 58 e 152 do livro Alfa, edição da Porto Editora,  que tão pouco respeito mostrou pelo meu trabalho. .
Mais uma ironia do destino...


Diversidade

Era uma escola muito colorida tão cheia de vida como nunca vi.

Aqui e ali meninos negrinhos que vieram de Angola

jogavam à bola com outros meninos também africanos, outros indianos,

outros europeus da Europa de Leste, do  Norte e do Sul, 

olhos de cor verde, castanha e azul.

Os cabelos eram dos mais variados: encaracolados,  claros e  escuros,  lisos,  esticados como aquele indiozinho tupi - guarani  e um coreano de seu nome Li,

que tinha uns olhinhos bem enviesados.

Havia um menino que era  timorense, outro guineense e imaginem só, 

até  existia um menino esquimó.

Um grupo  bailava e um outro cantava a uma voz só

um vira[1], um  tebe, um semba, uma morna, uma marrabenta e até um forró.

Era aquela  escola, como um arco-íris,  de múltiplas de cores.

Lembrava  um canteiro repleto de flores.

Mar

Já brincaste com a areia

e com as conchinhas do mar?

Já viste as ondas a ir,

para logo a seguir voltar?

Encosta um búzio ao ouvido

e fica atento a escutar.

Parece que se ouve o mar

a contar os seus segredos.

Diz que se sente doente,

que está muito poluído.

Hoje é um petroleiro,

amanhã é um cargueiro

que deita lixo para o mar.

E também há muita gente

que deita na praia lixo,

uma garrafa, uma lata,

uma pistola de esguicho,

uma embalagem qualquer.

Ora isso não pode ser

pois a poluição mata algas e peixinhos.

Mata até os passarinhos

que na areia vão pousar

ou água vão debicar

nas pocinhas

dos rochedos.


Fiquei satisfeita por ver os poemas  incluídos no livro mas confesso que preferia vê-los num livro de qualquer outra editora.




[1] ritmos tradicionais respectivamente de  Portugal, Timor,  Angola, Cabo Verde,  Moçambique,   Brasil



sexta-feira, 24 de maio de 2013

Breves...


Breves

1
Ontem fui ao S. João ver a peça de Nelson Rodrigues,  Toda a nudez será castigada, espetáculo misto de teatro e dança incluído em “O ano do Brasil no TNSJ”, que inclui 29 espetáculos distribuídos pelo TNSJ, o Teatro CA e o Mosteiro de SBV. Este festival iniciou-se em 17 de abril e termina em 10 de junho.
Achei interessante.

 
2
A Feira do Livro do  Porto não se realizará este ano, como sabem. Surgem algumas iniciativas para minorar “os danos”.

Aqui deixo a notícia de dois eventos

 
Os locais são proximos um do outro pois a Poetria situa-se na Rua das Oliveiras, 70 r/c, loja 12.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Algures a Nordeste


Algures a Nordeste é título de uma obra de António Pires Cabral, poeta do Nordeste Transmontano.
Tenho estado a preparar uma intervenção que vou fazer em Junho, precisamente “algures a nordeste”.   Decidi reler o livro(o que faço várias vezes). Partilho convosco um dos poemas de que mais gosto nesse livro.

 
OS CIGANOS

Dizem que vêm da Europa Central. Eu vejo-os vir
dos lados de Grijó em lassa caravana.

Debaixo da carroça trota a coelheira,
aproveitando a sombra débil e ambulante.
Sentado na boleia, as rédeas na mão morena
descuidadas, um homem cisma, confia
do caminho ao macho lento a decisão.
Outros homens a pé e mulheres novas
entretêm de riso a caminhada espessa.
Logo após, sobre os burros, os pertences.
Alguns velhos também, já cansados de tudo,
tiram partido do precário trote. As crianças
de peito sugam em sonolenta teima
as elásticas tetas sacudidas, mas alvas e redondas.


Os mais velhitos caminham repartidos
em pequenas e lúdicas manadas, dando
às hortas laterais breves saltos furtivos.
Toda esta gente é morena e tem fala cantada,
levanta para mim doces olhos castanhos.
Dizem que vêm
da Europa Central, de uma raça sem chão,
e aqui procura, de insultos rodeada,
cumprir a sua luta, seu degredo
e sua primitiva vocação.

Dizem que os ciganos desenterram animais defuntos
de alguma enfermidade menos limpa
e neles cravam dentes de fome milenária.
Dizem que as mulheres estão na intimidade
das estrelas e a troco de uns mil-réis
leem nas mãos destinos coloridos.

Dizem que roubam quintais e assaltam capoeiras,
e os aldeões, em pânico secreto,
os expulsam com voz impiedosa e decidida mão
das cercanias do seu chão governado.
Dizem que enganam os incautos campónios
em negócios sempre escuros de animais,
em que fazem passar por uma estampa
o mais escalavrado e cego dos cavalos.
Dizem que na vila, ao desfazer das feiras,
têm por costume, depois de embriagados,
trocar com as bengalas possantes e vistosas
pancadaria rija, de que morrem.
Dizem que vivem estranhos dramas passionais.
Dizem que não têm deus e que se casam
lançando ao ar jubilosos chapéus.

Dizem tudo isso dos ciganos. Eu não sei.
Vejo-os vir dos lados de Grijó
e estão todos de frente para mim
e parecem-me gente – nada mais.

A.M. Pires Cabral, in Algures a Nordeste

 
Ainda eu não conhecia este poema de Pires Cabral quando, num livro meu de ficção, Terras de Cieiro, que aguarda publicação há muito, incluí uma passagem em que falo de ciganos. Provavelmente os mesmos de que fala Pires Cabral, dada a proximidade entre a sua aldeia e a minha.

(...)Ciganos. Acampavam muitas vezes no Lameiro dos Linhos. Eles, os burros, os cavalos, os cães. Dizia-se que eram estranhos. Dizia-se ainda que ludibriavam nos negócios, que roubavam, que deitavam mau olhado... Daí que se amedrontassem as crianças sempre com o mesmo dito:

Se te portas mal vêm aí os ciganos e levam-te.

Mas eu acostumei-me de tal modo a vê-los por casa da avó Maria da Luz, que a sua presença nunca me causou temor, antes fascínio, fascínio esse que começava logo quando via o colorido das suas caravanas. Ainda hoje recordo os olhos negros expressivos nas caras enfarruscadas das crianças ciganas(...) 

Regina Gouveia in Terras de cieiro

 
E a propósito do tema, deixo um quadro de Modigliani, cigana com criança, um excerto da dança ritual do fogo ( in amor bruxo de Manuel de Falla) e, na voz de Joselito, o tango violino cigano que a minha mãe cantava divinamente

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O GOVERNO QUÂNTICO


O GOVERNO QUÂNTICO é o título de uma deliciosa crónica  de Carlos Fiolhais,in De Rerum Natura

Em 1935 o físico austríaco Erwin Schroedinger exibiu as dificuldades conceptuais da teoria quântica, então recente, criando um paradoxo que ficou conhecido por “gato de Schroedinger”. De que dificuldades se trata? Nessa teoria, que governa o comportamento do mundo microscópico, um estado de um sistema pode ser uma sobreposição ou mistura de dois estados possíveis, mas opostos. Contudo, quando se efectua uma observação, encontra-se, não o estado de mistura, mas sim um ou outro dos estados opostos. Só podemos a priori conhecer probabilidades de obter um estado ou outro. No exemplo de Schroedinger, o gato está fechado dentro de uma caixa e um dispositivo quântico pode matá-lo. Antes de abrirmos a caixa, o gato está numa sobreposição de vivo e morto. Mas, quando a abrimos, verificamos que o gato está vivo ou morto e não as duas coisas ao mesmo tempo. Schroedinger interrogou-se sobre esse mistério quântico: como pode um gato estar vivo e morto ao mesmo tempo?

O actual governo de Portugal é quântico, quer dizer, parece-se com o gato de Schroedinger. Se não observarmos está entre o vivo e o morto. Assim uma espécie de zombie.Quando o observamos está, por vezes, vivo e, noutras vezes, morto. Numas ocasiões está a seguir fielmente o que diz a troika - o governo está vivo – e noutras ocasiões protesta contra os “senhores da troika” – e está morto. Olhamos para Vítor Gaspar, ministro de Estado e das Finanças – e o governo está vivo; mas olhamos para Paulo Portas, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros – e o governo está morto. Portas esclareceu que uma coligação não é uma fusão. Pois não: é uma confusão.

Esta característica quântica do governo levanta uma questão semelhante à de Schroedinger em relação ao seu gato: como pode um governo estar vivo e morto ao mesmo tempo? Se aceitarmos a ideia de sobreposição de contrários, estará mais vivo do que morto ou mais morto do que vivo? Nos últimos tempos, está, sem dúvida, mais morto do que vivo. Luís Marques Guedes, ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, referiu-se por um lapso que é revelador, ao seu colega Paulo Portas como “líder do principal partido da oposição”. O governo tem a oposição dentro de si, enquanto a oposição cá fora, apesar de ruidosa, é inofensiva.

Lili Caneças afirmou um dia, numa frase que ficou célebre, que “estar vivo é o contrário de estar morto”. Ora isto é sabedoria clássica, ultrapassada pela sabedoria quântica. Não foram os portugueses que descobriram a teoria quântica, mas existem, na nossa língua, expressões quânticas como estar “mais morto do que vivo”, o que, de facto, significa, estar mais vivo do que morto, embora por pouco, isto é, às portas da morte. Também dizemos “mais para lá do que para cá” para descrever o mesmo tipo de situação. Temos, portanto, um lado quântico em nós que vai além do nosso lado Lili Caneças. Mesmo o fado cantado por Amália Rodrigues, “É ou não é”, que, a avaliar pelo título parece clássico, pois não há justaposição de opostos, é afinal quântico a avaliar pelo final do refrão, que contém uma reviravolta surpreendente: “Digam lá se é assim ou não é?/Ai, não, não é! / Digam lá se é assim ou não é?/ Ai, não, não é! Pois é!”

Pois é. A lógica quântica não é fácil de perceber. Como é que um governo pode diminuir as pensões aos reformados da função pública e, ao mesmo tempo, garantir o pagamento integral das mesmas pensões? O porta-voz do “maior partido da oposição”, João Almeida, tentou explicar a confusão. Mas tudo ficou ainda mais confuso: ele tem a "profunda convicção de que a medida nunca será aplicada", pois "o cenário de ela ser aplicada seria contrariar uma decisão do Conselho de Ministros". Acontece que a extraordinária medida de aumentar a austeridade dos depauperados pensionistas foi mesmo aprovada em Conselho de Ministros (extraordinário) e enviada à troika para garantir o pagamento da próxima tranche do empréstimo. Mas mais: sabemos, por Vítor Gaspar, que o referido corte será aplicado em caso de “absoluta necessidade”, coisa que não nos tem faltado. Por um lado, há a “absoluta convicção” do porta-voz e, por outro, a ”absoluta necessidade” do ministro. Vamos ver se ganha a convicção ou a necessidade. Aceitam-se apostas.

O que falta hoje ao governo? Obviamente um rumo claro. Mais austeridade ou crescimento económico? Mais miséria ou sensibilidade social? O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que tem estado do lado de Vítor Gaspar, não pôs na ordem Paulo Portas quando este, com evidente quebra do dever de lealdade, se demarcou publicamente de um documento aprovado em Conselho de Ministros. Passos Coelho perdeu uma boa oportunidade de afirmar a sua autoridade face à oposição interna. E um governo sem liderança só pode andar ao acaso, não podendo nós adivinhar para onde vai.

Imagem retirada daqui

domingo, 12 de maio de 2013

água que se fez terra, que se faz corpo

Na próxima terça feira, dia 14, na escola UTOPIA vai ser inaugurada mais uma exposição de Domingos Loureiro

 
Muito gentilmente foi-me proposto associar-me ao evento apresentando o meu novo livro. Como os convites para a exposição já estavam feitos, foi impressa posteriormente  a informação da apresentação do livro.
Agradeço à UTOPIA e ao Professor Domingos Loureiro.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Breves... preocupação e beleza


Preocupação...

"O CRESCIMENTO INFINITO É INCOMPATÍVEL COM UM MUNDO FINITO" - é o título de um texto de Serge Latouche, filósofo e economista francês,que pode ser lido aqui                  
"Há perguntas demais neste mundo aqui de baixo, nos diz Woody Allen: de onde viemos? Para onde vamos? E o que vamos comer hoje à noite? Se, para dois terços da humanidade, a terceira questão é a mais importante, para nós, do Norte, os empanzinados do hiperconsumo, ela não é uma preocupação. Consumimos carne demais, gordura demais, açúcar demais, sal demais. O que nos assombra é antes o sobrepeso. Corremos o risco de sofrer de diabetes, cirrose do fígado, colesterol e obesidade: esta atinge 60% da população dos EUA, 30% da Europa e 20% das crianças na França. Estaríamos melhor se fizéssemos dieta. Esquecemos as duas outras perguntas que, menos urgentes, são contudo mais importantes.

Para onde vamos? De cara contra o muro. Estamos a bordo de um bólido sem piloto, sem marcha a ré e sem freio, que vai se arrebentar contra os limites do planeta. (...) Mas, com a nossa refeição desta noite garantida, não queremos escutar nada. Ocultamos, em particular, a questão de saber de onde viemos: de uma sociedade de crescimento - ou seja, de uma sociedade fagocitada por uma economia cuja única finalidade é o crescimento pelo crescimento. É significativa a ausência de uma verdadeira crítica da sociedade de crescimento na maioria dos discursos ambientalistas, que só fazem enrolar nas suas colocações sinuosas sobre o desenvolvimento sustentável.

Dizer que um crescimento infinito é incompatível com um mundo finito e que tanto nossas produções como nossos consumos não podem ultrapassar as capacidades de regeneração da biosfera são evidências facilmente compartilháveis. Em compensação, são muito menos bem-aceitas as consequências incontestáveis de que essas mesmas produções e esses mesmos consumos devem ser reduzidos, e que a lógica do crescimento sistemático e irrestrito (cujo núcleo é a compulsão e a adição ao crescimento do capital financeiro) deve portanto ser questionada, bem como nosso modo de vida."

Beleza

Vejam este vídeo que "mistura" Física, Música e Arte! 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Achados...


Hoje decidi arrumar o escritório. Desde que ma aposentei, de cada vez que o faço vou eliminando documentos de trabalho que não mais irei usar. Resisto muito a esta eliminação mas a conservação não faz qualquer sentido... A quem pode interessar uma planificação  de Física, de Química, de Técnicas Laboratoriais ? São planificações muito pessoais, geralmente ecléticas envolvendo ciência, poesia, música, etc

Por vezes tenho encontros  inesperados. Foi o que me aconteceu hoje. Ao  explorar uma pasta, descobri poemas meus dispersos,  desde 1959. Não fazia a mínima ideia que tinha registos antes da era do computador. A minha letra é horrível e por isso geralmente passados uns dias não decifro o que escrevi. Mas com estes poemas, inexplicavelmente houve o cuidado de os passar a limpo.

Dentro do achado descobri um poema escrito aos catorze anos, dedicado à minha mãe. Tenho a certeza que não o leu, pois até 2002 nunca dei a conhecer a ninguém esta minha  “faceta” (salvo em rimas de brincadeira, em festas e afins).

É nitidamente inspirado num poema de José Régio de que eu gostava ( e gosto ) muito, creio que também escrito quando ele era jovem


Em cima da minha mesa
Da minha mesa de estudo
Mesa da minha tristeza -
Em que de noite e de dia
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo
A mim
Também
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro de um caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora,
Que se parece contigo,
E que tem ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que Tenho,
De menino pequenino!...
No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços - e nada leves! -
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta.

 

O meu poema é muito pobre mas, dado que ontem foi o Dia da Mãe, aqui o coloco esperando a vossa compreensão.

 

Mãe.

Ainda te lembras de min?

Eu sei que te lembras, Mãe.

Eu sei que tu sabes, Mãe,

que nesta mesa de estudo

penso em tudo,

até no estudo,

e penso em ti também.

Ai mãe...

Ao deitar-me sempre oro.

Sei que minhas preces vão

juntar-se às tuas e então,

penso em ti, Mãe, e choro.

 

domingo, 5 de maio de 2013

A verdade acerca da economia...


É este o título do vídeo que aqui deixo

 O vídeo lembrou-me um poema que escrevi há já alguns anos e que figura no livro Entre margens, agora publicado

Utopia


 
Sob uma araucária, uma tarde amena,

uma brisa serena,  um odor  a terra.

Pousada no solo a telefonia e uma sinfonia

de Mahler, suponho.

No cosmos havia total harmonia,

mas tal utopia só podia ser sonho.

De repente acordo e do que recordo 

já não resta nada.

Nem a araucária, nem a tarde amena, 

nem a brisa serena,

nem o cheiro a terra,  nem a sinfonia.

Real é apenas a telefonia.

No Médio Oriente, a eterna guerra,

no Brasil, a causa dos sem terra,

em África grande convulsão,

a economia em grande recessão,

fome,

desemprego,

violência,

medo. 

 
E já que o poema refere Mahler, deixo excertos da 6ª sinfonia ( performed by Gothenburg Symphony and Gustavo Dudamel during concert September 2010 in Gothenburg Concert Hall) e um retrato a óleo do compoitor, pintado em 1907 por
Akseli Gallen Kallela

 

sábado, 4 de maio de 2013

Dia da Mãe


A propósito do Dia da Mãe, enviaram-me um e-mail que partilho convosco, na véspera do dia em causa.

 


Imagem poderosa: fica-se sem palavras ! Dói!

Um pensamento/sentimento: o mais importante retrata-se com a simplicidade de riscos de giz

e vive-se com a grandiosidade do aconchego do afecto, do amor e o sentimento do respeito por um "bem sagrado".  

Mas falta o calor do colo e do coração ... Dói!

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Continuando a falar de poesia...

Em março passado foi publicada Entre o Sono e o Sonho - Antologia de Poesia Contemporânea.

Nesta obra de 1200 páginas está representado o trabalho de aproximadamente 1000 poetas contemporâneos portugueses. Trata-se de uma obra plural, representativa da diversidade poética portuguesa e obrigatória em qualquer biblioteca de poesia!
A edição é da Chiado Editora. A convite da mesma participei com o poema que anexo, inspirado numa obra de Chagall.

Promenade


Na nossa vida, como na paleta de um artista, há uma única cor que fornece o sentido da vida e da arte. É a cor do amor.

Marc Chagall.

 

                    É verde o campo onde o casal passeia.

No povoado, ao fundo,

o tom rosa pálido de uma casa

funde-se com o céu,

destacando-a das demais,

todas elas verdes

como o campo que as rodeia.

Com a mão esquerda, Marc,

o homem visivelmente enamorado,

sustenta Bella, a mulher,

silhueta em tons de rosa forte,

que sobre a cidade esvoaça.

Na mão direita um pássaro.

Junto ao pé, do mesmo lado,

um tufo de flores rubras contrasta

com o verde forte da paisagem.

Uma fantasia?

Um sonho marcado pela nostalgia da infância?

Em S. Petersburg, no State Russian Museum,

a mulher permanece esvoaçante.

Mas, por certo,

acabou por pousar junto do seu amante.

Também o pássaro,

liberto da mão do homem que o prendia,

terá voado lançando no ar

chilreios de alegria.

 


 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Entre margens

 

Entre margens é o título de um livro meu que acaba de ser editado. O "parto" não foi fácil. Ainda antes de publicar Magnetismo Terrestre (em 2006) já tinha iniciado um outro projeto que começou por se chamar "poeira cósmica". Chegou a ser prefaciado pela minha grande amiga Fátima Pinheiro, que para além de ter nascido precisamente no mesmo dia e ano que eu, foi minha colega de curso e madrinha do meu filho mais novo. Infelizmente já não está entre nós.
Mas vou colocar aqui esse prefácio, muito generoso, o que não é de estranhar pois a generosidade era uma das inúmeras qualidades da Fátima.
Nestes poemas está a expressão da sensibilidade e do talento da Regina. Através deles, mostra-nos os seus estados de espírito, por vezes de intensa angústia perante o fatalismo das injustiças e das catástrofes que vitimizam a humanidade, por vezes num forte apelo de esperança, por vezes de muita saudade associada à “Memória”.
Pela sua formação em Física e talvez pela sua paixão por esta ciência, parece querer dar alma à água, ao ar, aos electrões….Sem sacrificar a exactidão dos conceitos físicos, fá-los mergulhar na fluidez dos sentimentos.
Só há bem pouco tempo, antes da publicação de “Reflexões e Interferências”, eu soube que a Regina escrevia poemas. Talvez a sua modéstia ou a sua discrição lhe tivessem mantido esse silêncio durante tanto tempo. No entanto, estes poemas não me surpreenderam porque neles está a presença da pessoa sensível que encontrei pela primeira vez há quase quatro décadas.
 
Não tendo arranjado editora acabei por abandonar o projeto. Entretanto tinha já um outro entre mãos, "Poemas no espaço-tempo". Em 2007 foi prefaciado pelo escritor Carlos Vaz.
Enquanto tentava arranjar quem mo editasse fui integrando no mesmo a maior parte dos poemas de "poeira cósmica".
Mas a oportunidade para editar não chegava.
 
Em 2012 fui contemplada com o 1º prémio no  XVII concurso Poesia em ti, promovido pela  APPACDM de Setúbal. Do prémio fazia parte a edição, pela Editora Lua de Marfim, de um livro de poesia. Assim surge este livro.
 
Como já tinha escrito um outro projeto “Entre margens” que tem a ver com os rios, aproveitei esta oportunidade para editar tudo, sob este título, que justifico em nota introdutória.
 
Entre margens, os rios, entre margens os textos nas páginas. Uns e outros galgam-nas por vezes. Os textos desta coletânea, agora entre margens, já as galgaram ao longo das suas vidas, por vezes com alguns anos. Aqui se incluem não só textos atuais mas também outros que não foram incluídos nos livros anteriormente publicados. Todos foram sendo organizados em projetos, entre eles Poemas no espaço-tempo e Entre margens. O primeiro chegou a ter edição agendada pela editora Campo das Letras, que infelizmente já não existe. Em 2007 foi prefaciado pelo escritor Carlos Vaz, mas de então para cá foi engrossado com mais poemas, nomeadamente o que foi premiado no concurso de poesia que deu lugar à edição desta obra que contém um conjunto de poemas selecionados a partir dos projetos acima mencionados.
 
 
O livro chegou-me hoje às mãos.
 
A capa, tendo por base um óleo que pintei em 2011, pouco tem a ver com o mesmo pois as cores ficaram muito alteradas.  Fiquei triste mas O que não tem remédio, remediado está, diz o ditado.
 


 
Deixo aqui dois poemas, um de "Poemas no espaço-tempo" e outro de “Entre margens”
 

Poalha etérea

 
No labirinto da memória
uma  imagem perdida.
Uma imagem fugaz, discreta.
No bastidor, esticado, o linho
de onde em onde maculado
por um bordado azul,
o azul do mar de Creta.
Não sei se era lençol, se era toalha
Na memória, apenas o azul
e a brancura do linho.
Tudo o mais se esfumou
numa poalha etérea,
não sei se onda se matéria,
que o tempo dispersou
 
In Poemas no espaço-tempo
 
 
 
(…)Eu sou o rio anoitecido. Eu desço pelas profundas quebradas, pelos ignotos vilarejos esquecidos (…)Javier Heraud.
 
O rei mandou construir o labirinto.
Eis a lenda.
Da pedra, o Senhor fez brotar torrentes.
Eis o salmo.
E as torrentes tornaram-se em rios
que serpenteiam por artérias sinuosas,
quais labirintos.
Não há fio de Ariadne para o regresso,
nem é preciso.
Rios são água que corre por instinto
e a água  não tem fim nem tem começo.
 
In Entre margens

 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Cravos vermelhos

No blogue de Deana Barroqueiro descobri este filme delicioso

E a propósito de cravos, o óleo Menina dos Cravos de Amadeo de Souza - Cardoso,
que  pertence ao Museu do Caramulo e um poema de Eugénio de Andrade (in Primeiros poemas 1977)


Canção

Tinha um cravo no meu balcão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
Só não dei o coração;
Mas se o rapaz mo pedir
-mãe, dou-lho ou não?