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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Algures a Nordeste


Algures a Nordeste é título de uma obra de António Pires Cabral, poeta do Nordeste Transmontano.
Tenho estado a preparar uma intervenção que vou fazer em Junho, precisamente “algures a nordeste”.   Decidi reler o livro(o que faço várias vezes). Partilho convosco um dos poemas de que mais gosto nesse livro.

 
OS CIGANOS

Dizem que vêm da Europa Central. Eu vejo-os vir
dos lados de Grijó em lassa caravana.

Debaixo da carroça trota a coelheira,
aproveitando a sombra débil e ambulante.
Sentado na boleia, as rédeas na mão morena
descuidadas, um homem cisma, confia
do caminho ao macho lento a decisão.
Outros homens a pé e mulheres novas
entretêm de riso a caminhada espessa.
Logo após, sobre os burros, os pertences.
Alguns velhos também, já cansados de tudo,
tiram partido do precário trote. As crianças
de peito sugam em sonolenta teima
as elásticas tetas sacudidas, mas alvas e redondas.


Os mais velhitos caminham repartidos
em pequenas e lúdicas manadas, dando
às hortas laterais breves saltos furtivos.
Toda esta gente é morena e tem fala cantada,
levanta para mim doces olhos castanhos.
Dizem que vêm
da Europa Central, de uma raça sem chão,
e aqui procura, de insultos rodeada,
cumprir a sua luta, seu degredo
e sua primitiva vocação.

Dizem que os ciganos desenterram animais defuntos
de alguma enfermidade menos limpa
e neles cravam dentes de fome milenária.
Dizem que as mulheres estão na intimidade
das estrelas e a troco de uns mil-réis
leem nas mãos destinos coloridos.

Dizem que roubam quintais e assaltam capoeiras,
e os aldeões, em pânico secreto,
os expulsam com voz impiedosa e decidida mão
das cercanias do seu chão governado.
Dizem que enganam os incautos campónios
em negócios sempre escuros de animais,
em que fazem passar por uma estampa
o mais escalavrado e cego dos cavalos.
Dizem que na vila, ao desfazer das feiras,
têm por costume, depois de embriagados,
trocar com as bengalas possantes e vistosas
pancadaria rija, de que morrem.
Dizem que vivem estranhos dramas passionais.
Dizem que não têm deus e que se casam
lançando ao ar jubilosos chapéus.

Dizem tudo isso dos ciganos. Eu não sei.
Vejo-os vir dos lados de Grijó
e estão todos de frente para mim
e parecem-me gente – nada mais.

A.M. Pires Cabral, in Algures a Nordeste

 
Ainda eu não conhecia este poema de Pires Cabral quando, num livro meu de ficção, Terras de Cieiro, que aguarda publicação há muito, incluí uma passagem em que falo de ciganos. Provavelmente os mesmos de que fala Pires Cabral, dada a proximidade entre a sua aldeia e a minha.

(...)Ciganos. Acampavam muitas vezes no Lameiro dos Linhos. Eles, os burros, os cavalos, os cães. Dizia-se que eram estranhos. Dizia-se ainda que ludibriavam nos negócios, que roubavam, que deitavam mau olhado... Daí que se amedrontassem as crianças sempre com o mesmo dito:

Se te portas mal vêm aí os ciganos e levam-te.

Mas eu acostumei-me de tal modo a vê-los por casa da avó Maria da Luz, que a sua presença nunca me causou temor, antes fascínio, fascínio esse que começava logo quando via o colorido das suas caravanas. Ainda hoje recordo os olhos negros expressivos nas caras enfarruscadas das crianças ciganas(...) 

Regina Gouveia in Terras de cieiro

 
E a propósito do tema, deixo um quadro de Modigliani, cigana com criança, um excerto da dança ritual do fogo ( in amor bruxo de Manuel de Falla) e, na voz de Joselito, o tango violino cigano que a minha mãe cantava divinamente

4 comentários:

  1. Também me lembro de me assustarem com a ameaça dos ciganos. Havia muitos no Restelo ( imagina só!), viviam a dois passos de nós em tendas e roulottes ali onde é agora a zona chique de Lisboa. Isto era em 1951 quando fomos para lá viver.

    Gosto muito de Modigliani!

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  2. Olá Regina
    Nem calcula como lhe agradeço este poema "Os Ciganos". Ouvi-o, há meses, maravilhosamente declamado pela Maria do Céu Guerra que o atribuiu ao malogrado Manuel António Pina. Gostei tanto dele que o procurei por tudo quanto é sítio,mas não o encontrei. E agora aparece-me assim pelas mãos da Regina. Fiquei mesmo contente.
    Quanto ao post, que dizer? Apenas que reflete a qualidade a que a Regina nos habituou.

    Um grande beijo.

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  3. Só uma nota. Eu posso estar enganada quanto à atribuição da autoria do poema, por M. Céu Guerra, a Manuel António Pina. É que os nomes são parecidos e, na altura em que ouvi o poema, o M.A. Pina tinha falecido há pouco tempo e eu, que o tinha conhecido pessoalmente, gostava muito dele. Daí a minha possível confusão.

    Um beijo,Regina.

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    1. Obrigada às duas.
      O poema de Pires Cabral é de facto muito bonito como vários outros poemas dele, muitos"inspirados" no nordeste.
      Quanto a Modigliani também eu gosto muito da sua obra
      Bjs
      Regina

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