Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Achados...


Hoje decidi arrumar o escritório. Desde que ma aposentei, de cada vez que o faço vou eliminando documentos de trabalho que não mais irei usar. Resisto muito a esta eliminação mas a conservação não faz qualquer sentido... A quem pode interessar uma planificação  de Física, de Química, de Técnicas Laboratoriais ? São planificações muito pessoais, geralmente ecléticas envolvendo ciência, poesia, música, etc

Por vezes tenho encontros  inesperados. Foi o que me aconteceu hoje. Ao  explorar uma pasta, descobri poemas meus dispersos,  desde 1959. Não fazia a mínima ideia que tinha registos antes da era do computador. A minha letra é horrível e por isso geralmente passados uns dias não decifro o que escrevi. Mas com estes poemas, inexplicavelmente houve o cuidado de os passar a limpo.

Dentro do achado descobri um poema escrito aos catorze anos, dedicado à minha mãe. Tenho a certeza que não o leu, pois até 2002 nunca dei a conhecer a ninguém esta minha  “faceta” (salvo em rimas de brincadeira, em festas e afins).

É nitidamente inspirado num poema de José Régio de que eu gostava ( e gosto ) muito, creio que também escrito quando ele era jovem


Em cima da minha mesa
Da minha mesa de estudo
Mesa da minha tristeza -
Em que de noite e de dia
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo
A mim
Também
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro de um caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora,
Que se parece contigo,
E que tem ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que Tenho,
De menino pequenino!...
No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços - e nada leves! -
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta.

 

O meu poema é muito pobre mas, dado que ontem foi o Dia da Mãe, aqui o coloco esperando a vossa compreensão.

 

Mãe.

Ainda te lembras de min?

Eu sei que te lembras, Mãe.

Eu sei que tu sabes, Mãe,

que nesta mesa de estudo

penso em tudo,

até no estudo,

e penso em ti também.

Ai mãe...

Ao deitar-me sempre oro.

Sei que minhas preces vão

juntar-se às tuas e então,

penso em ti, Mãe, e choro.

 

2 comentários:

  1. É grandioso o poema de José Régio. Eu já o conhecia, mas não sabia que era de José Régio.
    Mas o seu também é muito lindo e de grande valor até porque foi escrito nos seus catorze anos.

    Um beijo.

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  2. Que giro....

    Boa ideia, Regina, ir aos achados e perdidos.....:))

    Bjo

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