Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Gatos na pintura e na poesia...

Quase todas as crianças têm fascínio por animais, nomeadamente cães e gatos e os meus filhos não foram excepção. Mas ter um animal destes num andar é um pouco complicado. Quando, na década de 80, passámos a habitar uma casa com quintal, decidimos arranjar um gato. Passado algum tempo desapareceu o que causou grande consternação na família. Pensámos em não arranjar mais nenhum mas a instâncias dos filhos arranjámos um outro que também desapareceu e finalmente um terceiro que após uma luta tenebrosa com gatos das redondezas acabou por morrer. Decidimos pôr um ponto final no assunto. Não haveria mais gatos foi a nossa decisão de pais que há quatro anos foi revogada face à solicitação da minha neta que o baptizou - Fuscas.


Fuscas em "bebé"


O Fuscas faz hoje os encantos da Rita, do primo com quatro anos ,e do irmão que vai fazer um ano. Mas cães e gatos não fazem só as delícias das crianças como também dos adultos, entre eles pintores e escritores que os evocam nas suas obras. Centremo-nos nos gatos

Comecemos pela pintura citando alguns pintores famosos

Picasso, Dora Maar (com o gato ao colo)

Paul Klee, Pássaro e gato

Chagall, Paris pela janela

Quanto à literatura, nomeadamente à poesia, são inúmeros os textos com alusões a gatos .

Seleccionei alguns de entre as múltiplas escolhas possíveis


Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa


Onírica
Os gatos moles de sono
rolam laranjas de lã.
Mário Quintana

Uma prosa sobre os meus gatos



Perguntaram-me um dia destes


ao telefone


por que não escrevia

poesia (ao menos um poema)


sobre os meus gatos;


mas quem se interessaria


pelos meus gatos,


cuja única evidência


é serem meus (digamos assim)


e serem gatos


(coisa vasta, mas que acontece


a todos os da sua espécie)?


Este poderia


(talvez) ser um tema


(talvez até um tema nobre),


mas um tema não chega para um poema


nem sequer para um poema sobre;


porque é o poema o tema,


forma apenas.


Depois, os meus gatos


escapam de mais à poesia,


ou de menos, o que vai dar ao mesmo,


são muito longe


ou muito perto,


e o poema precisa do tempo certo


de onde possa, como o gato, dar o salto;


o poema que fizesse


faria deles gatos abstractos,


literários, gatos-palavras,


desprezível comércio de que não me orgulharia


(embora a eles tanto lhes desse).


Por fim, não existem «os meus gatos»,


existem uns tantos gatos-gatos,


um gato, outro gato, outro gato,


que por um expediente singular


(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)


me é dado nomear e adjectivar,


isto é, ocultar,


tendo assim uns gatos em minha casa


e outros na minha cabeça.


Ora só os da cabeça alcançaria


(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.


Fiquei-me por isso por uma prosa,


e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.


Manuel Pina






Gato e o pássaro


Uma cidade escuta desolada


O canto de um pássaro ferido


É o único pássaro da cidade


E foi o único gato da cidade


Que o devorou pela metade


E o pássaro pára de cantar


O gato pára de ronronar


E de lamber o focinho


E a cidade prepara para o pássaro


Maravilhosos funerais


E o gato que foi convidado


Segue o caixãozinho de palha


Em que deitado está o pássaro morto


Levado por uma menina


Que não pára de chorar


Se soubesse que você ia sofrer tanto


Lhe diz o gato


Teria comido ele todinho


E depois teria te dito


Que tinha visto ele voar


Voar até o fim do mundo


Lá onde o longe é tão longe


Que de lá não se volta mais


Que você teria sofrido menos


Sentiria apenas tristeza e saudades


Não se deve deixar as coisas pela metade.


Jacques Prévert


Poema do gato






Quem há-de abrir a porta ao gato


quando eu morrer?






Sempre que pode


foge prá rua


cheira o passeio


e volta para trás,


mas ao defrontar-se com a porta fechada


(pobre do gato!)


mia com raiva


desesperada.


Deixo-o sofrer


que o sofrimento tem sua paga,


e ele bem sabe.


Quando abro a porta corre para mim


como acorre a mulher aos braços do amante.


Pego-lhe ao colo e acaricio-o


num gesto lento,


vagarosamente,


do alto da cabeça até ao fim da cauda.


Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,


olhos semi-cerrados, em êxtase,


ronronando.


Repito a festa,


vagarosamente,


do alto da cabeça até ao fim da cauda.


Ele aperta as maxilas,


cerra os olhos,


abre as narinas,


e rosna,


rosna, deliquescente,


abraça-me


e adoremece.


Eu não tenho gato, mas se o tivesse


quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão






Finalmente, dois poemas meus em que faço referência ao meu gato






Sonho


Decidi ir agarrar um sonho.


um sonho distante e desmedido.


Imaginei partir com companhia.


Talvez o meu gato (eu tenho um gato,


o que não acontecia a Gedeão)


mas logo pensei: Não.


Quando visse o sonho a esvoaçar


havia de cuidar que era uma ave.


Gatos e aves nunca se deram bem


à excepção do gato malhado


e da andorinha Sinhá de Jorge Amado.


Pensei então levar alguém, mas quem?


Os nossos sonhos


raramente coincidem com os sonhos de outrem.


Parti sem mais ninguém. Fui de balão.


Não o enchi com hidrogénio,


com hélio, nem ar quente.


Enchi-o simplesmente de ilusão


e assim me aventurei.


Aproveitei as correntes ascendentes,


ao sabor do vento rodopiei no ar,


tempestades e tormentas tive que enfrentar


mas continuei, por vezes sem sentido,


em busca do sonho distante, desmedido.


E quanto mais subia, mais distante o sonho parecia,


até me aperceber que não subia


e que, vertiginosamente,


descia em direcção ao chão.


Talvez tivesse havido uma fuga de ilusão.


Pensei então em frei Gusmão,


nos Montgolfier, em Charles, em Zeppelin e assim,


tentei uma outra vez, e outra,


e outra e ainda mais uma.


Tudo se repetiu como da vez primeira.


Quero ainda tentar mais uma vez, a derradeira.


Mas como hei-de eu encher o meu balão


se é já tão pouca a ilusão, quase nenhuma?






Limites


Ronrona o meu gato estirado no tapete


Ao ritmo da respiração


o dorso afunda-se e alteia


como é normal num gato.


O coração bate apressado,


duas vezes por segundo,


por isso a sua vida é relativamente breve.


Ronrona o meu gato estirado no tapete


indiferente a tudo o que o rodeia.


Ignora raios cósmicos, neutrinos, mesões e leptões,


que atravessam o seu corpo em constante correria


ite e dia, noite e dia.


Não quer saber


se o cosmos tem princípio ou fim


tão pouco o preocupam os seus mistérios


que o homem incessantemente tenta desvendar,


fazendo os limites do universo recuar.


O meu gato, tranquilamente a ronronar,


agita a cauda docemente.


Talvez sonhe com um pássaro a voar


batendo as asas ao de leve


ou talvez sonhe ultrapassar os muros do jardim,


fazendo recuar, assim, os limites do seu mundo.

sábado, 22 de maio de 2010

Minha pátria é a língua portuguesa- Parte 3

Regresso à oficina de leitura “Minha Pátria é a Língua Portuguesa” refreindo hoje os autores que foram abordados e que ainda falatava referir


Começo com António Gedeão. António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, é um dos meus poetas preferidos. Comecei por conhecer Rómulo de Carvalho através de um livro de Química, no Liceu. Só mais tarde viria a conhecer António Gedeão.

Conheci pessoalmente Rómulo de Carvalho quando fiz estágio, tinha eu 25 anos. Passados dois anos, já como orientadora de estágio, estivemos ambos presentes em várias reuniões. Em 2006, centenário do seu nascimento, foram-lhe prestadas, postumamente, inúmeras homenagens. Estive envolvida em algumas nomeadamente no Colóquio Internacional “António Gedeão e Rómulo de Carvalho. Novos poemas para o homem novo” que decorreu no ISMAI. Aí proferi a comunicação “António Gedeão e a Ciência. Rómulo de Carvalho e a Poesia” que se encontra publicada no livro de Actas do referido Colóquio.

Transcrevo o resumo que na altura apresentei.

António Gedeão e a Ciência. Rómulo de Carvalho e a Poesia.
Rómulo de Carvalho aprendeu de Gedeão o gosto pelos objectos simples, pela história singelamente contada, pela experiência quotidiana. Quanto a Gedeão, penso nele como companheiro de carteira de Rómulo na aprendizagem interior do espírito da Física, cedo feita de ensinar os outros (Mariano Gago)

Neste excerto do prefácio de “A Física no Dia a Dia”de Rómulo de Carvalho, Mariano Gago denuncia uma cumplicidade entre António Gedeão e Rómulo de Carvalho, cumplicidade essa que emerge em muitos dos seus poemas quer quando nos situa no tempo e no espaço (Máquina do mundo, Poema das mãos frias) quer quando assume mais explicitamente a sua vertente de professor (Lição sobre a água, Poema do coração).

Qual deles (Rómulo ou Gedeão) poderemos responsabilizar por estar sempre atento a uma evolução pluridimensional do mundo que disseca e /ou denuncia como, por exemplo, em Poema para Galileu, Lágrima de preta, Poema do eterno retorno, Poema do ser ou não ser, Poema do homem novo, Pedra Filosofal? A resposta só poderá ser, ambos.

Gedeão não existiria sem Rómulo e Rómulo seria inevitavelmente um outro, sem Gedeão.

Um dos poemas que apresentámos foi precisamente o poema para Galileu, na voz de Mário Viegas

Apresentámos também o poema da morte na estrada, um dos poemas que consta num CD com poemas ditos pelo autor, CD esse que gentilmente me foi oferecido pelo filho, Dr. Frederico Carvalho.

Não sei colocá-lo no Blog: tenho pena, mas deixo-vos com o poema escrito

Poema da Morte na Estrada

Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,

estão quinhentos mortos com os olhos abertos.

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.

Nem tiveram tempo para fechar os olhos.

Eles bem sabiam dos bancos da escola

como os homens dignos sucumbem na guerra.

Lá saber, sabiam.

A mão firme empunhando a espada ou a pistola,

morrendo sem ceder nem um palmo de terra.

Pois é.

Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,

não lhes deu tempo para serem heróis.

Eles bem sabiam que o último pensamento

devia estar reservado para a pátria amada.

Lá saber, sabiam.

Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.

Não lhes deu tempo para pensar em nada.

Agora,

na berma da estrada, nuns quinhentos metros,

são quinhentos mortos com os olhos abertos.

António Gedeão, in 'Linhas de Força'

Apar da análise de poemas a reflectimos sobre outros textos nomeadamente

Gedeão visto por Urbano Tavares Rodrigues
Analisámos também alguns excertos de uma entrevista concedida a Maria Augusta Silva e publicada em Poetas Visitados, edições Caixotim, e um texto de João Mancelos António Gedeão e Eugénio de Andrade: Viagens pela Urbe Babilónica, onde o autor se refere a reflexões dos dois autores sobre a cidade partindo de Esta é a Cidade de António Gedeão e As Palavras Interditas de Eugénio de
Andrade, textos anexos

Esta é a Cidade
Esta é a Cidade, e é bela.

Pela ocular da janela

foco o sémen da rua.

Um formigueiro se agita,

se esgueira, freme, crepita,

ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe

numa avidez de garganta,

como um cavalo se espanta

ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,

friorento voo de libélula

sobre o charco imundo e estreme.

Barco de incógnito leme

cada homem, cada célula.

É como um tecido orgânico

que não seca nem coagula,

que a si mesmo se estimula

e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.

Olho imagem por imagem

numa comoção crescente.

Enchem-se-me os olhos de água.

Tanto sonho! Tanta mágoa!

Tanta coisa! Tanta gente!

São automóveis, lambretas,

motos, vespas, bicicletas,

carros, carrinhos, carretas,

e gente, sempre mais gente,

gente, gente, gente, gente,

num tumulto permanente

que não cansa nem descança,

um rio que no mar se lança

em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!

Tanta mágoa! Tanta gente!


As Palavras Interditas

Os navios existem e existe o teu rosto

encostado ao rosto dos navios.

Sem nenhum destino flutuam nas cidades,

partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,

uma criança passa de costas para o mar.

Anoitece. Não há dúvida, anoitece.

É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.

Ondas de sombra quebram nas esquinas.

Amo-te... E abrem-se janelas

mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas

até, meu amor, pelo halo das searas;

se alguma regressasse, nem já reconhecia

o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,

dói-me esta solidão de pedra escura,

e estas mãos nocturnas onde aperto

os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.

Nas suas margens vivas, desenhadas,

cada homem tem apenas para dar

um horizonte de cidades bombardeadas.

De Eugénio de Andrade foram lidos alguns poemas, nomeadamente o poema à Mãe, dito por Nuno Miguel Henriques e


As palavras
São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?


Falámos ainda de outros autores, Ana Luísa Amaral, Carloz Vaz, Mia Couto, Rosa Lobato faria

Deixo-vos com alguns textos e entrevistas que apresentámos

Ana Luísa Amaral

Visitações, ou o poema que se diz manso
De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas não

tão de mansinho. Os pés descalços,

de ruído menor que o do meu lápis

e um riso bem maior que o dos meus versos.

Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas não

tão mansamente, não com esta exigência

tão mansinha. Como um ladrão furtivo,

a minha filha roubou-me a inspiração,

versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,

feliz pelo seu crime.
Ana Luísa Amaral


Carlos Vaz

Alguns textos

Quero um doce –pediu o menino ao deitar-se, o pai tirou do bolso um chocolate, devidamente encenado para a ocasião, mas o menino não o quis.

Quero um doce -repetiu esfomeado, o pai foi buscar uma bolacha que o menino se aprontou a rejeitar.

Quero um doce- disse, e o pai contou-lhe a graciosa história de Hansel &Gretel e o menino acabou por adormecer de barriga cheia

Mia Couto


O homem da rua ( in Contos do nascer da Terra de Mia Couto )


Rosa Lobato Faria

Da autora lemos o conto "Um segredo" publicado em "Os linhos da Avó”e a autobiografia

domingo, 16 de maio de 2010

Um dia diferente

Num outro texto que aqui coloquei, Há dias que não são assim…” comecei com o meu poema Lassidão


Há dias que são assim, duma lassidão sem fim,

em que a vida é só cansaço, tudo é frouxo, tudo é lasso.

Arrasto-me a cada passo e não vou a parte alguma.

Perco-me dentro da bruma da vida que é embaraço,

sem qualquer rumo nem traço.

Sem nada ser não nem sim não existe nó nem laço

que prenda o meu eu a mim.



Ora o dia 15 de Maio também não foi um dia assim. Aliás, nesse dia, lamentei não ter o dom da ubiquidade…

Há já algum tempo que estava agendada para 15 de Maio uma visita da minha escola de pintura, Utopia, a Valença e a  Tuy .

Mas havia outras opções.

Há dias recebi um e-mail do Instituto Piaget a comunicar que um poema meu tinha sido seleccionado para o 6º Cancioneiro Infanto-Juvenil da Língua Portuguesa, que decorreria uma cerimónia no dia 15 em Almada e que teriam muito gosto em poder contar com os autores seleccionados.

Mais ainda

Realizou-se nesse dia, no Porto, o primeiro almoço convívio dos alunos que frequentaram a Universidade do Porto de 1955 a 1965. Como entrei em 1962, fazia parte do grupo.

Tinha portanto um dilema (trilema...). Em qual dos eventos participar?

Mas “last but not least” 15 de Maio é a data de aniversário do meu filho mais novo.

O mais velho sugeriu que fôssemos todos passar o fim de semana na aldeia, em Trás-os –Montes e a festa de anos aí tivesse lugar.

Agradou-me muito a sugestão, pelo que o dilema parecia resolvido.

Como dia 10 tinha que estar em Trás-os Montes, a estadia seria para mim de uma semana. O tempo estava mau, mas fomos aguardando sempre na esperança de que melhorasse. Na quinta –feira concluímos que de modo algum o projecto seria agradável, pois ter as crianças fechadas em casa não faria qualquer sentido.

Regressei sexta feira e como o meu filho resolveu que a festa de aniversário seria em sua casa ao jantar, fui à visita que acima referi e à noite reunimo-nos todos para a festa de aniversário

Voltemos então à visita

Em Valença, o objectivo era colocarmos alguns novos trabalhos relacionados com o Jacobeu, dado que a exposição itinerante a que já uma vez aqui me referi, tinha acabado de sair de Valença para Tuy.

O trabalho que levei para nessa exposição é uma adaptação de um outro, aguarela e pigmento de café sobre papel, a que acrescentei o contorno de uma catedral ao longe e dois bordões nas personagens.
Nos demais trabalhos, há alguns muito interessantes, de entre os quais  o da Virgínia Barros que poderá ser visto no seu blog 
Em Tuy fomos ver os trabalhos que andam em itinerância desde Janeiro (exposição no Porto) e que, após passagem por quatro localidades portuguesas iniciaram o périplo pela Galiza onde vão passar por oito localidades sendo a última Santiago (em Dezembro de 2010)
Já aqui coloquei o trabalho que tenho nessa exposição



No regresso passámos por Santo Tirso onde decorria a inauguração de um espaço cultural muito interessante: a casa da galeria, centro de arte contemporânea, que tem como consultor Domingos Loureiro, o meu professor de pintura ( A revista notícias sábado do dia 15 dedica-lhe uma página)

A galeria abriu com a exposição O ser do estar , 24 desenhos e 9 esculturas de Alberto Carneiro.


Durante o pouco tempo de que dispusemos deu para ver a exposição e ouvir música de Béla Bartók em violino e violoncelo

Finalizemos com  Béla Bártok agora com outros intérpretes

Minha pátria é a língua portuguesa- Parte 2

Tendo estado no meu “Nordeste” durante uma semana, só hoje é possível dar continuidade ao último texto. Recordo que, desafiada para orientar uma oficina de escrita, a minha resposta foi obviamente não.

Posteriormente surgiu a ideia uma co-orientação com a Arminda Durão, professora de português muito competente e com experiência em trabalhar com adultos. Resolvemos conjuntamente aceitar o desafio. Dada a sua pequena duração, planeámos a oficina em torno da poesia e do conto, tentando dar visões de diferentes autores contemporâneos, de Torga a Carlos Vaz, passando por Mia Couto e Rosa Lobato Faria, de Pessoa a Eugénio de Andrade passando por Gedeão e Ana Luísa Amaral.

O texto anterior foi reservado a Fernando Pessoa. Este irá ser dedicado a Miguel Torga.
Comecemos com uma apresentação em Power Point, concebida a partir do livro Fotobiografia, de Clara Rocha

Ouçamos agora o autor a propósito do texto Maria Lionça

Maria Lionça transporta-nos a S. Leonardo de Galafura


S.Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,

A navegar num doce mar de mosto,

Capitão no seu posto

De comando,

S. Leonardo vai sulcando

As ondas

Da eternidade,

Sem pressa de chegar ao seu destino.

Ancorado e feliz no cais humano,

É num antecipado desengano

Que ruma em drecção ao cais divino.



Lá não terá socalcos

Nem vinhedos

Na menina dos olhos deslumbrados;

Doiros desaguados

Serão charcos de luz

Envelhecida;

Rasos, todos os montes

Deixarão prolongar os horizontes

Até onde se extinga a cor da vida.



Por isso, é devagar que se aproxima

Da bem-aventurança.

É lentamente que o rabelo avança

Debaixo dos seus pés de marinheiro.

E cada hora a mais que gasta no caminho

É um sorvo a mais de cheiro

A terra e a rosmaninho!


Miguel Torga


A finalizar, deixo-vos com uma imagem de Galafura retirada de um site em que se podem apreciar muitas outras belíssimas fotografias

sábado, 8 de maio de 2010

Minha pátria é a língua portuguesa- Parte 1

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Fernando Pessoa(Bernardo Soares) em Livro do Desassossego



Gosto de desafios mas conheço as minhas limitações. Desafiada para orientar uma oficina de escrita, a minha resposta foi obviamente não.
Uma coisa é escrever e ter obra publicada, outra coisa é ter um conhecimento aprofundado da língua portuguesa o que eu, licenciada em Físico-Químicas, não tenho. Surgiu então a ideia de uma co-orientação, com a Arminda Durão, que sabia ser uma professora de português muito competente com experiência em trabalhar com adultos. Resolvemos conjuntamente aceitar o desafio. Dada a sua pequena duração, planeámos a oficina em torno da poesia e do conto, tentando dar visões de diferentes autores contemporâneos, de Torga a Carlos Vaz, passando por Mia Couto e Rosa Lobato Faria, de Pessoa a Eugénio de Andrade passando por Gedeão e Ana Luísa Amaral.


A oficina decorreu no espaço Vivacidade um espaço muito interessante, dedicado à cultura e que acaba de festejar o seu primeiro aniversário
Para mim a experiência da oficina foi muito enriquecedora Aprendi coisas novas, quer com a Arminda, quer nas pesquisas que fiz para co- preparar a oficina, quer ainda nos debates que se geraram nas aulas. O ambiente criado foi excelente e o feed-back que nos chegou dos participantes foi encorajador embora haja necessariamente aspectos a melhorar. Creio que todos saímos mais enriquecidos.
Vou fazer uma breve síntese dessa oficina. Reservei a primeira parte para Fernando Pessoa

Aqui ficam alguns textos e entrevistas que explorámos:


Iniciei com um teto de Bernardo Soares. Incluem-se agora quatro poemas:
  • Mostrengo de Fernando Pessoa
  • Aniversário de Álvaro de Campos
  • Poema do Menino Jesus de Alberto Caeiro
  • um poema de Ricardo Reis

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis



Num próximo texto referir-me-ei de novo à oficina Minha pátria é a língua portuguesa.

domingo, 2 de maio de 2010

Dia da Mãe

Já aqui disse que não sou muito apologista dos dias dedicados a algo, pelo que neste caso concreto considero que todos os dias deveriam Dias da Mãe.

O primeiro poema dedicado à Mãe que me lembro de ter lido creio que ainda em criança,  foi de José Régio, era ele adolescente. Ainda hoje esse poema me toca profundamente.


Em cima da minha mesa,

Da minha mesa de estudo,

Mesa da minha tristeza

Em que, de noite e de dia,

Rasgo as folhas, leio tudo

Destes livros em que estudo,

E me estudo

(Eu já me estudo…)

E me estudo,

A mim,

Também,

Em cima da minha mesa,

Tenho o teu retrato, Mãe!


À cabeceira do leito,

Dentro dum lindo caixilho,

Tenho uma Nossa Senhora

Que venero a toda a hora…

Ai minha Nossa Senhora

Que se parece contigo,

E que tem, ao peito,

Um filho

(O que ainda é mais estranho)

Que se parece comigo,

Num retratinho,

Que tenho,

De menino pequenino…!


No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo, a um canto,

Não lhes vá tocar alguém,

(quem as lesse, o que entendia?

Só riria

Do que nos comove a nós…)

Já tenho três maços, Mãe,

Das cartas que tu me escreves

Desde que saí de casa…

Três maços – e nada leves! –

Atados com um retrós…


Se não fora eu ter-te assim,

A toda a hora,

Sempre à beirinha de mim,

(Sei agora

Que isto de a gente ser grande

Não é como se nos pinta…)

Mãe!, já teria morrido,

Ou já teria fugido,

Ou já teria bebido

Algum tinteiro de tinta!



Há poemas belíssimos dedicados à Mãe. Na impossibilidade de os colocar aqui todos, insiro apenas alguns.

Para Sempre

Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e chuva desaba,

veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

— mistério profundo —

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'


Poema à mãe de Eugénio de Andrade


Também eu escrevi vários poemas dedicados à minha mãe, que em nada se comparam aos que acabei de inserir, mas são uma forma modesta de prestar homenagem à Mulher excepcional que tive o privilégio de ter por Mãe. Começo pelo mais recente (de 2010) e incluo mais três, dois deles já publicados e um outro também inédito



Mãe!
Dedicaram-te este dia a ti e a todas as mães.

Já foi outro e agora é este como poderia ser um outro qualquer.

Para ti não bastariam mil milhões de dias

e se em mim fala mais alto o coração,

em muitos dos que te conheceram quem fala é a razão.

Muito mais que uma linda mulher que assim o eras,

eras uma mulher linda, de uma infinda beleza interior,

como jamais conheci alguém.

Dotaram-te os deuses de todos os dons,

inteligente, abnegada, lutadora, corajosa, infinitamente generosa.

Talvez não fosse humana a tua condição.

Mas se assim era como foi possível cair sobre ti tamanha maldição,

Alzheimer aos cinquenta e oito anos.

Quem sabe o(s) deus(es), por inveja, não aceitaram a tua perfeição.

ou, então, foi a mim que quiseram castigar

pelo amor que te dediquei, 

muito aquém daquele  que tu merecias.

Mãe, perdoa-me, mas eu não sou igual a ti,

tenho as fraquezas dos demais humanos.



Sorriso

Junto à campa da minha mãe nasceram lírios no passado mês.

Alguns dos seus elementos, o magnésio talvez,

já terão sido, por certo, pertença da minha mãe.

Há momentos, passava perto de um lírio que ali cortei

e quando o olhar fixei, pareceu-me ver alguém que sorria para mim.

Doce, o sorriso, sem fim.

Por certo era a minha mãe, só ela sorria assim.



Mãe

Como eu me lembro bem, mãe.

Catorze anos seria talvez a minha idade, uma colega do liceu

disse que tu eras a senhora mais bonita da cidade

E eu fiquei toda cheia de vaidade.

Lembro-me de tanta outra coisa mãe

Do linho esticado dentro do bastidor

e dos teus bordados em ponto pé-de flor,

em matiz, ponto de sombra ou de grilhão,

ao sabor da imaginação, como o vestido da minha comunhão.

Lembro-me dos cozinhados que fazias com paixão;

chamavas-lhe quitutes, mãe.

Receita portuguesa, brasileira, italiana,

ainda hoje os teus quitutes têm fama

entre os amigos que os saborearam.

Ainda há dias alguns os recordaram.

Lembro-me ainda que não era só o sabor, era o aspecto.

Em tudo colocavas muito afecto

e sempre a tua a sensibilidade infinda.

Além de sensível eras tolerante, corajosa,

lutadora, criativa, generosa.

Como eu recordo, mãe, tantas histórias inventadas por ti,

em que o sabiá e a surucucu contracenavam com o colibri,

com a jibóia e o bicho tatu.

Como eu recordo, mãe, a tua lindíssima voz de soprano

cantando árias de Verdi, de Puccini,

(da Madame Butterfly, da Traviata),

do barbeiro de Sevilha de Rossini,

ou ainda Shubert, a serenata,

tentando eu acompanhar-te no piano

que, por falta de talento, mal tocava,

o que algum desgosto te causava.

Um dia, já a tua mente muito vária,

apercebi-me de que não gravara a tua voz

Tentei então que cantasses uma ária

para ficar com os registos entre nós

Tarde demais

De reconhecer a música tu foste incapaz

Tinhas apenas cinquenta e oito anos.

E a partir daí a doença, tão voraz,

foi-te destruindo dia a dia a mente,

dia após dia causando mais danos

e eu, recusando-me a aceitar tais desenganos,

era contigo que me revoltava, mãe.

Que foi feito de ti mãe outrora tão sensata, inteligente?

Que foi feito da tua sensibilidade,

da tua coragem e força de vontade?

Porque te deixaste assim destruir, mãe?

Ficaram as fotos, a recordação,

tanto vazio no meu coração,

tantas lembranças, algumas em bocados.

Como herança deixaste o bastidor,

as partituras, as receitas, os bordados.

Ficaram sentimentos de culpa e muita dor.

Por dizer ficou ainda tanto amor



Memória serena

Ali, naquele sofá de couro, está uma memória sentada.

Não é fantasma, é memória,

doce e serena como a luz do luar,

como o rio que desliza mansamente para o mar.

A mão, já enrugada, pousa no braço do sofá de couro,

lá onde está marcada a mão real, tantas vezes pousada.

Doce é o sorriso, profundo o olhar.

Na gola do casaco imaginado,

um alfinete de ouro com o nome gravado.

Ali, na memória sentada no sofá de couro.

Incluo duas obras de arte dedicadas à Mãe


Afecto de Augusto Higa - Museu de Arte do Parlamento de São Paulo

"Espera" Lúcia Crestana - Museu de Arte do Parlamento de São Paulo



E, finalmente, a Mãe  na obra de Gustave Klimt