Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 4 de julho de 2010

Porto sentido...

No dia 29 de Junho encerrou, no espaço Vivacidade, a exposição “PortoGrafia” de Pedro Freire de Almeida composta por 20 ilustrações do Porto que, partindo da fotografia, dão origem a um texto (que acompanha cada ilustração), levando o "espectador" pelas ruas da cidade antiga. Concebido originalmente para o blogue Imago Mundi, sua transcrição do mundo virtual para o real ganha em visibilidade e consistência, mantendo a ambição original: um roteiro de percursos esquecidos para que o caminhante se perca e não volte. Ou, se regressar, regresse diferente do que era à partida

Na altura não tive oportunidade de falar sobre a exposição, belíssima, aliás. Mas há dias, atravessando a pé o tabuleiro superior da ponte de D. Luís, o que já não fazia há muitos anos, perante o espectáculo deslumbrante que se oferecia aos meus olhos, com as pontes que se insinuavam perante a neblina, com o casario espelhado no rio, muitas das imagens da exposição começaram a afluir-me à mente envolvidas pelo Porto Sentido do Rui Veloso

E as estas imagens visuais e sonoras começaram a associar-se outras, nomeadamente aguarelas de António Cruz  e obras mais recentes como as de Abreu Pessegueiro



Vieram-me também à mente vários poemas sobre o Porto. Incluo dois, porventura menos conhecidos. Da autoria de Jorge Sousa Braga estão publicados no seu livro Porto de Abrigo

É esta a cidade que o destino


te reservou. Uma cidade de


gente dura cuja maior


extravagância é um vaso


de sardinheiras na janela


de um ou outro edifício.


Tinhas sonhado com uma cidade branca mais a sul…


Esta cidade não é uma cidade é um vício


Pérgola


Assim despida rente ao mar


só de longe em longe se


vêm enredar em cada uma


das suas colunas as flores


brancas de espuma


Termino com três trabalhos meus: um poema, uma aguarela, e um acrílico

Miragem


Estou sentada no café do cais


aqui na Ribeira junto ao rio,


um passante segue pela rádio o desafio,


e, ao meu lado, uma jovem enlevada


olha com o olhar perdido a outra margem,


enquanto um casal recorda uma viagem.


Os demais conversam sobre tudo.


Aqui e além falares dispersos.


Aqueles ali creio que falam eslavo


e conversam com um ar muito sisudo


Na minha mesa está pousado um cravo


e o livro que ando a ler "Primeiros versos"


Não me apetece ler, de enamorada


que fico ao olhar esta paisagem


mista de sonho e de realidade,


nem sei se ela existe ou se é miragem.


Do outro lado, as caves imponentes;


atravesso a ponte e já me encontro em Gaia,


na vila nova que agora é cidade.


Vejo o Douro, os barcos rio acima


levam turistas e passam indolentes,


vejo as fachadas de granito, e bem por cima


ameaçando chuva o céu cinzento.


Um ar frio perpassa-me, é o vento


o tal a que chamam de nortada.


Regresso e inicio uma viagem,


entro num carro eléctrico, na paragem


e aí vou eu vagueando com o olhar,


S. Francisco, S. Pedro em Miragaia,


a Alfândega, Massarelos , vários cais.


O eléctrico avança um pouco mais


e do outro lado já vejo o Cabedelo,


o rio encontrou o Oceano, entrou no mar.


Difusos através da bruma,


uma traineira, um navio parado,


que para entrar na barra ao largo aguarda.


enquanto o mar se agita e regurgita espuma.


A difusão da luz torna tudo mais belo,


mas o meu passeio vai findar, não tarda.


O meu corpo está enregelado


e o vento desalinha-me o cabelo.


É quase noite, urge regressar


mas é difícil ter que abandonar


estas paisagens de bruma e de granito.


Não sei se adivinhando o meu pensar


uma gaivota solta um pio, aflito.



4 comentários:

  1. Esta tua entrada sobre a cidade mais romântica que conheço é ela própria um hino soberbo ao Porto. Como sabes, não sou de cá, como tu não és, mas estou apaixonada pela beleza misteriosa azul-acizentada, - as tuas pinturas expressam de uma forma estética muito bela as cores predominantes das casas e do rio - que me cativa sempre que saio, desço à Ribeira, vou ao lado de lá a Gaia ou me esqueço nas ondas da Foz.
    Não me canso de dizer que esta é um cidade única, não pela riqueza arquitectónica ( que existe), mas pela sua peculiaridade, a sua localização geográfica, a sua História, a Vida quotidiana, os sentimentos que transmite, as imagens que nos oferece.
    O teu poema merecia ser musicado por alguém que soubesse transportá-lo para um patamar ainda mais místico.

    É bom começar o Domingo a ler estas linhas.

    Obrigada, Regina, de quem já tudo espero, mas que me surpreende em cada dia que por aqui passo.

    Abraço grande

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  2. É quase meio dia e acabo de acordar... Resolvi vir ao blogue. Embora tarde, não podia começar melhor o dia...
    De facto, tenho viajado por quese toda a Europa com pequenas incursões em África e na América Latina. Considero que a cidade do Porto tem uma mística, que não se encontra facilmente em outras cidades
    Obrigada pelos teus comentários que a amizade empolga sempre um pouco...
    Bjs
    Regina

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  3. Olá Regina. Mais um lindo post. O Porto é de facto uma cidade linda, cheia de História que até muitos portuenses (eu incluída) conhecem mal. Mas a leitura do seu poema e as suas aguarelas despertam em nós um dese jo imenso de a visitar com a atenção e o carinho que ela merece. Por isso eu, para o próximo ano lectivo, vou frequentar as aulas de"Conhecer o Porto Contemporâneo", se tudo correr bem entretanto. E sabe uma coisa? A sua falta vai ser muito sentida na UPP. Até eu, se a Regina continuasse , voltava a frequentar a Física, até porque sou trirepetente.
    Um grande abraço de muita amizade e consideração.

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  4. Obrigada pelo seu comentário.Também tenho pena de deixar a UPP mas reconheço que não consigo conciliar tudo e isso causa-me muito stress. Mas irei aparecendo
    Bjs
    Regina

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