Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 8 de maio de 2010

Minha pátria é a língua portuguesa- Parte 1

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Fernando Pessoa(Bernardo Soares) em Livro do Desassossego



Gosto de desafios mas conheço as minhas limitações. Desafiada para orientar uma oficina de escrita, a minha resposta foi obviamente não.
Uma coisa é escrever e ter obra publicada, outra coisa é ter um conhecimento aprofundado da língua portuguesa o que eu, licenciada em Físico-Químicas, não tenho. Surgiu então a ideia de uma co-orientação, com a Arminda Durão, que sabia ser uma professora de português muito competente com experiência em trabalhar com adultos. Resolvemos conjuntamente aceitar o desafio. Dada a sua pequena duração, planeámos a oficina em torno da poesia e do conto, tentando dar visões de diferentes autores contemporâneos, de Torga a Carlos Vaz, passando por Mia Couto e Rosa Lobato Faria, de Pessoa a Eugénio de Andrade passando por Gedeão e Ana Luísa Amaral.


A oficina decorreu no espaço Vivacidade um espaço muito interessante, dedicado à cultura e que acaba de festejar o seu primeiro aniversário
Para mim a experiência da oficina foi muito enriquecedora Aprendi coisas novas, quer com a Arminda, quer nas pesquisas que fiz para co- preparar a oficina, quer ainda nos debates que se geraram nas aulas. O ambiente criado foi excelente e o feed-back que nos chegou dos participantes foi encorajador embora haja necessariamente aspectos a melhorar. Creio que todos saímos mais enriquecidos.
Vou fazer uma breve síntese dessa oficina. Reservei a primeira parte para Fernando Pessoa

Aqui ficam alguns textos e entrevistas que explorámos:


Iniciei com um teto de Bernardo Soares. Incluem-se agora quatro poemas:
  • Mostrengo de Fernando Pessoa
  • Aniversário de Álvaro de Campos
  • Poema do Menino Jesus de Alberto Caeiro
  • um poema de Ricardo Reis

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis



Num próximo texto referir-me-ei de novo à oficina Minha pátria é a língua portuguesa.

2 comentários:

  1. Regina tenho ou não razão em considerá-la excelente?
    Desculpe esta repetição constante mas sempre que me deparo com qualqur coisa em que intervenha fico, de imediato, com essa sensação.

    Um beijo muito amigo.

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  2. Sempre gostei de escrever...em Português, apesar de ter estudado francês, desde os oito anos de idade, Inglês desde os quatro e alemão depois dos 16 anos.
    A minha língua é o Português, muito embora não aprecie mais a cultura portuguesa do que a francesa ou a inglesa ou mesmo a alemã.
    Também me custa dar erros e ver erros nos jornais, nas revistas, nos folhetos de publicidade, nos blogues, etc. Mas reconheço que com os computadores, as coisas pioraram. Quando uso o meu laptop, faço sempre gralhas pois não vejo bem as letras. Não desculpo erros em cartas, por exemplo, mesmo em mails, acho que as pessoas devem reler o que escrevem, antes de enviar.
    A Oficina da Escrita teria sido aliciante para mim, tivera eu tempo para me dedicar a tantas coisas. Sempre gostei de Literatura, de Teoria da mesma e também de dissecar poemas, prosa, contos ou romances. A minha paixão na Universidade era mesmo a literatura e fiz tese de licenciatura sobre um romancista inglês, Graham Greene. Leio mais em inglês que em português, talvez porque detesto as traduções e não sinto grande apelo pelas obras portuguesas, romances, etc.
    Parabéns , Regina e Arminda, minhas colegas de Escola, por mais um feito na Vivacidade. Qualquer dia teremos de ajudá-los a esticar as paredes para que se possam organizar ainda mais actividades, tal é a procura e a simpatia e acolhimento prestados.
    Bom Domingo!

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