Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

NOVO BLOGUE

Retomei o blogue que já não usava há anos.

https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/

Dedico-o essencialmente aos mais novos mas todos serão bem vindos, muito em particular pais, avós, encarregados de educação, educadores ...


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Um novo “périplo” pelas escolas.

No dia 8 de Junho, a convite do Agrupamento de Escolas de Mondim de Basto, fui àquela vila estar com várias crianças do 1º ciclo e respectivos professores.

O acesso a Mondim não é dos mais fáceis. Optei por ir de autocarro até Amarante. Aí, esperava-me o responsável pela Biblioteca da Câmara de Mondim que me conduziu até à vila. Mantivemos uma conversa muito interessante sobre o funcionamento de bibliotecas em outros países, nomeadamente no Reino Unido onde estudou, funcionamento que gostaria de implementar na referida Biblioteca onde, aliás, a sessão decorreu. Todo o espaço é muito bonito.

Aguardavam-me o Presidente da Assembleia Municipal, o Presidente da Junta, professores e alunos, nomeadamente a Professora Amélia Machado que me propusera a ida, em nome do referido Agrupamento.

Desde o início do ano os professores vinham desenvolvendo um projecto centrado no poema “Era uma vez…o Mar “ (in Era uma vez…ciência e poesia no reino da fantasia ). Logo à entrada decorria uma exposição com inúmeros trabalhos das crianças, sempre sob o tema mar. Como me esqueci de levar a máquina fotográfica não fiquei com registos e tenho pena pois havia trabalhos interessantíssimos

Estive com cerca de 300 alunos em 4 sessões, em que “a ciência e a poesia andaram de mãos dadas”. Leram-se poemas, fizeram-se algumas experiências

Os alunos, muitos deles vindos de povoações do concelho, receberam-me com uma série de surpresas. Duas encenações criadas a partir do texto, leitura de poemas e a oferta de um livro feito por alunos do 4º ano de uma das escolas, com poemas sobre o mar, todos eles muito interessantes.



Na impossibilidade de reproduzir todos os poemas reproduzo excertos de alguns.

(…)O mar é uma flor

A flor do oceano

O oceano de cor

Durante todo o ano(…)



(…)Mar, mar, mar.

É tão bom nadar

Nele navegar

E desfrutar(…)



(…) Avistei ao longe

uma bela paisagem

Era o mar

que estava de viagem(…)



O mar é lindo

E cheio de mistérios

Lá os peixes vão dormindo

junto dos rochedos sérios(…)



(…)Azul e verde são

As cores do mar

Banham as areias

Com carinho para dar(…)


Apesar do elevado número de alunos por sessão, os alunos portaram-se de forma exemplar. Do que me apercebi, para alguns, estar em presença dum escritor era algo completamente novo. Mas não só. Foi evidente o empenho com que a maior parte dos professores se envolveu no projecto.

No fim os alunos quiseram autógrafos, não só para eles como para os pais, os irmãos, os amigos, etc

Tendo trabalhado durante 39 anos com alunos mais crescidos, não tinha experiência com crianças tão pequenas mas desde que voluntariamente comecei a trabalhar em Bibliotecas e Escolas, a experiência com estes níveis etários ( e não só) tem sido muito gratificante.

No dia 9 fui a Torres Novas a propósito do livro Ciência para meninos em poemas pequeninos. Fui de Intercidades até ao entroncamento onde a professora bibliotecária me aguardava para me levar até à Escola Artur Gonçalves em Torres Novas

Aí, além de professores a e alunos, estavam também representando a Editora Gatafunho, a Ana Paula Faria e a Clementina. Tive um encontro com turmas de 6º ano. Como habitualmente aliei a ciência à poesia.Os professores, tendo-se empenhado no projecto, estavam um pouco tristes com o desempenho de alguns alunos. Talvez por estarem mais habituados a receber escritores o interesse de alguns foi reduzido, embora tivesse havido alguns muito interessados.

Mais uma vez me esqueci da máquina fotográfica mas em contrapartida fui fotografada para constar num “dossier” da escola com fotos dos escritores que por ali passam.

Ontem , 15 de Junho fui ao Agrupamento de Escolas de Escariz, onde já tinha estado há três anos, tal como agora, com alunos de 6º ano.

O convite partiu da professora bibliotecária Ester Pinho que me veio buscar e trazer. O seu dinamismo é espantoso, como já constatara anteriormente .
Logo de início fui brindada com uma intervenção de alunos do 6º ano lendo poemas do “Herbário” de Jorge Sousa Braga. No âmbito do Ano da Biodiversidade os alunos tinham participado numa exposição cujo cartaz foi construído com palavras/frases deles alusivas ao evento e que no seu conjunto desenham um búzio







Entre os alunos que leram os poemas, encontravam-se duas alunas de 9ºano que tinham estado presentes na sessão de há três anos .

Seguiu-se a minha intervenção nos moldes habituais ( ciência e poesia de mãos dadas).No fim os alunos leram poemas que tinham feito e ilustrado a partir de um desafio. Quer professores quer alunos, apenas conheciam os títulos dos poemas que constam no livro. E foi só com base nos títulos que construíram as suas ilustrações e poemas.

Ofereceram-me esses poemas ilustrados e eu pedi que mos autografassem. Desta vez inverteram-se os papéis.

Por fim estive à conversa com vários professores e pensei mais uma vez o quão mal tem sido tratada a classe docente. Sei que há, como em todas as profissões, gente que não dignifica a função, mas em contrapartida há professores duma dedicação, dum entusiasmo que tornam possível que eu ainda acredite na construção de um mundo melhor.

Deixo-vos com algumas fotos da sessão em Escariz

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Até onde chega a falta de solidariedade neste mundo da globalização…

O texto que coloquei ontem sugeriu-me este que aqui deixo. Há uns anos, a Areal Editores pediu-me para escrever um capítulo sobre electrónica (unidade opcional) para um livro escolar de Física e Química de 9º ano. Convidada que fui algumas vezes para escrever livros escolares, nunca aceitei porque tenho do livro escolar uma concepção bastante diferente daquilo que é habitual fazer. Naquele caso, como se tratava só de um capítulo e me davam liberdade para fazer como eu quisesse, aceitei com a condição do meu nome não figurar na capa, apenas no capítulo. Passados uns anos, com a mudança de programas, o livro deixou de ter sentido. Recebi então uma carta da editora perguntando-me se estava interessada em adquirir os livros sobrantes a um preço mais módico pois caso contrário seriam queimados. Obviamente que não tinha qualquer interesse na proposta e sugeri que em vez de os queimarem os entregassem a uma obra qualquer, nomeadamente de apoio aos países das ex-colónias. Responderam-me que não estava previsto tal procedimento.


Creio que hoje a editora em causa (agora pertencente ao grupo Porto Editora) bem como as demais não queimam, guilhotinam.

Quando recebo pedidos de livros usados, mesmo em mau estado, vindos de organizações de apoio a Timor, Angola, Guiné, Moçambique, etc, sinto uma revolta imensa.


Alguém me disse que os livros não podem ser enviados por razões burocráticas, entre elas a existência dos direitos de autor. Não acredito que exista algum autor que prefira ver os seus livros guilhotinados a abdicar dos direitos de autor sobre esses exemplares.

Haverá por certo outras burocracias ( Portugal hoje é mais um país de burocracia do que um país de democracia ) mas por certo seriam facilmente resolúveis se a solidariedade não fosse hoje uma palavra tão vã nesta era da globalização

A terminar recordo um concerto de solidariedade com Timor Leste e a criação do Museus de Solidarieddae Salvador Allende



 A história do nosso planeta mostra-nos que, por vezes, o espírito de solidariedade venceu longas distâncias, uniu pessoas desconhecidas e proporcionou a existência de humanidade. E foram nesses momentos - infelizmente poucos - que surgiram algumas das mais importantes manifestações de felicidade colectiva, permitindo-nos acreditar na realização de sonhos. Um bom exemplo disso nasceu na mente e floresceu no coração de um homem que acreditava num mundo melhor e mais justo para todos. E que, com este pensamento, ajudado por outros entusiastas, criou um museu de arte para o seu povo. Porque a cultura é garantia de liberdade, independência e desenvolvimento, Salvador Allende, ao sonhar grande e merecer a solidariedade internacional, recebeu doações de obras de arte que chegaram - como coloridas pombas de paz -, vindas de vários países. Assim nasceu, em Maio de 1972, o Museu de Solidariedade do Chile. Um acto de respeito ao próximo que contou com a adesão espontânea de críticos, coleccionadores, intelectuais e artistas plásticos de várias partes do mundo, inclusive do Brasil.

Talvez estes exemplos nos façam reflectir um pouco sobre este mundo por vezes tão pouco solidário

domingo, 13 de junho de 2010

William Kamkwamba

William Kamkwamba é o nome de um menino, hoje homem, cuja história é surprendente. Recebi-a por e-mail e achei que devia partilhá-la.  Mantenho o texto na versão brasileira, mas com algumas adaptações

Escondido entre Zâmbia, Tanzânia e Moçambique, o Malauí é um país rural com 15 milhões de habitantes. A três horas de carro da capital Lilongwe, a vila de Wimbe vê um garoto de 14 anos juntando entulho e madeira perto de casa. Até aí, novidade nenhuma para os moradores. A aparente brincadeira fica séria quando, dois meses depois, o menino ergue uma torre de cinco metros de altura. Roda de bicicleta, peças de tractor e canos de plástico se conectam no alto da estrutura e, de repente, o vento gira as pás. Ele conecta um fio, e uma lâmpada é acesa. O menino acaba de criar eletricidade






Depois de cinco anos, com ajuda daqueles que descobriram sua história, Kamkwamba voltou à escola.
"Conseguimos energia para quatro lâmpadas, e as pessoas começaram a vir carregar seus celulares", diz. No Malauí, a companhia telefônica se recusou a fornecer infraestrutura para as vilas, e as empresas de celulares chegaram com torres de transmissão e baratearam os aparelhos. Por isso, hoje há mais de um milhão de aparelhos celulares no país, uma média de oito para cada cem habitantes.

 "Bombear um poço significava irrigar. Meu pai podia ter duas colheitas por ano. Nunca mais passaríamos fome! Então decidi construir um daqueles moinhos." O primeiro moinho ganhou altura ( 12 metros ) e mais potência
O menino e a importância de suas descobertas cresceram.William Kamkwamba, agora com 22 anos, passou por duas instituições no Malauí, estudou durante as férias no Reino Unido e agora cursa o segundo ano da African Leadership Academy (instituição em Johannesburgo que reúne estudantes de 42 países) com o intuito de formar a próxima leva de líderes da África. Já foi convidado para talk shows, deu palestras no Fórum Econômico Mundial, tem site oficial, uma autobiografia - The Boy Who Harnessed the Wind (O Menino que Domou o Vento, ainda inédito no Brasil) - e um documentário a caminho. O pontapé de tamanho sucesso se deve a uma junção de miséria, dedicação, senso de oportunidade e uma oferta generosa de lixo.Apesar de não ter mudado em nada a sua humildade, o sucesso e as oportunidades de estudo tornaram mais ambiciosos os planos de Kamkuamba: "Quero voltar ao Malauí e botar energia barata e renovável nas vilas. E implementar bombas d'água em todas as cidades. Em vez de esperar o governo trazer a eletricidade, vamos construir moinhos de vento e fazê-la nós mesmos".


Escrito por William Kamkwamba em conjunto com o jornalista Bryan Mealer, The Boy Who Harnessed the Wind foi lançado em 29 de setembro nos EUA e ficou entre os dez mais da livraria virtual Amazon



ENTREVISTA

Conversamos com William Kamkwamba, o menino africano que construiu um moinho com lixo e dois livros de física      Ricardo santos // Foto: Tom Rielly

• Conte-me um pouco sobre você, William. Quando você nasceu, onde foi, como é sua família?

Nasci em 5 de agosto de 1987 em Dowa, no Malauí. Moro com seis irmãs, meu pai e minha mãe. Em uma família de garotas, você pode imaginar os problemas por que passei. Na escola, os garotos sempre implicavam comigo porque eu não tinha um irmão mais velho que me protegesse. De qualquer jeito, sobrevivi.

• Como é sua vida na vila onde mora, como são as condições de água, eletricidade. ..?

Moro na vila de Wimbe. É um lugar pequeno com uma grande estrada empoeirada e algumas lojas. Chamamos de Centro de Comércio. Há o barbeiro, o soldador, vários armazéns que vendem roupas e uma loja Farmer’s World, onde meu pai compra milho para plantar e fertilizante. Seguindo essa estrada, há a minha vizinhança, Masitala. A cidade grande mais próxima é Kasungu, com muitos habitantes, um grande supermercado e várias lojas. Para chegar até lá, tem que ir de carona, espremido por uma hora na caçamba de um caminhão. Só 2% da população rural do Malauí tem eletricidade e isso é um grande problema. E antes de eu conseguir perfurar um poço e providenciar água limpa para minha família, não havia água corrente por quase 100 km .
* Em 2000, o Malauí passou por uma seca terrível. Foi por isso que você teve de deixar a escola em 2002?
Sim. Essa seca fez faltar alimento em todo o país. Ninguém conseguia plantar o suficiente para comer. As pessoas começaram a passar fome. Muitos moradores aqui perto de Wimbe morreram de inanição. Causou a morte de mais de 10 mil malauianos. Meus vizinhos e minha família fomos forçados a cavar o solo para achar raízes e cascas de banana, qualquer coisa para forrar o estômago. A taxa para minha escola era 80 dólares por ano. Por causa da situação, meu pai não conseguia pagar, tive que parar de estudar com 14 anos.

* Como você se sentiu por estar fora da escola?

Era bem ruim. Se você não está estudando, quer dizer que vai ser fazendeiro. Eles não controlam a própria vida; dependem do sol, da chuva, do preço das sementes e do fertilizante. Quando saí da escola, olhei meu pai, aqueles campos ressecados e vi o resto de minha vida. Era um futuro que não podia aceitar.

* Foi aí que você começou a frequentar uma biblioteca perto da sua casa?

Sim. Era um lugar bem pequeno dentro de minha escola primária, a uns dois km de casa. Eu geralmente caminhava, ou ia de bicicleta. A biblioteca tinha três estantes cheias de livros doados pelos EUA, Reino Unido, Zâmbia e Zimbábue. Fui com a esperança de estudar por conta própria, para ficar no mesmo nível dos amigos que continuaram na escola. Comecei a ler livros de ciência, e isso mudou minha vida..

• Você construiu um moinho de vento a partir das explicações de um livro, sem nunca ter visto um. Como foi isso, e para que você queria um moinho?

No livro, “Explaining Physics”, entendi como funcionavam motores e geradores. Não lia inglês muito bem. Usei diagramas e fotos para associar as palavras, e assim aprender física básica. O outro livro que li chamava-se “Using energy”, tinha uma foto de um moinho de vento na capa. Dizia que moinhos podem bombear água e gerar eletricidade. Meu pai poderia irrigar a plantação, aumentar a colheita e nós nunca mais passaríamos fome! Por isso decidi construir um moinho. Não havia instruções, mas sabia que se um homem havia construído no livro, eu também conseguiria.

* Como você fez para arranjar as peças? Quanto tempo levou?

Fui a um ferro-velho perto de casa e encontrei vários pedaços de metal e uns canos de plástico. Mas vi que não tinha todas as peças para uma bomba-d’água, então procurei fazer um moinho que gerasse eletricidade. Quando me viam carregando os ferros, as pessoas achavam que eu estava louco. Me provocavam e diziam que eu estava fumando maconha. Mas não deixei que isso me incomodasse. Continuei. Meu primo, Geoffrey, e outro amigo, Gilbert, me ajudaram a construir. Ficou pronto em dois meses. Quando o vi funcionando, fiquei muito feliz. Finalmente as pessoas sabiam que eu não estava louco.
* Quanta energia gerava o moinho?

O gerador do moinho era um dínamo de bicicleta, produzia 12 volts. Era suficiente para acender uma lâmpada. Mais tarde, meu primo achou uma bateria de carro na estrada. Demos uma carga nela, e conseguimos energia para manter quatro lâmpadas e dois rádios. As pessoas faziam fila para carregar seus celulares. Os celulares estão em todo o lugar na África porque são baratos. Há poucos lugares onde a eletricidade chega - geralmente nos arredores das empresas estatais de tabaco - e algumas lojas cobram para as pessoas carregarem os celulares. Comigo era grátis.

* Depois que sua história se espalhou, você voltou a estudar. Como estão seus estudos?

Depois que eu fui à conferência do TED [organização sem fins lucrativos que promove conferências anuais para divulgar boas idéias] em Arusha, na Tanzânia, algumas pessoas se aproximaram e me ofereceram ajuda para voltar à escola. Primeiro frequentei um colégio cristão na capital. Agora estudo em Johannesburgo, na África do Sul, na African Leadership Academy, uma escola que pretende treinar a próxima geração de líderes do continente. Há 200 estudantes de 42 países diferentes da África.

* Agora que você viu que seu moinho não só ajudou sua família, mas gerou esperança em cima de energia elétrica e renovável, quais são seus próximos planos?

Depois de fazer faculdade, talvez nos EUA, quero voltar ao Malauí e descobrir maneiras de produzir energia barata e renovável nas vilas. Quero construir bombas-d’água de baixo custo e que possam ser operadas facilmente. E também colocar um moinho de vento em cada cidade do Malauí. Quando a companhia estatal de telefones se recusou a atender às vilas, as empresas particulares de telefonia celular chegaram com torres e agora todos têm celulares.
Nós simplesmente passamos por cima dessas companhias ineficientes. Espero fazer o mesmo com a energia no Malauí.. Em vez de esperar o governo levar eletricidade até as vilas por linhas de força, vamos construir moinhos de vento e gerá-la nós mesmos.


Após a recepção do texto pesquisei na NET e encontrei várias referência a William Kamkwamba. Deixo-vos com um filme muito breve

terça-feira, 8 de junho de 2010

A Lego mudou

Quando ofereço prendas a crianças, preocupo-me com o contributo que a prenda poderá ter ( segundo o meu critério, eventualmente ultrpassado), no desenvolvimento integral da criança. Daí as minhas opções passarem frequentemente por livros e jogos educativos, nomeadamente construções LEGO que considero dos "brinquedos" mais bem imaginados de todos os tempos .
Quando os meus filhos eram crianças vivi numa casa que tinha uma sala mais ou menos em  L. Parte dese L foi sendo progressivamente preenchido com uma cidade construída em LEGO com porto, marina, barcos, campo de aviação, escolas, hospitais, parques. Uma das coisas que hoje mais lamento é  não ter ficado com uma foto dessa cidade.Na NET encontrei uma que me recorda um pouco a outra
Agora, são os meus netos mais crescidos ( a Rita com oito anos e o Ju com quatro) que brincam com os Legos que os pais tanto usaram. E, apesar da diferença de idades,  interagem maravilhosamente na construção dos seus projectos
Este passeio pelo mundo dos LEGOS, surgiu na sequência de  um texto que o meu filho Nuno colocou no blog da Associação de Pais a que preside. Estou em plena sintonia com esse texto, do qual deixo alguns excertos
Os pais são sempre responsáveis pelo alcance dos horizontes dos filhos menores. São os pais que mantêm fechadas determinadas portas de conhecimento e que vão abrindo outras explicando ao filhos o que eles irão encontrar além da passagem (...)


São ainda poucos os casos graves de abuso de violência por parte de crianças emocionadas com a vivência prévia de videojogos violentos, mas existem. E em alguns países, certos jogos foram mesmo proíbidos, embora se tema pelo efeito contraproducente da criação de uma lei seca(..)
Isto vem tudo a propósito da presença de uma instalação da Lego no Shopping Bom Sucesso, no Porto; interessante pela mostra de construções, quer as das crianças que vão a visitando, quer a da divertida "cidade" pré-feita.

Mas também lá foram colocados dois postos de videojogos, com um jogo do Batman em ambiente Lego, acessível a crianças de todas as idades. O Batman é um "super-heroi" que como os restantes da classe tudo resolve sozinho beneficiando de alguma violência e de um mundo irreal de bons e maus. No caso deste videojogo, o problema, a meu ver, é bem pior, pois o jogo permite, pelo menos até onde deixei o meu filho jogar, atropelar outros "bonecos" ao volante de uma escavadora - ou seja, tal como acontece nos videojogos mais violentos! Claro que não se vêm jorros de sangue e claro que o boneco acaba por renascer pouco depois, mas o princípio da violência gratuita está lá; uma violência que surge sem qualquer incentivo ou necessidade - explora-se apenas a capacidade humana de se ser... desumano. A Lego mudou.

domingo, 6 de junho de 2010

Estética e ética

Por iniciativa da recém inaugurada Casa da Galeria de Santo Tirso, de que Domingos Loureiro ( meu professor de pintura) é consultor artístico, decorreu ontem uma visita guiada ao Museu Internacional de Escultura Contemporânea. Trata-se de um conjunto de mais de quarenta esculturas espalhadas pela cidade. Nesta primeira visita, guiada pelo Mestre Alberto Carneiro, vimos 23 obras de acordo com o “roteiro" anexo


Está prevista uma outra visita para ver as restantes obras

Alberto Carneiro foi o grande impulsionador da criação do Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso (MIEC), do qual é director artístico nacional. Criado oficialmente a 20 de Outubro de 1996, o Museu tem por base o espólio recebido dos simpósios internacionais de escultura contemporânea ao ar livre, realizados em Santo Tirso desde 1991.

Ao longo de toda a visita emergiu a concepção de “arte ecológica” que Alberto Carneiro defende:
Uma nuvem, uma árvore, uma flor, um punhado de terra situam-se no mesmo plano estético em que nos movemos, são parte integrante do nosso mundo, são um manancial de sensações vindas de todos os tempos, através de uma memória que tem a idade do homem. Não a pedra pelo seu lado externo, pela conversão dos seus valores formais, mas pelas qualidades do seu íntimo, pelo cosmos que está nela e o qual nos é dado a possuir na simplicidade da coisa que vive (Alberto Carneiro citado por Emília Pinto de Almeida em Alberto Carneiro. O ser do estar, Casa da Galeria)

Emergiu também a posição do escultor de que não concebe a estética desligada da ética
No museu figuram duas obras suas. Uma delas, da qual se apresentam duas fotos tiradas sob ângulos diferentes, tem por título "o barco, a montanha e a lua"





As pedras, que o escultor foi buscar ao monte Córdova, contam uma história. Para além das intervenções da natureza, revelam também a intervenção humana (marcas de brocas na  pedra mais atrás da primeira fotografia, de ferros utilizados para quebrar a rocha, pedra à direita na segunda foto ) para além de algumas intervenções do autor.
E isso transporta-me para um poema meu
O silêncio das pedras

Gosto do silêncio das pedras. Mudas, falam através de testemunhos,


de estratos e fissuras, de formas e de cor,


que permitem chegar ao seu passado de muitos milhões de anos-


aos ventos que as fustigaram, às águas que as arrastaram,


às elevadas pressões e temperaturas a que se sujeitaram


na epopeia da sua formação.


Gosto do silêncio das pedras que, mudas, conservam na memória


os seres vivos com quem coabitaram dos ínfimos aos poderosos,


passando pelos humanos que ao longo de toda a história


tantas vezes as moldaram com lágrimas e com suor.


Gosto do silêncio das pedras tantas vezes pisadas no chão,


pedras que não choram, ao contrário dos meus olhos desditosos


que nelas se demoram.


Insistem as lágrimas em escorrer pelo rosto


Cerro os punhos tentando esmagar o meu desgosto


já que o coração, amargurado, mudo como as pedras


não encontra outra forma de falar.
Regina Gouveia


Mas regressemos à visita. No site do Museu poderão "visitar-se" outras obras. Pessoalmente gostei muito de uma do escultor Zulmiro de Carvalho , um bloco de granito um puco informe, com um paralelepípedo de bronze encastrado.


Após a visita onde pude apreciar grandes Obras (com O maiúsculo), regressei ao Porto, ainda a tempo de passar pela galeria do Café Majestic onde tenho uma obra (com o muito minúsculo) integrada numa exposição promovida pelo Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do BPI

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Por outras palavras

O título deste texto é o mesmo de uma rubrica que Manuel António Pina mantém no JN. E é com um texto seu, extraordinariamente interessante e oportuno como são todos os seus textos, que inicio o meu...


Os novos pobres

A crise quando chega toca a todos, e eu já não sei se hei-de ter pena dos milhares de homens e mulheres que, por esse país, fora, todos os dias ficam sem emprego se dos infelizes gestores do BCP que, por iniciativa de alguns accionistas, poderão vir a ter o seu ganha-pão drasticamente reduzido em 50%, ou mesmo a ver extintos, por assim dizer, os seus postos de trabalho.
A triste notícia vem no DN: o presidente do Conselho Geral e de Supervisão daquele banco arrisca-se a deixar de cobrar 90 000 euros por cada reunião a que se digna estar presente e passar a receber só 45 000; por sua vez, o vice-presidente, que ganha 290 000 anuais, poderá ter que contentar-se com 145 000; e os nove vogais verão o seu salário de miséria (150 000 euros, fora as alcavalas) reduzido a 25% do do presidente. Ou seja, o BCP prepara-se para gerar 11 novos pobres, atirando ainda para o desemprego com um número indeterminado de membros do seu distinto Conselho Superior. Aconselha a prudência que o Banco Alimentar contra a Fome comece a reforçar os "stocks" de caviar e Veuve Clicquot, pois esta gente está habituada a comer bem.
(Manuel António Pina)

Recordo frequentemente um conselho da minha mãe: Não te preocupes com a opinião dos outros. Lembra-te da fábula " O velho, o rapaz e o burro". Preocupa-te,  sim,  com a tua consciência
Será que estes senhores não sentem um peso na consciência? Provavelmente não pois falta-lhes precisamente a consciência .Tivesse eu o engenho e a arte de M.Pina para denunciar estas asquerosas discrepâncias e, infelizmente,  não precisaria de outro tema para colocar neste blog.
Tal como Manuel Alegre eu não sou nenhum Buíça, com trovas entro na liça
Mas também aqui me faltam o engenho e a arte de M.Alegre.

Mesmo assim aqui deixo algumas das minhas “armas”…

Amazónia

A floresta Amazónica é o pulmão do mundo


e, segundo a segundo, está a desaparecer,


porque homens, sem qualquer ideal,

para além do vil metal,


a mandam abater.


Rancorosos, brutais,


mandaram abater o Chico Mendes e outros mais,


só porque eles não queriam ver


a Amazónia desaparecer.


A Amazónia é o pulmão do mundo,


a Amazónia não pode morrer.


A Amazónia é o pulmão do mundo,


a Amazónia não pode morrer.


A Amazónia é o pulmão do mundo,


a Amazónia não pode morrer.
(in Reflexões e Interferências)

Mole

Se me falam em mole, por associação,


posso pensar em macio, em massa informe,


mas posso pensar em rígido, isso conforme


pensar no significado ou na oposição.


Mas estranho é falar de mole como quantidade,


a que corresponde aquela enormidade,


seis vezes dez elevado a vinte e três.


É estranho ou esotérico talvez,


mas é assim que o nosso mundo é feito.


Não deixaria ninguém satisfeito uma mole de pão


já que nos esmagaria e, de tal jeito,


nem poderíamos morrer de indigestão.


Mas se ao mundo chegasse uma mole de amor,


por certo o mundo desabrocharia em flor.


A exploração, a xenofobia,


a guerra, a fome, tudo acabaria


e um novo mundo, então, começaria.
(in Reflexões e Interferências)


 
Hipocrisia


Lactarius deliciosus

Não sei se foi Lineu quem o nome lhes deu.

Eu, no meio do pinhal,

com gestos suaves, subtis,


vou-as colhendo uma a uma.


São as sanchas, frágeis, delicadas,


como que envergonhadas,


por baixo da caruma.


Chapéu e pé em tom alaranjado,


já em pequenina, a medo, eu as colhia


pois sabia que mesmo ali ao lado,


outros cogumelos, alguns muito mais belos,


teciam seus ardis.


Insidiosos, perigosos,


escondem em si a muscarina, a psilocibina,


tanta, tanta toxina, tantas vezes fatal.


Tal qual a hipocrisia nos humanos,


desumanos, antes eu diria,


que enchem a boca com a democracia


e a globalização, visando um mundo novo,


enquanto vendem armas para matar o povo


que subjugam pela exploração.


In Magnetismo Terrestre


Dissonância

Pego na palavra sinfonia e faço-a ressoar.


Faço-a rimar com fantasia, com alegria.


Pego na palavra dança e faço-a voltear.


Faço-a rimar com esperança, com criança.


Mas eis que o som sai desafinado, e na dança um passo é trocado.


E sinfonia e dança rimam com horror,


e criança passa a rimar com dor.


E vêm-me à memória barbaridades da história,


escravatura, exploração, campos de concentração,


Hiroshima, Bhopall, Chernobill, os meninos da rua no Brasil,


a prostituição infantil, a pedofilia,


barbaridades com e sem nome, crianças com fome, com leucemia.


Tapo os ouvidos e bloqueio todos os sentidos.


Não quero mais sentir tal sinfonia.
(ainda não publicado)

Amazónia II


Crescem crateras no pulmão do mundo.


Para alguns a riqueza desmedida,


para muitos a fome imerecida.

(ainda não publicado)

A terminar, Vinicius de Moraes na voz de Mário ViegasZé Afonso e  fotografias de Sebastião Salgado



Nota
Hoje, no blog De Rerum Natura (ver a minha lista de blogues) Carlos Fiolhais coloca um texto que vale a pena ler (como aliás todos os seus textos) e que tem por título Só e mal acompanhado

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O vestido da comunhão

Ontem ao deitar-me e quando ia preparar o despertador para as 7,30 (à quinta feira dedico a manhã ao voluntariado no HGSA) lembrei-me que não teria que me levantar cedo pois era dia Corpo de Deus

Tentei investigar o significado do Dia:
Assinala-se hoje a solenidade do Corpo de Deus, uma festa antiga que quer acentuar a centralidade da eucaristia na vida da Igreja e na espiritualidade dos cristãos.

Fui assim, sem querer, reportada para a festa da minha comunhão, lá no meu Nordeste, em data que não recordo; sei apenas que coincidiu com a Primeira Missa do Padre José Francisco da Fonseca Almeida cuja família, vizinha da casa dos meus avós ( que eu não conheci) me mimava e cobria de múltiplos carinhos e afectos. Ainda resta um elemento dessa família, a irmã mais nova do Padre Zé. Recordo ainda que, por causa da referida Missa, esteve na aldeia o Padre Grilo, já muito velhinho

Mas regressemos à comunhão. O vestido em seda natural, foi feito e bordado pela minha mãe que posteriormente o ofereceu à Igreja a fim de  poder servir a outras crianças mais desfavorecidas. O conto que segue, é a estória da história que vivi em 2005

O vestido da comunhão


….Se o tempo é longe ou perto


Em que isso se passou


Não sei dizer ao certo


Que nem sei o que sou


Sei só que me hoje agrada


Rever essa visão


Sei que não vejo nada


Senão o coração

Fernando Pessoa

Há quantos anos Luísa não ia à festa da terra lá no santuário, junto ao rio? Há tantos que já lhe perdera a conta. Por certo há mais de quarenta. Da última vez que ali fora era ainda solteira e para o ser….. Hoje é avó…
Também nesse ano não contava ir. Mas as primas desafiaram-na e lá foi. Foram a pé, não pelo velho caminho, sinuoso, contornando a ladeira, pleno de odores silvestres, delimitado de onde em onde por muros de xisto centenários, mas pela estrada de terra batida por onde se circula agora.
Outrora, pelos velhos caminhos, calmamente, a pé ou em cima das montadas, as gentes daquém e dalém rio iam descendo as encostas até à capela. Os dalém rio atravessavam-no no vau pois no Verão ali vai quase seco. Hoje circula-se em estradas de terra batida, em veículos motorizados que deixam uma nuvem de pó à sua passagem..
Pareceu-lhe haver muito menos gente que noutros tempos mas garantem-lhe que não. Os seus olhos de há quarenta e tal anos é que eram outros….Também a devoção lhe pareceu menor tal como o número de clérigos que preside às cerimónias religiosas. Mas também aqui tudo pode ser uma questão de perspectiva.
No recinto da festa, onde outrora se viam machos e outras montadas dispersas pela encosta, vêem-se agora carros dispostos aleatoriamente, inclusive no percurso da procissão, acompanhada por uma banda de música. Não três como noutros tempos.
Os cânticos, cujas letras parecem não ter mudado, estão agora embrulhados noutras músicas. Não mais Mozart , Gounod, Bach, Dvorak ou Schubert. Agora é geralmente música ligeira a que incorpora as letras dos cânticos religiosos.
As merendas, após a procissão, também perderam o seu encanto. Não mais o lauto farnel onde não faltavam os bolinhos de bacalhau, os peixes do rio, o frango assado, o presunto, o salpicão, o pão caseiro, as azeitonas, o vinho. Agora, nas várias bancas que para o efeito existem, come-se um frango assado, uma bifana ou um cachorro, acompanhados de cerveja ou coca-cola. E à sobremesa, não mais a deliciosa talhada de melão. Um gelado acabado de sair da máquina, carregado de antioxidantes, conservantes, espessantes, parece fazer as delícias dos mais novos e até de alguns mais velhos. E há ainda quem se meta no carro e vá jantar à vila para depois regressar para o arraial.
Noutros tempos a escuridão da noite aprisionava os romeiros até ao nascer do dia pelo que, enquanto uns iam circulavam no recinto em amena cavaqueira, outros dançavam ou tentavam a sorte na quermesse, outros rezavam recolhidos na capela e outros ainda iam dormitando aqui e além. De vez em quando lá vinha mais uma descarga de fogo para deleite do olhar. E quando os morteiros acabavam de ribombar, tudo voltava ao que fora interrompido.
No arraial, não mais o despique entre as bandas. Eram três noutros tempos, cada uma em seu coreto. Estes têm agora outra função. Servem para acampar os poucos que ainda mantêm a tradição da merenda . Em vez das bandas, apenas o ensurdecedor ruído dos conjuntos que tornam impossível uma conversa. Os tempos são outros tal como os sons que atordoam o ar…
Também não se ouvem os foguetes. Os incêndios, que durante o Verão por todo o lado grassam, aconselham precaução.
E foi neste contexto em que nada parecia igual ao que fora antes, que Luísa de repente estremeceu. Estava junto à capela quando, a correr, passa uma criança vestida de anjo, para incorporar a procissão. Luísa conhecia aquele vestido, todo em seda natural. Fora o vestido da sua comunhão, precisamente há cinquenta anos. Lembrou-se então que a mãe o oferecera à igreja.
E tudo recuou no tempo….
A catequese diária, como preparação para a comunhão, a primeira confissão, o receio de tocar a hóstia com os dentes, o vestido. Acima de tudo o vestido e as várias provas que frequentemente vinham desviar Luísa da brincadeira. Tanta prova… Depois a mãe, pacientemente, com a seda esticada no bastidor ia bordando todas aqueles raminhos de flores. Durante quanto tempo a mãe bordou o vestido? O vestido, o chapéu do qual pendia o véu, e a bolsinha presa na cintura. Esses já não constavam na indumentária da menina vestida de anjo. Que sumiço teriam levado? E Luísa recorda a mãe a colocar a entretela na aba do chapéu para lhe dar consistência. E ao serão, à luz do petromax, enquanto nas mãos da mãe a obra ia crescendo o pai ia contando histórias doutros tempos em que a sua avó criava bichos da seda. E falava nas amoreiras que existiam por todo o lado.
No tempo em que Luísa andava na escola, no terreiro da mesma havia várias. A escola mudou de sítio e as amoreiras já não existem. A criação de bichos da seda há muito que perdeu toda a importância na região. A testemunhar essa perda de importância aí estão, não muito longe, as ruínas do Real Filatório. Mas Luísa ainda se lembra da tia Laurinda criar bichos da seda., alimentando-os com folhas de amoreira. Lembra-se dos casulos. Pareciam pequenos ovos amarelados donde, se não fosse a interferência humana, sairia uma pequena borboleta.
E recorda o pai, descrevendo todo o processo. Os casulos eram mergulhados em um recipiente com água quente, para matar a crisálida. E depois era desmanchar o trabalho que o bicho da seda fizera com tanta mestria, ou seja, desenrolar o fio que estava enrolado no casulo e voltar a enrolá-lo em meadas que posteriormente iriam ser lavadas. Só então o fio iria ser tecido num tear. Por cada peça de seda, a morte de milhares de insectos.
Luísa sabe que a bisavó, tal como os demais criadores da aldeia, vendiam os casulos pelo que a seda do seu vestido não saiu directamente das mãos da bisavó nem das da tia Laurinda . Provavelmente veio do Oriente onde a seda sempre se produziu e continua a produzir em grande escala . E Luísa recorda a rota da seda, as aulas de História …
Mas acima de tudo vai recordando, ao pormenor, o dia da sua comunhão. O vestido ficara um deslumbramento. Toda a gente o queria ver. E os acessórios? O chapéu, o véu, a bolsinha, as luvas de renda que fizera a tia Cândida, os sapatos de camurça branca que o pai trouxera do Porto, o pequeno terço dentro duma caixinha, ambos em filigrana dourada. Foi a tia Maria do Carmo quem lhos ofereceu, para o efeito. Estão hoje na vitrina da sala, juntamente com as luvas..
Luísa revê mentalmente as fotos do acontecimento. Numa delas lê uma poesia que o pai escrevera.
No fim da cerimónia foi a festa que a mãe preparou e para a qual foram convidados todos os meninos da escola, os que fizeram a comunhão nesse mesmo dia e todos os outros, desde o mais pobre ao mais rico. Luísa recorda como foi bonita a festa….
Parecia que tudo estava a acontecer ali naquele momento.
A menina vestida de anjo olhava, um pouco intrigada, as lágrimas que corriam pelo rosto de Luísa. Foi então que Luísa, já um pouco refeita da emoção, perguntou:
Com o te chamas?
 Débora, respondeu a menina. (Também os nomes já não são os mesmos)

E então Luísa explicou a Débora que há cinquenta anos, fora ela a usar aquele vestido.
Na sua máquina digital tirou uma fotografia de Débora e ao chegar a casa confrontou-a com as velhas fotografias tiradas com a máquina de fole do pai. O vestido já perdeu um pouco a graça As mangas, outrora compridas, são agora curtas. Talvez estivessem já um pouco delidas. Também Débora é mais alta que Luísa à data da comunhão, por isso o vestido não chega aos pés.
E Luísa vai olhando uma a uma as várias fotos. Lá está aquela em que Luísa, figura central, lê a poesia. Ao lado, mas ligeiramente atrás, a mãe. Apesar de ser uma foto a preto e branco Luísa consegue reconhecer, na sua indumentária, a cor castanha do vestido e do chapéu. Sim, porque esse dia foi tão solene que a mãe usou chapéu…

Nota


O local da festa a que alude o conto  tem sido ultimamente referido pelos órgão de comunicação a propósito da barragem do Sabor. O santuário, mandado construir pelos Távoras em honra de Santo Antão (Santo Antão da Barca) irá ficar debaixo de água, mas vais ser transferido para um local um pouco mais acima, junto à albufeira, continuando junto à água. Já não haverá barca para transitar de um lado para outro, mas há muito que a mesma já não existia

O poema anexo refere-se a essa barca


Barca



Entardece. Ainda uns raios de sol, já desmaiados


que se reflectem nos calhaus rolados que o rio afaga.


No ar, um silêncio que apenas o rumor do rio apaga,


rumor, ou talvez prece ao Senhor da Barca, ali ao lado.


Já não existe mais a barca que outrora foi real


mas na margem do rio, enferrujado,


testemunha de um tempo intemporal,


jaz moribundo um pedaço do cabo


que, a cada viagem, guiava a barca de uma à outra margem.

Regina Gouveia in Magnetismo terrestre


E termino com música de Handel