Fui buscar o título desta mensagem,
A arquitectura da felicidade a um livro de Alain de Botton de que é feita um resenha na revista on line
ComCiência, resenha da autoria de Simone Pallonne e onde se pode ler:
Entre a beleza das obras, a praticidade, a funcionalidade, a representação de ideais, estão algumas das explicações de a arquitetura ser um caminho para se alcançar a felicidade…
Mas voltemos a
ComCiência, revista de jornalismo científico, uma das publicações que recebo on-line.
O último número que recebi fala de arquitectura, uma área que é muito do meu agrado, não fora eu mulher, mãe e tia de arquitectos…
O director de redacção da revista é Carlos Vogt (Graduou-se em Letras na Universidade de São Paulo e fez mestrado na Universidade de Besançon, França. Posteriormente doutorou-se em Ciências no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp) que nos brinda sempre com o editoral no início da revista e com um poema no fim (seguem transcrições)
Editorial
O arquiteto, a cidade e o poeta
Como arquitetar planos e não alturas,
fazer a casa ir sem novidade embora,
traçar a linha divisória da porta por-onde e da porta-contra,
juntar vazios que prometem vidas,
as ameaças em desconforto, fora?
É preciso no plano arquitetar o espaço
como se feito de um xadrez de ausências,
que rima oposições fora de compasso
e escala o tempo como um conta-gotas,
que pinga chuvas de concreto e aço.
Eu, sim, gosto da arquitetura nova,
mesmo quando gosto do poeta sem novidade
para dizer que tudo passa e tudo continua
no traço-muro que, se divide os quartos,
junta corredores para assombrar a lua.
A arquitetura do poema educa pela confissão da forma
quem nele vive, neste texto-casa,
vive à espreita, como em partitura,
do livro aberto feito dos silêncios
em que jaz a música para ser leitura.
Nada escapa à intenção do traço,
que por contornos delimita áreas,
que por extornos vão ficando aéreas,
plantam no chão novas geografias,
voam assentadas como doces feras.
Como o pedreiro, ao ajustar o prumo,
assenta as partes que farão do todo
parte outra vez de uma divisão do espaço
que ganha tempo pela permanência
do periódico no que é ilimitado.
A casa em que morou a nossa infância,
território desse país inexistente,
plena de paredes, labirintos e janelas,
revela sob a luz que as corta e queima
a nova paginação de histórias velhas.
Para o arquiteto-pedreiro-engenheiro-construtor
tornar o mundo justo, como lhe quer a poesia,
não é questão de justiça, nem de alegoria,
tampouco um compromisso retórico com a política;
torná-lo justo, dando-lhe justeza,
é considerar que o brutalismo,
que expõe de dentro a sua indústria em manufatura,
cozinha a forma como um depoimento
de que o pesado é leve,
o estendido é ponto,
o ágil é lento.
E a casa que com casas é texto e faz cidade,
não por acréscimo, soma, peças justapostas,
mas por sintaxe de insubordinação,
um dia, máquina de felicidade,
é um signo feito de concreto
que funde na matéria e na imagem
a cidade de fato com o fato de sua imaginação.
Poema final
Meio a meio
Acordou, de manhã, de bem com a vida!
À noite, agradeceu por não ter acontecido
nada que preenchesse o vazio desse sentimento.
Ao ler o editorial,lembrei-me de um poema belíssimo de Eugénio de Andrade, publicado num catálogo sobre a obra do atelier GALP, creio que escrito para o mesmo.
Relações de casas boas e más para juízo dos arquitectos Carlos Loureiro e Pádua Ramos.
(Eugénio de Andrade)
Há casas
cuja beleza começa no projecto;
outras, e são talvez as mais belas,
existem só na cabeça do arquitecto.
.
Há casas feitas à medida do homem,
outras há para andar de bicicleta;
há casas sobre cascatas
onde ao sortilégio da água
se junta a música de Bach.
.
Há casas tão ajustadas
como fato por medida
ou um verso de Cesário,
outras de tão confusas
não viram régua nem esquadro.
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Há casas de papel, casas de madeira,
casas de palha e de barro;
casas que trepam pelo céu,
casas que cheiram a jasmim do Cabo;
há casas só para dormir
parecidas com um sudário.
.
Há casas onde
habitar é o começar da morte;
há casas de pátios caiados
com varandas para o mar;
casas onde apetece estar sentado
com um gato nos joelhos
e o coração apaziguado.
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Há casas com recantos para amar,
há outras onde o amor
se faz em cinco minutos
e às vezes já é demais;
há casas como um dedal
e geometria de abelhas,
casas de perfil atento
ao rumor das nascentes e das estrelas.
.
Há casas como um cristal,
casas de luz circular,
casas onde não é possível
ouvir correr o silêncio; há casas
que de casas só têm o nome;
há casas que nem para cães.
.
Há casas tão inteligentes
que não consentem qualquer margem
para luxos e arrebiques,
casas onde a alegria se instala
sem tempo nenhum para a mágoa.
.
Há casas onde o pão é triste
e a roupa mal lavada;
há casas que são um rio, há casas
que são um barco;
outras têm pomares
onde os diospiros ardem;
há casas com terras de vinha e trigo
e muros a toda roda.
Há casas que são um poema
para dar a um amigo.
E porque há sensações associadas às casas, aqui deixo o meu poema Sensações
Sensações
Tem um cheiro inconfundível a minha casa da aldeia
Não sei se é do rosmaninho
que perfuma todo o linho dentro das arcas guardado,
se é da madeira das portas, dos tectos
e do sobrado se é das pratas no lambrim
ou das peças de faiança, são travessas e são pratos,
nas paredes pendurados, se é das peças de mobília,
uma herança de família, não sei se é dos retratos
que às vezes, a horas mortas, falam, sorriem para mim.
Terão perfume as memórias de quando eu era criança?
Terá perfume a lembrança?
Tem um cheiro inesquecível a minha casa da aldeia
Mas não é só o odor, são as cores e são os sons
que vejo e ouço em qualquer lado e em tudo o que me rodeia.
Lembro lágrimas, sorrisos, por vezes já imprecisos.
Lembro sussurros e histórias,
imagens em vários tons, plenas de luz e de cor
ou também acinzentadas baças, sem cor, desbotadas.
Têm cor alguns dos sons, sons e cores têm odor
A minha casa da aldeia cheira a afecto e amor.
Mesmo quando estou distante às vezes,
por um instante, chego a pensar que estou lá,
pois apesar da distância eu sinto aquela fragrância.
Que explicação haverá? Será acção magnética?
Uma interacção eléctrica? Força electromagnética?
Gravítica? Nuclear? Forte ou fraca interacção?
É difícil de explicar pois não há explicaçã que assente só na razão.
Esta estranha sensação tem a ver com o coração.
Um amigo meu, que tem um turismo de aldeia na região do
Douro, em colocou este poema nas suas casa, bem como a tradução em inglês que gentilmente me enviou, mas que não consigo encontrar para colocar aqui
E já agora um curiosidade..
O escano que se vê ao lado da lareira fazia parte de um conjunto de escanos da casa dos meus avós paternos. A casa foi comprada por familiares de um antigo feitor, que remodelaram totalmente a cozinha e queimaram os escanos. Também o da fotografia teria igual fim, mas consegui salvá-lo. Disso dou conta no meu livro de Ficção Estórias com sabor a Nordeste
(...)Dias depois, vou com Carlos e os meus filhos visitar a CASA que é agora habitada por um filho do António Joaquim. Quando entro na cozinha, sinto uma angústia terrível. O lar tinha dado lugar a uma moderna cozinha forrada a azulejos. Já não consigo ver mais nada. Ao sair vejo, junto da lenha, um dos escanos. Pergunto pelos outros.
Já foram queimados e esse está à espera.
Peço-lhe que mo venda.
Leve-o que eu só o quero p´ra lenha.
Está agora na cozinha da casa de cima, ou simplesmente da CASA. Sim, porque agora já não tem sentido falar da outra. A CASA é definitivamente esta. O cordão umbilical já tinha sido cortado. Agora recebera a herança da casa mãe.