Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sábado, 31 de março de 2012

Dia Nacional dos Centros Históricos.


Comemorou-se hoje o Dia Nacional dos Centros Históricos.

No que respeita ao Porto o programa das comemorações pode ser lido aqui


Em face do programa decidimos  ir almoçar à Ribeira. Pelo caminho vimos alguns espaços recuperados que ainda não conhecia. Deixo duas imagens de um deles.


No programa impresso, anunciava-se uma série de “promoções” na área da gastronomia mas entrámos em  vários locais e em todos nos disseram que não tinham aderido. Acabámos por almoçar num deles, desfrutando da vista fabulosa sobre o rio.
Como o meu marido é muito mais lento que eu a almoçar, após o meu almoço fui visitar as várias tendinhas de artesanato. Se algum é pouco interessante, outro há que revela imensa criatividade dos artesãos.
Regressando ao programa…De entre as várias propostas tínhamos decidido ir à casa do Infante ver uma exposição de clarabóias e lanternins  e O Porto Desconhecido - Histórias ao Vivo um projecto da ANILUPA
 A exposição é muito interessante. Apenas consegui tirar uma foto pois fiquei sem bateria…

Quanto ao segundo evento, trata-se de apresentação de histórias de vida contadas ao vivo pela população afeta a centros sociais e coletividades da zona histórica do Porto, no âmbito do projeto "Porto Desconhecido".
O projeto já tem alguns anos e podem conhecer mais sobre o mesmo aqui

Entre as várias histórias de vida protagonizadas essencialmente por pessoas da Ribeira,  a que mais me tocou foi contada por uma senhora que explicou que nessa altura, grande parte das famílias viviam num quarto alugado onde dormiam os pais e os filhos(geralmente muitos). Dizia a “contadora”: Quando os pais queriam fazer amor, mandavam os filhos sair do quarto. Tudo era alugado dos lençóis à mobília. Havia várias senhoras que alugavam estes quartos. Eram solidárias porque sem elas nós não poderíamos viver mas eram solidárias à sua maneira, dizia a contadora.
Contou como as crianças tentavam angariar algum dinheiro para ajudar os pais. Uma das formas era pedir aos turistas para deitarem  moedas ao rio. As crianças exibiam as suas habilidades mergulhando e ficavam com as moedas. Outra forma era deixarem-se fotografar em troca de moedas…

Várias outras senhoras deram os seus testemunhos. Ajudavam na venda do peixe, cuidavam dos irmãos, lavavam a roupa no rio e enquanto a roupa corava iam catando os piolhos umas às outras. Não tinham brinquedos mas divertiam-se muito. Um dos divertimentos era untar tábuas com sebo e sobre elas “deslizarem” ao longo das várias escadas que existem na zona.
No fim foi passado um filme de animação com estas histórias e em cuja realização  as pessoas colaboraram
Gostei muito deste evento até porque me fez recuar muito no tempo. Quando o meu marido(então namorado) era aluno do 1º ano de Arquitectura na ESBAP teve que fazer, juntamente com os colegas,  um trabalho de levantamento de habitações do Barredo. Acompanhei-os várias vezes e constatei situações como as que ali foram descritas. Recordo-me de um quarto onde viviam os pais e  vários filhos (creio que oito). Havia uma mesa e encostados à parede dois colchões;  à noite a mesa era encostada à porta e dormiam todos espalhados pelos  referidos colchões

Após este evento fomos visitar, na Misericórdia,a Exposição "A Procissão dos Fogaréus da Quinta-feira de Endoenças"
Concebida a partir de registos documentais, nomeadamente do primeiro Compromisso impresso, datado de 1646, e do património existente, como as treze bandeiras processionais, pintadas por Francisco Correia e Domingos Lourenço Pardo, em 1613, esta exposição dá a conhecer, numa perspectiva histórica e artística, a devoção aos Passos da Paixão pela Misericórdia do Porto.

Durante quantas décadas se organizou no Porto «a procissão dos fogaréus»? Ao certo não
sabemos! Mas pelo menos ao longo dos séculos XVI, XVII e grande parte do XVIII era assim
que a Misericórdia e muito do povo da cidade viviam o final da tarde e a noite de quinta-feira
santa.
Recordar essas tradições, resgatá-las da Memória do tempo e tentar percebê-las parece um
bom e imediato objectivo desta Exposição. Não há, à partida, qualquer intuito saudosista dum
passado que não volta, ainda que a vertente penitencial e o arrependimento pelo pecado
continuem a ser parte essencial da vivência cristã da Paixão. Quem sabe se algum dia volta a
fazer sentido que as insígnias agora recuperadas e oferecidas à comunidade em Exposição
voltem a percorrer os antigos caminhos em cenário penitencial, adaptado à nossa época?
De qualquer modo, entenda-se esta Exposição segundo aquilo que ela é: um evento cultural e
um recuperar da Memória. Mas parece-me importante sublinhar que é também uma forma
curiosa, talvez pedagógica, de a Santa Casa celebrar a Paixão.

 Não há qualquer explicação sobre a exposição(a que aqui deixo procurei-a depois) pelo que fiquei decepcionada

Após esta visita decidi ir ao Clube Literário, no último dia do seu funcionamento. 


A caminho passei pelo Palácio das Artes, no Largo de S. Domingos onde, a par da exposição Variações de temperatura,  decorria uma Feira Franca à semelhança do que ocorre  todos os meses no último Sábado de cada mês . Havia também animação com uma tuna e um outro grupo de música.

Finalmente fui ao Clube Literário e fiquei logo muito triste à entrada. Um ambiente de desolação a contrastar com o espaço cuidado onde tantas vezes estive. Tudo desmontado, sem quadros nas paredes, livros amontoados e distribuídos por caixotes.

Pensei no Dr. Augusto Morais. Fundou este espaço com tanto entusiasmo e carinho …
E recordo o que alguém disse quando da sua morte inesperada
  
Morreu Fernando Augusto Morais. “Vai fazer muita falta ao Porto”



3 comentários:

  1. Não sabia que existia esse dia...fiquei em casa, poderia ter ido passear para a Baixa, que gosto muito. Pena a degradação, faz-me sempre impressão gastar-se tanto dinheiro - milhoes e milhoes em tudo ( até nas escolas) e deixar-se morrer locais simbolicos e culturalmente relevantes, como a Casa das Artes, aqui ao lado.
    É a sociedade que temos...

    Bjo

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  2. Eu também soube por acaso. Fui à Reitoria buscar o meu neto que esteve envolvido numas actividades (também mal divulgadas) e vi lá o programa.
    Faço minhas as tuas palavras:
    É a sociedade que temos...
    Ab
    Regina

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  3. Também não sabia da existência desse dia. Mas a Regina viveu-o em pleno e, com a sua extraordinária descrição, fez-nos vivê-lo um pouco.

    Um grande abraço.

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