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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 25 de julho de 2010

Essa palavra saudade...

É habitual dizer-se que saudade é palavra portuguesa que traduz um sentimento intraduzível noutra língua. Há tempos assisti no espaço Vivacidade a uma sessão com o cônsul de Portugal na Lituânia,  que ali trabalha como professor e com uma jovem lituana que foi sua aluna. Ao que parece,  na Lituânia existe uma palavra que significa precisamente o mesmo que saudade para nós Creio que é ilgesys.

Vem isto a propósito da minha ida ao Clube Literário do Porto, na passada sexta-feira à noite. Fui com a Ana Maria Oliveira, colega das aulas pintura, ver a exposição que inaugurou no dia 16 (estava eu ausente) .
O trabalho de Ana Maria é um trabalho muito interessante em que associa rendas, bordados e tintas, como forma de reviver memórias e exorcizar a saudade.



De seguida assistimos a uma recital de canto. Algumas vozes lindíssimas, outras, de gente muito jovem e por isso menos trabalhadas mas promissoras.



Entre os vários trechos cantados estava Edelweiss. Edelweiss é uma flor branca que nasce nos Alpes em França, Itália, Suíça, Jugoslávia e Áustria, onde, tradicionalmente, se tornou o símbolo do país. É uma flor que nasce, no verão,  nas partes mais altas e frias das montanhas.



Edelweiss foi composta em 1959 para o musical Música no coração que a minha geração viu, muito provavelmente

Dos demais trechos conhecia vários que tantas vezes ouvi a minha mãe cantar na sua lindíssima voz de soprano(no Brasil fora solista num coro).
Ao ouvi-los, por vezes não consegui impedir que as lágrimas me aflorassem aos olhos.
Deixo-vos com dois deles:

Ave Maria de Gounod/Bach na voz de Pavarotti

È strano de La Traviata de Verdi na voz de María Callas

Termino com o poema Saudades da Terra de António Gedeão que podem ouvir na voz de Luís Gaspar


Uns olhos que me olharam com demora,


não sei se por amor se caridade,


fizeram-me pensar na morte, e na saudade


que eu sentiria se morresse agora.


E pensei que da vida não teria


nem saudade nem pena de a perder,


mas que em meus olhos mortos guardaria


certas imagens do que pude ver.


Gostei muito da luz. Gostei de vê-la


de todas as maneiras,


da luz do pirilampo à fria luz da estrela,


do fogo dos incêndios à chama das fogueiras.


Gostei muito de a ver quando cintila


na face de um cristal,


quando trespassa, em lâmina tranquila,


a poeirenta névoa de um pinhal,


quando salta, nas águas, em contorções de cobra,


desfeita em pedrarias de lapidado ceptro,


quando incide num prisma e se desdobra


nas sete cores do espectro.


Também gostei do mar. Gostei de vê-lo em fúria


quando galga lambendo o dorso dos navios,


quando afaga em blandícias de cândida luxúria


a pele morna da areia toda eriçada de calafrios.


E também gostei muito do Jardim da Estrela


com os velhos sentados nos bancos ao sol


e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho


e a adormecê-la


e as meninas a correrem atrás das pombas


e os meninos a jogarem ao futebol.


A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,


à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,


gostei muito de ver


erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas.


Também gostei de ver, na rua, os pares de namorados


que se julgam sozinhos no meio de toda a gente,


e se amam com os dedos aflitos, entre cruzados,


de olhos postos nos olhos, angustiadamente.


E gostei de ver as laranjas em montes, nos mercados,


e as mulheres a depenarem galinhas e a proferirem palavras


grosseiras,


e os homens a aguentarem e a travarem os grandes camiões pesados,


e os gatos a miarem e a roçarem-se nas pernas das peixeiras.


Mas ... saudade, saudade propriamente,


essa tenaz que aperta o coração


e deixa na garganta um travo adstringente, essa, não.


Saudade, se a tivesse, só de Aquela


que nas flores se anunciou,


se uma saudade alguém pudesse tê-la


do que não se passou.


De Aquela que morreu antes de eu ter nascido,


ou estará por nascer - quem sabe? - ou talvez ande


nalgum atalho deste mundo grande


para lá dos confins do horizonte perdido.


Triste de quem não tem,


na hora que se esfuma,


saudades de ninguém


nem de coisa nenhuma.

3 comentários:

  1. Os quadros da Ana Maria são lindíssimos porque muito originais e únicos a meu ver. Vimos os quadros a serem feitos com o mesmo amor com que provavelmente as rendas foram feitas anos após anos. É espantosa a colecção de naperons e rendas que a Ana Maria possui e o modo como ela as aproveitou ara fazer outras obras diferentes, mas tão suas!
    Tive pena de não ir à inauguração , mas tive de ir fazer babysitiing aos meus netos pois o meu filho estava pra fora.

    Um poema muito belo. Lembro-me de uma redacção que tive de fazer aos doze anos sob este tem:

    Saudades de alguem ausente
    devem ser tristes por certo,
    mas são mais tristes se a gente
    as tem de alguém que está perto.

    Obrigada Regina! E parabens, Ana Maria!

    bjo as duas

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  2. Regina , que "post" tão bonito!!!!!! FIquei encantada. Eu julgo que edelweiss é uma flor que também significa saudade porque a minha avó contava que o meu avô, que era alsaciano, lhe mandava cartas com uma flor, creio que um miosótis, escrevendo por baixo a palavra "edelweiss". Era um grande homem o meu avô e eu ainda sinto saudades dele apesar de ter só 12 anos quando ele morreu.
    O poema de Gedeão nem precisa de comentários. É o Gedeâo, o físico, o poeta , o homem sensível que nós não podemos deixar de admirar.
    E sabe, Regina, eu também já tinha saudades do seu blog.
    Um beijo grande.

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  3. A flor é muito diferente do miosótis.
    Existem muitas lendas, por exemplo, que ela adveio das lágrimas de uma jovem virgem. Existe também uma lenda em que pessoas caem de abismos tentando colher um edelweiss. Dizem as lendas da Áustria ser uma prova de amor quando o rapaz sobe os Alpes para buscar a linda flor para sua amada, pois é um percurso muito perigoso, e somente com muito amor para se arriscar dessa maneira (http://pt.wikipedia.org/wiki/Edelvais)
    Um abraço às duas

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