Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um dia diferente

Hoje coloco duas mensagens pois vim à vila. Na aldeia a NET é lentíssima. Na sede de concelho (Alfândega da Fé) existe um ciber espaço da Câmara Municipal e hoje decidi gastar aqui um pouco do meu tempo.

Venho muito pouca televisão. Prefiro caminhar, ler, escrever, pintar, ouvir música, essencialmente clássica,  pesquisar na NET ou deliciar-me com os meus netos. Vejo os telejornais e um ou outro programa, geralmente na RTP2. Infelizmente alguns programas que gostaria de seguir passam muito tarde e raramente tenho oportunidade de os ver.
Há cerca de duas semanas a Dra. Ana Margarida, responsável pelo Centro Cultural José Rodrigues em Alfândega da Fé, perguntou-me se estaria disponível no dia 17, para falar um pouco das minhas actividades, dado que a RTP1 iria estar na vila. Falou-me ainda em outras presenças possíveis, nomeadamente a artista plástica Lourdes Sendas, minha amiga desde a escola primária. Nunca mais me disseram nada e no dia 15 liguei à minha amiga para saber se tinha sido contactada. Não. Imaginei que tudo ficara sem efeito. No dia 16, ao fim da tarde, vi que tinha uma chamada não atendida mas, como não identifiquei o número, não liguei. Recebi então uma mensagem pedindo-me para ligar com urgência para a RTP. Pelos vistos, teria havido uma falha. A Dra. Ana Margarida, tendo estado uns dias de férias, teria deixado os nossos contactos, mas deve ter havido qualquer desencontro.
No contacto da RTP apercebi-me de que iria participar no programa Verão total, que nunca tinha visto pelas razões que referi inicialmente. Comuniquei de imediato aos filhos e pensava não comunicar a mais ninguém mas quando me apercebi de que o programa iria decorrer durante todo o dia, dando a conhecer o concelho, avisei os amigos.

Na manhã do dia 17 ligou-me a minha nora, mãe da minha neta Rita, porque a mesma me queria pedir algo muito especial, mas tinha vergonha. Queria muito um autógrafo da Sónia Araújo, que seria apresentadora do programa.

De manhã fui seguindo o programa na TV e fiquei satisfeita ao ver divulgado o meu concelho, um pouco do meu reino maravilhoso.
Prevista a minha intervenção para as 16h 30min, só teve lugar uma hora depois, pois nestas coisas, há sempre atrasos. Ainda antes de iniciar pedi o autógrafo, não apenas à Sónia Araújo, mas também ao Júlio Isidro.

Foi um dia diferente.

POR TERRAS DE BRAGANÇA

No post anterior referi-me à peça de teatro a que assisti no castelo de Bragança criada e encenada por António Afonso, poeta, pintor, dramaturgo, encenador…

Iniciei a escola primária na freguesia de Parada- Alfândega da Fé. Entrei directamente para a 2ª classe porque os meus pais me ensinaram a ler e a escrever muito cedo. Na 3ª classe a escola passou a posto escolar e por isso fui frequentar a 4ª classe em Bragança onde havia de permanecer mais sete anos, até completar o 7º ano do ensino liceal. Obviamente que nas férias regressava à aldeia com uma eventual ida a Sintra ou a Chaves visitar os meus tios.
Em Bragança vivi sempre na Rua Nova, no primeiro andar de um prédio que pertencia aos pais do António Afonso, que habitavam o 2º andar. Com ele e as suas irmãs passei parte da minha infância e juventude. Daí que a nossa amizade venha de muito longe.

Mas voltando à peça de teatro, da autoria de A.Afonso. Tudo se passa ainda antes da fundação da nacionalidade e as personagens principais são o “braganção” Mendo Alão e uma princesa Arménia que ele rapta quando a mesma se encontra de passagem no Mosteiro de Castro de Avelãs, acompanhando o pai numa peregrinação a Santiago de Compostela. e  mantém sequestrada na Torre da Princesa,
A peça é a continuação da peça apresentada no ano passado(do mesmo autor) em que Mendo Alão é armado cavaleiro pelo rei de Castela e Leão, papel desempenhado por um actor profissional de Zamora, tal como a actriz que desempenha o papel da Rainha. Estes dois actores surgem novamente nos mesmos papéis, na peça agora representada.
Entre figurantes, actores e outras pessoas envolvidas havia cerca de 80 pessoas. Também vários cavalos circulavam pelo espaço

A peça, tal como a anterior, desenvolveu-se dentro do castelo e a iluminação era essencialmente feita por tochas. Claro que a tecnologia moderna esteve presente na criação de diferentes ambientes através de luzes e sons gravados e reproduzidos.

De início a assistência era muita, mas o frio cortante que se fez sentir levou a que muitas pessoas abandonassem o recinto antes de terminar a peça. Nesse aspecto, no ano passado as coisas correram melhor pois a noite esteve serena

De realçar o trabalho de pesquisa de António Afonso e todo o empenho que coloca nestas peças que contribuem para a promoção da cultura num país em que a cultura é geralmente pouco acarinhada
A testemunhar esse trabalho de pesquisa, esteve presente uma senhora arménia ligada à Fundação Calouste Gulbenkian, junto da qual António Afonso obteve várias informações importantes para o seu trabalho

No exterior do castelo propriamente dito, mas dentro das muralhas, decorria uma suposta feira medieval mas em que os produtos postos à venda pouco ou nada faziam lembrar tempos medievos.

Encontrei também uns bares com um ambiente muito agradável instalados nas casas que existem dentro das muralhas na cidadela.

Sempre que vou a Bragança, regresso um pouco a um passado que faz parte do meu imaginário. Vejo-me na Escola do Loreto, no Liceu, hoje centro cultural, na Rua Nova a jogar ringue e badmington e a “pelotada” em dias de nevões fortes. Os carros que ali passavam eram tão poucos que a rua era ao mesmo tempo rua e parque de jogos.

Uma vez por ano, no 1ºde Dezembro, havia teatro no Cine Teatro Camões. Os actores eram os alunos do Liceu e os encenadores o Dr. Carvalho ou o Dr. Subtil, ambos professores de Inglês. No meu sétimo ano desempenhei o papel feminino principal. Era a Rainha das Águas que contracenava com o gigante Adamastor, papel desempenhado pelo colega Luís Salazar. Mas hei-de voltar a este tema com mais pormenor e a inclusão de fotos

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Um reino maravilhoso

Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite.
Miguel Torga, em “ Um Reino Maravilhoso”


Na minha modesta obra constam quatro livros de poesia (deve sair mais um ainda em 2009) e tenho ainda mais cinco para publicar. Em 2004 a Câmara Municipal de Alfândega da Fé publicou o meu primeiro, e até agora único livro de ficção, embora esteja prevista para breve a publicação de um segundo. Em ambos emerge o meu fascínio pelo Nordeste Transmontano onde cresci, o meu reino maravilhoso onde passo genericamente todo o mês de Agosto.

Viemos no dia 31 de Julho e trouxemos connosco os dois netos mais crescidos, a Rita (8 anos) e o Ju (4 anos).
Ambos adoram passar uns dias na casa onde eu cresci, que se mantém praticamente igual. Apenas o lagar do vinho foi transformado numa mini-piscina e a adega vai sendo pouco a pouco transformada numa espécie de museu rural.

Como vem sendo hábito, passada uma semana vêm os pais das crianças. No dia da chegada são brindados com uma pequena peça de teatro cujos actores são os meus netos, juntamente com uma amiguinha que também aqui passa férias na mesma altura e que desde o ano passado intervém na peça de teatro que tem lugar no Castelo de Bragança, peça de cariz histórico escrita e encenada pelo pintor e escritor António Afonso, meu amigo de infância.

Mas voltemos à “nossa peça”. O argumento é criado pelas crianças. Cabe-me a mim escrever os textos e improvisar cenários e trajes. A minha neta fez questão que o irmão, com um ano, também entrasse na peça. E assim, a rainha Ricky, com o “filho” ao colo, recebeu no seu castelo a rainha Marty. De seguida depôs o príncipe nos braços da aia( a mãe “de verdade”). As rainhas conversaram enquanto bordavam e o meu neto, feito aio, levou-lhes um tabuleiro com chá que depois retirou, acompanhando de grandes vénias as entradas e saídas . A rainha Ricky anunciou à rainha Marty que iriam ver parte do ensaio geral de uma peça que iria ter lugar no palácio.

Foi então que o meu neto, de capa máscara e espada, montado num cavalo de pau, irrompeu pelo palco “Eu sou o cavaleiro valente, venço tudo o que me aparece à frente” e investindo sobre um inimigo (calças, casaco adamascado e chapéu pendurados numa cruzeta) atira o inimigo ao chão. Regressa ufano ao centro do palco e diz “Eu sou o cavaleiro maltês, venço sete de uma vez”.

A assistência era obviamente constituída pelos pais, avó, irmão e prima da rainha Marty, os pais e o irmão(por instantes actor) da rainha Ricky e os pais do cavaleiro valente, que condicionou o argumento pois desde sempre impôs que só entraria na peça se houvesse uma luta…

Na semana que antecedeu o teatro, para além dos ensaios houve as idas ao rio de margens alcantiladas, de praias de areia e de calhaus rolados onde se misturam os cheiros a erva-peixeira, a tomilho, a arçã, a esteva, a orégãos. Em breve, com a construção da barragem do Baixo Sabor, o rio, considerado por muitos, o mais selvagem da Europa, dará lugar a uma albufeira e, a meu ver, este reino maravilhoso ficará mais pobre.

No dia sete de Agosto fomos todos almoçar ao convento de Balsamão pois na véspera tinha-lhes contado a lenda dos cavaleiros das esporas douradas que envolve Alfândega da Fé, Chacim, Castro Vicente e Balsamão. Aproveitámos para ir visitar ali perto, um museu arqueológico junto à barragem do Azibo, muito interessante mas muito mal assinalado pelo que não foi fácil encontrá-lo, e um pouco parado pela escassez de verbas…Acresce ainda que no convento, ao pedirmos indicações sobre o museu, constatámos que desconheciam a sua existência bem como a do museu rural de Salselas, também ali perto e que nós já tínhamos visitado no ano passado. Há muito a fazer pela cultura em Portugal…

De regresso tomámos um banho numa das muitas praias da barragem do Azibo.

No dia seguinte os meus filhos partiram e o meu neto Ju também, embora regresse no dia 25. Ficaram a Rita, a mãe e o irmão. O pai regressou terça feira e na quarta fomos ver o Museu do Côa. De caminho almoçámos peixes do rio, na Foz do Sabor. Aliás “uma ida aos peixes” é prática obrigatória nas “férias” de Verão…

Na quinta feira, depois do jantar, netos e respectivos pais, partiram rumo ao Porto, para prosseguirem férias no Algarve. A minha neta estava muito “dividida” . Queria ficar mais tempo, mas também queria ir para o Algarve. Ao partir abraçou-se a mim com os olhitos rasos de lágrimas.

E eu, triste por vê-los partir, mas ao mesmo tempo feliz por sentir que para eles, este reino ainda é um reino maravilhoso. Até quando?