Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

terça-feira, 30 de março de 2010

Primeira colisão de partículas no CERN em directo na Internet

Eis uma das última notícias da revista on-line Ciência Hoje (2010-03-29).


Amanhã, 30 de Março, às 8h00 (hora de Portugal continental), o CERN - Organização Europeia para a Investigação Nuclear (França e Suíça) vai tentar pela primeira vez recriar o Big Bang no seu acelerador de partículas LHC (Large Hadron Collider - Grande Colisionador de Hadrões)(…) Será uma colisão entre feixes de protões previamente acelerados até obterem uma energia de 7 TeV. A energia total de colisão entre dois protões será, então, de 14 TeV. Os investigadores vão ter câmaras na sala de controlo do LHC, de onde se poderá seguir o progresso da experiência.
Este é o início de dois anos de experiências que pretendem confirmar a teoria sobre a origem da matéria, o que poderá levar a uma mudança revolucionária na Física.
Uma vez iniciada a experiência, o acelerador manter-se-á em funcionamento durante 18 a 24 meses (com uma pausa técnica no final de 2010). Poderão ver imagens no endereço http://cdsweb.cern.ch/record/1254517
tal como poderão encontrar outros vídeos relacionados em
http://cdsweb.cern.ch/collection/Videos


Já num texto que aqui coloquei em Janeiro último, fiz referência ao HLC  cujo contributo para sabermos mais sobre as origens do Universo irá por certo ser inestimável.

De que dados dispomos já sobre a história do Universo?

A Lei de Hubble-Homason, referente a movimentos galácticos, foi descoberta por Hubble e seu colega Homason quando se dedicavam ao estudo das galáxias Ao fazer a medida de distâncias, localização e distribuição das galáxias no espaço através da análise de seus movimentos, notaram que havia um padrão
Hubble observou que cada galáxia distante se afasta da Via Láctea numa velocidade proporcional à distância em que se encontra desta, quanto maior a distância, maior a velocidade.
(…)O Universo está em expansão a partir de uma prodigiosa, inimaginável, concentração inicial de energia. O momento inicial - o chamado Big Bang deu-se há cerca de 15 mil milhões de anos (…)

Um outro dado fundamental para a história do Universo está associado ao nascimento dos átomos. Os astrónomos observam da Terra, com o auxílio de radiotelescópios, uma radiação de fundo de microondas, uma radiação “fóssil” que é igual para todos os lados que olhem ( não vem, pois, de nenhuma estrela ou de nenhuma galáxia em particular)(….)

(…)Essa energia espalhou-se no momento em que surgiram os primeiros átomos, no instante em que os electrões e os nucleões deixaram de vadiar e se “casaram” uns com os outros por todo o lado ( teria o universo uns 150 mil anos…) para viverem felizes para sempre. O Universo era opaco antes desse evento porque a radiação era continuamente emitida e absorvida pelos electrões e núcleos e passou, de repente, a ser transparente, uma vez que os átomos não podem emitir nem receber uma quantidade de energia qualquer(…)

(…)Um terceiro dado para a história do Universo tem a ver com a proporção de átomos existentes à escala cósmica. Já vimos que para formar núcleos foram precisos protões e neutrões. Mas o que havia antes destes? Os quarks, os electrões e os neutrinos. E antes deles?

Provavelmente teríamos o reino da energia pura… do qual pouco ou nada se sabe

Havendo átomos há material para fazer estrelas. Estas nascem todas mais ou menos da mesma maneira, quando, no Universo, a força da gravidade faz juntar os átomos

Logo que os núcleos dos átomos se aproximam o suficiente, entra em acção a poderosa força nuclear forte, iniciando-se violentas reacções nucleares de fusão que libertam muita energia resultante da diminuição de massa dos núcleos filhos em relação à massa dos núcleos pais.

Enquanto que no início do Universo a energia deu lugar à massa, no interior das estrelas a massa dá lugar à energia.

Adaptado de Fiolhais, C. “Nova Física Divertida”

Termino com uma visão poética dessa fantástica história



Arrebol

Talvez viajem desde o Big Bang

átomos que me afagam através da morna brisa,

neste rubro arrebol do dia exangue.

Quem sabe já terão sido pedra, rouxinol, flor

e por isso a brisa como que canta e exala um perfumado odor.

Num gesto de lascivo amor fundo-me com a brisa,

perco-me algures no espaço e no tempo

e, num fugaz momento,

sinto que sou pedra, brisa, rouxinol e flor.

sexta-feira, 26 de março de 2010

(En)canto científico

No último texto falei do lançamento do volume 3 da obra História da Luz e das Cores, uma obra de divulgação científica da autoria do Professor Luís Miguel Bernardo, do Departamento de Física da FCUP, obra que aconselho pelo seu rigor associado a uma forma de escrita agradável.


Hoje vou continuar a falar de divulgação científica. O título deste texto fui busacá-lo a um outro (En)canto científico: temas de ciência em letras da música popular brasileira, da autoria de Ildeu Moreira, professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro e que desempenha (ou desempenhou) um papel muito importante na divulgação da cultura no governo Lula. Conheci-o pessoalmente e o nosso primeiro contacto surgiu a propósito do texto Educação em ciências, cultura e cidadania: a poesia na sala de aula que, em tempos, escrevi para a Gazeta de Física

A Gazeta é recebida no referido Instituto e ao ler o texto o Professor Ildeu Moreira contactou-me; a partir daí passámos a trocar e-mails.

Em 2006, ano do centenário do nascimento de Rómulo de Carvalho/António Gedeão, estive envolvida em várias eventos em sua homenagem. Um deles decorreu no ISMAI e, ao ver o programa, reparei que o Prof Ildeu Moreira também aparecia como orador.Foi então que o conheci pessoalmente
Ofereceu-me o livro Cordel e Ciência e referiu-me que a referência ao cordel tem um duplo sentido: por um lado a literatura de cordel, por outro os livros ficam presos a um cordel junto de zonas de acumulação de pessoas (por ex. paragens de ónibus) e podem ir sendo lidos pelas pessoas.


Passei também a aceder à sua página onde podemos encontrar vários textos relacionando Ciência e Arte nomeadamente  o que referi no início
Nesse texto faz referência a um disco de Gilberto Gil de que se inclui um excerto

Do livro Cordel e ciência incluo um pequeno excerto da apresentação (sic), bem como excertos de alguns textos.
(…)Nosso objetivo é, além de dar maior alcance ao trabalho imaginativo desses poetas, sugerir que o cordel e outras formas de expressão populares podem ser tomados como interessantes pontos de partida para se analisar determinados aspectos da relação entre ciência e sociedade e que podem mesmo ser utilizados como um instrumento adicional de divulgação científica especialmente junto aos setores populares. Esperamos também que esta ferramenta poética possibilite e estimule a reflexão e o uso mais amplo de formas alternativas de popularização da ciência

“Busca o homem conhecer a origem e dimensão

do universo e se está em permanente expansão

pois conhecer nossa casa é nossa obrigação.”

Gonçalo Ferreira da Silva in Trigésimo Aniversário da Conquista da Lua


“Da pipas faço luneta/No ar procuro mantê-las!/As coisas lindas eu vi/Debicando vou revê-las!/Foi bom andar nos planetas/Que nem livres borboletas/E voar pelas estrelas...!/

Raimundo Santa Helena in O menino que viajou num cometa

Este último texto fez-me lembrar um texto meu Era uma vez …um planeta do livro “Era uma vez …ciência e poesia no reino da fantasia”, aconselhado no âmbito do PNL e que transcrevo a seguir

Era uma vez ….um planeta


Era uma vez uma nave espacial, era branca e tinha riscas pretas,

viajava pelo espaço sideral, entre estrelas, planetas e cometas.

Era uma vez um extraterrestre, vindo do espaço celeste

e que, há muito, na nave viajava. Tinha um ar estranho, bizarro,

pequeno era o seu tamanho e todo ele gingava.

Tinha umas grossas melenas e usava duas antenas

que ao vento estremeciam. Os olhos mais pareciam os faróis de um autocarro.

Aterrara num lugar, junto a um imenso mar. Era uma praia dourada,

banhada por um mar manso sempre em recuo e avanço.



De início não viu mais nada. Foi então que, de repente,

surgiu bem à sua frente um menino sorridente com uns olhos cor do céu

que, segundo a mãe dizia, constantemente vivia no reino da fantasia.

Ao ver o extraterrestre todo ele estremeceu.

Mas o extraterrestre, que vinha do espaço sideral,

explicou ao menino que não lhe queria fazer mal.

Contou-lhe então o que vira na sua longa viagem.

Já tinha visto cometas e estrelas aos milhões, bem cintilantes.

Uma era o Sol à volta do qual giravam,

alguns perto, outros distantes, nove distintos planetas.

Um deles, azul safira, era tão lindo de ver que logo o extraterrestre decidiu ali descer.

Fez então uma aterragem e assim pousou na Terra cujo nome não sabia.

Foi o menino quem o esclareceu, o tal menino de olhos cor do céu

e que, segundo a mãe dizia, constantemente vivia no reino da fantasia.

Fizeram boa amizade e, em pouco mais de um segundo,

o menino embarcou na sua nave. Lá foram o menino e o extraterrestre

que tinha grossas melenas e usava duas antenas.

Foram dar a volta ao mundo.

Viram uma montanha coberta de neve e, com cuidado, pousaram ao de leve.

Dos ramos das árvores a neve pendia e a paisagem, tão bela, até entontecia.

Tudo era sereno, tudo era tranquilo, apenas avistaram um gamo e um esquilo

que na neve brincavam. Na dita montanha, já quase no cimo,

nascia um fio de água que era muito fino.

Enquanto descia, engrossava o fio até se tornar num imenso rio.

Salgueiros nas margens davam sombra calma

e peixes de prata que na água saltavam, eram, do rio, a alma.

Era um belo rio muito cristalino que corria , corria para o seu destino lá longe no mar.

E a nave sempre, sempre, a vaguear

levando o menino e o extraterrestre de aspecto bizarro

cujos olhos lembravam faróis de autocarro.

Passaram por florestas densas e por planícies extensas, por cidades com largas avenidas

e por aldeias, em montanhas perdidas. Viram navios no mar e aviões pelo ar.

Viram o deserto, de dunas coberto, era muito belo mas com pouca vida.

Só viram camelos numa caravana bastante comprida.

Viram na savana tigres, elefantes, pacatas girafas de pescoços gigantes

e também um leão. Aves aos milhares cruzavam os ares,

cobras e lagartos, rastejavam no chão. Passaram por prados cobertos de flores

e de borboletas de múltiplas cores. Num imenso charco as rãs coaxavam

e flores de nenúfar, por cima boiavam. O céu era sempre um céu diferente

mas de rara beleza, ora azul safira, ora azul turquesa, ora muito escuro,

ora acinzentado, isento de nuvens ou muito nublado.

Por vezes cortava-o um arco de cor, era o arco - íris com o seu esplendor.

E a nave lá ia, nos céus vagueava levando o menino e o extraterrestre

que ao andar gingava.

Viram o sol nascente, viram o sol poente, uma maravilha sempre diferente.

Viram, estremunhada, a lua acordar e vaidosa a mirar-se num lago espelhada.

Mas o extraterrestre tinha que voltar, a hora da partida já estava a chegar.

O extraterrestre de tamanho pequeno, num voo sereno rumou ao destino

levando na nave o dito menino. Regressaram à praia de onde haviam partido

e já com saudades do que haviam vivido. Era a despedida.

Dos olhos do menino que eram cor do céu, uma lágrima tímida pelo rosto escorreu

e no extraterrestre tremiam, tremiam, as grossas melenas e as duas antenas.

Muito emocionado, pegou numa delas, deu-a ao menino.

Quando ouvires um hino que vem das estrelas, sabes que sou eu.

Comunica comigo.

Então o menino foi à beira mar encontrou uma alga da cor do luar, deu-a ao amigo.



Mesmo à despedida o extraterrestre disse para o menino:

Na minha vida fiz muitas viagens e nunca tinha visto tão belas paisagens.

Este é o planeta mais belo que eu vi e sabes porquê?

Tem água, tem ar, que permitem a vida. Se estragam a água, se estragam o ar

um dia o planeta vai-se transformar na terra do nada, uma terra perdida

onde nada se vê.




Tu que és um menino e que vais crescer

cuida do planeta, antes que comece a desfalecer.

Deram um abraço, muito apertadinho e o extraterrestre lá partiu sozinho

na nave redonda, branca às riscas pretas, em busca de estrelas e de outros planetas.

terça-feira, 23 de março de 2010

Continunado o "périplo" pelas Escolas...

A propósito da Semana da Leitura estive ontem na Escola de Vila Praia de Âncora e hoje numa Escola da Maia. Na primeira estive com alunos do 9º ano e do Ensino Secundário. Fui apresentada pelo Professor Carlos Vaz, escritor ainda jovem, mas já galardoado com vários prémios. Duma grande simplicidade contrasta com outros escritores da sua geração, provavelmente bem menores mas que sabem insinuar-se e levar a água ao seu moinho…
Havia alguma apreensão nos professores por recearem o comportamento de alguns alunos. No entanto não poderia ter corrido melhor. Como é meu hábito falei de poesia e de ciência Talvez a magia da ciência aliada à poesia os tivesse cativado.
Apresentei poemas relacionados com a luz e a cor, alguns extraídos dos livros já publicados, outros ainda por publicar. Usando a luz do retroprojector projectei um arco-íris no tecto, simulei um pôr do sol fazendo a luz passar por água a que ia adicionando umas gostas de leite, falei um pouco da dispersão da luz.

A propósito do poema Fractal falei também de fractais


Fractal
Denso este silêncio

onde a memória, qual fractal,

vai repetindo cópias de um padrão

pleno de volutas, cornucópias,

que volteiam em direcção ao infinito.

Ampliam-se as imagens, por vezes diminutas

e emergem pormenores que se agigantam

no silêncio opressor

que penetra no imo dos espaços

Arremesso um grito,

quebro o silêncio em mil pedaços

onde a luz se decompõe

num arco- íris ébrio de cor.

Um fractal objecto geométrico que pode ser dividido em partes, cada uma das quais semelhante ao objecto original. Em muitos casos um fractal pode ser gerado por um padrão repetido

O floco de neve de Koch, é um fractal, que se obtém partindo de um triângulo equilátero. Para o construir, começa-se com um triângulo com lados de tamanho 1. Ao meio de cada lado, adiciona-se um novo triângulo com um terço do tamanho; e assim por diante, como se pode verificar na figura . O comprimento total do contorno tende para infinito. Contudo, a área permanece menor que a área do círculo que circunda o triângulo original.

Vim de lá com a alegria com que tantas vezes saí de uma sala de aula. Obrigada a todos os que me proporcionaram este encontro.

Hoje estive numa Escola da Maia numa primeira sessão com alunos dos 5º, 6º e 7º anos e numa segunda sessão com alunos de 8ºano. A responsável pela Biblioteca é uma professora que eu conheci já há alguns anos. Acompanhou-me na visita, Adélia Carvalho, autora de livros infantis e dona da Livraria Papa Livros, um espaço muito interessante na Rua D. Manuel II, que leu a maioria dos poemas que apresentei. À medida que os poemas iam sendo lidos iam surgindo experiências e uma conversa sobre as mesmas. O primeiro grupo de alunos esteve muito bem, o segundo, menos bem, mas mesmo assim relativamente participativo.

Cheguei a casa cansada, mas não podia deixar de estar presente no lançamento de Histórias da Luz e das Cores, volume 3, do Professor Doutor Luís Miguel Bernardo, cuja apresentação, no salão Nobre da Reitoria, esteve a cargo do Professor Doutor Carlos Fiolhais.

Tenho já os volumes anteriores. Ainda não me posso pronunciar sobre este volume, mas tenho a certeza que, à semelhança dos anteriores, a sua leitura, para além de constituir um enriquecimento pessoal, será também um prazer.
O autor pediu-me para nele incluir um poema meu. Sinto-me muito honrada com tal distinção. Obrigada


A minha ida a escolas de Lagoa foi adiada para Abril. Foi bom pois sinto-me um pouco cansada.

Surrealismo ou desrespeito total?

Ontem pretendia continuar a falar dos Dias de Março. Era o Dia da Água.Não me foi possível
pelas razões que a seguir exponho. Mas não resisto a colocar o vídeo que segue.

Mas vamos então às razões .....

São 0h e 55 min do dia 23 de Março. Acabo de jantar, ou melhor, de comer qualquer coisa. Desde as 17h, em que comi um “croissant” e bebi um pingo, não tinha voltado a comer. E porquê? Ontem, dia 22 de Março, regressava de Âncora num comboio que deveria chegar ao Porto às 20h 13 min. Em Ermesinde fomos informados de que havia um problema informático na sinalização e que haveria uma demora. Não recebemos qualquer outra informação até por volta das 21 h em que fomos aconselhados por um elemento da CP, a mudar para um outro comboio estacionado na linha 4, que vinha de Braga e que seria o primeiro a seguir para o Porto. Este tinha chegado a Ermesinde por volta das 20h, 30min

Passado algum tempo o comboio arrancou e, um pouco mais à frente parou A partir daí nenhuma informação mais; nenhum elemento da CP veio prestar qualquer esclarecimento. Por volta das 23h 15 min achei que era desrespeito a mais e elaborei muito à pressa, um abaixo assinado que todos os presentes mostraram interesse em preencher (ver cópia).


Posteriormente e sem vislumbrar solução para o problema saímos do comboio e fomos a pé, de malas e bagagens atrás, por entre ermos e ruas desconhecidas, até à estação de Metro do Dragão. Aí as demais pessoas foram apanhar o metro e eu vim de carro pois ligara ao meu marido para ali me ir buscar.

No comboio vinham vários jovens alguns estudantes em Braga, que hoje terão que tomar o transporte para Braga, às 5 da manhã. Muitos destes jovens não tinham comido nada após o almoço e não tinham já transporte para casa quando chegassem a Campanha. O mesmo acontecia com outras pessoas nomeadamente uma senhora à beira da reforma, que estava um pouco temerosa por ter que ir para casa a horas tão tardia, sem ter transporte.

Enfim…

Creio que nem num país do 3º mundo seríamos tão mal tratados.

domingo, 21 de março de 2010

Março o mês dos Dias...

Hoje, dia 21, comemora-se o Dia da Poesia e também o da Árvore

Não sou muito apologista destes dias dedicados a algo. Considero que todos os dias deviam ser dias de poesia, do pai, da mãe , da criança, da mulher, da árvore . Mas dado que tais dias existem decidi entrar na onda…

A propósito do Dia da Poesia coloco dois poemas entre muitos que poderia ter seleccionado e o mesmo acontece quanto ao Dia da Árvore para o qual seleccionei três poemas.

Todo o tempo é de poesia

Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã

à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre

à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.

Corolas que se desdobram.

Corpos que em sangue soçobram.

Vidas qu'a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria

das mãos que pedem vingança.

Sob o arco da aliança

da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos

à confusão da harmonia.

António Gedeão

Exploração

Qual exploradora, parti um dia.

Embrenhei-me na selva da vida

onde sabia andar escondida

a poesia

Encontrei-a

na luz ténue do sol ao fim do dia,

na molécula, no átomo, no quantum de energia,

nas leis de Newton, no conceito de entropia.

Encontrei-a

na reflexão da luz, na impulsão no ar,

no cheiro a maresia e nas algas do mar,

no orvalho, na geada, na chuva, no luar.

Encontrei-a

no ínfimo e no imenso que a vista não alcança,

nas rugas dum idoso, no rir de uma criança,

numa tela, num concerto, numa dança.

Encontrei-a

no voo da gaivota, na pétala da flor,

na chama que tremula e se multiplica em cor

e que irradia energia na forma de calor

Encontrei-a

nas estrelas, nas galáxias mais distantes,

no olhar apaixonado daqueles dois amantes,

nos extintos dinossauros de dimensões gigantes.

Encontrei-a

em medusas, corais, nos fundos oceanos,

no vento a agitar nas árvores os ramos,

em pinturas rupestres com vários milhares de anos

Encontrei-a

na violeta escondida no canto do jardim

e no frasco que continha essência de jasmim.

Tentei então guardá-la só para mim.

Foi assim que ela se evolou

e de novo eu aqui estou

a procurá-la.

Regina Gouveia

As folhas secas dos plátanos

As folhas dos plátanos

desprendem-se e lançam-se na aventura do espaço,

e os olhos de uma pobre criatura

comovidos as seguem.

São belas as folhas dos plátanos

quando caem, nas tardes de Novembro

contra o fundo de um céu desgrenhado e sangrento.

Ondulam como os braços da preguiça

no indolente bocejo.

Sobem e descem, baloiçam-se e repousam,

traçam erres e esses, ciclóides e volutas,

no espaço escrevem com o pecíolo breve,

numa caligrafia requintada, o nome que se pensa,

e seguem e regressam,

dedilhando em compassos sonolentos

a música outonal do entardecer.

São belas as folhas dos plátanos espalhadas no chão.

Eram lisas e verdes no apogeu

da sua juventude em clorofila,

mas agora, no outono de si mesmas,

o velho citoplasma, queimado e exausto pela luz do Sol,

deixou-se trespassar por afiados ácidos.

A verde clorofila, perdido o seu magnésio,

vestiu-se de burel,

de um tom que não é cor,

nem se sabe dizer que nome tenha,

a não ser o seu próprio,

folha seca de plátano.

A secura do Sol causticou-a de rugas,

um castanho mais denso acentuou-lhe os nervos,

e esta real e pobre criatura

vendo o solo coberto de folhas outonais

medita no malogro das coisas que a rodeiam:

dá-lhes o tom a ausência de magnésio;

os olhos, a beleza.

António Gedeão

A uma cerejeira em flor

Acordar, ser na manhã de Abril

a brancura desta cerejeira;

arder das folhas à raiz,

dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos

o vento, a luz, ou o quer que seja;

sentir o tempo, fibra a fibra,

a tecer o coração de uma cereja.

Eugénio de Andrade

Prodígio

Prodigiosa aquela cerejeira com seus frutos.

Sensual, rubro o epicarpo, carnudo, nacarado o mesocarpo

da pudica semente protecção.

Tal como se fora a vez primeira, saboreio uma cereja calmamente num misto de volúpia e devoção.

Regina Gouveia



A propósito do Dia do Pai , no pssado dia 19, coloco o texto morreste-me de José Luís Peixoto, para mim um dos textos mais belos que o autor escreveu, e um  poema meu relativamente recente

Morreste-me

Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se

continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido de luz a limpar asse

continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido de luz a limpar as

casas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo

entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e

maresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhos

falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo como

se continuasse. O silêncio fluvial, a vida cruel por ser vida. Como no hospital.

Dizia nunca esquecerei, e hoje lembro-me. Rostos tornados desconhecidos,

desfigurados na minha certeza de perder-te, no meu desespero desespero. Como

no hospital. Não acredito que possas ter esquecido. Enquanto esperava pela

minha mãe e pela minha irmã, as pessoas passavam por mim como se a dor que

me enchia não fosse oceânica e não as abarcasse também. As mulheres falavam,

os homens fumavam cigarros. Como eu, esperavam; não a morte, que nós, seres

incautos, fechamos-lhe sempre os olhos na esperança pálida de que, se não a

virmos, ela não nos verá. Esperavam. Num carro demasiado rápido, a minha

mãe, curvada de perder o que possuía, e a minha irmã. Os homens e as mulheres

falavam e fumavam ainda quando subimos. No quarto, numa cama qualquer que

não a tua, o teu corpo, pai. Talvez distante, preso num olhar entreaberto e

amarelado, respiravas ofegante. O ar com que lutavas, lutavas sempre, gritava o

seu caminho rouco. Pelo nariz, entrava o tubo que te sustinha. Aos pés da cama,

a minha mãe calada, viúva de tudo. À cabeceira, a minha irmã, eu. Cortinas de

plástico, biombos de banheira separavam-nos das outras camas. Pousei-te as

mãos nos ombros fracos. Toda a força te esmorecera nos braços, na pele ainda

pele viva. E menti-te. Disse aquilo em que não acreditava. Ao olhar amarelo,

ofegante, disse que tudo serias e seríamos de novo. E menti-te. Disse vamos

voltar para casa, pai; vamos que eu guio a carrinha, pai; só enquanto não puder,

pai; vá, agora está fraco mas depois, pai, depois, pai. Menti-te. E tu, sincero, a

dizeres apenas um olhar suplicante, um olhar para eu nunca mais esquecer. Pai.

À hora, mandaram-nos sair. Quando saímos, agarrados como naúfragos, a luz

abundante bebia-nos. (…)

José Luís Peixoto


Recordações da infância

Muros de xisto,

tal como outrora cobertos de silvas,

ostentando amoras.

Caminhos.

Este já foi ribeiro, o ribeiro dos linhos.

Já não existe ribeiro, tão pouco o linho.

O pó esvoaça lento

por sobre o chão incerto e poeirento.

Caminho com dificuldade,

o sol poente ofusca-me a visão.

Percorro outro caminho, o da memória

que, como o xisto, se esboroa com o tempo.

Firme, a mão do meu pai segura a minha mão.

Regina Gouveia


Finalmente e evocando tardiamente o Dia da Mulher, deixo-vos com “A Calçada de Carriche” de António Gedeão

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ainda o fascínio de ser professora.....ou a vida é feita de nadas.

Nos passados dias 12 e 15 estive no Agrupamento de Escolas de Alfândega da Fé, com todos os meninos, desde a pré-primária (dos vários infantários do agrupamento) até ao 2º ciclo, na Sede do Agrupamento,  passando pela Escola EB1, onde contactei com todos os alunos do 1º ao 4ª ano. Conversámos sobre ciência e poesia. Foi cansativo mas altamente gratificante. Apenas alguns alunos do 2ºciclo se mostraram pouco interessados a par de outros muito participativos, que compensaram, de longe, o desinteresse dos primeiros.
As crianças ouviram e disseram poesia ( no 3º ano todos os alunos em jeito de jograis), colocaram várias questões relativamente às experiências que realizei, entrevistaram-me, pediram autógrafos…. Foi espantoso particularmente com os meninos do pré-primário, ainda tão pequeninos.
No fim recebi ofertas: um saquinho para canetas, marcadores e caderninhos com desenhos feitos pelas crianças da pré-primária,


ilustrações dos poemas “chuva” e “poesia” pelos alunos de 1º ano



 e um livrinho de inéditos feitos pelos meninos de 4º ano. Do mesmo retiro o poema poesia.


De seguida referir-me-ei à última quadra do poema canção (que foi cantado com a música do malhão) .
Gostaria de colocar aqui todos os trabalhos (todos o mereciam igualmente)  mas, dada a imposibilidade, coloquei apenas alguns tirados ao acaso.

Vejamos então a última quadra  do poema canção



Todos sabemos que é difícil imaginar o mundo fora da nossa escala. Quem não tem dificuldade em imaginar, por exemplo, a distância às estrelas mais longínquas e não só, o mundo à escala dos átomos,  ou os montantes referentes às maiores fortunas do mundo, usando um exemplo mais prosaico?
Por isso  não será de espantar que os meninos achem que a minha escrita chega a milhões de crianças…

E a propósito de escalas não resisto a colocar o vídeo “potências de 10” e um poema de António Gedeão

Máquina do Mundo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.

Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.

Espaço vazio, em suma. O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,

este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,

esta fresta de nada aberta no vazio,

deve ser um intervalo.


A finalizar não posso deixar de relatar um pequeno episódio que ocorreu na última sessão. Tinha que acabar às 16 h , por causa da boleia que me traria ao Porto. Os meninos queriam autógrafos. Para isso fizeram uma fila. A dada altura chegou a vez de uma menina que timidamente me disse “eu hoje faço anos” . Escrevi Para a… no dia do seu aniversário… Quando acabei disse-me:  Gostava tanto que fosse à minha festa. Tive pena de não poder satisfazer o pedido da menina.

A vida é feita de nadas…, diz Torga . A minha é feita de muitos pequenos nadas como os que relatei.ao longo do texto

Na próxima 2ª feira vou a uma escola em Âncora, e quinta e sexta estarei com meninos em Lagoa, no Algarve, quem sabe em busca de outros pequenos nadas...

terça-feira, 9 de março de 2010

O fascínio de ser professor...

O título deste texto fui buscá-lo a um livro relativamente ao qual que tive a honra de fazer uma recensão e cujo autor é João Paiva

Já aqui referi que, sentindo-me muito maltratada pelo ministério de MLR, pedi a aposentação logo que completei 60 anos de idade, tendo 39 anos de serviço. Foi uma decisão muito dolorosa mas, como voluntária, tenho continuado de certo modo essa tarefa fascinante, nomeadamente junto de escolas e bibliotecas. Desta vez ausentei-me do Porto por uns dias. No dia 5 estive na Escola EB1 Terra dos Arcos, Amadora. Ali contactei com 3 turmas do 4º ano, falando um pouco de poesia e ciência, fazendo pequenas actividades com materiais do dia a dia. É reconfortante ver como as crianças se envolvem nestas actividades. E ainda há quem diga que não se podem fazer actividades no âmbito das ciências, porque não há recursos materiais….
No dia 8, a convite de duas professoras coordenadoras de Bibliotecas, estive em Setúbal: na Escola Lima de Freitas com uma turma de 5º ano e na EB1 do Viso com turmas do 3ºano.
A partir de textos meus, construíram os seus próprios textos que me ofereceram. No dia 8 um pequenito ofereceu-me uma flor dizendo-me que era  o Dia  da Mulher e por isso trouxera duas flores, uma para a professora e outra para mim




























Vou continuar por mais umas quantas escolas de Norte a Sul do País.

Faço todas estas actividades como voluntária mas sinto-me altamente recompensada.

Claro que o empenho das crianças tem muito (senão quase tudo) a ver com o trabalho dos professores. E mais uma vez não posso deixar de referir a forma como os professores têm sido tratados, nomeadamente pelo ministério de MLR.

Quero acreditar que com Isabel Alçada a situação se inverta um pouco mas há danos que já deixaram marcas irreparáveis. Uma medida que urge, é tornar transparente a avaliação dos professores e isso implica acabar com o secretismo que favorece compadrios.