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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

É possível sobreviver com esta avaliação do desempenho?

O título deste “post” é inspirado em “ É possível sobreviver sem avaliação do desempenho? “, um texto muito interessante de Helena Damião publicado em De Rerum Natura e do qual extraí um excerto:


No Jornal Público de 30 de Janeiro de 2010 foi publicada uma entrevista de Ana Gerschenfeld a Christophe Dejours, professor no Conservatoire National dês Arts et Métiers, em Paris.


Nessa entrevista, o especialista com obra reconhecida na área da Psicologia do Trabalho e da Acção apresenta o essencial das análises que tem feito sobre a avaliação individual do desempenho profissional que está a ser implementada em inúmeros países, nos mais diversos sectores, em instituições e empresas públicas e privadas, sob o pretexto de aumentar a qualidade do trabalho e a igualdade e justiça social.


Trata-se de análises que não deviam ser ignoradas porque há nelas factores de sobra para nos preocuparmos directamente e a curto prazo com a saúde física e psicológica dos profissionais, a qual se reflectirá no funcionamento social e técnico das instituições onde estão integrados, que, por sua vez, se reflectirá no atendimento às pessoas que a elas se dirigem. Menos directamente e a mais longo prazo, mas de modo mais sério e profundo, reflectir-se-á no modo como nos vemos e vemos os outros, como encaramos a nossa existência e que sentido lhe atribuímos, como estruturamos os valores que fundam a cultura em que nos estruturámos como pessoas(…).

Ao ler o artigo pensei imediatamente na avaliação dos professores sobre a qual já escrevi neste blogue. Mas afinal não fui apenas eu que fiz a ponte para essa famigerada avaliação. Num comentário colocado por José Batista da Ascenção pode ler-se.

(…)Agora, sistemas de avaliação em que os professores competem directamente uns com os outros, em ambientes restritos, onde há amizades e incompatibilidades, influências e interesses, é caminho certo para as maiores injustiças. Ainda por cima num país e numa sociedade medularmente sujeita à cunha, ao compadrio e à corrupção como é a nossa. Só não o vê quem se faz de cego. E por outro lado, os pressupostos da paranóia avaliativa que tomou conta de todos os serviços, nem sequer tem por base o melhoramento deles, antes a justificação para cortar despesas em determinados sectores e propiciar relações de poder aos mais afoitos e menos escrupulosos.


Mas esta febre vai passar-nos, mais ano menos ano. Por um lado todos ou quase todos vão batotá-la o mais que puderem e por outro lado o que não se gasta/desperdiça com certas actividades menos justificáveis vai esbanjar-se na montagem dos próprios sistemas de avaliação.


E quando o dinheiro escassear, lá se extinguem os excessos avaliativos.


Entretanto, eu e tantos outros professores que optámos por esta vida vamo-nos confrontar com dores imensas, ver e sofrer o que desejávamos não acontecesse e resistir enquanto a nossa (mais ou menos frágil) saúde o permitir. Bem fizeram aqueles que, mesmo com algum prejuízo, fugiram a tempo. E alguns bem mereciam o que lhes pagavam. Pobre país.

O que se passa com a avaliação dos professores ( provavelmente também o será noutras áreas) é repugnante ( não consigo encontrar uma palavra mais branda para classificar o processo).

Só há dias soube, pasme-se, que os resultados da avaliação não são tornados públicos; cada professor é informado apenas da sua avaliação. Pensei que esses tempo tinham acabado definitivamente com o 25 de Abril, mas ressurgiram e para pior.

Que democracia é esta?

Ainda sou do tempo dos reitores. No Liceu Sá de Miranda em Braga  tive como Reitor o Dr Feliciano Ramos e no Alexandre Herculano, no Porto, o Dr. Martinho Vaz Pires.

Sempre fui contestatária mas creio que nenhum deles me terá prejudicado por esse facto.

Neste momento, para além dos perigos que José Batista da Ascenção refere,  temo que alguns directores executivos (creio que é esta a designação) usem a avaliação como represália para quem não é suficientemente servil.

Não sendo tornada pública a avaliação, como podemos ter a certeza de que os subservientes e bajuladores não serão beneficiados? Infelizmente tenho sérias razões para crer que assim acontece em alguns casos. Da minha experiência como orientadora de estágio durante mais de vinte anos e como responsável pela cadeira de Didáctica da Física, no Mestrado em Física para o Ensino(FCUP) durante nove anos pude aperceber-me do empenho e desempenho de muitos professores e da sua evolução no tempo. Em muitos casos o resultado dessa avaliação cheia de secretismos indefensáveis, é duma injustiça gritante


E lembro  Chico Buarque e as suas duas versões de Tanto Mar
Versão 1

Sei que está em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim


Versão 2

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim


Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

E depois de tanto mar, Abril
Abril


Foram cravos vermelhos nos canos das espingardas
Cortaram-se grilhões,
abriram-se prisões,
soltaram-se emoções,
há muito adormecidas.

Foram cravos vermelhos nos canos das espingardas
Após tão longa espera,
aquela primavera,
aquele Abril, trouxera
esperança a muitas vidas.

Foram cravos vermelhos nos canos das espingardas
Foi o sonho a flutuar,
foi o amor a pairar,
a alegria a fervilhar,
nas praças, nas avenidas.

Depois, murcharam os cravos nos canos das espingardas.
Por que hão-de sempre murchar as flores ?

Regina Gouveia

A terminar mais um quadro belíssimo de Edith Cohen Gewerc cujo título é  Caminhos rochosos.


Cada vez mais rochosos são os caminhos de um professor. E é pena porque ser professor é, porventura, uma das mais belas tarefas que o ser humano pode desempenhar

2 comentários:

  1. Olá Regina quanto ao processo de avaliação dos professores pouco sei. Mas pelo pouco que vou sabendo e pelo que li no seu post deve ser terrívelmnte devastador.Sou professora aposentada doutro grau de ensino mas por lá as coisas também andam muito mal
    Esperemos oque ainda poderá vir complicar mais a vida dos já tão massacrados professores.
    Quanto ao poema e ao quadro encheram-me o coração.
    Um beijo

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  2. Ser professor neste momento é um pesadelo quendo devia ser a concretização de um sonho belíssimo.
    Enfim
    Bjs
    Regina

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