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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 21 de fevereiro de 2010

De Maria João Pires a Henri Matisse

Livros e CD (particularmente da música muitas vezes e algo impropriamente designada por clássica) são as prendas que mais gosto de receber. No Natal de 2008, uma das prendas que recebi e de que mais gostei, não foi nem um livro nem um CD mas um bilhete ( o meu marido recebeu outro) para o concerto que Maria João Pires iria dar, em Outubro de 2009, na Casa da Música. Quando se aproximou a data do concerto, a comunicação social comunicou o adiamento do mesmo para data a confirmar. Foi ontem. Maria João Pires interpretou Beethoven: sonatas em Sol menor, op. 5, nº2, e em Lá maior op.69, ambas para piano e violoncelo e Variações em Dó menor, Sonata em Ré menor , op.31, nº 2, para piano.O violoncelista foi Pavel Gomziakov.

Valeu a pena a espera. Não sou melómana pois os meus conhecimentos sobre música são relativamente reduzidos, mas gosto muito de música. Maria João Pires é, para mim, uma pianista fabulosa. Gosto particularmente de a ouvir interpretar Mozart e Chopin. Dela tenho vários CD e um deles, com as sonatas para piano de Mozart, KV279, KV 280, KV 281 é um CD de que gostam muito os meus três netos, de 8 meses a 7 anos.
Recordemos  a diáspora de Maria João Pires


Maria João Pires nasceu a 23 de Julho de 1944, em Lisboa. Tocou pela primeira vez

em público em 1948. Em Portugal estudou com Campos Coelho e Francine Benoit, e

mais tarde, na Alemanha, com Rosl Schmid e Karl Engel.

Gravou para a editora Erato durante 15 anos e, nos últimos 17 anos, para a

Deutsche Grammophon.

Desde 1970 tem-se dedicado à reflexão sobre a influência da arte na vida, na

comunidade e na escola, tentando desenvolver novos meios de implementação das

teorias pedagógicas na sociedade. Pesquisou novas formas de comunicação que

respeitam o desenvolvimento pessoal, em oposição à lógica destrutiva e

materialista da globalização. Em 1999, Maria João Pires criou o Belgais, um centro

para o estudo das Artes, tendo actualmente alargado a filosofia e pedagogia de

Belgais à cidade da Baía, no Brasil.

Em 2005 criou o Art Impressions, um grupo experimental de teatro, dança e

música e, em conjunto, produziram dois projectos – "Transmissions", e em 2007

"Schubertiade".
Ouçamo-la interpretando Mozart

Alcançar a mestria de Maria João Pires implica não só muito talento como muito trabalho. Sempre foi um sonho da minha mãe, amante de música, que eu aprendesse piano. Acontece que, naquele tempo, em Bragança não havia professores de música. Tinha eu 14 anos quando chegou ao Liceu um novo Reitor (Dr :Manuel Lopes da Silva que tinha o curso de violino) casado com a D. Maria Teresa que, por sua vez, tinha o curso de piano. Ambos eram melómanos, ele em especial. Organizou várias sessões de música, geralmente aos fins de semana e muitas delas na Pousada de S. Bartolomeu.Com a D. Maria Teresa iniciei a minha aprendizagem de piano. Ao casal, se ainda viver, a minha gratidão por me terem ensinado muito, embora eu tenha aprendido pouco. Faltavam-me não só o talento como a força de vontade para trabalhar horas a fio. Para a minha mãe foi um desilusão pela qual me penitencio até hoje Disso dou conta no poema a seguir

Mãe

Como eu me lembro bem, mãe.

Catorze anos seria talvez a minha idade, uma colega do liceu

disse que tu eras a senhora mais bonita da cidade. E eu fiquei toda cheia de vaidade.

Lembro-me de tanta outra coisa mãe

Do linho esticado dentro do bastidor e dos teus bordados em ponto pé-de flor,

em matiz, ponto de sombra ou de grilhão, ao sabor da imaginação,

como o vestido da minha comunhão.

Lembro-me dos cozinhados que fazias com paixão; chamavas-lhe quitutes, mãe.

Receita portuguesa, brasileira, italiana, ainda hoje os teus quitutes têm fama

entre os amigos que os saborearam. Ainda há dias alguns os recordaram.

Lembro-me ainda que não era só o sabor, era o aspecto.

Em tudo colocavas muito afecto e sempre a tua a sensibilidade infinda.

Além de sensível eras tolerante, corajosa, lutadora, criativa, generosa.

Como eu recordo, mãe, tantas histórias inventadas por ti,

em que o sabiá e a surucucu contracenavam com o colibri, com a jibóia e o bicho tatu.

Como eu recordo, mãe, a tua lindíssima voz de soprano

cantando árias de Verdi, de Puccini,

(da Madame Butterfly, da Traviata), do barbeiro de Sevilha de Rossini,

ou ainda Shubert, a serenata, tentando eu acompanhar-te no piano

que, por falta de talento, mal tocava, o que algum desgosto te causava.

Um dia, já a tua mente muito vária, apercebi-me de que não gravara a tua voz

Tentei então que cantasses uma ária para ficar com os registos entre nós

Tarde demais De reconhecer a música tu foste incapaz

Tinhas apenas cinquenta e oito anos.

E a partir daí a doença, tão voraz, foi-te destruindo dia a dia a mente,

dia após dia causando mais danos

e eu, recusando-me a aceitar tais desenganos, era contigo que me revoltava, mãe.

Que foi feito de ti mãe outrora tão sensata, inteligente?

Que foi feito da tua sensibilidade, da tua coragem e força de vontade?

Porque te deixaste assim destruir, mãe?

Ficaram as fotos, a recordação, tanto vazio no meu coração,

tantas lembranças, algumas em bocados.

Como herança deixaste o bastidor, as partituras, as receitas, os bordados.

Ficaram sentimentos de culpa e muita dor. Por dizer ficou ainda tanto amor.

(in Reflexões e interferências)


Um outro, poema mais recente e ainda não publicado


Acordes
Que acordes são estes que quebram o silêncio que me invade a alma?

De onde vêm estes sons

que me transportam a outra dimensão no cosmos infinito?

Presto assai, allegro moderato, andante lento -

sinfonia que vem do alfa e vai em direcção a um ómega ignoto,

difundida por entre as estrelas, a propagar-se na matéria escura

talvez vinda dum tempo remoto,

dum tempo em que ainda não havia tempo,

talvez ainda antes da criação do mundo,

quem sabe transportada pela radiação de fundo.

Na noite calma, embala-me esta música que não identifico,

e onde, entre um tanger de cítaras e harpas, se impõe sublime, um violino

Acordo, deixo o cosmos etéreo, esfuma-se o som divino.

O som que escuto agora é bem real. Apenas um bater de coração aflito…

E finalizo com uma  imagem de  "Música" de Matisse


3 comentários:

  1. Também ouvi a M. João. Com o enlevo com que sempre a oiço. Aconselho-te Regina os Improvisos de schubert -para mim o expoente máximo das gravações da painista com a Deutsche Grammophone, a que ela chamou : Le Voyage Magnifique. Se quiseres gravo-te, são dois CDs.

    Lindos os poemas à tua Mãe , um dum livro que tenho, o primeiro que comprei, o outro muito belo e para mim ainda desconhecido.

    Espero que na 3ª vas ao atelier, tenho de te pedir uma coisa....:))

    Boa lembrança..Matisse.

    Quanto ao piano, a minha avó tocava maravilhosamente, tinha sido aluna do Alexandre Rey Colaço, a minha mãe tb se sentava ao piano depois de almoço e tocava Chopin e Debussy, as suas preferidas peças, que hoje o meu filho também toca por vezes e me fazem chorar. A Musica em família é maravilhosa e nisso saiu-me a sorte grande, todos os meus filhos adoram-na e/ou tocam-na.

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  2. Se mos gravares agradeço pois, além do mais, adoro Schubert. Até terça
    Um abraço
    Regina

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  3. Também gosto muito de ouvir a Maria João Pires e tenho aluns discos dela. Ouvi-a uma vez, há bastantes anos, num concerto e gostei bastante. Quanto a si, Regina, quanto mais a vou conhecendo maior vai sendo a minha admiração por si. O poema à sua mãe, embora eu já o conhecesse, comoveu-me muito.
    Um abraço grande Regina.

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