sábado, 18 de fevereiro de 2012
Obrigada Albert Einstein
O sistema de posicionamento global, popularmente conhecido por GPS (acrónimo do original inglês Global Positioning System, ou do português "geo-posicionamento por satélite") é um sistema de navegação por satélite que fornece a um aparelho receptor móvel a posição do mesmo, assim como informação horária, sob todas quaisquer condições atmosféricas, a qualquer momento e em qualquer lugar na Terra, desde que o receptor se encontre no campo de visão de quatro satélites GPS (…).Cada um circunda a Terra duas vezes por dia a uma altitude de 20200 quilómetros (12600 milhas) e a uma velocidade de 11265 quilómetros por hora (7000 milhas por hora), de modo que, a qualquer momento, pelo menos 4 deles estejam “visíveis” de qualquer ponto da Terra. Os satélites têm a bordo relógios atómicos e constantemente difundem o tempo preciso de acordo com o seu próprio relógio, junto com informação adicional como os elementos orbitais de movimento, tal como determinado por um conjunto de estações de observação terrestres (…)O receptor não necessita de ter um relógio de tão grande precisão, mas sim de um suficientemente estável. O receptor capta os sinais de quatro satélites para determinar as suas próprias coordenadas, e ainda o tempo. Então, o receptor calcula a distância a cada um dos quatro satélites pelo intervalo de tempo entre o instante local e o instante em que os sinais foram enviados.(…)
É possível identificar a posição do receptor, tendo em conta a velocidade de propagação do sinal de microondas emitido, a descodificação as localizações dos satélites a partir desses sinais e uma base de dados interna, Atualmente o sistema está sendo muito difundido em automóveis com sistema de navegação de mapas, que possibilita uma visão geral da área que se está a percorrer
Até os Simpsons o usam
O funcionamento do GPS tem por base a da teoria da relatividade
Obrigada Albert Einstein
Arma poderosa
A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo
E mais uma vez eu admiro os professores que se empenham, mal grado a forma como a profissão tem vindo a ser tão pouco acarinhada pelo sistem.
(Nelson Mandela)
Li esta frase num marcador para livro que trouxe do Agrupamento de Escolas D. Pedro I em Canidelo onde, a propósito da Breve História da Química, estive nos passados dia 13 e 14. Foram duas sessões, cada uma com 75 alunos (7ºano no dia 13 e 8º no dia 14), e com a duração de cerca de 1 h e 30 min.
O espaço da Biblioteca era reduzido para tantos alunos mas, apesar disso, estiveram muito interessados. Os de 8º ano eram um pouco mais barulhentos e intervinham de forma mais anárquica, mas os de 7º ano, muito curiosos, fizeram intervenções muito interessantes.
E mais uma vez eu admiro os professores que se empenham, mal grado a forma como a profissão tem vindo a ser tão pouco acarinhada pelo sistem.
Infelizmente não só em Portugal
A terminar e já que comecei a falar da ida a Canidelo com o livro Breve História da Química, não resisto a contar um episódio que me aconteceu hoje.
Inscrevi-me há dias no Holmes Place, aproveitando uma campanha recentemente lançada. Hoje fui ter uma avaliação com uma “ monitora” para me ser aconselhado um programa de treino, em função das minhas capacidades físicas. Logo que nos encontrámos perguntou-me “Desculpe a minha pergunta, é escritora? Embora nas escolas seja sempre apresentada como escritora ainda não me habituei (acho que sou, e serei sempre, essencialmente professora) e por isso estranhei a pergunta.
Uma irmã de dez anos gosta dos meus livros pelo que o meu nome não lhe era estranho.
Estas “coisas” fazem bem ao ego…
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Lutadoras
“Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém, há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.”
BERTOLT BRECHT
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém, há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.”
BERTOLT BRECHT
A minha amiga Ana Maria, é um exemplo de coragem. Conheci-a na escola Utopia, onde ambas frequentamos aulas de pintura. Há anos foi-lhe diagnosticado um mieloma múltiplo. Tal como muitos outros, travou uma luta feroz com a doença. A Clínica da Universidade de Navarra, que completou 50 anos em 2011, deu a conhecer um pouco da vida de alguns desses lutadores, nomeadamente da Ana Maria.
Tenho mais duas amigas que, tal como a Ana Maria, têm lutado contra muitas adversidades, nomeadamente a doença.
E quando penso em mulheres lutadoras, a primeira que me vem à lembrança é a minha mãe. Lutou por tudo aquilo em que acreditava, só não conseguiu lutar contra a doença de Alzheimer que, durante 13 anos e a partir dos 58, foi destruindo aquela mulher ímpar.
Sei que já coloquei aqui um poema que lhe dediquei, em que tento dar conta de toda a sua força, mas não resisto a colocá-lo de novo.
Mãe
Como eu me lembro bem, mãe.
Catorze anos seria talvez a minha idade,
uma colega do liceu
disse que tu eras a senhora mais bonita da cidade
E eu fiquei toda cheia de vaidade.
Lembro-me de tanta outra coisa mãe
Do linho esticado dentro do bastidor
e dos teus bordados em ponto pé-de flor,
em matiz, ponto de sombra ou de grilhão,
ao sabor da imaginação,
como o vestido da minha comunhão.
Lembro-me dos cozinhados que fazias com paixão;
chamavas-lhe quitutes, mãe.
Receita portuguesa, brasileira, italiana,
ainda hoje os teus quitutes têm fama
entre os amigos que os saborearam.
Ainda há dias alguns os recordaram.
Lembro-me ainda
que não era só o sabor, era o aspecto.
Em tudo colocavas muito afecto
e sempre a tua a sensibilidade infinda.
Além de sensível eras tolerante, corajosa,
lutadora, criativa, generosa.
Como eu recordo, mãe,
tantas histórias inventadas por ti,
em que o sabiá e a surucucu
contracenavam com o colibri,
com a jibóia e o bicho tatu.
Como eu recordo, mãe,
a tua lindíssima voz de soprano
cantando árias de Verdi, de Puccini,
(da Madame Butterfly, da Traviata),
do barbeiro de Sevilha de Rossini,
ou ainda Shubert, a serenata,
tentando eu acompanhar-te no piano
que, por falta de talento, mal tocava,
o que algum desgosto te causava.
Um dia, já a tua mente muito vária,
apercebi-me de que não gravara a tua voz
Tentei então que cantasses uma ária
para ficar com os registos entre nós
Tarde demais
De reconhecer a música tu foste incapaz
Tinhas apenas cinquenta e oito anos.
E a partir daí a doença, tão voraz,
foi-te destruindo dia a dia a mente,
dia após dia causando mais danos
e eu, recusando-me a aceitar tais desenganos,
era contigo que me revoltava, mãe.
Que foi feito de ti mãe
outrora tão sensata, inteligente?
Que foi feito da tua sensibilidade,
da tua coragem e força de vontade?
Porque te deixaste assim destruir, mãe?
Ficaram as fotos, a recordação,
tanto vazio no meu coração,
tantas lembranças, algumas em bocados.
Como herança deixaste o bastidor,
as partituras, as receitas, os bordados.
Ficaram sentimentos de culpa e muita dor.
Por dizer ficou ainda tanto amor.
Termino com a fotografia da autoria do espanhol Samuel Aranda que que ganhou em 2011 o World Press Photo 2011, o mais conceituado prémio de fotojornalismo
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Book
Talvez já conheçam o vídeo Book uma revolução tecnológica. De qualquer forma não resisto a partilhá-lo com quem eventualmente ainda o não viu
Partilho também um outro vídeo sobre o tema: Os fantásticos livros voadores do Senhor Lessmore
A ideia de partilhar estes vídeos surgiu após a leitura de um belíssimo texto “introdutório” que José Luís Peixoto faz ao seu livro Abraço
E já que o tema é livros deixo ainda uma imagem cuja fonte desconheço e um poema meu não publicado
Submissão
As letras dentro das sílabas.
As sílabas dentro das palavras.
As palavras dentro dos textos.
Os textos dentro dos livros.
Gosto de livros.
Gosto de passear o olhar por título e autor.
Depois, qual ritual, num gesto sensual,
acaricio a capa e a lombada,
aspiro o seu odor.
Por fim decido-me a abri-los, a folheá-los
E, de uma forma sôfrega, apressada,
começo a lê-los.
Leio-os por vezes só de uma assentada.
Mais tarde releio-os lentamente,
saboreando frases e palavras uma a uma.
Em suma,
ler é uma fonte inesgotável de prazer.
Mas o livro não pode ser qualquer.
Alguns, simplesmente não os leio,
outros abandono-os quando a meio.
Todos eles simples, submissos,
aceitam os meus gestos,
manifestos ou omissos.
(2007)
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Dia dos namorados
Em 2011, a propósito do Dia dos Namorados, a Editora Gatafunho, com a qual trabalhava à data, pediu-me uma colaboração para o blogue
Esta noite
Termino com um belíssimo soneto de Vinicius, dito pelo autor
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes, "Antologia Poética"
Eis o que acabou por ser editado.
Em 2009 foi editado o Livro "Os Dias do Amor", uma recolha antológica de 365 poemas de amor de 365 poetas, feita por Inês Ramos. E porque amanhã é o dia dos namorados vamos incluir aqui dois poemas da antologia (…)
Fim das chuvas nas searas
Sobre as coisas diversas do campo a mesma luz terrestre
O meu amor vai regressar e eu estou feliz
Talvez de mãos dadas ou talvez sem dar as mãos
É impossível não pensar que amanhã caminharemos até aquela casa
Para ver como a cidade é bonita vista das montanhas
Ou para não ver como a cidade é bonita vista das montanhas
António Ladeira
Pesadelo
Não sabia quão grande era o amor
mas ao imaginar tê-lo perdido
foi de tal modo intensa a dor,
como um buraco negro foi tão densa
que tudo à minha volta era vazio.
Sem luz, sem qualquer crença,
tudo se tornou lúgubre, frio.
A vida ficara sem sentido.
Regina Gouveia
Sobre as coisas diversas do campo a mesma luz terrestre
O meu amor vai regressar e eu estou feliz
Talvez de mãos dadas ou talvez sem dar as mãos
É impossível não pensar que amanhã caminharemos até aquela casa
Para ver como a cidade é bonita vista das montanhas
Ou para não ver como a cidade é bonita vista das montanhas
António Ladeira
Pesadelo
Não sabia quão grande era o amor
mas ao imaginar tê-lo perdido
foi de tal modo intensa a dor,
como um buraco negro foi tão densa
que tudo à minha volta era vazio.
Sem luz, sem qualquer crença,
tudo se tornou lúgubre, frio.
A vida ficara sem sentido.
Regina Gouveia
Por sugestão minha foram também incluídos o poema que segue de Jorge Sousa Braga e um texto que escrevi propositadamente para os mais pequenos
Poema de Amor
Esta noite
sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo
e quase ia morrendo
com o receio
de que ele não te coubesse no dedo.
Jorge de Sousa Braga
Um belo dia...
Um belo dia, uma raia
resolveu ir passear
e assim foi a flutuar,
lá desde as águas profundas,
onde costuma habitar,
quase até à beira mar
onde, se sabe, há perigos
sempre prontos a atacar.
Foi quando viu um peixinho,
lindo, lindo de encantar,
pendurado duma cana
que viera para o pescar.
Nadou então velozmente
para o fio ir cortar .
Ao peixinho, já cansado
de se tentar libertar,
quando a viu aproximar
pareceu-lhe ver um anjo
com as asas a adejar.
lindo, lindo de encantar,
pendurado duma cana
que viera para o pescar.
Nadou então velozmente
para o fio ir cortar .
Ao peixinho, já cansado
de se tentar libertar,
quando a viu aproximar
pareceu-lhe ver um anjo
com as asas a adejar.
Liberto daquela cana
que o tentara pescar,
tirou-lhe a raia o anzol
que ainda estava a magoar.
Cobriu-o com a barbatana
como se fora um lençol.
Levou-o então mar afora
para a sua casa no fundo
e o peixinho descansou
dormiu um sono profundo.
Sonhou com o Nemo e a Dora.
que o tentara pescar,
tirou-lhe a raia o anzol
que ainda estava a magoar.
Cobriu-o com a barbatana
como se fora um lençol.
Levou-o então mar afora
para a sua casa no fundo
e o peixinho descansou
dormiu um sono profundo.
Sonhou com o Nemo e a Dora.
A raia, quando o velava,
começou a perceber
que já estava enamorada.
Foi então que ele acordou
e ao ver o seu anjo ao lado
ficou logo enfeitiçado.
Foram nadar enlaçados
conhecer o mar inteiro.
começou a perceber
que já estava enamorada.
Foi então que ele acordou
e ao ver o seu anjo ao lado
ficou logo enfeitiçado.
Foram nadar enlaçados
conhecer o mar inteiro.
E eis que viram no mar
uma placa a anunciar
"14 de Fevereiro
o dia dos namorados".
uma placa a anunciar
"14 de Fevereiro
o dia dos namorados".
Regina Gouveia (inédito)
Ainda por sugestão minha foi incluída no referido blogue uma referência aos lenços de namorados
Termino com um belíssimo soneto de Vinicius, dito pelo autor
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes, "Antologia Poética"
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Fernando Lanhas - Os 7 Rostos
Ainda a propósito da personalidade multifacetada de Fernando Lanhas, encontrei este vídeo a que também faz referência De Rerum Natura. Aí podemos encontrar também alguns poemas seus e um texto muito interessante da autoria de Carlos Fiolhais
Eis os poemas
I
Deus não é
a forma que lhe atribuímos,
mas a sua verdade,
que inventamos,
é a única que entendemos.
XXVI
O Sol
os sóis
os navios.
Os navios usam-se;
entendemos os navios que fizemos.
Os sóis
não os inventamos.
XXVII
Seguimos
à beira de saber;
a cumprir
aquilo que não sabemos,
do lado
em que não se sabe.
Conforme referido no vídeo, não se lhe conhecia uma grande relação com a música. Talvez pela surdez contraída em criança e que se agravou ao longo dos anos. Mas em sua homenagem deixo mais um excerto dos planetas de Holst, desta vez dedicado a Urano
Eis os poemas
I
Deus não é
a forma que lhe atribuímos,
mas a sua verdade,
que inventamos,
é a única que entendemos.
XXVI
O Sol
os sóis
os navios.
Os navios usam-se;
entendemos os navios que fizemos.
Os sóis
não os inventamos.
XXVII
Seguimos
à beira de saber;
a cumprir
aquilo que não sabemos,
do lado
em que não se sabe.
Conforme referido no vídeo, não se lhe conhecia uma grande relação com a música. Talvez pela surdez contraída em criança e que se agravou ao longo dos anos. Mas em sua homenagem deixo mais um excerto dos planetas de Holst, desta vez dedicado a Urano
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Se Isto é um homem
Se isto é um homem é o título do livro mais conhecido de Primo Levi de quem já aqui falei a propósito de um outro livro : O Sistema Periódico
No passado dia 1 de Fevereiro, pôde ler-se em De Rerum Natura
Acaba de sair na colecção "Ciência Aberta" da editora Gradiva um livro muito interessante Diálogo sobre a Ciência e os Homens entre o escritor Primo Levi e o físico Tullio Regge, em tradução do professor de Física da Universidade do Porto Eduardo Lage e prefácio de outro professor de Física da mesma Universidade José Moreira Araújo. Por amabilidade da editora transcrevemos o prefácio:
Aqui ficam alguns excertos desse prefácio.
(...)A sua obra literária, hoje traduzida em muitas línguas, cresceu e diversificou-se ao longo de quatro décadas,num estilo marcado pela sua formação e curiosidade científica. No entanto, muitos de nós, pouco confiantes no seu domínio da língua italiana, tiveram de esperar anos, por vezes muitos, por uma tradução em língua mais divulgada, por exemplo inglês. Com a excepção, que creio única, de Se questo e un uomo, tais traduções só surgem a partir dos anos 80 (...)
(...)Neste Ano Internacional da Química (2011), não será despropositado recordar que, em 2006, a prestigiada e centenária Royal Institution britânica decidiu identificar o melhor livro sobre ciência jamais escrito («the best science book ever written»). Convidadas instituições e individualidades a propor obras dessa índole, não faltaram sugestões de escritos assinados por notáveis, do século XIX aos contemporâneos: Charles Darwin, Bertold Brecht, Konrad Lorenz, Peter Medawar, James Watson, Richard Feynman, Roger Penrose, Oliver Sacks, Richard Dawkins, etc., etc. E o difícil problema de escolha terminou com a proclamação da obra vencedora: precisamente O Sistema Periódico, de Primo Levi. Se o autor ainda vivesse teria, provavelmente, acolhido a notícia com não mais que um modesto sorriso…
Pesquisando na NET encontrei um vídeo com uma interessante entrevista a Primo Levi.
A propósito do livro Se isto é um homem pode ler-se num outro site:
(...)Logo, Levi tenta dizer-se intimamente, numa espécie de autolibertação, como é passar pelas experiências desumanas às quais fora obrigado a experienciar e, por isso mesmo, está condenado a revivê-las continuamente na “viagem ao fundo do poço” sem fundo.
É esse “chegar no fundo” que a narrativa de Primo Levi consegue descrever de forma tão vivamente dramática e aterrorizante. O pano de fundo dessa projeção é o testemunho vivo das experiências vividas por Levi em um campo de concentração, em Monowitz, perto de Auschwitz, no terrível ano de 1944, na Polônia. Ao (re)atravessar, através da rememoração, essas terríveis ondas de um mar de insanidades nazistas, Levi leva-nos a refletir sobre o que é o homem ou, para ser mais abrangente: que características devem possuir um representante da espécie humana para ser considerado um ser humano em seu sentido mais abrangente. Precisa-se mais que um corpo em si mesmo, isto é, um corpo nu, natural, orgânico, sem qualquer produção cultural, como designa o termo körper, em alemão; precisa-se do leib, o sublime, o humano, para que se possa continuar a existir como uma estrela cintilante e não como um fantasma de si mesmo.
Nesse sentido, antes de iniciar a narração de suas lembranças, Levi nos adverte:
“pensem se isto é um homem
que trabalha no meio do barro,
que não conhece paz,
que luta por um pedaço de pão,
que morre por um sim ou por um não.
Pensem bem se isto é uma mulher,
sem cabelos e sem nome,
sem mais força para lembrar,
vazios os olhos, frio o ventre,
como um sapo no inverno”.
(1988).
Para Levi, então, está claro que para ser humano é preciso que haja a razão, a presença da luz divina na alma, a centelha de vida, a dignidade, algo que, paulatinamente, o nazismo tentou apagar em seus prisioneiros incessantemente. O sujeito [sub-jectum] como o suporte de si mesmo fora apagado pouco a pouco, restando tão somente um corpo como uma máquina: frio e inerte. Não uma máquina em seu sentido capitalista, produtivo, mas uma carcaça do que tinha sido antes dos inúmeros flagelos a que fora submetido “desrazoadamente”.
Através da memória de Primo Levi, o quadro que se apresenta diante do leitor é um retrato de quase-morte; é a história de homens, mulheres e crianças, transformados em farrapos, destituídos de todos os seus direitos enquanto humanos. Bichos, porque expostos aos mais terríveis maus-tratos e humilhações, é o termo que mais se aproxima de suas condições de existência naqueles tenebrosos dias do nazismo. Basta um olhar, por desatento que seja, para se verificar que esse grupo de homens, que anda cabisbaixo e faminto, assemelha-se a um grupo de animais prisioneiros, porque submetido à horríveis privações de alimentos, de abrigo, de descanso, de calor humano, de linguagem; em resumo, do prazer da liberdade. No campo de concentração, os prisioneiros aprendem rapidamente “a responder Jawoh!, a não fazer nunca perguntas, a fingir ter compreendido sempre” (1988: 31). Esse exercício repetitivo de submissão faz com que percam, pouco a pouco, a capacidade para refletir sobre seu mundo e sobre si mesmos: exercício necessário para se atingir o esclarecimento. A linguagem lhes havia sido podada. Poucos compreendiam o jargão alemão utilizado nos Lager pelos Kapos e, assim, a comunicação entre os prisioneiros era rara. O mais importante, descobriam, não era compreender a linguagem dos SS, mas manter-se vivo através da concentração no trabalho. Como escreve Levi, “o [trabalho] era como exercício da mente, como a evasão do pensamento da morte, como modo de viver o dia-a-dia”. A frase “O trabalho enobrece”, disposta em vários lugares nos Lager, buscava incutir nos prisioneiros a crença na libertação através do trabalho árduo e não através do esclarecimento possibilitado pelo pensamento crítico.
E a propósito de campos de concentração deixo -vos com imagens impressionantes do pintor Lasar-Segall
ACERVO DO MUSEU LASAR SEGALL.
A ARTE DE LASAR SEGALL É UMA ARTE DE “DENÚNCIA SOCIAL” DIANTE DA INTOLERÂNCIA, E, AO MESMO TEMPO, UM ANSEIO PERMANENTE DE SOBREVIVÊNCIA HUMANA NUM MUNDO MELHOR.
No passado dia 1 de Fevereiro, pôde ler-se em De Rerum Natura
Acaba de sair na colecção "Ciência Aberta" da editora Gradiva um livro muito interessante Diálogo sobre a Ciência e os Homens entre o escritor Primo Levi e o físico Tullio Regge, em tradução do professor de Física da Universidade do Porto Eduardo Lage e prefácio de outro professor de Física da mesma Universidade José Moreira Araújo. Por amabilidade da editora transcrevemos o prefácio:
Aqui ficam alguns excertos desse prefácio.
(...)A sua obra literária, hoje traduzida em muitas línguas, cresceu e diversificou-se ao longo de quatro décadas,num estilo marcado pela sua formação e curiosidade científica. No entanto, muitos de nós, pouco confiantes no seu domínio da língua italiana, tiveram de esperar anos, por vezes muitos, por uma tradução em língua mais divulgada, por exemplo inglês. Com a excepção, que creio única, de Se questo e un uomo, tais traduções só surgem a partir dos anos 80 (...)
(...)Neste Ano Internacional da Química (2011), não será despropositado recordar que, em 2006, a prestigiada e centenária Royal Institution britânica decidiu identificar o melhor livro sobre ciência jamais escrito («the best science book ever written»). Convidadas instituições e individualidades a propor obras dessa índole, não faltaram sugestões de escritos assinados por notáveis, do século XIX aos contemporâneos: Charles Darwin, Bertold Brecht, Konrad Lorenz, Peter Medawar, James Watson, Richard Feynman, Roger Penrose, Oliver Sacks, Richard Dawkins, etc., etc. E o difícil problema de escolha terminou com a proclamação da obra vencedora: precisamente O Sistema Periódico, de Primo Levi. Se o autor ainda vivesse teria, provavelmente, acolhido a notícia com não mais que um modesto sorriso…
Pesquisando na NET encontrei um vídeo com uma interessante entrevista a Primo Levi.
A propósito do livro Se isto é um homem pode ler-se num outro site:
(...)Logo, Levi tenta dizer-se intimamente, numa espécie de autolibertação, como é passar pelas experiências desumanas às quais fora obrigado a experienciar e, por isso mesmo, está condenado a revivê-las continuamente na “viagem ao fundo do poço” sem fundo.
É esse “chegar no fundo” que a narrativa de Primo Levi consegue descrever de forma tão vivamente dramática e aterrorizante. O pano de fundo dessa projeção é o testemunho vivo das experiências vividas por Levi em um campo de concentração, em Monowitz, perto de Auschwitz, no terrível ano de 1944, na Polônia. Ao (re)atravessar, através da rememoração, essas terríveis ondas de um mar de insanidades nazistas, Levi leva-nos a refletir sobre o que é o homem ou, para ser mais abrangente: que características devem possuir um representante da espécie humana para ser considerado um ser humano em seu sentido mais abrangente. Precisa-se mais que um corpo em si mesmo, isto é, um corpo nu, natural, orgânico, sem qualquer produção cultural, como designa o termo körper, em alemão; precisa-se do leib, o sublime, o humano, para que se possa continuar a existir como uma estrela cintilante e não como um fantasma de si mesmo.
Nesse sentido, antes de iniciar a narração de suas lembranças, Levi nos adverte:
“pensem se isto é um homem
que trabalha no meio do barro,
que não conhece paz,
que luta por um pedaço de pão,
que morre por um sim ou por um não.
Pensem bem se isto é uma mulher,
sem cabelos e sem nome,
sem mais força para lembrar,
vazios os olhos, frio o ventre,
como um sapo no inverno”.
(1988).
Para Levi, então, está claro que para ser humano é preciso que haja a razão, a presença da luz divina na alma, a centelha de vida, a dignidade, algo que, paulatinamente, o nazismo tentou apagar em seus prisioneiros incessantemente. O sujeito [sub-jectum] como o suporte de si mesmo fora apagado pouco a pouco, restando tão somente um corpo como uma máquina: frio e inerte. Não uma máquina em seu sentido capitalista, produtivo, mas uma carcaça do que tinha sido antes dos inúmeros flagelos a que fora submetido “desrazoadamente”.
Através da memória de Primo Levi, o quadro que se apresenta diante do leitor é um retrato de quase-morte; é a história de homens, mulheres e crianças, transformados em farrapos, destituídos de todos os seus direitos enquanto humanos. Bichos, porque expostos aos mais terríveis maus-tratos e humilhações, é o termo que mais se aproxima de suas condições de existência naqueles tenebrosos dias do nazismo. Basta um olhar, por desatento que seja, para se verificar que esse grupo de homens, que anda cabisbaixo e faminto, assemelha-se a um grupo de animais prisioneiros, porque submetido à horríveis privações de alimentos, de abrigo, de descanso, de calor humano, de linguagem; em resumo, do prazer da liberdade. No campo de concentração, os prisioneiros aprendem rapidamente “a responder Jawoh!, a não fazer nunca perguntas, a fingir ter compreendido sempre” (1988: 31). Esse exercício repetitivo de submissão faz com que percam, pouco a pouco, a capacidade para refletir sobre seu mundo e sobre si mesmos: exercício necessário para se atingir o esclarecimento. A linguagem lhes havia sido podada. Poucos compreendiam o jargão alemão utilizado nos Lager pelos Kapos e, assim, a comunicação entre os prisioneiros era rara. O mais importante, descobriam, não era compreender a linguagem dos SS, mas manter-se vivo através da concentração no trabalho. Como escreve Levi, “o [trabalho] era como exercício da mente, como a evasão do pensamento da morte, como modo de viver o dia-a-dia”. A frase “O trabalho enobrece”, disposta em vários lugares nos Lager, buscava incutir nos prisioneiros a crença na libertação através do trabalho árduo e não através do esclarecimento possibilitado pelo pensamento crítico.
E a propósito de campos de concentração deixo -vos com imagens impressionantes do pintor Lasar-Segall
ACERVO DO MUSEU LASAR SEGALL.
A ARTE DE LASAR SEGALL É UMA ARTE DE “DENÚNCIA SOCIAL” DIANTE DA INTOLERÂNCIA, E, AO MESMO TEMPO, UM ANSEIO PERMANENTE DE SOBREVIVÊNCIA HUMANA NUM MUNDO MELHOR.
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