Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

NOVO BLOGUE

Retomei o blogue que já não usava há anos.

https://reflexoeseinterferncias.blogspot.com/

Dedico-o essencialmente aos mais novos mas todos serão bem vindos, muito em particular pais, avós, encarregados de educação, educadores ...


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Lutadoras



“Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;

Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;

Porém, há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.”

                                                                                              BERTOLT BRECHT

A minha amiga Ana Maria, é um exemplo de coragem. Conheci-a na escola Utopia, onde ambas frequentamos aulas de pintura.  Há anos foi-lhe diagnosticado um mieloma múltiplo. Tal como muitos outros, travou uma luta feroz com a doença.  A Clínica da Universidade de Navarra, que completou 50 anos em 2011,  deu a conhecer um pouco da vida de alguns desses lutadores, nomeadamente da Ana Maria

Tenho mais duas amigas que, tal como a Ana Maria, têm lutado contra muitas adversidades, nomeadamente a doença.

E quando penso em mulheres lutadoras,  a primeira que me vem à lembrança é a minha mãe. Lutou por tudo aquilo em que acreditava, só não conseguiu lutar contra a doença de Alzheimer que, durante 13 anos e a partir dos 58, foi destruindo aquela  mulher ímpar.
Sei que já coloquei aqui um poema que lhe dediquei, em que tento dar conta de toda a sua força, mas não resisto a colocá-lo de novo.

Mãe

Como eu  me lembro bem, mãe.
Catorze anos seria talvez  a minha idade,
uma colega do liceu
disse que tu eras a senhora mais bonita da cidade
E eu  fiquei toda cheia de vaidade.
Lembro-me de tanta outra coisa mãe
Do linho esticado dentro do bastidor
e dos teus bordados em ponto pé-de flor,
em matiz, ponto de sombra ou  de grilhão,
ao sabor da  imaginação,
como o vestido da minha comunhão.
Lembro-me dos cozinhados que fazias com paixão;
chamavas-lhe quitutes, mãe.
Receita portuguesa, brasileira, italiana,
ainda hoje os teus quitutes têm fama
entre os amigos que os saborearam.
Ainda há dias alguns os recordaram.
Lembro-me ainda
que  não era só o sabor, era o aspecto.
Em tudo colocavas muito afecto
e sempre a tua a sensibilidade infinda.
Além de sensível eras tolerante,  corajosa,
lutadora, criativa, generosa.
Como eu recordo, mãe,
tantas histórias inventadas por ti,
em que o sabiá e a surucucu
contracenavam com o colibri,
com a jibóia e o bicho tatu.
Como eu recordo, mãe,
a tua lindíssima voz de soprano
cantando árias de Verdi, de Puccini,
(da Madame Butterfly, da Traviata),
do barbeiro de Sevilha de Rossini,
ou ainda Shubert, a serenata,
tentando eu acompanhar-te no piano
que, por falta de talento, mal tocava,
o que algum desgosto te causava.
Um dia, já a tua mente muito vária,
apercebi-me de que não gravara a tua voz
Tentei então que cantasses uma ária
para ficar com os registos entre nós
Tarde demais
De reconhecer  a música tu foste incapaz
Tinhas apenas cinquenta e oito anos.
E a partir daí a  doença, tão voraz,
foi-te destruindo dia a dia a mente,
dia após dia causando mais  danos
e eu,  recusando-me a aceitar tais desenganos,
era contigo que me revoltava, mãe.
Que foi feito de ti mãe
outrora tão  sensata,  inteligente?
Que foi feito da tua sensibilidade,
da tua coragem e força de vontade?
Porque te deixaste assim destruir, mãe?
Ficaram as fotos,  a recordação,
tanto vazio  no meu coração,
tantas lembranças, algumas em  bocados.
Como herança deixaste o bastidor,
as partituras, as receitas, os bordados.
Ficaram sentimentos de culpa e muita dor.
Por dizer ficou ainda tanto amor.


 Termino com a fotografia da autoria do espanhol Samuel Aranda que que ganhou em 2011 o World Press Photo 2011, o mais conceituado prémio de fotojornalismo



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Book


Talvez já conheçam  o vídeo Book  uma revolução tecnológica. De qualquer forma não resisto a partilhá-lo com quem eventualmente ainda o não viu


Partilho também  um outro vídeo  sobre o tema: Os fantásticos livros voadores do Senhor Lessmore


 A ideia de partilhar estes vídeos surgiu após a leitura de um belíssimo texto  “introdutório” que José Luís Peixoto faz ao seu livro Abraço




E já que o tema é livros  deixo ainda uma imagem cuja fonte desconheço e  um poema meu não publicado

 

Submissão

As letras dentro das sílabas.
As sílabas dentro das palavras.
As palavras dentro dos textos.
Os textos dentro dos livros.
Gosto de livros.
Gosto de passear o olhar por título e autor.
Depois, qual ritual, num gesto sensual,
acaricio a capa e a lombada,
aspiro o seu odor.
Por fim decido-me a abri-los, a folheá-los
E, de uma forma sôfrega, apressada,
começo a lê-los.
Leio-os por vezes só de uma assentada.
Mais tarde releio-os lentamente,
saboreando frases e palavras uma a uma.
Em suma,
ler é uma fonte inesgotável de prazer.
Mas o livro não pode ser qualquer.
Alguns, simplesmente não os leio,
outros abandono-os quando a meio.
Todos eles simples, submissos,
aceitam os meus gestos, 
manifestos ou  omissos.
(2007)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Dia dos namorados

Em 2011, a propósito do Dia dos Namorados, a Editora Gatafunho, com a qual trabalhava à data, pediu-me uma colaboração para o blogue  

Eis o que acabou por ser editado.

Em 2009 foi editado o Livro "Os Dias do Amor", uma recolha antológica de 365 poemas de amor de 365 poetas, feita por Inês Ramos. E porque amanhã é o dia dos namorados vamos incluir aqui dois poemas da antologia (…)

Fim das chuvas nas searas

Sobre as coisas diversas do campo a mesma luz terrestre
O meu amor vai regressar e eu estou feliz
Talvez de mãos dadas ou talvez sem dar as mãos
É impossível não pensar que amanhã caminharemos até aquela casa
Para ver como a cidade é bonita vista das montanhas
Ou para não ver como a cidade é bonita vista das montanhas
António Ladeira

Pesadelo

Não sabia quão grande era o amor
mas ao imaginar tê-lo perdido
foi de tal modo intensa a dor,
como um buraco negro foi tão densa
que tudo à minha volta era vazio.
Sem luz, sem qualquer crença,
tudo se tornou lúgubre, frio.
A vida ficara sem sentido.
Regina Gouveia

Por sugestão minha foram  também incluídos o poema que segue de Jorge Sousa Braga e um texto que escrevi propositadamente para os mais pequenos

Poema de Amor
 
Esta noite
sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo
com o receio
de que ele não te coubesse no dedo.
Jorge de Sousa Braga


 Um belo dia...
Um belo dia, uma raia
resolveu ir passear
e assim foi a flutuar,
lá desde as águas profundas,
onde costuma habitar,
quase até à beira mar
onde, se sabe,  há perigos
sempre prontos a atacar.
Foi quando viu um peixinho,
lindo, lindo de encantar,
pendurado duma cana
que viera para o pescar.
Nadou então velozmente
para o fio ir cortar .
Ao peixinho, já cansado
de se tentar libertar,
quando a viu aproximar
pareceu-lhe ver um anjo
com as asas a adejar.
Liberto daquela cana
que o tentara pescar,
tirou-lhe a raia o anzol
que ainda estava a magoar.
Cobriu-o com a barbatana
como se fora um lençol.
Levou-o então mar afora
para a sua casa no fundo
e o peixinho descansou
dormiu um sono profundo.
Sonhou com o Nemo e a Dora.
A raia, quando o velava,
começou a perceber
que já estava enamorada.
Foi então que ele acordou
e ao ver o seu anjo ao lado
ficou logo enfeitiçado.
Foram nadar enlaçados
conhecer o mar inteiro.
E eis que  viram no mar
uma placa a anunciar
"14 de Fevereiro
o dia dos namorados".
Regina Gouveia (inédito)



Ainda por sugestão minha foi incluída no referido blogue uma referência aos lenços de namorados

 

Termino com um belíssimo soneto de Vinicius, dito pelo autor

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes, "Antologia Poética"

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fernando Lanhas - Os 7 Rostos

Ainda a propósito da personalidade multifacetada de Fernando Lanhas, encontrei este vídeo a que  também faz  referência  De Rerum Natura. Aí podemos encontrar também   alguns poemas seus  e um texto muito interessante da autoria de Carlos Fiolhais

Eis os poemas

I
Deus não é
a forma que lhe atribuímos,
mas a sua verdade,
que inventamos,
é a única que entendemos.

XXVI

O Sol
os sóis
os navios.
Os navios usam-se;
entendemos os navios que fizemos.

Os sóis
não os inventamos.

XXVII

Seguimos
à beira de saber;
a cumprir
aquilo que não sabemos,
do lado
em que não se sabe.



 

Conforme referido no vídeo, não se lhe conhecia uma grande relação com a música. Talvez pela  surdez contraída em criança e que se agravou ao longo dos anos. Mas em sua homenagem deixo mais um excerto dos planetas de Holst, desta vez dedicado a Urano

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Se Isto é um homem

Se isto é um homem é o título do livro mais conhecido de Primo Levi de quem já aqui falei a propósito de um outro livro : O Sistema Periódico
No passado dia 1 de Fevereiro, pôde ler-se em De Rerum Natura

Acaba de sair na colecção "Ciência Aberta" da editora Gradiva um livro muito interessante Diálogo sobre a Ciência e os Homens entre o escritor Primo Levi e o físico Tullio Regge, em tradução do professor de Física da Universidade do Porto Eduardo Lage e prefácio de outro professor de Física da mesma Universidade José Moreira Araújo. Por amabilidade da editora transcrevemos o prefácio:

 Aqui ficam alguns excertos desse prefácio.

 (...)A sua obra literária, hoje traduzida em muitas línguas, cresceu e diversificou-se ao longo de quatro décadas,num estilo marcado pela sua formação e curiosidade científica. No entanto, muitos de nós, pouco confiantes no seu domínio da língua italiana, tiveram de esperar anos, por vezes muitos, por uma tradução em língua mais divulgada, por exemplo inglês. Com a excepção, que creio única, de Se questo e un uomo, tais traduções só surgem a partir dos anos 80 (...)
(...)Neste Ano Internacional da Química (2011), não será despropositado recordar que, em 2006, a prestigiada e centenária Royal Institution britânica decidiu identificar o melhor livro sobre ciência jamais escrito («the best science book ever written»). Convidadas instituições e individualidades a propor obras dessa índole, não faltaram sugestões de escritos assinados por notáveis, do século XIX aos contemporâneos: Charles Darwin, Bertold Brecht, Konrad Lorenz, Peter Medawar, James Watson, Richard Feynman, Roger Penrose, Oliver Sacks, Richard Dawkins, etc., etc. E o difícil problema de escolha terminou com a proclamação da obra vencedora: precisamente O Sistema Periódico, de Primo Levi. Se o autor ainda vivesse teria, provavelmente, acolhido a notícia com não mais que um modesto sorriso…


Pesquisando na NET encontrei um vídeo com uma interessante entrevista a Primo Levi.

A propósito do livro Se isto é um homem pode ler-se num outro site:

(...)Logo, Levi tenta dizer-se intimamente, numa espécie de autolibertação, como é passar pelas experiências desumanas às quais fora obrigado a experienciar e, por isso mesmo, está condenado a revivê-las continuamente na “viagem ao fundo do poço” sem fundo.
É esse “chegar no fundo” que a narrativa de Primo Levi consegue descrever de forma tão vivamente dramática e aterrorizante. O pano de fundo dessa projeção é o testemunho vivo das experiências vividas por Levi em um campo de concentração, em Monowitz, perto de Auschwitz, no terrível ano de 1944, na Polônia. Ao (re)atravessar, através da rememoração, essas terríveis ondas de um mar de insanidades nazistas, Levi leva-nos a refletir sobre o que é o homem ou, para ser mais abrangente: que características devem possuir um representante da espécie humana para ser considerado um ser humano em seu sentido mais abrangente. Precisa-se mais que um corpo em si mesmo, isto é, um corpo nu, natural, orgânico, sem qualquer produção cultural, como designa o termo körper, em alemão; precisa-se do leib, o sublime, o humano, para que se possa continuar a existir como uma estrela cintilante e não como um fantasma de si mesmo.
Nesse sentido, antes de iniciar a narração de suas lembranças, Levi nos adverte:

“pensem se isto é um homem
que trabalha no meio do barro,
que não conhece paz,
que luta por um pedaço de pão,
que morre por um sim ou por um não.
Pensem bem se isto é uma mulher,
sem cabelos e sem nome,
sem mais força para lembrar,
vazios os olhos, frio o ventre,
como um sapo no inverno”.
 (1988).



Para Levi, então, está claro que para ser humano é preciso que haja a razão, a presença da luz divina na alma, a centelha de vida, a dignidade, algo que, paulatinamente, o nazismo tentou apagar em seus prisioneiros incessantemente. O sujeito [sub-jectum] como o suporte de si mesmo fora apagado pouco a pouco, restando tão somente um corpo como uma máquina: frio e inerte. Não uma máquina em seu sentido capitalista, produtivo, mas uma carcaça do que tinha sido antes dos inúmeros flagelos a que fora submetido “desrazoadamente”.
Através da memória de Primo Levi, o quadro que se apresenta diante do leitor é um retrato de quase-morte; é a história de homens, mulheres e crianças, transformados em farrapos, destituídos de todos os seus direitos enquanto humanos. Bichos, porque expostos aos mais terríveis maus-tratos e humilhações, é o termo que mais se aproxima de suas condições de existência naqueles tenebrosos dias do nazismo. Basta um olhar, por desatento que seja, para se verificar que esse grupo de homens, que anda cabisbaixo e faminto, assemelha-se a um grupo de animais prisioneiros, porque submetido à horríveis privações de alimentos, de abrigo, de descanso, de calor humano, de linguagem; em resumo, do prazer da liberdade. No campo de concentração, os prisioneiros aprendem rapidamente “a responder Jawoh!, a não fazer nunca perguntas, a fingir ter compreendido sempre” (1988: 31). Esse exercício repetitivo de submissão faz com que percam, pouco a pouco, a capacidade para refletir sobre seu mundo e sobre si mesmos: exercício necessário para se atingir o esclarecimento. A linguagem lhes havia sido podada. Poucos compreendiam o jargão alemão utilizado nos Lager pelos Kapos e, assim, a comunicação entre os prisioneiros era rara. O mais importante, descobriam, não era compreender a linguagem dos SS, mas manter-se vivo através da concentração no trabalho. Como escreve Levi, “o [trabalho] era como exercício da mente, como a evasão do pensamento da morte, como modo de viver o dia-a-dia”. A frase “O trabalho enobrece”, disposta em vários lugares nos Lager, buscava incutir nos prisioneiros a crença na libertação através do trabalho árduo e não através do esclarecimento possibilitado pelo pensamento crítico.


E a propósito de campos de concentração deixo -vos com imagens impressionantes do pintor Lasar-Segall




ACERVO DO MUSEU LASAR SEGALL.


A ARTE DE LASAR SEGALL  É UMA ARTE DE “DENÚNCIA SOCIAL” DIANTE DA INTOLERÂNCIA, E, AO MESMO TEMPO, UM ANSEIO PERMANENTE DE SOBREVIVÊNCIA HUMANA NUM MUNDO MELHOR.

Somos feitos de pó de estrelas


Pó de estrelas
Somos feitos
da mesma matéria
 que as estrelas
e os amores perfeitos

Somos feitos
de pó de estrelas

Este poema é um dos muitos que podemos encontrar no livro “Pó de estrelas”,  um belíssimo livro da autoria de Jorge Sousa Braga, dirigido essencialmente aos mais novos.

No blogue Da Física à Química  podemos encontrar o vídeo We Are All Made Of Stars

Eis a letra que pode ser encontrada aqui

Growing in numbers
Growing in speed
Can't fight the future
Can't fight what I see
People they come together
People they fall apart
No one can stop us now
'Cause we are all made of stars
Efforts of lovers
Left in my mind
I sing in the reaches
We'll see what we find
People they come together
People they fall apart
No one can stop us now
'Cause we are all made of stars
People they come together
People they fall apart
No one can stop us now
'Cause we are all made of stars
Slow slow slow, come come
Someone come come come
Even love is goin' 'round
You can't ignore what is goin' 'round
Slowly rebuilding
I feel it in me
Growing in numbers
Growing in peace
People they come together
People they fall apart
No one can stop us now
'Cause we are all made of stars
People they come together
People they fall apart
No one can stop us now
'Cause we are all made of stars
People they come together
(People they come together)
People they fall apart
(People they fall apart)
No one can stop us now
(No one can stop us now)
'Cause we are all made of stars
(We are all made of stars)
We are all made of stars
People they come together
We are all made of stars
(People they fall apart)
We are all made of stars
(No one can stop us now)
'Cause we are all made of stars
(We are all made of stars)


Termino com um poema meu e duas telas famosas de Van Gogh,que podem ver aqui
Poeira cósmica

Todos os elementos
que constituem a vida
tiveram, à partida,
há muitos milhões de anos,
origem nas estrelas.
Foi da poeira cósmica
que a espécie humana nasceu
e com ela, a poesia e a lira de Orfeu

 in Poemas no espaço-tempo a aguardar edição




 
Já após a colocação da mensagem e por sugestão (óptima sugestão) da minha amiga Virgínia, decidi colocar o vídeo   Vincent (Starry Starry Night) Don McLean


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Obrigada Fernando Lanhas

Tive o privilégio de conhecer Fernando Lanhas pessoalmente. Tenho alguns livros e catálogos sobre a sua obra de entre os quais destaco
com uma dedicatória ao meu marido que com ele teve algumas conversas muito interessantes sobre diversos temas


Num dos textos incluídos no livro anteriormente referido,   João Lima Pinharanda  diz


E ainda a propósito de Fernando Lanhas e Pinharanda pode ler-se  

Com Fernando Lanhas, Pinharanda espera ter aprendido a perceber que "entre o cotão que tirava dos bolsos como exemplo de coisas humildes e os seixos rolados que escolhia nas praias e nos leitos secos dos ribeiros, austeramente coloria e guardava nas gavetas das cómodas lá de casa, entre os estudos das estrelas cadentes e a idade que atribuia ao granito de que se fazem as casas, entre o universo em expansão e as suas pinturas austeras, onde chegou a misturar pó de pedra e onde a geometria é antes uma metafísica, há apenas uma diferença de escala." Escreve o comissário que "Lanhas sempre entendeu a sua obra material (de artista, arquitecto, poeta, astrónomo, arqueólogo, paleontólogo) como uma fracção nessa imensidão a que agora se reúne."
Ainda no mesmo livro, Fernando Guedes refere:


Trancrevo um desses poemas

Ficamos assim a olhar para as coisas…
a não entender a mancha que não vive

mas desce e diminui,
não morre

mas seca e ali fica,
a trocar de cor
como se tivesse a finalidade
de um fim

  
Nenhuma direcção nos serve
ficamos assim
sem posição de olhar;

sem saber porque é que
porque
é


O mérito de Fernando lanhas foi reconhecido em vida, o que nem sempre acontece. A prová-lo duas homenagens de entre as muitas que lhe foram feitas, um poema de José Viale Moutinho e um vídeo da Exposição Comemorativa 86º Aniversário de Nascimento de Fernando Lanhas FERNANDO LANHAS, PARAR... PENSAR... SENTIR... "



HOMENAGEM AO PINTOR FERNANDO LANHAS (por José Viale Moutinho)
 
1

dele é o grande livro dos astros
as linhas da idade pertencem-lhe
assim como todos os museus da terra
e o crânio do homem de cromagnon

vejamos as horas que restam no saber
do tempo nestes relógios de sol vivo
como evoluiu o linho o trigo o milho
quanto vale um minuto isolado por aí

como se passa da cor à ausência dela
no espelho das cinzas nos tecidos
o fogo acabado de descobrir os olhos
postos numa boneca de louça antiga

esquece-se das chaves do automóvel
as casas suspensas nos estiradores
uma porta que não existe ainda oca
tudo tão relativo como a ampulheta

2

servem-nos os melhores vinhos o lápis
que traduz o chapéu de palha da madeira
essa estrada por entre os arvoredos
deus se existe vai no porta-bagagens

adiante no tablier ninguém escuta as
perdas e os danos o inquieto barro
que se permite no largo de s. joão novo
num palácio de nasoni entre muralhas

de que me lembro e aonde devo guardar
este barco dos anos trinta este folheto
de monstros de há trezentos anos a lua
naquele tempo não imaginava a sua morte

quantas vezes voltamos ao lugar onde
nem a sibila adivinharia as sombras
com os nossos números de ordem astros
de um universo perdido nas palavras



Um dos vários auto retratos do autor
Algumas outras obras de F.Lanhas podem ser vistas aqui