Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Em terras do Nordeste-parte 6

Retomo a minha "reportagem" de férias

No dia 31 foi feira de Alfândega. Como o meu marido tinha que ir à vila, fui, dei uma volta pela feira mas não comprei nada. Aproveitei para visitar a Laura, uma senhora que cuidou da última tia do meu marido, de quem gostávamos muito. A senhora foi sempre muito carinhosa com ela pelo que sempre que posso vou visitá-la. A conversa girou à volta da feira e das feiras por ali. E eu aproveitei para esclarecer uma dúvida que me tinha ficado ao ler o livro “Ernestina”,de que tenho vindo a falar ao longo das últimas mensagens. Em Mogadouro há uma feira anual famosa, a Feira do Gorazes. O meu pai costumava lá ir e a minha mãe ficava sempre numa angústia. A estrada era perigosa, com muitas curvas e ribanceiras profundas e o meu pai era um pouco louco a conduzir. Teve dois acidentes mas nenhum no percurso para Mogadouro...Rentes de Carvalho também refere a dita feira mas “situa-a” a 15 de Novembro. Ora eu tinha quase a certeza que seria a 15 de outubro, dia a seguir ao do meu aniversário. Na conversa com a Laura pude constatar que é a 15 de outubro.

No regresso de Alfândega não fizemos o percurso habitual mas um totalmente diferente para podermos passar na aldeia de Felgueiras, de que falei na mensagem anterior.
Existe ali uma casa de turismo rural de linhas modernas, mas cheia de “floreados” que, para mim, são de gosto muito duvidoso. 








Mas a aldeia tem muitas potencialidades turísticas embora várias casas estejam em ruínas





No dia 3 teria lugar a festa do Santo Antão, a que já aludi em mensagem anterior.
A festa é uma das romarias mais conhecidas nas redondezas e o local era, antes da construção da barragem, lugar de encontro de pescadores amadores ( e não só) que ali faziam grandes pescarias e lautas comezainas, as peixadas.

Rentes de Carvalho, em Ernestina,  relata o caso de um homem que foi ao Santo Antão comer uma peixada com os amigos e no regresso caiu ao rio onde morreu afogado.

..em vez disso foi direito ao Santo Antão comer uma peixada com os amigos(…) pag 306

Quando eu era criança, um casal da aldeia morreu também ao atravessar o rio a cavalo. Mas houve vários outros casos

Regresso à festa. Não gosto de romarias mas gosto do passeio a pé da minha aldeia até ao Santuário. Antes da transladação (por causa da barragem) eram cerca de 10 km, agora são cerca de 7.
 Há duas “jovens” da geração dos meus filhos, uma delas geógrafa, ainda minha prima, que gostam de fazer esta caminhada pelo que vamos sempre juntas. Por vezes há quem pare e nos ofereça boleia. Quando dizemos que queremos ir a pé, geralmente surge a pergunta: É promessa?
Noutros tempos era promessa habitual de muita gente, tal como dar n voltas à capela, de joelhos, por vezes levando animais pela rédea.
Este ano as duas jovens apareceram acompanhadas de uma outra, a Inês Barbedo filha de uns amigos, que foi colega dos meus filhos na escola e, tal como o meu filho Miguel, frequentou campos de férias do MOCANFE  no Talasnal. Já não a via há muitos anos mas foi uma surpresa muito agradável

Saímos da Parada por volta das 18h por causa do calor. Quando chegámos já o sol se punha.




As cerimónias religiosas tinham terminado. Fomos à capela, ver os óleos que cobrem as paredes e que foram descobertos e restaurados quando da muda do santuário. Fotografei também a centenária caixa de esmolas. 





António dos Santos Lopes (casado com uma tia minha) escreveu, na década de 90, uma monografia sobre o Santuário onde entre muitas fotos, se encontra a desta caixa.



Após a visita à capela fomos encontrar-nos com o meu marido que tinha ido de jipe, onde levara a “merenda” que comemos, sentados no chão, já longe da “confusão”. Depois ainda fomos ao rio tentar apanhar lagostins, mas naquela zona havia muito poucos. Regressámos a casa, de jipe, por volta das 22 h. No local começaria a berraria ensurdecedora dos conjuntos que ecoa hoje em todas as romarias.



Durante esta estadia na Parada fui duas vezes picada por vespas e na mesma perna que, de cada vez inchou e ficou arroxeada durante vários dias. Uma das vezes aconteceu em mais um passeio até ao Castro da Marruça, ou melhor, ao que resta do Castro da Marruça.
Trata-se de um povoado fortificado castrejo, usado até à ocupação muçulmana, situado numa escarpa junto ao rio Sabor.
A sua função era eminentemente defensiva, com um recinto amuralhado ainda razoavelmente conservado, encontrando-se a sul, fora das muralhas, restos de habitações de um povoado ali existente. 

A vista dali sobre o rio ( agora largo por causa da barragem) é muito bonita.



A sua fortificação é feita em grande parte pelo rochedo em que assenta, no cabeço que desce abruptamente para o rio. O resto era obra humana, uma muralha bem conservada até há cerca de 12 anos, em que um homem resolveu deitar parte abaixo para poder aceder facilmente à lenha de carrascos que ali crescem.
Quando nos apercebemos fomos de imediato comunicar à Câmara. Continuamos a aguardar que o IPPAR faça algo, enquanto as pedras da muralha se vão esboroando…

Este castro já me inspirou alguns poemas e um dos contos que figuram  em Terras de Cieiro,   livro que foi agora lançado em Alfândega da Fé 


Outrora

Outrora, seriam por certo diferentes
o achatamento polar, o campo magnético, a atracção lunar
e, como tal, o peso das coisas, as marés.
Diferença subtil, irrelevante,
pois se esse tempo, à escala humana é já distante,
à escala do Universo ainda é presente.
Outrora, seriam por certo diferentes as gentes que no castro habitavam
mas como hoje, sofriam, amavam e guerreavam em sangrentas batalhas,
deixando virgens, talvez para sempre, tímidas donzelas.
Testemunhas desse tempo, as muralhas,
naturais do lado do abismo, do outro lado humana construção,
como também humana a destruição que de onde em onde grassa.
Ignorou-se que enquanto o tempo passa,
as pedras guardam na memória os feitos da história,
o sangue derramado, a glória, o revés.
Em terras que com sangue foram adubadas,
florescem hoje papoilas encarnadas
por entre alvas estevas, roxas arçãs e giestas amarelas.
Na Primavera, todas elas salpicam a ladeira do castro até ao rio.
Deste, quem sabe, o rumor será ainda eco dum clamor,

outrora lançado no vazio.
in Magnetismo terrestre

Nunca tinha sido picada por uma vespa mas, teria uns 12 anos, fui picada por uma abelha e curiosamente na mesma perna...Estava em casa duma menina minha colega e a mãe, na sua boa fé, foi buscar uma moeda e pressionou. Sentia dores na perna e uma manhã acordei febril. Quando tentei levantar-me apercebi-me que a perna parecia um cepo, de inchada. Tive dificuldade em levantar-me. Quando a minha mãe me viu naquele estado decidiu que iria de imediato ao hospital. Não faço ideia de quem me levou pois o meu pai, à época estava no Brasil. Provavelmente terá sido algum dos meus tios, de férias na aldeia, mas essa parte varreu-se da minha memória. A razão da febre e do inchaço estava na moeda… Não tinha sido mordida por uma vespa e sim por uma abelha que deixara o ferrão. Ao pressionar no sítio da picada, o ferrão ficou “enterrado” e acabou por infeccionar. Retirado o ferrão (ainda hoje tenho a cicatriz da incisão feita para o retirar) e com a ajuda de um antibiótico, tudo se resolveu rapidamente.
Nessa altura casou uma rapariga da terra. Como eu tocava acordeão, no dia da boda o pai bateu muito timidamente ao portão. Vinha pedir se “a menina” poderia tocar umas modinhas na festa do casamento.
A minha mãe disse que eu ainda estava a reabilitar-me dos danos causados pela abelha mas iria falar comigo. Fui, com a perna ainda inchada e com o acordeão que ainda tenho mas não toco, e lá toquei já não sei o quê. Com certeza mal tocado pois, tal como acontecia com o piano, era fraca executante.. Mas a gratidão do pai da noiva manteve-se até à sua morte.

E já que falo em vespas, abelhas e músicas, deixo um pequeno excerto de O voo do moscardo de Rimsky Korsakov, obra de que gosto muito.




A partir de 28/08, e com a minha casa “deserta”, tive tempo para escrever este relato de férias, que também para mim estavam a findar pois dia 5 tinha que estar no Porto para uma consulta no Hospital de Sto António, consulta essa que aguardava há um ano. 

Termino com mais um pôr do Sol, visto do meu terraço




2 comentários:

  1. Uma excelente reportagem. Com imensas novidades que eu desconhecia e lindas fotografias.
    Uma boa semana.
    Beijos.

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  2. Obrigada Graça. Vou já ler o poema que provavelmente acabou de dar a cohnecer.
    Bjs
    Regina

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