Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Em terras do Nordeste ….parte 3


Cheguei à Parada e nova azáfama me esperava, embora menor, pois iria poder contar com a ajuda da mulher do senhor que toma conta das poucas terras que ainda temos.
Ainda de manhã fui dar umas braçaditas na mini piscina onde, todos os dias, me refrescaria várias vezes ao dia.
O meu marido chegaria à hora do almoço, uma feijoada que ele traria de um restaurante de Alfândega, onde teve que passar antes de chegar à aldeia.
À tarde telefonei à Isabel, de quem já aqui falei, uma escultora ainda familiar que vive em França, mas reconstruiu a casa dos avós e está a reconstruir uma outra que lhe servirá de atelier. Convidei-a para jantar.
Fizemo-lo no terraço, como aconteceu quase todos os dias, tendo por cenário o pôr do Sol.



Como a propósito de livros se falou em Rentes de Carvalho, disse-me que estava a ler “Pó, cinza e recordações” e de seguida iria ler “Ernestina”. Tenho o primeiro mas não o segundo pelo que mo emprestou. Iria ser uma das minhas leituras… 

Começa assim
«Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930. E eu, quando uns quatro anos depois comecei a observar a Sua criação, não o fiz como seria de esperar, apenas com os olhos que Ele me tinha dado à nascença, mas quase exclusivamente através dum binóculo.»
Algumas das considerações que tece (pag13)  sobre um tio avô a que chamava avô, poderiam ter sido escritas sobre o meu avô (nascido em 1863), que não conheci mas de que irei falar mais adiante.
Ouvi dizer também que era bom, cumpridor, fiel aos seus amigos(….)Deixou fama como caçador.(…) 


Já aqui referi que a adega da casa tem sido para mim como uma arca do tesouro. Por volta de 1995 começámos a explorar o imenso caos ali existente. Foi assim que descobri, dentro duma mala, um conjunto de poemas do meu pai que viriam a ser publicados pela Câmara de Alfândega da  


Mas descobri muitas outras coisas, para mim autênticas preciosidades. Pensei então em fazer uma espécie de museu para deixar a filhos, netos…

Só que a tarefa é ciclópica, e como só lhe posso dedicar alguns dias por ano, avança lentamente. Para além disso, de entre as inúmeras peças que me aparecem, há muitas cuja função desconheço. Vale-me o meu marido que as conhece ou se as não conhece, as vai analisando com toda a sua minúcia de arquiteto e acaba por lhes adivinhar a função que mais tarde confirma junto de algumas “entendidos” da aldeia.







Este ano decidiu ajudar-me pelo que começámos a tarefa de organizar as ferramentas.
As peças mais bonitas são as de carpintaria. Que eu saiba, não tive nenhum carpinteiro na família mas o meu avô, nas horas de lazer lia ou fazia peças em madeira: cadeirinhas para os filhos, uma estante, um porta lápis e canetas, que tenho na minha casa do Porto, etc
À medida que vamos organizando as peças, segue-se a tarefa de as limpar,   que sobra para mim... Logo na primeira peça que limpava, uma plaina, deparei com as iniciais do meu avô...Mais tarde foi a vez de um serrote...





O meu avô não era da Parada mas de uma aldeia vizinha, Sendim da Ribeira. Não gostava das lides de lavoura pelo que ingressou na Guarda Fiscal. Já no posto de 1º cabo escolheu para casar, a minha avó, natural da Parada, mas o meu bisavô, lavrador razoavelmente abastado, de início não se entusiasmou. Não percebe nada de lavoura, tem boas terras na aldeia mas pouco trabalhadas… Tinha no entanto algumas caraterísticas que agradavam ao meu bisavô, nomeadamente alguma cultura (lia bastante, assinava o jornal, escrevia muito bem...) que o tornavam diferente de quase todos os candidatos à mão da filha, lavradores mais abastados mas que, terminada a escola,nunca mais tinham pegado num livro e nunca tinham lido um jornal. Começou a sua carreira no Porto onde nasceram 3 dos 9 filhos e ali, tal como o “avô” de Rentes de Carvalho, comandou o posto da Guarda Fiscal, na Alfândega. Tinham ainda em comum o gosto pela leitura 
Fanático como era da leitura (…)in Ernestina, pag 58. 
Não conheci os meus avós mas, tal como o avô de Rentes de Carvalho, também o meu avô terá sido um excelente caçador.


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