Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 1 de maio de 2016

De 25 de Abril a 1 de Maio

Passaram já 42 anos sobre o 25 de Abril de 1974. Recordo como se fosse hoje a ansiedade que de início pairou enquanto não se soube ao certo o que tinha acontecido. Recordo-me também das explosões de alegria que surgiram depois,  bem como do Hino do MFA que ecoava por todo o lado.


Não sei se no próprio dia, se num dos  dias seguintes,  fui ao café e levei os meu filhos, o Nuno ao colo, ainda não tinha um ano, o Miguel já pela mão. O hino ecoava no ar e nós "trauteávamos" cada um à sua maneira.
Depois começaram a surgir as decepções de que Chico Buarque nos deu conta


Passados 42 anos, sinto uma grande tristeza por toda a corrupção que se instalou no país mas como sou optimista, tenho alguma esperança que agora as coisas melhorem.

Sempre ouvi  o meu pai falar de corrupção quando se referia ao Brasil, onde viveu cerca de 40 anos.
Hoje acho que, nesse campo, pouco ou nada distingue os dois países.
E volto a recorrer a Chico Buarque com Fado tropical, só que alterando a mensagem. Em vez de ser o Brasil a libertar-se da ditadura, almejando tornar-se no Portugal que acabara de renascer,  foi Portugal que se transformou num país de corrupção, qual Brasil.



De qualquer modo e porque como acima referi, ainda tenho alguma esperança tomo, de empréstimo,
um poema de Graça Pires 

No contorno deste chão
um grito abraçou o povo.
E o frágil coração da liberdade
reinventou o sonho.
Para sempre.

No passado dia 25 de Abril não saí. Aproveitei o dia para, com ajuda do meu marido, limpar a casa. A dada altura tocou a campainha. Era a nossa funcionária (digo nossa porque trabalha para mim e para os meus filhos) que partiu um pé já há dois meses. A fratura foi muito complicada pelo que só agora começou a andar e com canadianas. O  marido trouxe-a de carro mas conversámos à porta da rua pois  ainda não pode subir escadas.  Estava com saudades de todos, em especial das crianças. Só que estas não estavam pois tinham ido passar o fim de semana a Esmoriz, onde  têm uma casa.

No dia 26, terça feira,  retomei as rotinas habituais. O José sai da escola por volta das 16 h. Até há pouco tempo ia buscá-lo mas com o aval dos pais, vem para minha casa a pé com uma colega, o que me agrada. Considero que devemos dar  aos jovens uma certa  autonomia que conduzirá a uma cada vez maior responsabilidade. Procedi sempre assim com os filhos e nunca me arrependi.
Na quarta tive que ir buscá-lo para o levar ao futebol (na escola Hernâni Gonçalves aqui perto de minha casa). Na quinta fui buscá-lo, de seguida fomos buscar a irmã e seguimos para a aula de música.
Sexta é dia de ir buscar a Marta. Fui mais cedo e aproveitei para visitar a Galeria Baganha. Tinha recebido um convite para a última inauguração mas não tive disponibilidade.
Gostei bastante de algumas obras de que deixo imagens




 As obras acima são acrílicos sobre tela de Amelia Palacios


 As duas obras acima são de Francisco Pazos, em aço e granito, respetivamente

Acrílico sobre tela de  Alex Vázquez   e  fotografia de Quique Touriño.

No sábado o dia foi rico em atividades.
Logo pela manhã saí de casa para  a visita guiada "As casas de Carolina", mais uma iniciativa no âmbito das comemorações do centenário do Liceu Feminino do Porto e que, carecendo de inscrição prévia, se repete nos próximos dois sábados, no mesmo horário.
A visita,  muito interessante, foi guiada pelo Dr. Luís Cabral que no fim forneceu, a todos os presentes, um folheto com uma resenha das informações que  foi dando ao longo do percurso. Começámos por visitar a casa onde Carolina Michaëlis viveu, na Rua de Cedofeita 159 (embora tenha vivido períodos de tempo relativamente curtos em outras duas casas foi nesta que viveu praticamente toda a vida após o casamento). A casa, que estava na mais completa ruína, foi restaurada por um casal jovem muito simpático(ele português, ela grega) e é hoje uma guest house de que podemos saber mais aqui e aqui

Esta é uma sala de entrada e a mesa que se vê na imagem, pertenceu a C. M.

Continuando por Cedofeita passámos pelo Palacete da Viscondessa do Seixo(onde D. Pedro IV chegou a estar instalado) e pela casa de Honório de Lima (avô de Pinto da Costa)

(Quando estudante universitária estive hospedada num Lar Feminino que funcionava numa casa que era pertença da mãe de Pinto da Costa. Essa casa foi restaurada há pouco tempo  e é também  uma guest house ou algo no género).

O nosso destino era o palacete no nº 441, edifício onde, em 1914, começou por funcionar a secção Feminina dos Liceus do Porto ( antes tinha havido uma turma mista no Liceu Masculino que nessa altura funcionava em S. Bento da Vitória). Em 1921 o Liceu Feminino, então Sampaio Bruno, vai funcionar na Praça Coronel Pacheco, em frente ao Colégio Almeida Garrett, onde antes funcionara o colégio de Miss Hennessey, que viria a dar lugar ao Colégio de Nossa Senhora do Rosário,onde posteriormente funcionou o Externato Marista do Porto (a minha sogra e a irmã estudaram algum tempo no Colégio do Rosário, precisamente no edifício do Externato Marista).
 Em 1926 o Liceu muda de nome passando a Liceu Carolina Michaëlis.
A partir de 1937 começa a ser projetado e posteriormente construído o Liceu na Ramada Alta, que só ficará concluído em 1951. Foi no atual edifício que terminou a visita
Aos seus promotores, nomeadamente ao colega José Valente, os meus parabéns.

Durante a visita tomei conhecimento de que o Dr. Luís Cabral estava ligado à Câmara do Porto onde o meu marido trabalhou como arquiteto. Ao tentar identificá-lo referi que ainda ali trabalha um colega e grande amigo, o Arquiteto Resende. O Dr. Luís Cabral disse-me: Logo vou ao Lugar do Desenho pois vai haver  uma homenagem  ao pai do Arquiteto Resende. Sorri e disse-lhe. Então até logo. Já sabíamos do evento onde, com muito gosto  iríamos estar presentes.




Tratou-se de uma homenagem póstuma ao Maestro Resende Dias, irmão do Mestre Júlio Resende. Família de artistas, eram primos de Fernando Lanhas...
O nosso amigo ainda em vida do pai integrou, bem como um irmão já falecido, a Orquestra Resende Dias. A orquestra ainda se mantém e atuou durante cerca de 2h, apresentando obras de Resende Dias, de sua mãe, Emília Resende e do filho Carlos Resende(já falecido). Deixo algumas das obras que ali foram apresentadas
Quadras em bossa nova ( Resende Dias)

De rosa ao peito(Resende Dias) na voz de Marisa


Tempo de guerra tempo de paz(Carlos Resende)

Outras referências a este evento poderão ser encontradas aqui , aqui e aqui

Nas paredes do espaço onde a orquestra atuou estavam várias fotos de Resende Dias muitas vezes com o irmão e o primo. Enquanto aguardávamos fomos visitar uma exposição de Júlio Resende,  vários trabalhos relativamente pequenos, quase todos em técnica mista, alguns dos quais já conhecia de outras exposições mas que são sempre um deleite para o olhar.
E ainda houve tempo para comer uma fatia de bolo e beber uma taça de espumante.
Foi um evento muito bonito com várias gerações "Resende Dias". O nosso amigo e a irmã, o filho do nosso amigo que eu conheço desde que nasceu e que já é pai de uma menina com cerca de 9 meses.
Parabéns a todos.


E assim chegámos a 1 de Maio, que neste ano coincide com o Dia da Mãe a quem, entre outros, dediquei este  poema

Memória serena

Ali, naquele sofá de couro,
está uma memória sentada,
doce e serena como a luz do luar,
como o rio que desliza mansamente para o mar.
A mão, já enrugada, pousa no braço do sofá de couro,
onde está marcada a mão real,
tantas vezes pousada.
Doce é o sorriso, profundo o olhar.
Na gola do casaco imaginado,
um alfinete de ouro com o nome gravado.
Ali, na memória sentada no sofá de couro.


in Entre Margens, 2013

2 comentários:

  1. Grandes actividades. Os meus dias escoam-se com mais sossego, contemplação, gozo dos momentos com os filhos solteiros ou com os netos. Gosto destes dias grandes, dos jantares na Ribeira ou na Foz, da companhia da minha filha ou mesmo sozinha. Cada vez tenho menos apetência para visitas a museus, a casas históricas ou encontros sociais. Como te disse nunca fiz parte da família Carolina e até detestava o espírito que unia todas essas professoras ou antigas alunos, a começar pela minha sogra que tecia elogios rasgados à Balacó, que foi o terror do liceu, segundo consta. Pagava para não ter de ir a nda disso, mas compreendo que gostes de conhecer os locais. O único sítio que conheço é a casa dos Pinto da Costa, onde fui com o Honório grande amigo do meu irmão Filipe. Não tenho saudades da Ramada Alta, passei lá 30 anos da minha vida, mas fiquei com marcas profundas por razões que são só minhas...
    Boa semana!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Amanhã parto para o Brasil onde vou visitar os meus irmãos, em especial o meu irmão que está bastante doente. Quando regressar, dia 11, volto a dar notícias
      Ab
      Regina

      Eliminar