Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

terça-feira, 24 de março de 2015

Bugiada e mouriscada

No blog anterior, a propósito da minha visita  à Escola da Estação em Valongo, falei da artista plástica Cláudia Moreira.

(...)A artista plástica Cláudia Moreira, que desconhecia, mas que faz trabalhos interessantes em papel, nomeadamente As Marias, tinha estado na escola a dinamizar, com as crianças do 1º ciclo, uma workshop sobre bonecas de papel(...)

No dia 21, Dia Mundial da Poesia, foi também dia de inaugurações no quarteirão Miguel Bombarda. 


Fui com uma amiga e,quando na Rua do Rosário nos preparávamos para entar na galeria Artes Solar de Sto António, vi em frente, do outro lado da rua, uma montra com várias Marias de Cláudia Moreira, de quem até à véspera nunca tinha ouvido falar...
Entrámos na loja, uma loja  bonita no rés do chão dum edifício projetado pelo arquiteto Marques da Silva. A dona da loja mostrou-nos o espaço e falou-nos um pouco das Marias. Mas eu já tinha feito uma pesquisa na NET após me ter sido oferecida, na escola da Estação em Valongo,  a Maria que "mostrei"na mensagem anterior.

Ao fazer a pesquisa na NET encontrei vários sites nomeadamente este Ali deparei com algo de que nunca ouvira falar, a Bugiada.

Mais uma pesquisa.... 

A 24 de Junho, nas Festas de S. João de Sobrado há vários espectáculos cénicos na rua nomeadamente  uma celebração que  simboliza a guerra entre o Bem e o Mal, personificados, respectivamente, por Bugios e Mourisqueiros  numa inversão dos papéis tradicionais. O Bem é desordeiro, folião e anarca, enquanto o Mal apresenta uma postura ordeira, aprumada e correcta.
A origem da festa remonta aos tempos de ocupação muçulmana na Península Ibérica. Depois da exploração das jazidas auríferas por parte dos muçulmanos, os cristãos passaram a viver nos vales e dedicaram-se a actividades agro-pecuárias. Esta comunidade desenvolveu uma grande devoção pela figura de S. João Baptista pois atribuíam-lhe a cura da filha do chefe cristão.
Quando o rei mouro se viu numa situação similar pediu, aos cristãos, a imagem do santo milagroso. Para os convencer, organizou uma festa e uma procissão. Perante a recusa da cedência da imagem, o Reimoeiro, chefe dos mouros, reteve a imagem à força e, para os humilhar, sentou-os numa mesa à parte e serviu-lhes restos e imundices.
Foi uma outra tribo cristã, os Bugios, que os salvou aparecendo mascarados, munidos de ferramentas agrícolas e a emitir gritos estridentes. A acompanhá-los estava um animal fantástico, a Serpe, uma espécie de lagarto, para pregar um susto ainda maior.

Festa da Bugiada e da Mouriscada de Sobrado, que acontece perto de Valongo, conseguiu - e consegue ainda - não sem tensões e contradições, ressignificar-se nas condições da vida difícil dos tempos que correm, nomeadamente junto dos mais jovens. Para muitos vale o que aparece à superfície: uma banal luta entre o bem e o mal. Em Sobrado, porém, não é fácil dizer quem são os bons e quem são os maus. Porque os dois lados habitam cada um, numa tensão que se diria quase irresolúvel. Mais do que de bons e de maus, a Bugiada e a Mouriscada revela-nos, afinal, como pode conviver a identidade com a diferença. Não apenas conviver, mas também vivificar-se.

                                                        Inspiração na festa da bugiada e mouriscada     
Inspiração na festa da bugiada e mouriscada

No vídeo que segue podemos ver como, nesta festa,  coexistem pacificamente o profano e o religioso



Também no dia 21, uma  publicação distribuída no quarteirão citado, fazia referência ao projeto locomotiva que arrancou no final de 2014. Ainda não tinha visitado o espaço  pelo que no dia 22  fui, com o meu marido,  visitá-lo.
Começámos  para tomar café na Rua das Flores, onde agora é um prazer passear e onde vale a pena espreitar a Jóia da coroa.
De seguida fomos visitar o espaço que está a ser criado na Estação de S. Bento.
Aqui ficam algumas imagens





E continuando  a falar de cultura, ontem fui visitar, na Fundação Manuel António da Mota, no espaço Bom Sucesso, a exposição nós na arte tapeçaria de Portalegre e arte contemporânea. Acho que vale a pena uma visita

domingo, 22 de março de 2015

Mais uma vez pelas escolas


Nos passados dias 13 e 19 e a pedido da Porto Editora, estive em várias escolas com o livro Ciência para meninos em poemas pequeninos.
No dia 13 estive em Aradas, Aveiro. Estavam previstas quatro  sessões, duas de manhã e duas de tarde, mas duas das escolas fecharam por causa da greve.
Reorganizado o programa fiz duas sessões de manhã, em escolas diferentes. Em ambas tive alunos do 1º ao 4º ano, pois face à crise demográfica que o país atravessa há cada vez menos alunos. Numa das escolas havia apenas 4 alunos de 1º ano.  Por tudo isto,  voltou-se à situação de um professor com mais que um nível.
Os alunos estiveram muito participativos,   em particular na primeira escola. Não mostravam qualquer interesse em abandonar a sala,  não aparentavam o mínimo enfado, antes pelo contrário,  pelo que a sessão se alongou. Chegámos à 2ª escola com meia hora de atraso que compensámos ficando um bocadinho até mais tarde.Em representação de uma das turmas, duas meninas (Carina e Fátima, se a memória não me falha) vieram entregar-me uma flor feita com papel de lustro de  quatro cores, que fecha e abre, conforme tento mostrar a seguir.


                                                  
No dia  19, estive com alunos de  três escolas de Castelo de Paiva: Serradelo, Casal da Renda e Sobrado. Aguardavam-me não  só professores e elementos da Biblioteca  como também da Junta de Freguesia e da Câmara, nomeadamente o vereador da cultura, com os quais almocei. Uma vitela deliciosa....
As duas primeiras sessões (às 10  e às 11h)  foram nas respetivas escolas e a terceira, às 14 h,  foi na Biblioteca de Castelo de Paiva um edifício novo com bastante luz.


Em todas as sessões, os alunos estiveram muito empenhados, todos queriam ler e  intervir                                                       

Como recordação, para além do carinho com que fui tratada e do entusiasmo  das crianças, a medalha do município


No dia 20 estive na Escola da Estação em Valongo, a convite da escola.
Fiz três sessões com as crianças que tinham sido muito motivadas para a visita.

Numa das sessões as crianças, juntamente com a professora, começaram por ler o poema poesia, um dos poemas do livro  e, de seguida,  leram uma nova versão feita com textos seus.

A artista plástica Cláudia Moreira, que eu desconhecia, mas que faz uns trabalhos interessantes em papel, nomeadamente As Marias, tinha estado na escola a dinamizar, com as crianças do 1º ciclo, uma workshop sobre bonecas de papel. O tema era a poesia e por isso as crianças fariam as bonecas alusivas a autores que escolhessem. Fizeram  várias que vão  passar  pelas escolas do agrupamento, numa itinerância que  terminará na Biblioteca de Valongo. 
Tive a sorte de ser uma das autoras escolhidas. Aqui está a minha Maria O vestido reproduz a capa do livro Ciência para meninos em poemas pequeninos onde foram inseridos os títulos dos poemas.


Os professores têm o privilégio de lidar com gente nova  por isso tendem a  manter uma mente jovem-, referiu uma vez Augusto Abelaira num entrevista (as  palavras não terão sido exatamente as que escrevi mas o sentido era precisamente o mesmo).
Penso nessa frase muitas vezes, nomeadamente quando vou a escolas donde saio "rejuvenescida"...


sábado, 21 de março de 2015

Tempo de poesia

Só agora, quase a entrar no dia 22, arranjei uns minutos para falar na celebração do Dia da Poesia. Mas como diz Gedeão, todo o tempo é tempo de poesia.

Tempo de Poesia

Todo o tempo é de poesia
 Desde a névoa da manhã
à névoa do outo dia.
 Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
 Todo o tempo é de poesia
 Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.
 Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.
António Gedeão

Incluo também um poema  do meu primeiro livro Reflexões e Interferências (2002)

Exploração

Qual exploradora,  parti um dia.
Embrenhei-me na selva da vida
onde sabia  andar escondida a poesia           
                                                   Encontrei-a
na luz ténue do sol ao fim do dia,
na molécula, no átomo, no quantum de energia,
nas leis de Newton, no conceito de entropia.
                                                  Encontrei-a
na reflexão da luz,  na impulsão no ar,
no cheiro a maresia e nas algas do  mar,
no orvalho, na geada, na chuva, no luar.
                                                   Encontrei-a
no ínfimo e  no imenso  que a vista não alcança,
nas rugas dum idoso, no rir de uma  criança,
numa tela, num concerto,  numa dança.
                                                    Encontrei-a
no voo da gaivota, na pétala da flor,
na chama que tremula e se multiplica em cor
e que  irradia energia na forma de calor
                                                    Encontrei-a
nas estrelas, nas galáxias mais distantes,
no olhar apaixonado daqueles dois amantes,
nos extintos dinossauros de dimensões gigantes.
                                                    Encontrei-a
em  medusas, corais, nos fundos oceanos,
no vento a  agitar nas árvores os ramos,
em  pinturas rupestres com vários milhares de anos
                                                     Encontrei-a
na violeta escondida no canto do jardim
e no frasco que continha essência de jasmim.
Tentei então guardá-la só para mim.
Foi assim que ela se evolou
e de novo eu aqui estou
a procurá-la.
Regina Gouveia

Termino com um poema de uma amiga minha que acaba de publicar o seu primeiro livro de poesia.

Cultivar o amor

Houve amores que chegaram outros foram sem querer
muitos deles adormeceram mesmo antes de morrer,
perdidos e não achados tantos  e tantos também
ficaram atormentados o coração estilhaçado
não souberam querer bem, o amor não escolhe idade
aparece sem dizer dá conta quando instalado
incrustado em todo o lado é chama de lume a arder
e quando esmorece cedo por força do mal querer
apaga-se o enamorado dá lugar a outro ser
que pode ter bom futuro ou acabar por ali
se não se alimenta - tem fome está condenado a morrer,
mas se cresce e se prolonga com força e vivacidade
terá por testemunho a sorte
pode o amor com vontade dizer olá à verdade
tornarem-se companheiros um do outro ter saudade,
não basta dizer que sim para colher no estio
as flores, as folhas e os frutos é preciso bem tratar
como o amor – cultivar.   

Maria Fernanda Bahia

sexta-feira, 20 de março de 2015

O eclipse


Platero e Eu é um magnífico livro de prosa poética, escrito por Juan Ramón Jiménez (Prémio Nobel de Literatura, em 1956). É um livro de afetos, nomeadamente o que une o autor  ao seu burrinho Platero. Recebi-o quando tinha 12 anos e já o reli não sei quantas vezes.

                                                           

Um dos textos relata  consequências de um eclipse total do sol a que o autor, quando jovem, assistiu na sua aldeia andaluza

METEMOS as mãos nos bolsos, sem querer, e sentimos na fronte o fino palpitar da sombra fresca, como quando se entra num espesso pinhal. As galinhas recolheram ao poleiro, uma a uma. Em redor, o campo enlutou o seu verde, como se o véu roxo do altar-mor o cobiçasse. Viu-se, branco, o mar longínquo; e algumas estrelas brilharam, pálidas. Como iam trocando brancura por brancura, os terraços! Nós, que lá estávamos, gritávamos, uns para os outros, ditos mais ou menos engraçados, pequenos e escuros naquele silêncio reduzido do eclipse.
Olhávamos o sol com tudo: com os binóculos de teatro, com o óculo de grande alcance, com uma garrafa, com um vidro fumado. E de toda a parte: da varanda, da escada da cerca, da janela do celeiro, da porta do pátio, pelos seus vidros escarlates e azuis...
Ao ocultar-se o sol (que, um momento antes, tornava tudo duas, três, cem vezes maior e melhor com as suas complicações de luz e ouro), tudo, sem a longa transição do crepúsculo, ficava só e pobre, como se se tivesse trocado ouro primeiro, e depois prata, por cobre. A aldeia parecia uma pequena moeda ferrugenta e sem valor. Que tristes e pequenas as ruas, as praças, a torre, os caminhos dos montes!
Platero além, na cerca, parecia um burro menos verdadeiro, diferente e recortado; outro burro...

 Hoje, em Portugal também ocorreu um eclipse do Sol, mas parcial. Muni-me dos óculos adequados e às 8,30 h fui para o quintal observá-lo. Às nove vieram buscar-me para umas sessões que fui fazer na Escola da Estação em Valongo (referir-me-ei brevemente a visitas que tenho feito a escolas). Quando lá chegámos, voltei a espreitar o Sol. Estava com o aspeto que podem ver na imagem anexa e que foi retirada daqui  tal como o vídeo que também apresento  



A minha neta Marta (4 anos) que ontem jantou em minha casa, logo que chegou começou a falar-me do eclipse e fiquei espantada como a miúda o explicava. Com as mãozitas figurava a terra e a lua. O candeeiro era o sol. Dobrando uma mãozita e mantendo a outra aberta.mostrava a sombra da primeira sobre a segunda. E a propósito disso começou a falar de planetas, de estrelas...Comentei: Tenho uma neta fantástica. Ela retorqui: Eu tenha uma avó fantástica. E logo de imediato completou. Eu tenho duas avós fantásticas. São as melhores do mundo. Nâo, são as melhores da galáxia.

Contrariamente ao irmão que, no infantário, teve uma educadora muito fraquinha, a Marta tem uma educadora muito boa, que os estimula muito e que ela adora.

A terminar coloco um excerto do meu livro "Pelo sistema solar vamos todos viajar" e que se refere aos eclipses.


quarta-feira, 11 de março de 2015

A educação em Portugal, pelas ruas da amargura...

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Conforme tem sido noticiado, os clínicos que se desloquem para as zonas mais carenciadas, onde há falta de profissionais, podem vir a receber mil euros a mais nos seis primeiros meses de trabalho.
A partir daí, o incentivo descerá para os 500 euros, que passará para 250 euros nos meses seguintes, até completar cinco anos de contrato.
Além disso, faz parte dos planos do Executivo garantir a transferência dos filhos dos clínicos de escola e ajudar os cônjuges a encontrar emprego.
Mas há mais: para o caso dos médicos que trabalhem em mais do que uma instituição de saúde, com uma distância de mais de 60 quilómetros entre si, poderá haver ajudas de custo no valor de 200 euros diários.

Nada tenho a objetar no que se refere a estes incentivos, antes pelo contrário.

Indigna-me, isso sim, que neste país haja  licenciados de 1ª, 2ª , 3ª ,etc, etc, etc. Por isso ponho à vossa reflexão excertos dum texto  que podem ler aqui e que foi extraído do livro "Da Educação dos Príncipes", de António Mouzinho

 (...)Não vale a pena estar aqui a listar números com muitos algarismos: basta afirmar que a remuneração de uma elite que tem como ocupação ensinar os nossos cidadãos não pode comparar-se muito desfavoravelmente com as profissões liberais. Ou quaisquer profissões.  E é escusado dizer que não pode reger-se por uma equivalência com tabelas da função pública: a profissão de professor é específica, e essa especificidade deve ser clara, também, no capítulo da carreira— que se quer longa, sem sobressaltos, em benefício da comunidade, com vantagens comummente reconhecidas na economia de qualquer nação.

(...)Claro que há necessidade de tornar atrativos os lugares mais afastados dos grandes centros urbanos, o que significa que haverá que pensar em alguns apoios para instalar o professor e a família que queiram aceitar a vida na província, no par de anos que corresponde à integração no terreno. Qualquer empregador privado inteligente faz isso. Qualquer empregador privado faz mais outra coisa: explica minuciosamente, a alguém que esteja a contratar, para o que é que precisa dele, e onde.
E abre concurso para uma vaga em Valença, não abrindo um concurso para uma vaga nacional para, de seguida, surpreender o contratado algarvio com uma posição no Minho… que ele não pode recusar sem penalizações(...).

Licenciada em Físico-Químicas lecionei  dois anos antes de ingressar em estágio. Tive um orientador excecional pelo que, profissionalmente, o estágio me fez crescer muito. No final do estágio fiz exame de estado. Já com exame de estado, várias vezes as minhas aulas foram observadas pelo Inspetor Túlio Tomás que andava pelas escolas e assistia essencialmente às aulas dos mais jovens, fazendo críticas construtivas, dando sugestões, etc

Assim se formavam os professores. E assim se avaliavam.

Fui professora de Física e Química 39 anos, 29 dos quais como orientadora de estágio e 10 acumulando com a docência da Didática da Física, no mestrado em Física para o ensino, na FCUP. A par da docência fiz investigação em Didática da Física e da Química. Tive oportunidade de contactar com formadores de outros países, que consideravam exemplar o nosso sistema de formação de professores.

Mas voltemos ao texto de A.Mouzinho

(...)a escolha de um docente deve ser feita por um processo exigente de entrevista, e estágio: os estágios pedagógicos tradicionais sempre tiveram a seguinte virtude: falava-se essencialmente de didática das disciplinas, os estagiários observavam aulas de um professor experimentado, e as dos colegas; as suas aulas eram observadas num prazo extenso.

(...)os estágios, seguidos dum período probatório, envolveriam, na sua essência, aquilo que a investigação científica mais recente estivesse a fornecer quanto a práticas de sala de aula e de avaliação de conhecimentos dos alunos: teoricamente — em seminários, etc. — mas, igualmente, em contexto de sala de aula... Envolveriam, por outro lado, maciçamente, didática das disciplinas ministradas...


A avaliação dos professores nem sempre foi adequada mas  não o  é certamente com as medidas ridículas e sem qualquer sentido propostas pelos Ministérios da Educação dos dois últimos governos

 (...) um mestre na arte de fabricar sapatos só pode ser reconhecido no exercício dessa atividade, pelo que convém que também a exerça; o mesmo se poderá dizer de um pintor, ou de um cozinheiro; de um músico, ou de um ator; de um serralheiro, ou de um arquiteto.

Aos sessenta anos e com 39 anos de serviço,  aposentei-me, desgostosa por ver o rumo que levaram a formação de professores e consequentemente a docência.
 Infelizmente não vejo os nossos políticos minimamente interessados em investir numa educação de qualidade.

Cito mais uma vez António Mouzinho

 (...)Um plano de educação novo só pode começar a produzir efeitos em dez a vinte anos, pressupõe colaboração entre quem chega e quem está, e condições de transição equitativas, sólidas e muito pacíficas.
Não é para mágicos da política munidos de conversa, pressa, e palavras como «abracadabra». É para políticos sérios, e vai sendo tempo de eles surgirem, porque a forma como sucessivos ministérios tentam ocupar primeiras páginas de jornais com gabarolices relativamente ao último Pisa que correu bem, por exemplo, devia enchê-los de vergonha. Pessoalmente, tenho-me sentido sempre constrangido: por quem é que essa gente nos toma? Que arrivismo embaraçoso! : um posto definitivo num lugar da estrutura educativa é merecedor de respeito: aí, sim, o professor é-o com todas as prerrogativas, e todos os privilégios. Tem direito a estabelecer os fundamentos de uma vida de ensino e uma vida privada sem ser agitado por fenómenos espúrios como concursos sucessivos, colocações compulsivas, horários zero, tarefas inadequadas de feição administrativa, e toda a carga de trabalhos e reuniões inúteis que hoje em dia é considerado normal infligir a docentes — com o pretexto de que estão lá e o Estado tem a obrigação regular de chocalhá-los.

Uma educação de qualidade passa necessariamente por condições de trabalho, no mínimo razoáveis

(...) os horários devem ser— em qualquer idade— razoáveis; as pessoas devem ter a noção de que (a menos que se trate de vigiar uma turma que faz um teste, ou coisa semelhante) um professor aplicado que dá quatro aulas de enfiada, com uma hora cada, fica cansado. Muito cansado.

(...)O resto poderá ser um conjunto variado, dependendo dos projetos de escola, ou pessoais, em que o professor esteja envolvido, mas a componente letiva deverá ser essa— e, admito, sem grandes diminuições com o passar dos anos; um limite mínimo de 14 a 16 horas é aceitável: como é natural, é aquilo que alguém que escolheu esta profissão mais gosta de fazer. 

Uma educação de qualidade implica também  alguma  liberdade de ação por parte dos professores

(...)dadas as orientações do curriculum nacional, particularizadas nos programas das disciplinas, assentemos nisto: o professor deve ser totalmente independente na organização das matérias e das suas aulas. Pode, e deve, trabalhar com os colegas para apontar caminhos dentro da sua escola. Mas em matéria pedagógica aceita sugestões, estabelece consensos— não precisa de ordens.

(...)Demasiados conselhos pedagógicos de demasiadas escolas portuguesas ganharam o mau hábito de intervir (com a cobertura das leis da gestão dos estabelecimentos de ensino) nos projetos de trabalho dos seus professores.

São, geralmente, incompetentes pedagógica e cientificamente para o fazer, porque são corpos de representação disciplinar reduzida, porque são designados pela direção, e porque não possuem qualquer preparação que lhes empreste bigodes de metodólogos.


Que fique a seguinte conclusão, entretanto: é pela qualidade dos professores que se garante a qualidade do ensino; é por aí que se deve iniciar um projeto educativo, e ai do país que pense que isto pode representar um gasto excessivo ou um desvio de coisas mais prementes: instalações, novas tecnologias, novas pedagogias ou o que quer que seja.

Sem grandes professores não há um grande ensino; sem este, não temos um grande país.

Termino citando Carlos Fiolhais
(...) e ao contrário do que pensam os burocratas do Ministério da Educação, penso que os professores são a mola real do ensino. É necessário que seja restaurada a confiança neles:


terça-feira, 10 de março de 2015

É urgente dizer NÂO

Entre as primeiras palavras que as crianças aprendem a dizer, encontra-se o NÃO. Com o tempo a frequência do NÂO vai-se reduzindo e por vezes, quando  chegamos a adultos já quase a esquecemos, em favor da subserviência, do servilismo e da despersonalização.
Mas há situações em que é urgente e imperioso  dizer NÃO.

Partilho convosco o vídeo que segue.


Uma mensagem de certo modo idêntica pode ser vista aqui

À medida que o vídeo "corria" lembrei-me do poema Operário em construção de Vinicius de Moraes, aqui na voz de Mário Viegas



A terminar,  Construção de Chico Buarque




sábado, 7 de março de 2015

Paisagem transformada


No passado fim de semana fui a Trás-os-Montes.  Já  há muito que pensávamos ir, mas o tempo não ajudava. Fomos com algum receio do frio, mas o tempo esteve fantástico, contrariamente ao que aconteceu no Porto.
Fomos diretos à minha aldeia. Depois do almoço fomos ver até onde já chega o lago da barragem do Baixo Sabor.Sempre fui contra a barragem e continuo achar que não se deveria ter feito.
Mas o que não tem remédio, remediado está, diz o ditado. Por isso há que tirar o máximo partido das alterações. O santuário do Santo Antão da Barca que foi transladado por causa da barragem,  fica agora com um lago em frente que ainda irá subir bastante mais. A paisagem está transformada mas, embora diferente, continua bela
Tirámos algumas fotos mas já não havia muita luz.









Amendoeiras floridas, havia  poucas. Ainda é um pouco cedo. Mas havia flores  nos campos



No regresso fotografámos ao longe a  minha aldeia e um pombal que era dos meus avós e que ainda está na família. Já não sou do tempo em que ali se criavam pombos com que se fazia um arroz de "borracho" divinal, segundo diziam os meus pais, tios e primos.




No dia seguinte fomos à aldeia do meu marido. Almoçámos ao som dos chocalhos das ovelhas que pastavam num campo ao lado da casa. À noite regressámos à minha aldeia onde passámos todo o dia seguinte. Regressámos segunda feira ao Porto.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Das artes plásticas à ciência passando pelo jornalismo


Noé Sendas, um artista plástico a quem já fiz referência em outras mensagens,  faz capa e 16 páginas da Wallpaper

If a picture is worth a thousand words, then what truth does the manipulated, concealed portrait of a woman really divulge? In both photography and real life, the masking of identity creates both panic and intrigue. As art critic Arthur Danto said of Cindy Sherman’s Untitled Film Stills: ‘The still must tease with the promise of a story the viewer of it itches to be told.’ The role of art is to provoke rather than to reveal – to add meaning to an object that could otherwise be meaningless.
Read more 

Na edição do Público de 23/02/ pode ler-se:
Um artista, diz Noé Sendas, é um mistificador: “Alguém que lança um encantamento que afecta o olhar do espectador, fazendo objectos parecer diferentes do que realmente são.” É a lógica que preside ao editorial de moda de 16 páginas que este artista plástico português concebeu para a edição de Março da conhecida revista Wallpaper, de que faz a capa.

E por falar no  Público, ontem o jornal fez 25 anos. Estava no Hospital de Santo António, na minha manhã de voluntariado, telefona-me um advogado meu amigo : 
Já tens o Público de hoje? Traz vários artigos que te devem interessar pois estão relacionados com Einstein.
Quando saí, por volta do meio dia, fui tentar adquirir o jornal. Em todos os quiosques,  papelarias, tabacarias por  onde passava a resposta era sempre a mesma. Já esgotou. Achei estranho. Já quase a chegar a casa entrei em mais uma tabacaria e a  menina que estava no balcão disse-me. Ora veja; acho que ainda há aí algum. Quando me preparava para pagar o jornal, disse-me. Hoje é gratuito porque o Público faz 25 anos.

Na página 3 a Direcção Editorial esclarece:

No Ano Internacional da Luz e dos 100 anos da teoria da relatividade geral de Einstein, o PÚBLICO escolheu o Tempo como tema para celebrar os 25 anos do jornal e convidou o físico teórico João Magueijo para diretor por um dia desta edição especial.

Parabéns ao Jornal Público, não só pelo seu 25º aniversário, mas pela escolha do tema. Deixo alguns pequenos excertos de alguns textos:

Celebra-se o centenário da teoria da relatividade geral, neste ano denominado “da luz”, mas oculta-se do pudor público o lado negro dessa bonita arte mágica. A relatividade geral pode ter dado femininas curvas ao espaço e ao tempo, atribuindo-lhes maleabilidade e vida própria, mas o que raramente se diz é que essa nobre ciência também retirou ao tempo o seu predicado mais óbvio: o fluir. Ao embrulhar na mesma trouxa o espaço e o tempo, negando-lhes natureza independente em favor de um híbrido — o espaço-tempo —, a teoria da relatividade roubou ao tempo o seu brotar(....) Dando direitos e deveres iguais ao espaço e ao tempo, amalgamando-os num ser único, a relatividade nega igualmente a existência de um presente que flui activamente do passado para o futuro. Ordem, sim. Fluir, não. Esse tempo, meus amigos, morreu (João Magueijo)

Sabemos hoje que o Universo está em expansão. Que nasceu a partir de um momento zero e, desde aí, tem evoluído. A descoberta desta expansão, do fi nal dos anos 1920, baseou-se em observações de que as galáxias se estavam a afastar umas das outras. Na realidade, é o espaço entre as galáxias que está a aumentar e, em consequência disso, as galáxias estão a afastar-se entre si. Imaginemos um balão em cuja superfície, o tecido do espaço-tempo, pintámos vários pontos: à medida que o enchemos de ar, expandindo-o, o espaço entre os pontos vai aumentado. É isso que está a acontecer ao Universo. Escolhemos aqui alguns momentos da sua longa existência ou, por outras palavras, da história de tudo( Teresa Firmino)
.
Se a teoria da relatividade restrita de 1905 tinha juntado a matéria à energia (falamos de matéria-energia) e o espaço ao tempo (falamos de espaço-tempo), a teoria da relatividade geral reúne todos esses conceitos ao afirmar que a matéria-energia deforma o espaço-tempo. À volta de um astro o espaço e o tempo são distorcidos
Atrevo-me a conjecturar que, daqui a dez mil anos, a descoberta da equação da relatividade geral feita por Einstein há cem anos será um dos marcos mais notáveis do século XX (Carlos Fiolhais)


Imagino que deve ter sido um grande choque saber que o Universo está a evoluir e que nós, enquanto parte do Universo, estamos a caminhar para algum ponto enquanto espécie e enquanto ser vivo no cosmos. Qual o nosso papel no Universo? Há algum propósito na nossa existência? Qual o futuro da humanidade? Quem criou o Universo? Estas perguntas devem ter ganho nova relevância. Mas, cientificamente, ter havido um ponto de partida é libertador. Não nascemos escravos de um Universo que já cá estava. Pelo contrário, evoluímos com ele. Se o Universo não é estático e está a mudar, então talvez possamos compreender as estrelas, como deitam tanta luz cá para fora, o que acontece no interior delas... Como é que se formaram, como morrem, como é que a vida nasceu... tudo isto! Tem de ter sido uma coisa bonita saber que, afinal, há alguma dinâmica no sítio onde vivemos.(Vitor Cardoso)

E porque falámos de tempo, termino com os relógios derretidos de Salvador Dali

quarta-feira, 4 de março de 2015

De novo pelas escolas..


No passado dia 24 de Fevereiro  e a propósito do livro Breve História da Química, estive com as turmas de 7ºano na  Escola Básica  D. Pedro I, em Canidelo,
Quase todos os anos visito este agrupamento, a convite da professora Cristina Santos que, muito gentilmente, me vem buscar e trazer a casa.  Desta vez, um imprevisto de última hora não lho permitiu.Veio buscar-me um elemento da direção, que já me conhecia de idas anteriores. Às 14 h 30 min teria início a sessão
Aguardava-me uma comunidade escolar (alunos, professores, funcionários) muito gentil e uma surpresa....
Numa atividade interdisciplinar, foi preparada a encenação do texto pelos alunos. As fotos a seguir mostram momentos da atuação com que me presentearam.


Muito empenhados nos respetivos papéis ou atentos às atuações  dos colegas, os alunos portaram-se muito bem.
Após a apresentação, conversei com eles e fiz algumas experiências. Muito participativos, sempre a querer intervir, a sessão foi-se alongando e o entusiasmo mantinha-se. Foi extraordinariamente gratificante não só pelas intervenções dos alunos mas também por ver que, apesar do desrespeito  com que o Ministério trata a educação e muito em particular os professores, ainda há muitos que se empenham por construir uma escola diferente


A terminar a sessão,  uma psicóloga do agrupamento fez uma breve intervenção a propósito da Madame Curie, pela qual nutre uma grande admiração.
Foram mais de 2h  de convívio.

A dada altura uma das professoras de Física e Química disse-me. No regresso eu levo-a porque já sei que mora para os lados da Constituição e eu também mora nessa zona. Perguntei-lhe onde morava e qual não foi  o nosso espanto quando nos apercebemos que moramos na mesma rua  e já há vários anos...Acresce que esta colega é de uma simpatia e de uma disponibilidade extrema. pelo que temos trocado vários "mails" . Foi precisamente essa colega que me enviou as fotos desta mensagem.


Continuando o périplo...

Na passada terça feira  fui à escola EB1  e J1 da Prosela, na Maia,  para duas sessões com  crianças. Na primeira estiveram presentes a pré-primária e o 1º ano e na segunda, os outros três anos da primária.
Para além de professores, alunos e funcionários, aguardavam-me  também a Presidente da Associação de Pais, o Presidente da Junta e o Presidente da Assembleia de Freguesia, o que achei um pouco invulgar. Mas rapidamente  me apercebi  da interligação forte entre as várias instituições. A escola tem uma dinâmica muito interessante que, segundos os professores, só é possível  porque existe essa interligação.
Iniciou-se cada sessão com intervenções dos alunos que, desde os mais pequeninos até aos maiores, leram poemas que tinham trabalhado na aula.
Mais uma vez foi evidente o empenho dos professores . Para eles todo o meu apreço.
Seguidamente fiz uma intervenção, como sempre acompanhada de experiências “mágicas” que explorei com os alunos.  Houve ainda tempo para colocarem questões
As crianças, genericamente, portaram-se  muito bem.
No fim fui presenteada com  um “dossier” com trabalhos dos alunos relativos a alguns dos poemas explorados. As fotos abaixo mostram a capa e trabalho, um  por cada nível .


Pré primária

1º ano

2º ano 


3º ano
4º  ano

Recebi também um marcador de alunos do 2º ano e um conjunto de quatro calendários que variavam apenas na foto da turma



















Na sessão de autógrafos duas crianças aproximaram-se e cada uma me entregou um presente pessoal. Um deles é o que corresponde à imagem que segue.



No  outro, dentro de um envelope feito e pintado pelo aluno tinha um desenho, um pequeno texto e um bonequinho plástico




O que seria do mundo sem as crianças?

Regressei a casa para almoçar, cerca das 14h. Vinha feliz. 


No dia seguinte fui a uma escola pertencente a um agrupamento de escolas de Penafiel. De construção relativamente recente, a escola tem um ar agradável.
A sessão começou por volta das 14 h 30 min num pavilhão com condições acústicas muito deficientes. Estavam presentes crianças do pré-primário até ao 4º ano, inclusive.
Também aqui as crianças intervieram logo no início e de acordo com o nível etário. Leram poemas coletiva e individualmente e a turma de 4ºano tocou e cantou um poema do livro Ciência para meninos em poemas pequeninos, poema que foi musicado pelo professor de música.
As más condições acústicas dificultaram por vezes a percepção das intervenções. Por outro lado, teria sido melhor fazer não uma mas duas sessões, uma com JI e 1ºano, outra  com os demais alunos.  Referi  isso à Diretora que concordou. Na próxima...
Seguidamente fiz uma intervenção, algumas experiências e passou-se à sessão de autógrafos.
O ambiente foi muito agradável. Fui muito bem recebida por professores, alunos e funcionários. No final tinha à minha espera um lanche preparado com muito carinho.
Ficaram de me enviar fotos, quer desta sessão, quer da do dia anterior. Colocá-las-ei
logo que cheguem