Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 12 de julho de 2015

António José Maldonado, o professor e o poeta.

Em Outubro de 1955, com 10 anos incompletos, entrei para o 1º ano do então Liceu Nacional de Bragança. O fascínio de uma nova etapa da minha vida onde quase tudo era novidade, a começar pela dimensão da escola. De entre as colegas da 4ª classe, poucas continuaram estudos, pelo que não conhecia a maior parte das alunas da  turma A, onde me “encaixaram” com mais 30 meninas. O Liceu era misto, contrariamente à escola onde fizera a 4ª classe mas, genericamente, meninos e meninas não partilhavam espaços. A professora Lina, foi substituída por vários  professores, creio que nove. Entre esses professores estava o Dr. António José Maldonado, professor de Português. Recordo-o como um professor muito afável mas bastante permissivo pelo que  não se aprendia muito nas suas aulas.
Voltei a tê-lo como professor na disciplina de História no 5º ano (actual 9º). Por motivos de saúde foi substituído, creio que no início do 2º período.
Por essa altura, surgiu na escola uma nova professora de Inglês, a Drª Aurora, com quem o Dr. Maldonado veio a casar.
Não voltei a tê-lo como professor. Que no 6º quer no 7º ano, embora as turmas fossem mistas, eram desdobradas na disciplina de Filosofia. O Dr. Maldonado dava aulas aos rapazes e o Dr. Lopes da Silva, então Reitor,  às meninas.
Já no fim da minha passagem por Bragança, constou-me que teria escrito um livro de poesia Futuros ou não,
Embora tivesse sempre uma palavra gentil para me dizer se me visse na escola ou na rua, nunca me apercebi do seu lado poético, o que não é de estranhar pois era ainda muito jovem quando  fui sua aluna.

Transcrevo um dos poemas desse livro

Futuros ou não
viajemos um para o outro, tranquilos; 
viajemos, sombras fugidias, levemente 
            eternas:
- Tu para mim, eu para ti.
  Futuros ou não,
passemos nos lábios inventando o fogo, 
passemos nos corpos repartindo as nascentes, 
passemos nas almas pronunciando espaço. 
  Como o ruído dos passos gasta a solidão
            dos caminhos,
assim tu em mim,
chegada de muitos gestos, dum mundo e de 
            outro mundo, do alfa e do omega.


António José Maldonado foi inserido pela crítica na chamada "Geração de 50", que se tornou célebre pelo seu inconformismo e revolta contra o regime salazarista. De entre os seus poemas destacam-se particularmente "Êxodo", "Dies Irae" e "Os Fundadores de Cidades". 

Na passada semana tive o tempo um pouco mais livre pelo que deambulei pela Baixa, muito em particular por livrarias. E numa delas, na Praça Guilherme Gomes Fernandes, descobri  Limite Cultivado, um livro de  António José Maldonado, prefaciado por Fernando Guimarães que também conheci como professor do Liceu de Bragança, embora nunca tivesse sido meu professor 



Voltando ao limite cultivado deixo dois poemas


Deixo também um poema de Fernando Guimarães 

ACERCA DE UMA ARANHA
O que se pode dizer? Falemos da sua leveza, dessa espécie de gesto
que a sustenta no ar. Permanece sozinha, para que se encontre
a si mesma. À sua frente estão múltiplos caminhos, mas escolhe
apenas um. Ela procura o centro de qualquer coisa. Aí fica
à espera, atenta como nós quando lemos um livro. Talvez esteja perto
daquilo que há muito se ignorava, de um segredo que a teia
lhe pode revelar quando estremece. Solta-se dela um fio
maior para que a luz venha ao seu encontro. Oscila um pouco
e afasta-se lentamente. É outra a página que se lê agora.
[in As Raízes Diferentes, Relógio d’Água, 2011]

Como referi no início,  recordo o professor como uma pessoa afável e próxima dos alunos. Lembro-me que numa das aulas, não sei se de Português ou de História um dia falou-nos de uma canção de que gostava muito e que trauteou. Tratava-se da Canção do Mar e creio que foi a primeira vez que a ouvi. Deixo-a na voz de Dulce Pontes




2 comentários:

  1. Os professores dantes deixavam marca nos alunos, positiva e negativamente, mas a verdade é que eram únicos e conhecíamos os seus nomes, as suas personalidades e métodos. Andei num liceu de Lisboa, com todas as minhas irmãs, que era feminino e muito conservador. Houve , porém professoras que gostaria de rever hoje, sobretudo para lhes dizer o quanto me deram em áreas como a História, onde tive uma fantástica professora de Chaves, a Português que foi sempre a minha disciplina favorita e aquela a que tive melhores notas. Basta dizer que essa professora nos lia um livro para adolescentes traduzido do inglês todos os sábados de manhã. As professoras de Ciências marcaram-me pela negativa e fiquei traumatizada para toda a vida...Sempre gostei de línguas, mas tb tenho a certeza de que aquela professora que trouxe o disco em vinil do Petit Prince para ouvirmos na aula não sabe como esse gesto me deixou uma verdadeira paixão pela literatura francesa. Ainda hoje fui ver Madame Bovary no cinema...

    Bjinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ultimamente os meus dias têm sido de tal modo ocupados que nem sequer tenho tido tempo para responder a comentários no meu blogue, ou deixar comentários em outros, muito em particular o teu. Obrigada pela tua presença apesar das minhas "ausências"
      Parto para T.os.Montes no sábado com os 4 netos. Ficarei por lá até fins de Agosto. Os netos ficarão duas semanas, uma delas com os pais.
      Lá tenho muita dificuldade em aceder à NET. Por isso, despeço-me até Setembro
      Um gd beijinho
      Regina

      Eliminar