Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Falando de educação e responsabilidade.....


Já há algum tempo que comecei a escrever esta mensagem mas  a reportagem sobre a viagem à China 
acabou por ser mais longa do que eu previa.
No passado dia 19 Maria Helena Damião colocou no de Rerum Natura uma mensagem muito interessante 
"Não estão nisto por gostarem dos miúdos ou por estarem interessados na educação",que transcrevo 
a seguir.


Nós, portugueses, que tão impelidos somos a seguir modelos pedagógicos inovadores, a citar autores que não lemos, a dissertar sobre teorias exóticas, em vez de seguirmos critérios filosóficos racionais e conhecimentos científicos confiáveis, deveríamos pensar duas vezes antes de adoptarmos e insistirmos em medidas educativas que não oferecem garantia, por referência ao que é certo e justo. Estas características mas não exclusivamente nossas, bem sei, mas são muito nossas.


Uma das recentes modas que seguimos, muito acriticamente, é a de confiar a educação pública a empresas privadas e só encontrar nisso vantagens, desde as mais elevadas, como o direito de escolha da escola dos filhos e a melhoria da aprendizagem, até às mais pragmáticas, como as de uma gestão financeira mais benéfica e transparente (os exemplos não terão sido os melhores porque, bem vistas as coisas, ambos caem por terra).

Estados Unidos da América e Suécia adoptaram, em grande escala, o discurso e a estratégia da empresarialização da educação formal. Mas, ambos os países têm analisados resultados académicos e feito contas. Não, não resulta! E estão a voltar à ideia de que ao Estado cabe proporcionar uma escola para todos.

Mas não são apenas os resultados e as contas que, nesta questão, têm sido destacadas pelos analistas. Assinalam um outro factor que faz toda a diferença: as empresas “não estão nisto por gostarem dos miúdos ou por estarem interessados na educação. Estão nisto porque querem fazer dinheiro rapidamente”.

Quem está na educação por outra razão que não seja a educação, não pode ser consentido na educação.

Sobre esta questão poderá ler-se o recente artigo Suecos decepcionados com o sistema de educação, da autoria de Helen Warrell (Financial Times) e traduzido para português por Ana Pina.

Dois dias antes (17/9) a mesma autora havia colocado uma outra mensagem,  Escolas-2

Na sequência da publicação do meu texto Escolas-1, dedicado ao livro O Berço da desigualdade, da autoria de Sebastião Salgado (fotografias) e Cristovam Buarque (textos), o leitor Manuel Silva deixou uma pergunta: "tem esse livro fotografias de África, países pobres, zonas rurais...?"




Sim, tem. E belíssimas. Duas das minhas preferidas são as que abaixo reproduzo: uma tirada no Quénia e outra no Brasil.

Quénia: Escola para jovens refugiados do sul do Sudão, Sebastião Salgado,1993
Brasil: Escola itinerante do Movimento dos Sem Terra, 1996, Sebastião Salgado






























A recordação do leitor traduz o que nelas é essencial:

"Vi em tempos algumas fotos de uma escola numa zona dessas, com os alunos sentados no chão, o professor de pé, um pedaço de ardósia velha e partida pendurada por um fio na «parede». Nada mais. Mas olhares vivos, cheios de curiosidade, interessados, alegres, havia-os em todos os alunos, que seriam uns 15 ou 20."
E acrescenta:
"A escola, para além de nos por a todos num patamar mais elevado de conhecimento, tem ajudado a igualar muita gente muito desigual à partida."
É essa, aliás, a função da escola. Tendo interesse por esta ideia, poderá ler um extracto do livro Escola, igualdade e diferença, da autoria de Joaquim Valentim (aqui) ou ler o livro integralmente. 



A leitura das mensagens acima referidas serviu de mote para esta minha mensagem.



Há quatro anos o meu marido foi numa missão humanitária à Guiné Bissau onde, como alferes miliciano, cumpriu cerca de 2 anos de serviço militar. Levaram várias coisas, nomeadamente livros que foram entregar a diversas escolas. Algumas ao ar livre, sem carteiras (as crianças sentavam-se no chão ou em banquinhos improvisados).












Outras, já algo apetrechadas... 




Em todas elas o que mais os impressionou  foram a ânsia de aprender revelada pelas crianças e o respeito pelo professor.

Desde há muito que em Portugal os sucessivos ministérios da educação se esqueceram que a principal função seria precisamente educar, com tudo o que isso comporta, instruir, desenvolver competências e atitudes, nomeadamente sentido de responsabilidade. Ora vejamos:

  • Há uns anos (creio que há mais de cinco) uma medida para conseguir o "sucesso" dos alunos dos cursos profissionais era fazer testes até que o aluno tivesse um  resultado satisfatório (creio que a medida se mantém mas não estou certa). E esta medida tinha que ser posta em prática mesmo que o aluno faltasse sistematicamente, não  mostrasse o mínimo interesse nas aulas, perturbasse... 

Em vez de se responsabilizarem alunos e famílias, penaliza-se  o professor que terá que fazer um teste, outro e mais outro e ainda mais outro, até que o aluno tenha um mínimo de sucesso (obviamente aparente)
  • Duas das práticas agora adotadas para diminuir o insucesso são a supervisão de uns professores por outros e a criação de coadjuvações. Neste último caso, dois professores (titular e coadjuvante) estão ao mesmo tempo  na mesma sala de aula. Quando tentei saber a razão de tais práticas foi-me dito que são medidas para substituir as aulas de apoio.Ingenuamente perguntei qual a razão da substituição e fiquei atónita quando ouvi:  como as aulas de apoio não eram obrigatórias, muitos  alunos não apareciam.
Novamente, em vez de se responsabilizarem alunos e famílias pelo desinteresse manifestado, arranja-se uma qualquer outra solução.

Mas voltemos à coadjuvação
Em algumas escolas, não sei se em todas, na disciplina  de Física e Química (e provavelmente nas outras) na maior parte das vezes essa presença terá que ocorrer em aulas de apresentação da matéria. Que sentido pode fazer estarem dois professores numa mesma sala a apresentarem a mesma matéria? A coadjuvação, a meu ver, só fará sentido e poderá  ser extremamente útil nas aulas  de aplicação dos conhecimentos, através de exercícios,  problemas etc,  e nas de actividade experimental. 
A sensação com que se fica é que tudo é feito em cima dos joelhos e  ninguém é responsabilizado...
Não me admiro se já estiver na forja um qualquer outro improviso para "diminuir" o insucesso. 
Há pouco chegaram  às escolas novas diretivas sobre as  provas intermédias.  No documento pode ler-se:
(...)Em relação aos testes aplicados no 3.º ciclo do ensino básico e no ensino secundário, 
considerando as evidências que os relatórios de anos anteriores têm revelado, 
nomeadamente o facto de ser residual, ou mesmo impercetível, o seu impacto na melhoria do desempenho dos alunos, entende-se, passados quase 10 anos desde o início do projeto, já não se justificar a sua continuidade nos moldes vigentes(...).

A falta de responsabilização de quem (des)governa o ME vem de há muito. 

Provavelmente já pouca gente se lembra do experimentalismo de Roberto Carneiro com as PGA, nomeadamente a primeira, “introduzida” a meio do ano letivo e que levou a situações gritantes. Alunos (de escolas de referência), com médias de 18 e 19 valores ficaram de fora, enquanto outros com notas muito inferiores entraram no Ensino Superior.
E a criação dos famigerados professores titulares, improviso de  Maria de Lurdes Rodrigues?
E o que aconteceu e ainda está a acontecer com a colocação dos professores em 2014/2015?

O problema é que, por estes e muitos outros erros educacionais, nenhum ministro foi alguma vez responsabilizado...
O exemplo devia vir de cima, mas infelizmente não vem.

2 comentários:

  1. Regina, li a tua mensagem no blog da Virgínia e para saberes a resposta á pergunta "onde andas?" é ires aqui:

    http://noareeiroeporai.blogs.sapo.pt

    Se quiseres saber em mais pormenor do que se passou nestes mais de 50 anos(!!)
    é só mandares-me o teu email...

    Um abraço e foi bom saber notícias tuas e do Fernando

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    1. Foi um prazer ter notícias tuas
      O meu e-mail é rasg1410@gmail.com
      Logo que possa já vou ao teu blogue
      Ab
      Regina

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