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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

segunda-feira, 17 de março de 2014

Amendoeiras em flor


Na última mensagem falei das cerejeiras em Alfândega da Fé. Durante muitos anos, a árvore mais associada ao concelho era a amendoeira. Hoje os amendoais estão a ser progressivamente abandonados (poema Nostalgia) mas, nesta época, ainda podem ver-se várias árvores floridas (poema Flores de amendoeira).

Nostalgia
Quando passo num amendoal, após o verão, sinto um misto de nostalgia e emoção
ao ver a amêndoa abandonada nas árvores e no chão.
Outrora significou   prosperidade  e eram guardados  os amendoais
para garantir que  os rebusqueiros não rebuscavam demais,
que rebuscavam só no chão, à claridade, só de dia e não ao lusco-fusco.
Hoje já ninguém anda ao rebusco.
No Verão,  sob um sol abrasador, era a apanha.
Hoje fica nas árvores e cai na terra que a arrebanha  e com ela se funde;
confundem-se os seus tons. 
Da escacha já há muito não se  ouvem sons.
Os escachadores ora em uníssono,
ora desfasados, habilmente manejados 
com gestos secos, certeiros e breves
por mulheres, crianças,  raparigas,
que enchiam o ar de risos e cantigas, 
iam partindo a amêndoa,  sempre cadenciados,
deixando o grão intacto ou com mazelas leves, 
enquanto das cascas, o monte  crescia no chão.
Mais tarde, a par da lenha, na  lareira, iriam servir para combustão.
O grão ia para sacos de serapilheira.
Mais tarde era vendido e o seu destino era assim perdido.
Aquele que ficava imperfeito, esbotenado, iria ser, mais tarde,  laminado,
misturado com ovos  e açúcar,  nos rochedos     (ver nota abaixo))
cujas receitas eram envoltas em segredos
e cuja doçura ocultava a  agrura de tanta fadiga e de tanto suor. 
Eram a lavra, a limpa, a enxertia, ano após ano um ritual que se cumpria
e quando floriam as amendoeiras, o lavrador contemplava do cimo das ladeiras 
aqueles véus de noiva a perder de vista,
não com o olhar breve de um turista, mas com um profundo olhar, cheio de amor.



Na foto podem ver-se, a par das flores,  amêndoas do ano anterior, por apanhar. 

Flores de amendoeira

As flores de amendoeira, antes da Primavera, 
cobrem a ladeira como um branco véu
ou como vestes de anjo  que se esfumou no céu.
Impressa no código genético a química magia

da ebúrnea cor  que recende a  nostalgia 

Gouveia, R. in Magnetismo terrestre

No passado fim de semana estive lá. Deixo duas imagens da vila vista de longe e algumas imagens de amendoeiras floridas.








Como sempre, aproveitei para visitar a Casa da Cultura   onde se pode ver uma exposição  de  Franchini.



Aqui podem ver uma entrevista com o artista que poderão encontrara na galeria AP´Arte  na Rua Miguel Bombarda, 122

Das obras que mais gostei foi das pinturas abstractas

Nota- na imagem podem ver-se os "rochedos" doces tradicionais de Alfândega da Fé, que são feitos com açúcar, claras e amêndoa laminada.


3 comentários:

  1. Obrigada, Regina, por toda a beleza que traz até nós.
    As fotografias são lindas ,tal como os seus poemas que eu já conhecia.
    Um beijo com muita amizade.

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  2. Tencionava ir ve-las a S. Joao, mas o meu filho tem andado cheio de trabalho e tive medo de o ir perturbar. Quando pode vem ao Porto nos fins de semana.
    Infelizmente não guio, de maneira que só me pode levar aos sítios. Dizem que este ano duraram poucas semanas...
    Lindo Post!
    Beiinhos de Leeds, onde chove e faz sol ao mesmo tempo....

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  3. Obrigada a ambas.
    Hoje ouvi na TV que contrariamente ao que digo na mensagem, ultimamente está a investir-se novamente na produção de amêndoa nos concelhos da terra quente transmontana. Oxalá assim seja mas na minha zona ainda não se nota.
    Ab
    Regina

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