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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Uma questão de dignidade


Na Escola Rodrigues de Freitas está uma exposição muito interessante, parte de uma exposição  do Pavilhão do Conhecimento e que tem por base Física para o Povo (agora com novo título, Física no dia a dia) de Rómulo de Carvalho.
Hoje fui vê-la para depois levar lá os meus netos. Quem está responsável é uma jovem que conheci no Carolina Michaelis onde fez um estágio brilhante com a colega Daisi (que me substituiu como orientadora quando eu passei a acumular na FCUP). Pois bem, a referida jovem deveria(?) ter feito aquela malfadada prova sem pés nem cabeça mas, com muita dignidade, recusou -se a fazê-la.
Até aceito que os candidatos, pressionados pelas crise e pelo desemprego crescente, aceitem ser submetidos a tal prova, não aceito minimamente que professores "instalados" aceitem  vigiar as provas..
Recuo no tempo até 1970. Até 1969, professores que quisessem fazer estágio tinham que fazer uma prova de admissão ao estágio  e, caso fossem admitidos, seriam estagiários  por um ano (homens) ou dois anos (mulheres) sem qualquer vencimento,tempo, findo o qual seriam submetidos a Exame de Estado. Em 1969 foram alteradas algumas das "regras do jogo" e eu, ainda com 23 anos, candidatei-me a estágio que fiz em 69/70 com o Dr. Carvalho Homem, um excelente  orientador, com quem muito aprendi. Terminado o ano letivo de 1969, houve em Coimbra uma ação de formação para professores já com estágio. Eu, como os demais estagiários, tería ainda que fazer, no início do ano letivo 70/71, o célebre  Exame de Estado com duas partes, uma teórica e uma prática que constava de uma aula, dada num dos Liceus Normais, a uma turma qualquer, sorteada de véspera, tendo como assistência os vários metodólogos
do país, entre eles Rómulo de Carvalho. O Exame de Estado correu-me muito bem mas a história que quero contar é ainda anterior ao exame de estado. Como acima referi, findo o ano letivo de 69, houve em Coimbra uma ação de formação para professores de Física já profissionalizados. Eu e uma colega de estágio, pedimos  para frequentar essa formação, mesmo tendo que a pagar, o que não acontecia com os demais professores.
Logo no primeiro dia fizemos uma visita de estudo. Entrámos num autocarro disponibilizado para o efeito e quando eu e a colega entrávamos ouvimos alguns professores comentar entre dentes. Duas professoras de aviário.
E logo de seguida, uma voz firme de uma senhora comentou. Não entendo colegas. Sempre questionaram a admissão ao estágio e o estágio não remunerado. Agora que estão do outro lado, menosprezam a formação das jovens colegas.
Eu e a minha colega ficámos boquiabertas. Durante a visita ficámos a saber que a intervenção tinha sido feita pela Drª Aurelina Martins, co- autora de livros de Física e Química em que um dos autores era Rómulo de Carvalho.
Durante a formação fiquei instalada em casa de um tio do meu marido, investigador no Departamento de Química da Faculdade de Ciências da Universidade de  Coimbra, onde também dava alguma aulas.
Ao jantar comentei o episódio. O senhor, que era uma pessoa muito reservada, comentou. Não me espanta. Fui colega de curso da Aurelina. É uma pessoa muito inteligente e com muita dgnidade..  
 Regresso aos professores que aceitaram vigiar  a tal "prova de avaliação". Creio que a  Dra. Aurelina nunca aceitaria tal papel.

E vêm-me à mente alguns textos:

A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana.
Franz Kafka

Não é digno de saborear o mel aquele que se afasta da colméia com medo das picadelas das abelhas.

Quando alguém compreende que é contrário à sua dignidade de homem obedecer a leis injustas, nenhuma tirania pode escravizá-lo.
Mahatma Gandhi

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis

5 comentários:

  1. Eu também tinha uma prima, a Cândida Strecht, a Candidita, como nós lhe chamávamos, ótima professora de Física e Química, que se submeteu a esse esforço todo, sem qualquer remuneração. Mas
    hoje há cursos específicos para o ensino, julgo eu, o
    que não põe de parte a formação contínua, mas nunca no modelo do Crato com um exame vexatório.
    Acho também uma grande indignidade um professor
    aceitar a vigilância desses exames impostos aos colegas. Gostei muito dos textos que apresenta e do poema de Ricardo Reis.

    Um beijo grande.

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  2. Conheci muito bem a Dra Cândida Strecht. Fomos ambas orientadoras de estágio .Se bem que ela o tivesse começado a ser muito antes de mim, houve algum tempo em que ambas tivemos essas funções. Que é feito da Mariinha (creio que era assim tratada a filha)?
    Ab
    Regina

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    1. Julgo que a Mariinha está bem. Já não a vejo há uns tempos. Mas ela também tem imenso valor.
      Um beijo.

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  3. Fiz o estágio em 1971-72 e felizmente apanhei o Eame de Estado só com escrita e oral - puxadas - mas sem aula assistida que era um terror na altura.
    Melhorei a nota de estágio com o exame, o que não se passou com as minhas colegas...e nunca me prejudicou ter tido só 14 quando a minha licenciatura era de 15. Sempre fiquei nos primeiros lugares do ranking de professores e arranjei sempre vaga, até sair com o meu marido para a Beira Baixa.
    Nunca tive medo de exames, saía-me sempre bem e nem vejo contras em submeterem-se alguns profs a provas durante o seu percurso, mesmo assistências a aulas. Que foi orientador durante 17 anos, acha isso tudo normal e até gosta de dar um show de vez em quando.
    A minha timidez de outrora desapareceu, mal comecei a ensinar, adorava estar no palco e motivar os alunos com métodos inovadores. Nunca fui de tradições, mais de iniciativas novas como as de gravar aulas com vídeocamara, que comprei com o meu dinheiro, pôr os alunos a fazer entrevistas em congressos da APPI, visitar instituições inglesas, participar em projetos, etc. Acho que se notam os bons profs, mesmo sem exames, mas é pena não se poder exigir mais de outros que nada fazem se não o trivial, são mediocres e incultos. Porque os há....e esses fazem o percurso todo sem pestanejar e a ganhar o mesmo que os outros que se esforçam.
    Nunca me preocupei com o dinheiro que ganhei com a autoria de livros porque achei sempre que o meu esforço era enorme...os meus filhos sabem-no bem! Agora já é tempo de me retirar e faço-o sem desgosto.

    Bjo

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    1. Virgínia
      Durante alguns anos os orientadores de estágio tinham frequentemente reuniões, acções etc, inclusive com professores estrangeiros que, genericamente, consideravam muito bom o nosso sistema de estágio ( essencialmente a modalidade em que também orientaste) . Mas defendo que a avaliação não acabe aí e continue ao longo do tempo. Já várias vezes aqui referi que em tempos havia os inspectores que entravam sala dentro sem serem anunciados. Considero que ainda é a forma mais correcta de ir avaliando o desempenho dos professores ao longo do tempo
      Ab
      Regina

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