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Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

domingo, 5 de janeiro de 2014

Depois da Música e da Pintura, a Literatura...

Acabei de reler a História do Cerco de Lisboa, de Saramago. Como creio já ter referido mais que uma vez, Saramago é um dos meus autores preferidos. Tenho quase todas as suas obras e de vez em quando apetece-me reler algumas. Acho que já reli todas as que tenho, algumas mais que uma vez.
O mesmo me acontece com muitos outros autores. Mia Couto é um deles e comecei agora a reler O outro pé da Sereia.
Continuando a falar de livros, há já vários anos que tenho para publicar um livro de contos, de extensão variável (desde 2  a 60 páginas). A Câmara Municipal de Alfândega da Fé, que ficou de o editar, tem vindo a adiar face às dificuldades económicas com que se depara. Este ano resolvi mandar editar na Várzea da Rainha, a  conselho do meu professor de pintura, Domingos Loureiro, que ali manda fazer os catálogos, meia dúzia de exemplares, só para a família. Qualquer pessoa pode fazer aqui uma simulação on-line  e ficar a saber por quanto fica a edição. Esta “editora” tem a vantagem manter o custo por exemplar, independentemente do número de exemplares pretendidos
Resolvi fazer a surpresa à família e o livro foi uma das prendas de Natal. 


A capa é da autoria do meu filho Nuno tendo por base uma tela minha.

Como não sabia o tempo que demoraria o processo, tratei de tudo em Outubro, mas recebi os livros dois dias após fazer a transferência bancária. Escondi-os tão bem que  corri o risco de não os poder usar como presentes pois tive dificuldade em encontrá-los Um dos contos, Vou-me embora para Pasárgada, que foi classificado em 2º lugar na 7ª edição do Concurso Dr. João Isabel, promovido pela Câmara de Manteigas,  já está on-line há bastante tempo (podem lê-lo "clicando" no título, no lado direito do meu blogue). 





Há mais cinco contos também classificados em concursos. Anexo um deles, que é o mais pequeno de todos. Qualquer dia coloco mais alguns on-line.

Os mudos

(…)Almas que atravessais o lodo da existência,
Este lodo perverso, iníquo, envenenado,
Levando sobre a fronte o esplendor da inocência,
Calcando sob os pés o dragão do pecado(…)

Guerra Junqueiro em  “Aos simples”

"Darbón, o médico de Platero, é grande como o boi malhado, vermelho como uma melancia....Já não tem um só dente e quase não come senão miolo de pão, que primeiro amassa entre os dedos. Faz uma bola e leva-a à boca. Aí a conserva revolvendo-a uma hora...Mas enternece-se como uma criança, com Platero."
Esta descrição que Juan Rámon de Giménez, no seu livro “Platero e eu” faz do veterinário Darbón, lembra-me sempre o Mudo.
Na aldeia onde nasci e onde vivi em criança, havia dois mudos. A um nunca conheci o nome próprio e não sei se alguém  o sabia ao certo. Toda a gente se referia a ele como o Mudo. Era grande, vermelho e desdentado. Tal como Dárbon, mascava continuamente miolo de pão amassado. Como não falava, emitia sons mais ou menos extensos "Ah", "Aaaaaaaaaah", que acompanhava com gestos exuberantes. Para além disso o seu rosto adquiria as mais diversas expressões desde a ternura à ira, pelo que não era difícil entender o que lhe ia na alma. Era um homem puro e bom. E tal como Darbón se enternecia com Platero, o Mudo enternecia-se com qualquer criança a quem tentava mostrar, por gestos e sons, o seu afecto. Mas as crianças, especialmente as mais pequenas, assustavam-se com a exuberância do mudo e fugiam dele, muitas vezes chorando. A tristeza ficava então estampada no seu rosto. Por mais que uma vez, em tais situações, vi os seus olhos marejados de lágrimas. Eu, habituada que estava desde muito pequenina, à sua presença frequente lá por casa, gostava muito dele. E o sentimento era mútuo. Quando me via emitia sons de satisfação e batia com a mão no peito. Queria deste modo significar a afeição que tinha por mim. 
Este era um dos mudos que havia na aldeia onde nasci. O outro era o ti Briato. O seu nome era Viriato mas provavelmente nem o próprio o sabia. O ti Briato era um velho de barbas grisalhas e olhos da mesma cor.
Ao que parece, não era mudo, mas agia como tal. A tudo o que lhe perguntassem respondia por gestos, encolhendo os ombros ou acenando a cabeça, afirmativa ou negativamente, conforme o caso. Mas ao contrário do Mudo, o seu rosto tinha sempre a mesma expressão vazia. Nunca o vi sorrir, tal como nunca consegui detectar nos seus olhos qualquer brilho. O seu rosto lembrava o de uma estátua e, tal como uma estátua, era incapaz de fazer mal a alguém.
Um dia o meu pai contou-me o que sempre ouvira contar ao meu avô. Em jovem o nome condizia com a pessoa pois o ti Briato era corajoso e valente como o herói dos Montes Hermínios. Para além disso era um rapaz bonito, alegre e muito ágil; montava um cavalo em pelo como ninguém. Era criado numa das casas ricas da aldeia e apaixonou-se pela filha do patrão. Quando este se apercebeu, despediu - o. A partir daí o Briato começou a ficar cada dia mais triste, mais metido consigo. Corria o ano de 1918. Por essa altura, a Europa foi assolada por uma epidemia terrível - a pneumónica.  Julieta, a filha do patrão, morreu vítima da doença. O meu pai dizia que foi a partir desse dia que o Briato deixou de falar e se foi transformando, aos poucos, no ti Briato que eu conheci. Nunca ninguém soube se a sua afasia era fisiológica ou se se tratava simplesmente de uma recusa em falar, motivada por uma imensa tristeza com origem numa profunda paixão.
Na vida destes dois homens havia muita coisa em comum: provavelmente uma enorme sensibilidade, a mudez, voluntária ou involuntária, a  bondade, uma vida de pobreza e solidão e um casebre idêntico por habitação. Talvez por isso a morte tenha decidido que partilhassem de um mesmo fim. Foi no ano da neve buraqueira. Ambos morreram enregelados, cobertos de neve quando esta, tocada a vento, entrou pelas suas casas mal protegidas. Lembro-me ainda das palavras do padre, quando do funeral:
Estes dois homens a quem ninguém alguma vez conheceu malícia, estão por certo no Reino de Deus.
E se o Reino de Deus existir e for tal como o fantasiam, ambos estarão felizes. O Mudo rodeado de anjos que, por certo, não se assustam com os seus sons e gestos um pouco grotescos, e o ti Briato sem entraves ao amor pela sua Julieta.



2 comentários:

  1. Já não me surpreende, Regina. Mas eu também não me canso de repetir quanto a admiro. A história que conta tem um fundo de tanta sensibilidade e apelo a um mundo mais justo, que correspondem bem à sua personalidade tão rica.
    Um grande abraço, Regina.

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    1. Obrigada,mais uma vez, pelas suas palavras.
      Um grande beijinho
      Regina

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