Bem-vindo, bienvenido, bienvenu, benvenuto, welcome....


Silêncio cósmico

Pudera eu regressar ao silêncio infinito,

ao cosmos de onde vim.

No espaço interestelar, vazio, negro, frio,

havia de soltar um grito bem profundo

e assim exorcizar todas as dores do mundo.

Regina Gouveia

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Obrigada Professor

Já uma vez aqui referi que a minha decisão de pedir a aposentação aos 60 anos (com 39 de serviço) foi uma decisão sofrida. Mas a forma como a ministra MLR tratou os professores não me deixou outro caminho (na altura era um caminho possível, hoje já não é  e  cada vez mais os professores são pouco respeitados pela tutela).
Mas voltemos à minha decisão de me aposentar. Sabendo quão difícil iria ser para mim deixar de fazer aquilo de que tanto gosto, ensinar, tentei ocupar o meu tempo com algo que pudesse atenuar o vazio que ficava. Foi assim que me decidi  por várias ocupações, algumas na área do voluntariado, outras na formação pessoal, entre elas a pintura.
Em boa hora me inscrevi na escola Utopia onde tive Domingos Loureiro  como professor, um professor excelente.
Alguns artistas talentosos (jovens e não só) são por vezes um pouco petulantes (há petulantes que nem sequer são talentosos...).E isto acontece nas artes em geral, seja nas artes plásticas, na literatura, na música, etc.
Domingos Loureiro alia o talento à simplicidade, o que o torna muito especial.
O seu talento tem sido reconhecido a vários níveis. Desta vez recebeu o Grande Prémio da Academia Nacional de Belas Artes.
 in As Artes entre as Letras, nº 109, 30/10/2013


Parabéns Professor e muito obrigada pelo muito que nos tem ensinado

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Caprichos...


Em música, capricho é um tipo de composição caracterizado por forma geralmente livre. Na literatura musical, encontram-se caprichos para diversos instrumentos solo, como os 24 Caprichos para violino solo, compostos por Paganini e também para orquestra como o Capricho Italiano de Tchaikovsky, ou o Capricho Espanhol de Rimsky-Korsakov.

Gosto particularmente  do Capricho Espanhol de Korsakov,  do Capricho Italiano de Tchaikovsky e do Capricho  nº 24 de Paganini. Ontem foram a minha escolha. Como estava no computador, com preguiça de ir buscar os CD` ao porta CD` fui procurá-los na NET e,para além das obras que pretendia, encontrei uma obra belíssima que não conhecia- Capricho Árabe- e que tem a particularidade de contar com Luísa Amaro na guitarra 

Transcrevo o texto que acompanha o vídeo

In-Canto: Luísa Amaro foi a primeira mulher a gravar em guitarra portuguesa, editado em Novembro de 2004. Canção para Carlos Paredes inicia um percurso corajoso de uma mulher enamorada por um instrumento até então masculino.
A tocar em duo com Miguel Carvalhinho há três anos, Luísa Amaro continua o seu trabalho na procura de novos caminhos para a guitarra portuguesa. Assim nasce IN-CANTO - um projecto onde a guitarra portuguesa, e a sua habitual companheira guitarra clássica, se cruzam com outros sons, quiçá remontando às suas origens. Juntam-se aqui à percussão árabe, descobrindo novos timbres e envolvências musicais ilustrados e interpretados por uma outra arte ancestral: a dança oriental.
Para tal, foram convidados Tiago Pereira, um estudioso em percussão oriental, Gonçalo Lopes, clarinetista com vasto repertório de música oriental e Joana Grácio, bailarina de dança oriental, criando um espectáculo onde a sonoridade portuguesa se funde com os ambientes orientais. Instrumentos, ora a solo, ora todos juntos, ora em duo, ora com dança, criam ritmos que transportam o público para lugares longínquos, onde a sedução e a insinuação se fazem sentir.
Um projecto pioneiro que rompe, uma vez mais, com a exclusiva ligação da guitarra portuguesa ao Fado e ao masculino. Neste espectáculo o apelo à sensibilidade, à espiritualidade e à transcendência musical marca presença.

Deixo também os outros  “caprichos”  referidos: O Capricho Espanhol de Korsakov, o Capricho Italiano, de Tchaikovsky.e o Capricho nº 24 de Paganini .

E passando da música à literatura, recordo um livro de que aqui falei em tempos,Capricho 43, cujo autor é o escritor Carlos Vaz que me deu a honra de prefaciar Poemas no espaço tempo, um dos dois livros agora  incluídos em Entre margens

Capricho 43 é essencialmente uma obra de ficção de viagem pelo rio Letes, o rio do esquecimento, numa espécie de barco, que é um tanque de cimento, cuja tripulação procura ilhas de encontro, o encontro com a ciência, através das experiências pensadas de Isaac Newton, e o encontro com a arte, mais propriamente a pintura, com o conjunto de desenhos intitulados por Goya de  Los Caprichos  


Tudo isto narrado sempre num corpo de crescimento e de interrogação quase infantil do estranho homem-que-separa-as-águas e a sua Mãe.

A originalidade do seu estilo literário é considerada pela ensaísta Maria Teresa Dias Furtado, no prefácio à obra, como uma escrita onde "(...) as dicotomias encontradas, medo/coragem, sonho/razão, humanidade/monstruosidade, memória/esquecimento, criança/homem, crítica/sonho, branco/cores, entre outras, geram a metamorfose desejada do leitor numa entrega do seu corpo ao acolher a própria viagem do texto." ainda segundo a mesma ensaísta "(...) 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O AMOR EM VISITA


Em fevereiro passado, a livraria Poetria, onde podem encontrar o meu último livro, Entre margens**, lançou o concurso O AMOR EM VISITA
O poema que eu enviei foi um dos selecionados para integrar uma antologia que vai ser lançada no próximo dia 8 de Novembro. Não vou poder estar presente pois estarei em Carrazeda de Ansiães (dia 8) e  em Alfândega da Fé (dia 9) , na apresentação de Entre margens .
Após o lançamento da antologia colocarei aqui o poema.
Deixo-vos com o convite que me foi enviado pela Poetria, com o pedido de divulgação.

Apareçam. A poesia merece...

A Poetria tem a honra e o prazer de anunciar a apresentação do livro O AMOR EM VISITA, de chancela própria, inaugurando assim o seu primeiro projecto editorial.

Trata-se de uma colectânea de 40 poemas sobre o amor, que teve origem no concurso realizado pela Poetria e que foram seleccionados por um júri composto por pessoas ligadas à literatura e à poesia.

A belíssima capa, também ela resultado de um concurso dirigido a jovens artistas, é da autoria de Anabela Dias.

O acontecimento terá lugar no próximo dia 8 de Novembro, pelas 21,30h no Palacete Balsemão 
(Pç. Carlos Alberto, Porto), que incluirá a intervenção dos membros do júri, leitura de poemas com acompanhamento musical e Porto de honra.

Na ocasião será também apresentada ao público a CENA POÉTRICA, Associação cultural, criada para a divulgação e dinamização dos futuros projectos multiculturais da Poetria.

Tratando-se de um evento tão especial na vida desta livraria, esperamos que todos quantos amam a poesia e prezem a cultura e os livros venham festejar connosco este belo momento.


Agradecemos a divulgação desta informação junto dos vossos contactos.

**o livro também poderá ser adquirido no espaço Vivacidade onde foi apresentado no passado sábado.

domingo, 27 de outubro de 2013

Quino, sempre genial


Vejam este vídeo  com  uma BD de Quino, o criador da saudosa Mafalda

E a  propósito da Mafalda um excerto de uma prancha de BD e um vídeo de divulgação científica com o seu "contributo "

Mudança da hora


 Inconformada com esta mudança da hora que sempre me deprime ( e creio que isto acontece com a maioria dos portugueses)  decidi pesquisar quais as vantagens...
Deixo duas  opiniões, nem sempre coincidentes, a de Nuno Crato, investigador (como ministro, a meu ver,  uma deceção) e a de Ruí Agostinho, diretor do Observatório de Lisboa e fico tristemente a aguardar por Março...

E a propósito de Março, a voz de Elis Regina em Águas de Março

É pau, é pedra
É o fim do caminho
É um resto de toco
É um pouco sozinho...
É um caco de vidro
É a vida, é o sol
É a noite, é a morte
É um laço, é o anzol...
É peroba do campo
O nó da madeira
Caingá, Candeia
É o matita-pereira...
É madeira de vento
Tombo da ribanceira
É um mistério profundo
É o queira ou não queira...
É o vento ventando
É o fim da ladeira
É a viga, é o vão
Festa da Cumieira...
É a chuva chovendo
É conversa ribeira
Das águas de março
É o fim da canseira...
É o pé é o chão
É a marcha estradeira
Passarinho na mão
Pedra de atiradeira...
Uma ave no céu
Uma ave no chão
É um regato, é uma fonte
É um pedaço de pão...
É o fundo do poço
É o fim do caminho
No rosto o desgosto
É um pouco sozinho...
É um estrepe, é um prego
É uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando
É uma conta, é um conto...
É um peixe, é um gesto
É uma prata brilhando
É a luz da manhã
É o tijolo chegando...
É a lenha, é o dia
É o fim da picada
É a garrafa de cana
Estilhaço na estrada...
É o projeto da casa
É o corpo na cama
É o carro enguiçado
É a lama, é a lama...
É um passo é uma ponte
É um sapo, é uma rã
É um resto de mato
Na luz da manhã...
São as águas de março
Fechando o verão
É a promessa de vida
No teu coração...
É pau, é pedra
É o fim do caminho
É um resto de toco
É um pouco sozinho...
É uma cobra, é um pau
É João, é José
É um espinho na mão
É um corte no pé...
São as águas de março
...
É pau, é pedra
É o fim do caminho
É um resto de toco
É um pouco sozinho...
É um passo, é uma ponte
É um sapo, é uma rã
É um belo horizonte
É uma febre terçã...
São as águas de março
....
É pau, é pedra
É o fim do caminho
É um resto de toco
É um pouco sozinho...
É pau, é pedra
É o fim do caminho
É um resto de toco
É um pouco sozinho...
Pau, Pedra...
Fim do caminho...
Resto de toco...
Pouco sozinho...
Pau, Pedra...
Fim do caminho...
Resto de toco...
Pouco sozinho...
Pedra...
Caminho...
Pouco...
Sozinho...


sábado, 26 de outubro de 2013

Entre margens - apresentação


Tal como tinha aqui anunciado, hoje pelas 16 h, teve lugar no Vivacidade, a apresentação do meu livro Entre margens cuja  génese e estrutura descrevo a seguir.

Em 2012 fui contemplada com o 1º prémio no  XVII concurso Poesia em ti, promovido pela  APPACDM de Setúbal.  Do prémio fazia parte a edição, pela Editora Lua de Marfim, de um livro de poesia. Assim surge este livro.

Porquê Entre margens?

Entre margens, os rios, entre margens os textos nas páginas. Uns e outros galgam-nas por vezes. Os textos desta coletânea, agora entre margens, já as galgaram ao longo das suas vidas, por vezes com alguns anos. Aqui se incluem não só textos atuais mas também outros que não foram incluídos nos livros anteriormente publicados. Todos foram sendo organizados em projetos, entre eles Poemas no espaço-tempo e Entre margens. O primeiro chegou a ter edição agendada pela editora Campo das Letras, que infelizmente já não existe. Em 2007 foi prefaciado pelo escritor Carlos Vaz, mas de então para cá foi engrossado com mais poemas, nomeadamente o que foi premiado no concurso de poesia que deu lugar à edição desta obra que contém um conjunto de poemas selecionados a partir dos projetos acima mencionados.


Os poemas contidos em Entre margens foram motivados pela tristeza que me causa  a construção barragem do Baixo Sabor. Todos eles são inspirados em excertos de poemas de grandes poetas 

Deixo algumas imagens, alguns poemas  e o meu agradecimento à Adelaide, à Paula Miguel pela apresentação tão cuidada, ao José António pelos momentos musicais extremamente agradáveis, ao Fernando pelas fotos  e ao público presente que, num sábado primaveril, arranjou disponibilidade para ali se deslocar.
Bem hajam






Esquina do tempo
Eis que tropeço
numa esquina do tempo.
Quem habitará agora
a  casa das memórias?
Entro.
Pousado na cadeira,
o vestido branco bordado
tal como a bolsinha e o toucado.
Muitas horas de amor
em pontos  de sombra
e pé de flor.
As luvinhas em renda ao lado,
brancas  como o vestido
comprido a roçar o chão.
Eis o que resta 
da minha comunhão,
dita solene.
Apenas uma lembrança
ténue mas perene
Umas luvas em fio rendado,
um vestido,
uma bolsinha e um toucado,
tudo bordado
em pontos de sombra
e pé de flor.
Regina Gouveia in  Poemas no espaço-tempo

 A minha mãe e eu, lendo um poema escrito pelo meu pai,  no dia da minha comunhão solene

(…) Ó banzas dos rios , gemendo descantes (…) António Nobre 
Jovial, fagueiro,
por vezes arrebatado, violento,
assim corria o rio, outrora,
em sobressalto ou lento.
Barítono, tenor, baixo,
soprano, contralto,
cantava árias de amor
e de paixão.
Aprisionaram-no. Tentou lutar.
Foi impotente perante
a muralha de betão.
Parado, triste,
agora já não canta.
Tem um nó na garganta.
Regina Gouveia in  “Entre Margens”



Vista do Rio Sabor e da construção da barragem

(…)Já os rios cheios, com bramidos fundos, num dilúvio d´água vão de mar a monte! (…)Guerra Junqueiro
Aos montes que os céus rasgam,
vales profundos os fendem.
São leitos de rios escavados, fundos,
águas que bramam demandando o mar.
Nas margens, líquenes, nas fragas,
escondem bisontes
que foram esculpidos  em tempos perdidos.
Bebiam das águas, galgavam os montes.
Regina Gouveia iin “Entre Margens”

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Apesar de você

Se tivesse que selecionar  uma  música,  de entre a muitas vezes designada música clássica, teria muita dificuldade em me decidir primeiro pelo compositor e  depois pela obra musical, mas se tivesse que selecionar  uma  música  de entre a música dita ligeira,  escolheria sem dúvida Chico Buarque. A dificuldade seria depois em selecionar qual a obra.
Hoje não tive dificuldade na escolha da obra. Ontem alguém me diizia que  se estivermos atentos quando andamos na rua, vemos que os portugueses andam tristes cabisbaixos e mais agressivos.

Isso lembrou-me de imediato  Chico Buarque em Apesar de você


Álbum que traz canções polémicas como “Cálice” e “Apesar de Você”
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão,

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
La, laiá, la laiá, la laiá


Quanto à agressividade, hoje na minha actividade de voluntariado no Hospital de Santo António, onde ajudo os utentes na deslocação para as consultas externas (algumas são difíceis de localizar sem ajuda) encontrei algumas pessoas que reagiam com alguma agressividade a situações exteriores a nós (a demora do elevador, a distância a percorrer atá à consulta, etc, etc,etc.
Referi  isso a um colega voluntário e ele comentou
É natural e são genericamente as pessoas mais idosas pois sentem -se espoliadas com as medidas que têm vindo a ser aplicadas e as que se anunciam.

E tudo o que acima referi  me fez lembrar uma mensagem colocada no dia 22 /10 in De Rerum Natura que publicou os versos  que seguem ( versos  extremamente oportunos no momento que vivemos), com a seguinte introdução

Do académico Eugénio Lisboa, ensaísta e crítica literário, autor de inúmeros posts aqui publicados, em envio que muito nos honra, foram recebidos estes versos, escritos, segundo ele próprio, “relendo Gomes Leal, num Domingo melancólico, meditando neste horror que se abateu sobre o nosso país”:

"Morre o povo aí pelas esquinas,
com a fome que também matou Camões.
Abrigam-se os pobres nas ruínas,
com gestos e ademanes de ladrões.

Com fome e frio, o povo abandonado,
sacode o mundo, tenebrosamente:
dá-me tu, ó Musa, um furor sagrado,
que nos levante, poderosamente!

Uma lira feita só de vinganças,
uma lira cuspindo ameaças!
Uma lira que abale as seguranças
dos que vivem de rapina e trapaças!

Dá-me um canto canoro e eloquente,
que seja para os pobres como um sol,
pai dos párias e astro transcendente,
que faz do pobre grato girassol!

Ó Musa, quero a gana do Poeta,
que me ajude a castigar este horror,
a varrer, com vigor, esta sarjeta,
onde copulam gula e impudor!"

Eugénio Lisboa( depois de reler “A Fome de Camões”, de Gomes Leal).

Este vulto, portanto, que caminha
Altas horas, ao frio das nortadas,
É Camões que se definha
Nas ruas de Lisboa abandonadas.
É Camões que a sorte vil, mesquinha,
Faz em noites de fome torturadas,
Ele o velho cantor de heróis guerreiros!...
Vagar errante como os vis rafeiros.
Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
O seu amparo e seu bordão no mundo,
Morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
No seu vácuo deixando um vácuo fundo.
Hoje, pois, triste, velho, sem abrigo,
Faminto, abandonado e vagabundo,
Tenta esmolar também pelas esquinas.
Ó lágrimas!... Ó glória! Ó ruínas

Gomes Leal in A fome de Camões

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Alentejo, povo que canta ...

Numa das últimas mensagens referi –me a alguns géneros de música de que gosto particularmente. No que respeita à música portuguesa gosto de fado, muito em particular do fado de Coimbra e gosto muito dos cantares alentejanos.

Decidi dedicar-lhes a mensagem de hoje com  Vamos lá saindo , Não quero que vás à monda,Senhora d´Aires , Quando eu era ganhão  e Castelo de Beja 
Neste último vífdeo,  o grupo coral é um grupo de jovens, o que permite acreditar que o canto alentejano continua vivo

Falar de canto é falar de música e falar de música alentejana, implica falar da  viola campaniça
instrumento que esteve quase em extinção mas que felizmente hoje conta  com vários tocadores, alguns deles bem  jovens 

 E já que falo de música alentejana, um dos cantores (cantautor) de que mais gosto é  Vitorino de que deixo Queda do império e Leitaria Garrett


Falar de  Alentejo e de violas campaniças remeteu-me  para Manuel da Fonseca de quem deixo  os poemas  Romance do terceiro oficial de finanças e Sol do mendigo 

Romance do terceiro oficial de finanças

Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!…
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silêncios
- os meus braços no jeito de pedir

e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!…

(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito pra enfeitar os teus cabelos
quando eu ia namorar-te...)

Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada da vida!…
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!…
- Isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!…

SOL DO MENDIGO

Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o Sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o Sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...
Pela manhã acorda tonto de luz.
Vai ao povoado
e grita:
- Quem me roubou o Sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o lado,
dorme, dorme...

Termino com pintura de Armando Alves, alentejano


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Apresentação de Entre margens-Convite


 
Vivacidade -Espaço criativo
Rua Alves Redol - 364 B (entrada pelas traseiras do edifício)

domingo, 20 de outubro de 2013

Fado....

Creio que já aqui referi que não sou muito eclética relativamente à música. Gosto genericamente de quase toda a  música  geralmente referida como clássica, por vezes impropriamente, de música brasileira, essencialmente na área da bossa nova, de muita da  música dos anos 60,  de  bandas filarmónicas, de fado,  muito em particular o de Coimbra  ...

Hoje as minhas escolhas  foram precisamente para este género musical. Comecei por tocar alguns no meu cavaquinho (que toco muito  mal) e em seguida, ouvi alguns CD que possuo.

Decidi pesquisar na NET as origens deste fado e deparei com uma tese de dissertação muito interessante
 
A Guitarra Portuguesa e a Canção de Coimbra
Subsídios para o seu estudo e contextualização
LUIS PEDRO RIBEIRO CASTELA
UNIVERSIDADE DE COIMBRAFACULDADE DE LETRAS 2011

 Deixo um breve excerto, até porque o texto é longo e requer uma análise cuidada

 (...)A origem do Fado, enquanto género musical português, é de difícil localização temporal e geográfica. Muitas são as teorias, algumas baseadas em provas factuais e consequentes ilações, outras apenas da intuição desenvolvida por alguns testemunhos vivos da época que remontam ao seu aparecimento. Assim, vários nomes ligados à musicologia foram desenvolvendo várias hipóteses para o seu eventual surgimento. Alguns autores, como o caso de Teófilo Braga, referem que terá nascido a partir dos cânticos do povo muçulmano, marcadamente dolentes e melancólicos. Outras teorias, como as de Pinto de Carvalho, apontam para a origem do fado no Lundum, música dos escravos brasileiros que teria chegado até nós através dos marinheiros, por volta de 1820. Outra hipótese, defendida por autores como Barreto Mascarenhas, remonta aos tempos dos trovadores medievais, cujas canções contêm características que o Fado conserva, defendendo que as cantigas de amigo revelam semelhanças com alguns temas recorrentes do Fado de Lisboa, assim como as cantigas de amor possuem a áurea romântica do apelidado “Fado de Coimbra”,  ou ainda a crítica política e social tão típica do Fado que remonta às cantigas de escárnio e maldizer. Porém, no meu entender, todas estas hipóteses são frágeis não tendo sido apresentada uma fundamentação científica relevante para qualquer uma delas. Penso que os mitos da origem do Fado aparecem sobretudo por este ser um canto popular de carácter poético/musical, enraizado numa cultura repleta de saudosismos históricos, onde a própria origem do género é tema de alguns dos textos cantados(...).

Neste contexto o autor apresenta uma estrofe do “Fado Português” de José Régio, poema musicado por Alain Oulman e cantado por Amália


O Fado nasceu um dia,

quando o vento mal bulia

e o céu o mar prolongava,

na amurada dum veleiro,

no peito dum marinheiro

que, estando triste, cantava,

que, estando triste, cantava.

 Ai, que lindeza tamanha,

meu chão , meu monte, meu vale,

de folhas, flores, frutas de oiro,

vê se vês terras de Espanha,

areias de Portugal,

olhar ceguinho de choro.

 Na boca dum marinheiro

do frágil barco veleiro,

morrendo a canção magoada,

diz o pungir dos desejos

do lábio a queimar de beijos

que beija o ar, e mais nada,

que beija o ar, e mais nada.

 Mãe, adeus. Adeus, Maria.

Guarda bem no teu sentido

que aqui te faço uma jura:

que ou te levo à sacristia,

ou foi Deus que foi servido

dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,

quando o vento nem bulia

e o céu o mar prolongava,

à proa de outro veleiro

velava outro marinheiro

que, estando triste, cantava,

que, estando triste, cantava.

 
Regresso ao fado de Coimbra e deixo-vos com alguns fados e baladas. Tive muitas dificuldades na escolha  mas acabei por optar por Fado do Alentejo, na voz de Menano, Samaritana na voz de Luis Marinho,Trova do vento que passa , na voz de Adriano, Menina dos olhos tristes na voz de Zé Afonso e Variações em Ré menor de Artur Paredes com Carlos Paredes na guitarra.

 

Termino com o O Fado de José Malhoa  Óleo s/ tela 1910




segunda-feira, 14 de outubro de 2013

É já na próxima quinta feira...


No próximo dia 17 de Outubro de 2013 às 15,30h. O Vivacidade – Espaço Criativo, promove uma actividade fascinante que o levará – “A Bom Porto”. Embarque com Vivacidade neste Passeio de Barco no Douro

 

 

 

domingo, 13 de outubro de 2013

Sobre o Porto e não só...


Na passada 4ª Feira fui passear pela “baixa". Desloquei-me a pé, a forma preferida de me deslocar. Ao passar na Praça Carlos Alberto entrei no Palacete Viscondes de Balsemão  mas apenas estava patente ao público uma exposição de numismática. Segui para a Av. dos Aliados. Comecei por entrar na Culturgest. Como não havia nenhuma exposição, limitei-me a passar os olhos pelos livros expostos na livraria e pela belíssima cúpula interior do edifício. Ao procurar, na NET, imagens da mesma para aqui colocar deparei com este site com informações interessantes sobre o Porto. Infelizmente, sobre a dita cúpula apenas uma imagem  parcial e pobre (nº13).
Como nunca tinha visitado o espaço AXA, (quase em frente à Culturgest)inaugurado salvo erro em Abril decidi ali  entrar. Deixo um vídeo que também encontrei na NET a propósito de uma exposição ali patente O Porto visto de fora Dali segui até à FNAC (que falta sinto da Leitura no Cidade do Porto...) e regressei a casa por Sta Catarina, Marquês e Constituição.

 Ao fazer as pesquisas a que acima me referi, deparei com um blogue que tem várias imagens interessantes sobre vários locais do Porto. Aqui deixo o endereço numa página dedicada à cadeia da Relação

Na sexta feira reuni a família para jantar pois tenho cá um sobrinho meu, brasileiro, mais um  arquiteto da família,  que vai ficar por cá até ao próximo dia 20. Foi muito agradável o convívio que se repetiu ontem e se irá repetir amanhã. À semana é sempre mais complicado pois as crianças têm que se deitar cedo.

E porque falei do Porto, cidade de que o meu sobrinho também gosta muito, deixo um poema do meu 1º livro (Reflexões e interferências)

Miragem

Estou sentada no café do cais
aqui na Ribeira junto ao rio,
um passante segue pela rádio o  desafio,
e, ao meu lado, uma jovem  enlevada
olha com o olhar perdido  a outra margem,
enquanto um casal recorda uma viagem.
Os demais conversam sobre tudo.
Aqui e além  falares dispersos.
Aqueles ali creio que falam eslavo
e conversam com um ar muito sisudo
Na minha mesa está pousado um cravo
e o livro que ando a ler "Primeiros versos"[i]
Não me apetece ler, de enamorada
que fico  ao olhar  esta paisagem
mista de sonho e de realidade,
nem sei se ela existe ou se é miragem.
Do outro lado, as caves imponentes;
atravesso a ponte e já me encontro em Gaia,
na vila nova que agora  é cidade.
Vejo o Douro, os barcos rio acima
levam turistas e passam indolentes,
vejo as fachadas de granito, e bem por cima
ameaçando chuva o céu cinzento.
Um ar frio perpassa-me, é o vento
o tal a que chamam de nortada.
Regresso e  inicio  uma viagem,
entro num carro eléctrico,  na paragem
e  aí vou eu  vagueando com o olhar,
S. Francisco, S. Pedro em Miragaia,
a  Alfândega,  Massarelos , vários cais.
O eléctrico avança um pouco mais
e do outro lado já vejo o Cabedelo,
o rio encontrou o Oceano, entrou no mar.
Difusos através da bruma,
uma traineira, um navio parado,
que para entrar na barra ao largo aguarda.
enquanto o mar se agita e regurgita  espuma.
A difusão da luz torna tudo mais  belo,
mas o  meu passeio vai findar, não tarda.
O meu corpo está enregelado
e o vento desalinha-me o cabelo.
É quase noite, urge regressar
mas é difícil ter que abandonar
estas paisagens de bruma e de granito.
Não sei se  adivinhando  o meu pensar
uma gaivota solta um pio, aflito.


[i] de António Nobre